terça-feira, 24 de agosto de 2010

O OUTRO DOUTOR GETÚLIO

Reinaldo Paes Barreto, Jornal do Brasil
Muito já se escreveu sobre a existência produtiva desse homem que foi célebre, em vida, durante quase 30 anos – e, depois de morto, muitas vezes inverte o fecho da carta-testamento e sai da História para voltar à vida emocional do Brasil, como ocorre pelo menos a cada 24 de agosto.
No atestado de óbito, assinado pelo doutor Aloysio Francisco Spínola e Castro, está escrito que a causa mortis deveu-se a ferimento penetrante da região pré-cordial por projétil de arma de fogo, com lesões dos órgãos torácicos e hemorragia interna.
Conheci e convivi por um tempo com o Lutero Vargas, filho mais velho do presidente, médico e cirurgião-chefe do Centro Médico-Pedagógico Oswaldo Cruz, por circunstâncias de família: meu pai era um velho diplomata e Lutero foi algumas vezes à nossa casa “se inteirar de certas praxes do Itamaraty”, antes de assumir o posto de nosso embaixador em Honduras. Conversador inesgotável, contou-nos um episódio revelador dos últimos dias do Getulio. Segundo ele – e isso era motivo de emoção e grande arrependimento – o Getulio teria lhe perguntado dias antes de se matar: “Meu filho, quero saber de ti, que és médico, uma coisa que nunca soube ao certo: exatamente onde fica o coração?”. E ele (sem atinar para as consequências), respondeu instintivamente: “Três dedos abaixo do mamilo esquerdo”.
8h05 do dia 24 de agosto de 1954 – Palácio do Catete. Contra seu costume, o presidente sai do quarto de pijama e desce até seu gabinete de trabalho: 8h15.
8h15. Como fazia todas as manhãs, o barbeiro Barbosa entra no quarto de Getulio. O presidente o dispensa. Diz que quer ficar sozinho para tentar dormir. Lutero descansa em um sofá, na antessala do quarto do pai.
8h30. O presidente senta na cama, põe o revólver na posição precisamente indicada pelo filho, e puxa o gatilho. O tiro acorda Lutero, que é o primeiro a entrar no quarto. Em seguida chegam dona Darcy, o médico Flávio Miguez de Mello e Alzira. Getulio está com meio corpo para fora da cama, agonizante.
8h35. A arma ficou sobre a cama e, na mesinha de cabeceira, a carta-testamento. Ele morreria ainda deitado, em minutos.
Se Getulio não tivesse sido um gaúcho de carne e osso, poderia – lindamente – ter sido um personagem fabuloso de García Márquez Ou de Érico Veríssimo, que aliás o menciona várias vezes no Tempo e o vento (Arquipélago). Porque foi um feixe de complexidades: ora dramático, com momentos patéticos; ora pessoal e quase ascético, era mais orgulhoso do que vaidoso. Embora os fotógrafos tivessem ordens para retratá-lo sempre de baixo para cima (para disfarçar a sua estatura de 1,60m) e em viagens, por exemplo, sempre levasse uma maleta com cremes, saboneteira, loção de barba, lavanda estrangeira e meias de seda. E fez do inseparável charuto uma de suas marcas registradas. Era a consciência do personagem que se revezava com o solitário de São Borja; este de bombacha. O outro, de faixa presidencial no peito. E no retrato pendurado em todas as repartições do Brasil. (Bota o retrato do velho outra vez/ Bota no mesmo lugar).
Mas sua paixão (Virgínia Lane à parte) era a política. Tanto a grande política como a outra, feita de cartas na manga, sinucas de bico, tacadas de mestre. Stefan Zweig dizia que ele fazia política de esquerda, com a mão direita.
Amou o Brasil a seu modo. E foi amado por multidões: foi o primeiro presidente a dar gargalhada em público, vestir-se de branco num Brasil até então europeizado, falar no rádio constantemente. E viver sobriamente a liturgia do poder. Poucas viagens ao exterior, nada de mordomias pessoais e um fim de vida praticamente sozinho. Malgrado o afeto dos familiares, a filha Alzira sobretudo, tão querida e tão presente (e a neta Celina, “paixão” do avô), o homem Getulio impressiona pela singeleza de seus hábitos: os móveis do seu quarto no Catete são de uma “pobreza franciscana”; suas noites eram de leitura, de papo com um ou outro velho amigo, às vezes partidas de paciência, bastante insônia e um vago espiritismo, que já o preparava para sair da vida e entrar na História.
E pensar que da sua caneta saíram embaixadores que viveram em palácios, empresários brasileiros com muito dinheiro e muito fausto, políticos que usaram o seu nome não para “quando a fome bater à sua porta” – mas para saciá-la em restaurantes do eixo Helena Rubinstein – e dezenas, milhares de funcionários públicos que hoje, provavelmente aposentados, têm saudades do “sorriso do velhinho, faz a gente trabalhar”.
Foi um brasileiro excepcional.

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