sábado, 16 de junho de 2012

A CRISE VOTA NESTE DOMINGO



Por Emir Sader.
Três eleições neste fim de semana refletem, de maneiras distintas, o mundo globalizado em crise. Votam franceses, votam egípcios, votam gregos, todos sob o impacto da crise internacional.
Na França, o segundo turno das eleições parlamentares deve consolidar a nova maioria, da aliança socialistas-verdes, com apoio da frente única de esquerda, o que deve dar uma maioria relativamente estável para o governo de Hollande. Segura a derrota da direita sarkozista, segura a consolidação da extrema direita de Le Pen, mas sem a expressão parlamentar dos seus votos, pelo sistema eleitoral francês.
Em poucas semanas Hollande se revelou mais progressista do que seu tradicional caráter moderado dentro do PS, aparecendo como contraponto à Merkel e tentando mostrar que, mesmo na situação de crise aguda, se podem reafirmar direitos sociais – como fez com a diminuição da idade de aposentadoria. Esta seria a prova concreta de que a austeridade pode se combinar com direitos sociais. Resta saber como reagirá a economia francesa e como reagirão os “mercados”, especialmente sob o pano de fundo das incertezas politicas da Grécia e as econômicas da Espanha.
Os gregos vão de novo às urnas, sob o impacto da guerra de terror que é movida contra eles. Dificilmente um partido ou um bloco de partidos terá maioria – mesmo com o bônus de 50 cadeiras ao partido mais votado -, o que pode acentuar o caráter de impasse em que se encontra o país.
O bloco ainda governante se enfraquece, mas com posições mais flexíveis – aceitando que é preciso renegociar o acordo de austeridade que eles mesmos assinaram -, terá um caudal de votos que ainda o fazem candidato a dirigir o novo governo, mas com crise aparentemente irreversível do Pasok, o tradicional Partido Socialista.
O Syriza, a maior novidade politica da Europa de hoje, uma frente de todas as tendências de esquerda discordantes da esquerda tradicional, é quem mais se fortalece, pode chegar em primeiro lugar, mas dificilmente teria aliados que lhe permitissem organizar uma maioria. Mas afirma um pólo de esquerda, antineoliberal.
No outro lado do espectro político, como sempre ocorre nas situações de profunda polarização social, surge uma extrema direita agressiva, fascista, que pretende aprofundar o desespero dos gregos e se aproveitar disso buscando bodes expiatórios, que deslocaria o centro real da crise e sus soluções.
O governo alemão, o BCE, o FMI, estão esperando mais uma situação de impasse, para intensificar suas chantagens. O Estado grego só tem recursos para pagar poucos meses de salários dos servidores, mas já suspendeu vários direitos sociais fundamentais – entre eles remédios grátis para aposentados.
Um impasse eleitoral levará a deixar que a Grécia entre diretamente numa situação de falência, de crise aberta do Estado, de caos social, para tratar de conseguir uma consulta como a feita na Irlanda. Ali, embora todos saibam que a austeridade significa mais sofrimentos, mais desemprego, mais recessão, acabaram votando a favor do pacote, diante do caos que se promete, caso não se submetessem os irlandeses.
Pode-se esperar que um impasse institucional aumente ainda mais a pressão sobre a Grécia, com ameaças ainda maiores por parte das autoridades europeias, pressionando para que o país abandone o euro – tornando-se um país pária – ou se submeta a todas as drásticas condições que querem lhes impor, que não têm servido senão para piorar a crise.
Os egípcios vão às urnas para decidir entre duas candidaturas, nenhuma delas expressão da primavera árabe. Um ex-ministro de Mubarak representa a continuidade do domínio militar sobre o país, um candidato da Irmandade Muçulmana representa a intolerância religiosa. Os dois expressam forças pré-existentes à primavera árabe. Os militares tentando se distanciar de Mubarak para dar continuidade ao regime, com maquiagens apenas. Os muçulmanos sobreviveram dentro do velho regime, como religião e como tendência conciliadora com esse regime. Provavelmente será eleito um governo fraco, sem legitimidade do país como um todo, retornando com força as forças da primavera árabe, até que estas possam constituir uma expressão política que efetivamente possa democratizar o Egito.

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