quarta-feira, 11 de agosto de 2010

MI BUENOS GAYRES QUERIDOS

O fim do JB e nosso Buena Vista, Fredgol e os "Manjas".
Por Lúcio de Castro.
O jornalismo também tem seus momentos “Tropa de Elite”. Se missão dada é missão cumprida, pauta recebida é pauta feita. É do jogo. Mas tenho a velha mania de preferir fazer as coisas por e com prazer. Então algumas pautas na profissão são estiva pesada, suor puro. Outras são como uma benção, presente que inunda seu cotidiano. Nos últimos dias cai com uma dessas. Movido pela tragédia que é o fim do Jornal do Brasil em sua versão impressa (ou seja, o seu fim), acabei diante de um presente. Contar um pouco dessa história, ouvir os personagens daquele grande JB, que, se me permite o poeta, é agora apenas uma foto na parede.
Cada entrevista é uma aula. No olhar de cada entrevistado, a certeza de que combateram o bom combate, com dignidade. Apesar de todos os pesares, de todos e tantos que ficaram no caminho, de todos os tropeços, de todos os preços que pagaram na vida para deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz. Olham para trás e podem se orgulhar do que fizeram: história. Tenho tido dias intensos por isso, um turbilhão de sentimentos, emoções e saudades de um tempo que não vivi. Quer dizer, pelo menos em plenitude...Invariavelmente, os depoimentos tem sido marcados por grande emoção. Em alguns momentos me lembrei do Buena Vista, aqueles guardiões da história perpetuando suas memórias. Pretensiosamente, em alguns momentos chego a achar que estou fazendo algo pra ser guardado. Não por mim, claro, mas por tudo que está sendo gravado. Alguns depoimentos colhidos, histórias ouvidas, e me lembro também de Roberto Retamar, historiador cubano, contemporâneo do Che. Assim definiu o companheiro: Pois é exatamente assim que tenho saído de cada gravação. Quando penso em tantas coisas desse ofício nos dias de hoje, a banalidade, a leviandade, a falta de caráter, e escuto aquelas histórias de resistência, de coragem, nada mais me ocorre além de Roberto Retamar, que tive a honra de conhecer um dia.
“...É o nosso orgulho e nossa vergonha-porque nos lembra a todo instante o que pode ser um homem e o que somos os homens”.
É claro que existem as exceções de sempre e as coisas boas sendo produzidas por aí. Mas é impossível não pensar em Retamar quando escuto aquelas histórias e penso na leviandade de nossos dias que vai se transformando em regra por aí. Aquilo que um dia chamei aqui de “Jornalismo-Manja”. Daqueles se
dedicam a fuxicar nas paginas de esporte a vida alheia e privada como se fosse uma página de revista de fofocas, tão abomináveis quanto. Com, logo veremos adiante, alguns dos mais sórdidos argumentos, travestidos em pretensas normas de jornalismo independente e até destemido!
Em março, no começo dessa trincheirinha aqui, expressei meus pontos de vista sobre o assunto lamentando o que ia acontecendo com Adriano e os “manjas”. Está tudo lá. Nunca consegui entender porque sobre Adriano podia se publicar algo da esfera privada, sem qualquer prova, e não se fazia o mesmo com políticos famosos por suas festas de arromba e hábitos pouco ortodoxos. Se é possível publicar algo sobre uma festa privada do sujeito, por que não do outro? E sobre cartolas habitues de festinhas e embalos, cartolas com histórico de violência contra a mulher? Claro que não se pode quando não existem provas, mas a do Adriano podia...Hipocrisia, muitas vezes canalhice de gente que passou a vida fazendo jornalismo chapa branca e se arvora em ser arauto da moralidade.
Os argumentos que geralmente se seguem, tão enfadonhos, repetitivos e débeis são sempre os mesmos. Sob a capa de um jornalismo combatente e destemido, seguem aberrações. E mesmo algumas pessoas de bem, que me são tão caras, acabam embarcando. Porque não é admissível alguém justificar que “quando afeta a vida de atleta pode-se falar no privado, no que esse atleta faz”. Com a velha ressalva que sempre fiz, tirando quando ganha um selo público, seja registro policial ou coisa que o valha, não é admissível. Porque seja lá fruto do que for, ninguém tem direito de dizer que fulano não foi treinar por isso ou aquilo da vida privada se não tiver esse selo que a torna pública. Tem sim o direito e dever de mil vezes dizer que o sujeito não foi ao treino, de que não corre, de que atrasou. E ponto. O que aconteceu para isso não diz respeito a ninguém, salvo...
No fundo está mesmo a vergonha de si mesmo que esse tipo de jornalista-manja tem. Ter que olhar no espelho e se admitir um “manja”. Então, para facilitar, inventa que o faz porque “quando afeta o rendimento se justifica”. Tem direito sim. De dizer que está pior porque não treinou, atrasou. E ponto.
Existe ainda outra armadilha que gente do bem cai. Usada por outros por pura sordidez. A tal história de dizer que “parte dos rendimentos do atleta vem de direitos de imagem, e que por isso tem que ter a imagem...”.
Ora, a imagem deve render dividendos é a do sujeito em ação no seu trabalho. Fazendo gol, ponto, cesta, nadando...È essa que deve ser vendida. É como se eu fosse comprar um carro porque o Schumacher recomenda. A imagem que tem que me interessar se eu quiser comprar um carro que ele aconselha é a do piloto excepcional. Se eu quiser ir além disso, corro o risco de me ferrar. Portanto, não se pode falar em imagem além da do desempenho público do atleta, que afinal, é a que interessa mesmo. O que eles fazem na vida privada não me interessa. Gosto de Pelé demais pelo que ele foi como jogador. Compraria um rejuvenescedor indicado por ele porque faz sentido, olhando para ele, para a imagem que me interessa dele. Ou uma chuteira pelos gols que fez. Não necessariamente por suas posições e pela imagem de pai de família. A imagem que interessa de Pelé e rende a ele é a do atleta inigualável, e não a do pai de família.
Chegou-se a sordidez de se comparar o Caso Bruno com qualquer outro para justificar que se deve manjar. Ora, o caso Bruno, comprovado, é o que foge a qualquer comportamento padrão, em qualquer profissão. Aquilo que a sociologia batizou de “deviant”. E que nada tem a ver com qualquer outro.
Na época de Adriano, a hipocrisia era tão grande que pedi socorro ao Mestre e amigo Eduardo Galeano. Que me mandou alguns comentários, entre eles: “Os puritanos que os vigiam e os condenam são, em geral, medíocres cujo desafio mais audacioso, sua mais perigosa proeza, consiste em cruzar a rua com luz vermelha, alguma vez na vida, e isso tem muito a ver com a inveja que provoca o êxito alheio”. Lembrei de alguns desses manjas, tão exatos nessa definição!
Foram-se Adriano, Vagner Love...A fome manja segue insaciável. Precisavam arrumar outro para olhar pela fechadura. Com os mesmos argumentos. Agora é Fred, atacante do Fluminense. Mesmo lá, em 8 de março, eu cheguei a citar a manjada ridícula que deram em Fred por estar supostamente surfando. Agora é porque está na noite. E mais uma vez dirão que está justificado porque “afeta o desempenho”, porque “parte dos vencimentos vem da imagem”, etc. Mentira. Por trás, está uma incomparável falta de caráter e pudor. Mentiras esfarrapadas que não se sustentam.
Por sorte, ainda tenho alguns daquele Buena Vista para entrevistar. Sobreviventes de um tempo que os poderosos eram desafiados com o censor sentado na redação. Vai lavando a alma e dando para esquecer a sentença de Retamar, adaptada aqui para “o que pode ser um jornalista e o que somos os jornalistas” hoje. Mas que ninguém seja bobo de limitar a questão a crucificação só de uma classe. Ela só reflete uma sociedade que deixou 68 e aquele Jornal do Brasil para trás. Ainda falaremos aqui do JB que se vai. Oxalá fique o legado de algumas gerações que combateram o bom combate não para que brotassem “manjas” por todos os lados.

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