terça-feira, 10 de agosto de 2010

FREI TITO

10 de agosto de 1974 – Morre Frei Tito.
Por: Alice Melo
Há exatos 36 anos morria o homem que foi o símbolo da luta pelos direitos humanos na ditadura militar: Tito de Alencar Lima, conhecido como frei Tito. Seu corpo foi encontrado enforcado no convento de L’Arbesle, nos arredores de Lyon, França. Acredita-se que tenha cometido suicídio, já enlouquecido pelo trauma de ter passado 14 meses nos porões da ditadura militar. A tragédia que tirou a vida do frei acontecera na noite do dia dez de agosto, quando a repressão da qual ele foi vítima ainda continuava a prender, torturar e assassinar no Brasil.
Em 1969, Tito cursava Filosofia na Universidade de São Paulo e já tinha em seu currículo um histórico de militância: fora dirigente regional e nacional da Juventude Estudantil Católica, um dos movimentos de vanguarda da militância cristã da época. Na madrugada do dia 3 para o dia 4 de novembro, Tito foi preso junto com outros dominicanos no convento em que morava pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, seu primeiro torturador.
Entre os presos estava Frei Betto, suspeito de participar de um esquema comandado pelo líder da Aliança Libertadora Nacional (ALN), que pregava a luta armada. Começava, assim, o martírio de frei Tito e dos seus irmãos. Como instrumento de intriga, os agentes da repressão espalharam a história que os dominicanos traíram os participantes da ALN, sendo este mal entendido esclarecido apenas em 1982, com a publicação do livro Batismo de Sangue, escrito por frei Betto.
Nos porões da ditadura.
Frei Tito foi detido, interrogado e torturado. Durante 30 dias permaneceu nas masmorras do DOPS de São Paulo, sendo transferido posteriormente para o Presídio Tiradentes. O frade dominicano passou pelo pau-de-arara, sentou na cadeira do dragão e recebeu choques elétricos na cabeça, nos ouvidos e nos tendões do pé. Apesar da intensa tortura que sofrera, frei Tito nunca falou. “É preferível morrer do que perder a vida”, anotou em sua Bíblia, depois que um de seus torturadores avisou que, se não falasse, seria quebrado por dentro.
Em 1970, sob custódia da “Operação Bandeirantes”, frei Tito escreveu sobre a sua tortura num documento que rodou o mundo, tornando-se um dos símbolos da luta pelos direitos humanos na ditadura. Quando foi solto, em dezembro do mesmo ano, pediu exílio no Chile, de onde seguiu para Itália e França. As feridas de seu corpo cicatrizaram, mas as torturas deixaram marcas incuráveis em sua alma. Era constantemente atormentado pelos fantasmas do passado. Fez terapia, mas de nada adiantou: seus traumas eram demasiadamente profundos. Enlouquecido, sozinho, atormentado, Tito morreu sob a copa de um álamo.
Se minha alma está morta, quem a ressuscitará?”, escrevera ele pouco antes de morrer.

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