quinta-feira, 21 de outubro de 2010

ACABAR COM OS RICOS E COM OS POBRES?

Por Carlos Chagas.
Nada como uma campanha eleitoral embolada no segundo turno para despertar revelações inusitadas. Esta semana o presidente Lula, numa espécie de desabafo emocional declarou que jamais os ricos ganharam tanto dinheiro como agora, em seu governo. Insurgia-se contra meia dúzia de vaias desfechadas contra sua carreata em favor da candidatura Dilma Rousseff, ao atravessar um bairro de mansões de gente rica, em Curitiba. Dois dias depois, em Goiânia, falou a mesma coisa.
Certíssimo em seu diagnóstico, o primeiro-companheiro confirmou o que se supunha ser uma aleivosia de seus adversários. Realmente, banqueiros e especuladores, investidores, barões da industria, do comércio e dos serviços jamais foram tão favorecidos quanto no governo do PT. Basta conferir os balanços.
O singular nesse episódio é que os ricos, apesar das benesses, continuam preferindo José Serra a Dilma Rousseff. Confiam desconfiando do Lula, mas quando se trata da candidata, extravasam seus temores de forma absoluta. Temem que ela, eleita, possa retornar à pregação inicial e longínqua do partido, de acabar com a pobreza às custas da riqueza, iniciativa mais ou menos próxima das palavras do então primeiro-ministro de Portugal, Otelo Saraiva de Carvalho, em seu diálogo com Olav Palme, saudoso primeiro-ministro socialista da Suécia. Saraiva, no auge de seu delírio revolucionário, disse ao interlocutor que em Portugal estavam quase chegando ao objetivo final da revolução dos cravos: acabar com os ricos. Palme sorriu e retrucou que em seu país estavam tentando precisamente o contrário: acabar com os pobres...
A explosão do Lula exprime a perplexidade do atual momento brasileiro. Dilma promete acabar com a pobreza, ao tempo em que o seu mentor dá sinais de voltar à estratégia verbal do passado, ameaçando os ricos. Seria até bom se a troca patrimonial pudesse acontecer assim, num passe de mágica, mas ninguém garante que exterminando os ricos, a consequência será o desaparecimento dos pobres.

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