Editorial, Jornal do Brasil
Começa hoje oficialmente a campanha para as eleições de outubro. É o dia de candidatos e partidos colocarem seu bloco na rua. Haverá muita propaganda, muitas promessas, o eleitor será cortejado e, em caso de distração, manipulado, induzido ao erro. É hora de as atenções – nas últimas semanas intensa e coletivamente canalizadas para a Copa do Mundo – se voltarem para um assunto tão polêmico quanto o futebol, porém mais denso, complexo e com consequências mais diretas à vida do cidadão: a política.
Se o futebol brasileiro é tradicionalmente um dos melhores do mundo, a política brasileira é das mais competitivas. Muitos partidos, voto nominal, alto número de cadeiras em disputa em cada distrito (o que resulta numa enorme quantidade de candidatos), legendas que são mais ou menos fortes dependendo da unidade da Federação, enfim, o cenário no Brasil conspira para que a disputa corresponda à origem da palavra campanha: quando as hostes de uma guerra vão para o campo de batalha.
Muito já se disse que o esporte de modo geral seria uma forma de sublimar os instintos de violência. Mas nenhuma atividade é tão diretamente ligada à contenção destes impulsos do que a política. Foi a forma que o homem civilizado encontrou para pôr fim ao estado de natureza hobbesiano, da luta de todos contra todos. Já as eleições foram o método, a tecnologia política, conquistada, ao longo dos séculos, para substituir a soberania (sobre o conflito) mono ou aristocrática pela participação popular.
É esse direito – e também um dever – que os cidadãos são levados a exercer durante as eleições. É verdade que uma parte substancial do voto diz respeito aos diferentes interesses e opiniões dos indivíduos, que são agregados para atender a dois princípios básicos: o da representatividade e o da governabilidade. Mas até para quem tem interesses muito bem definidos é preciso que o voto seja resultado de uma boa escolha. Para que seu julgamento seja facilitado, o cidadão precisa de instituições (família, escola, associações, partidos) que lhe sirvam de atalhos e o situem no mundo da política.
Do mesmo modo que um torcedor escolhe seu time na infância, o cidadão também é, desde muito cedo, influenciado por um campo de valores políticos e morais. A diferença é que o eleitor não apenas torce. É o técnico da sua própria seleção. Para isso, necessita de informação, saber como convocar e escalar. Deve conhecer o passado do político indisciplinado, que já cometeu muitas faltas, que é acusado de um crime de grande repercussão.
Eliminar da lista aqueles flagrantemente não merecedores do voto de confiança do eleitor é um avanço animador da Lei da Ficha Limpa, a grande novidade, que passa a vigorar a partir deste pleito. 2010 pode ser um divisor de águas na democracia brasileira. Mas como o Brasil, além do futebol, é o país das leis que pegam e que não pegam, é preciso ficar atento e marcar em cima.
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