sexta-feira, 18 de junho de 2010

HINOS SANGRENTOS

PASQUALE CIPRO NETO.
Vi no estádio os dois jogos da África do Sul, e as vuvuzelas se calaram na hora do hino rival.
OS TIMES entram e perfilam-se. É hora dos hinos. Quanto sangue, meu Deus! Quanta morte!
Nas letras dos muitos hinos que conheço, é sangue e morte pra todo lado. Sim, eu sei, em geral os hinos vêm de um tempo de batalhas sangrentas, muitas delas pela independência ou manutenção da soberania, mas... Mas o tempo não passou, as coisas não se resolveram etc? Por que será que, ainda assim, letra de hino nacional é tudo a mesma ladainha (sangue, morrer pela pátria etc.)?
O hino da França fala em armas ("Aux armes, citoyens / Formez vos bataillons": "Às armas, cidadãos / Formai vossos batalhões"). O de Portugal fala em armas ("Às armas, às armas! / Sobre a terra, sobre o mar, / Às armas, às armas! / Pela Pátria lutar / Contra os canhões marchar, marchar!). O da Itália? Fala em morte ("Siam pronti alla morte / L'Italia chiamò": "Estamos prontos para a morte / A Itália chamou"). Quanta bobagem, meu Deus!
Morrer pela pátria? O que é isso? Como assim? Você deixaria marido/mulher, filhos, pais, irmãos, namorado/a, para "morrer pela pátria"? Em nome de quê? Pergunte a uma mãe que tenha perdido um filho numa guerra o que ela acha dessa bobageira. Não seria melhor viver pela e para a pátria, no sentido mais amplo e nobre dessas expressões?
Pois bem. Talvez justamente por saberem que as letras dos hinos exageram e quase sempre remetem a um tempo que já foi (será?), as pessoas cantam seus hinos nacionais sem prestar muita atenção na letra ou sem levá-la a ferro e fogo. E aí a coisa até que fica bonita.
Por mais bélica que seja a letra, é comovente o espetáculo da execução do hino (de qualquer país). Pois chegamos ao xis do problema: o respeito ao próximo, ao direito do outro. Nos estádios sul-americanos, vê-se o subdesenvolvido espetáculo da vaia ao hino do rival. O absurdo é tal que nas eliminatórias sul-americanas só se toca o hino local.
Vi no estádio os dois jogos da África do Sul. Nos dois, as horrendas vuvuzelas se calaram na hora do hino do adversário. Silêncio absoluto e, no fim, aplausos (sim, aplausos). Digno, emocionante!
Depois do jogo contra a África do Sul, o treinador do Uruguai (Oscar Tabárez, chamado de "El Maestro" -Tabárez foi professor) se dirigiu ao normalmente educado povo uruguaio para ressaltar o belíssimo exemplo dado pela torcida sul-africana. "Não temos isso no nosso continente", disse Tabárez, um cavalheiro. É isso.

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