domingo, 31 de outubro de 2010

ELEIÇÕES 2010

Ódio, preconceito e revanchismo

Quando os amigos deixam de jantar com os amigos (por causa da ideologia),
é porque o país está maduro para a carnificina.” – Nelson Rodrigues
É hoje. Chega ao fim o castigo eleitoral a que fomos submetidos nos últimos meses. A frase do Nelson Rodrigues pode até soar um tanto apocalíptica, mas nessa eleição presidencial de 2010 ela não ficou muito distante da realidade. Especialmente no segundo turno, onde os dois candidatos e seus militantes (em estranha simbiose) deixaram de lado suas máscaras e mostraram quem realmente são. Não quero parecer exagerado, mas vejo essa campanha entrando para os autos como uma das piores da história, num retrocesso que nos levou de volta à sujeira de 1989… Ou bem antes, já que o aborto virou o tema central da disputa política, bispos viraram cabos eleitorais e até o papa deu seu pitaco. Algo realmente não anda bem no país — principalmente num estado que, ao se dizer “laico”, passa recibo de hipócrita.
Vejo como é decidida a maioria dos votos no Brasil através do mapa político-eleitoral. O PSDB é forte no Sul e no Sudeste porque privilegia políticas na infra-estrutura (que são as maiores demandas dessas regiões), mas é fraco em políticas sociais — logo tem alcance muito pequeno no Norte e Nordeste. Por outro lado, o PT é forte no Norte e Nordeste porque privilegia políticas sociais, mas não olha a infra-estrutura como deveria — logo, não desfruta da mesma popularidade no Sul e Sudeste. E numa democracia, cada um vota como quiser. Não se pode julgar as pessoas pela maneira como votam. Eu, por exemplo, anulei o voto nesse segundo turno. Podem gritar à vontade, mas tenho cá minhas razões para isso: primeiro, porque não acredito em “menos pior”, e segundo, porque a repulsa que sinto pelo “plebiscito” tucano-petista é letal. Agora, vejam a ironia: não tentei converter as pessoas à minha descrença, mas fui bastante patrulhado por boa parte das pessoas que já sabiam da nulidade do meu voto. Mesmo discordando, posso sinceramente compreender as razões para as pessoas preferirem Serra ou Dilma. Agora, quando vejo o vale-tudo dos candidatos se empregnando nas pessoas, é por que as duas campanhas conseguiram tirar o pior de cada eleitor brasileiro. Sentimentos dos mais abjetos — que estavam trancados no fundo do armário — foram despertados nessas eleições. Os argumentos que ouvi de ambos os “lados” são de uma fragilidade e venalidade assombrosas: “temos de tirá-los do poder, senão a democracia estará ameaçada!”, ou “não podemos deixá-los voltar ao poder, senão eles venderão todo o nosso patrimônio!”. Realmente, o período eleitoral é extremamente tóxico para os neurônios. É como se cada brasileiro fumasse sua pedra de crack e fosse participar da “festa da democracia”, impondo aos outros as suas concepções políticas a fórceps.
Às vezes não sei que país é esse. Queria muito acreditar nessa ascensão social que estamos vivendo, mas ainda vejo o velho ranço da luta de classes, onde “ricos” e “pobres” são inimigos mortais e precisam se odiar. Queria muito acreditar nesse país que se diz miscigenado, mas ainda é escancaradamente racista. Queria muito acreditar nesse país cordial e hospitaleiro, mas ainda vejo muito rancor, arrogância, mágoa e sentimento de vingança em muita gente. Enfim, queria apenas acreditar que o país fosse simplesmente verde e amarelo, mas só vejo a guerra entre “azuis” e “vermelhos”. Preconceito, ódio, revanchismo, generalizações, reducionismos e tudo o que há de pior para se construir uma nação. Estas foram as marcas das eleições de 2010 — e, não se engane, elas vão deixar cicatrizes. Continuamos simplificando questões da maior complexidade, como educação e saúde, ao mesmo passo que continuamos complicando questões banais, como o simples cumprimento das leis ou a separação entre o que é público e o que é privado. Não, esse não é o meu país. A essas alturas, a única coisa que eu gostaria de ver é que, depois dessas eleições, o Brasil se olhasse no espelho e fizesse uma autocrítica. Se conseguisse fazer isso, certamente, não iria gostar nem um pouco da imagem refletida. E isso já seria um grande passo para que em 2014 as coisas fossem diferentes.

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