Por Ademir Luiz, Revista Bula
O recém-lançado documentário “Senna”, de Asif Kapadia, mostra um homem obstinado em alcançar a perfeição, mas não esconde que o piloto de gênio era também uma pessoal banal, desleal, desinteressada por cultura e dono de uma infindável coleção de superficiais frases de efeito, proferidas com a solenidade de quem fala verdades filosóficas definitivas.
O recém-lançado documentário “Senna”, de Asif Kapadia, mostra um homem obstinado em alcançar a perfeição, mas não esconde que o piloto de gênio era também uma pessoal banal, desleal, desinteressada por cultura e dono de uma infindável coleção de superficiais frases de efeito, proferidas com a solenidade de quem fala verdades filosóficas definitivas.
Fui assistir o recém-lançado documentário inglês “Senna”, de Asif Kapadia, temendo pelo pior. Esperava uma patriotada melodramática, acrítica e laudatória, como a média dos produtos ligados à marca. O cartaz de divulgação era temerário: abaixo do título lemos “o Brasileiro, o Herói, o Campeão”. Prognosticava um “Globo Repórter” em película. O fato de ser um longa-metragem sobre um piloto brasileiro, dirigido por um pouco experiente cineasta britânico de origem indiana, que a-dmitiu conhecer pouco de Fórmula 1, não ajudava.
Para minha grata surpresa, o documentário é muito bom. A edição criativa utiliza apenas material de arquivo. Evitou-se o caminho fácil da inclusão daqueles muitas vezes anacrônicos depoimentos ao estilo “eu me lembro”. A trilha sonora, a cargo de Antonio Pinto, é um dos pontos altos da produção. Conduz brilhantemente o espectador pelas cenas, construindo climas, alternando-se de forma eloquente com o ronco dos motores. Para decepção de muitos fãs, o maestro teve o cuidado de não utilizar o “Tema da Vitória”. Foi uma boa ideia, considerando sua vulgarização pela TV. Ademais, sendo uma produção internacional, não fazia sentido incluir uma idiossincrasia conhecida apenas no Brasil.
O filme, sim, é apologético, mas nada exagerado. Louva seu protagonista sem endeusá-lo. Mostra um homem multifacetado, consciente do papel que desempenhava no imaginário mundial e, particularmente, brasileiro. Um atleta obstinado em alcançar a perfeição em seu esporte. Ambicioso, procurava aperfeiçoar-se sempre e quebrar recordes. Sua disciplina era espartana. Muito cuidadoso no trato com a imprensa, soube construir de forma meticulosa uma imagem pública de bom-moço, de homem de família. Sua religiosidade genuína sempre foi destacada. Ao mesmo tempo, o longa revela aspectos obscuros de sua personalidade: o quanto era orgulhoso, fanatizado e irritadiço. Não esconde que o piloto de gênio era também uma pessoal banal, desinteressada por cultura, dono de uma infindável coleção de superficiais frases de efeito, proferidas com a solenidade de quem fala verdades filosóficas definitivas. Curiosamente, essa face de homem comum falando para homens comuns aquilo que eles querem ouvir, sempre foi um dos alicerces de sua popularidade. Com habilidade, sem apelar para excessos de verborragia, deixando as imagens falar mais alto do que as palavras, Kapadia conseguiu tirar proveito desse lado “autor de autoajuda” de Senna, promovendo a identificação emocional imediata entre o espectador comum e seu protagonista.
Inteligentemente, o documentário evita tocar, ou aprofundar-se, em temas escorregadios. A sexualidade do piloto é um deles. Seu primeiro casamento é ignorado, assim como seu tão falado “amigo” de infância. Nesse vácuo ganha destaque seus dois relacionamentos mais famosos, com a apresentadora Xuxa e com a modelo Adriane Galisteu. Apesar da presença de imagens captadas por câmeras caseiras, o Senna público prevalece sobre o privado.
Da mesma forma, o filme não polemiza sobre a veracidade de algumas lendas sennianas, como o “milagre da sexta marcha”, na qual o piloto teria vencido o GP Brasil de 1991 com a caixa de câmbio emperrada na sexta marcha. Mesmo mostrando que ao final da corrida o piloto desacelerou o carro, quase o parando, para pegar de um fiscal de pista uma bandeira brasileira, voltando a acelerar em seguida, atestando que ele tinha marchas fortes, o diretor não interfere na flagrante dicotomia entre imagem e locução. Deixa para o espectador tirar suas próprias conclusões, acreditar ou não na lenda. Ou talvez, como estava mergulhado na cultura brasileira, Kapadia emulou Nelson Rodrigues na conclusão de que, simplesmente, “o videotape é burro”.
Os mais cínicos poderiam defender que o documentário blinda Senna de julgamentos de valor, colocando-o acima do bem e do mal. Isenta-se de discutir se seu controverso estilo de direção era perigoso, suicida ou apenas arrojado. Não coloca em questão os episódios onde reagiu de maneira antidesportiva. Não problematiza, digamos, se sua atitude de garantir o campeonato de 1990 batendo na Ferrari de Alain Prost foi ou não tão repreensível quanto à mesmíssima agressão que sofreu do francês no ano anterior. Tudo isso é verdade, mas acredito que, consciente das expectativas de seu público, o diretor inglês trabalhou essa cena em seu aspecto puramente cinematográfico: trata-se da justa vingança do protagonista da trama que se desenrola na tela. Nada mais. Pura questão de ação e reação imagética. Mais do que biografia, é cinema.
Nada disso desqualifica o filme. Não são erros, são opções estéticas conscientes. Não se trata de uma cinebiografia não autorizada, interessada em desencavar revelações bombásticas. Não se trata de um tratado fílmico erudito sobre automobilismo, como o ótimo “A Era dos Campeões”. É, ao contrário, uma celebração. Considerando sua proposta básica, “Senna” é um documentário honesto e empolgante. Acredito que muitas de suas qualidades advêm do que inicialmente parecia ser um problema: seu diretor britânico de origem indiana pouco afeito à F-1. É bem possível que um cineasta brasileiro não tivesse o distanciamento político e emocional necessário para trabalhar o tema. Teria feito a patriotada melodramática, acrítica e laudatória que eu tanto temia. De posse do vasto material de arquivo que teve à sua disposição, Kapadia tratou Senna como um personagem com imenso potencial dramático e emocional, não como um mito intocável ou herói invencível.
Infelizmente, como era de se esperar, o filme foi vendido dessa forma no Brasil. Além do apelativo e ufanista slogan publicitário “o Brasileiro, o Herói, o Campeão”, lia-se acima do título uma frase do tricampeãode F-1 Niki Lauda, aparentemente pronunciada por ocasião do enterro de Senna, em maio de 1994: “Ele foi o melhor piloto que já existiu”. Contudo, Lauda mudou de ideia, considerando que anos depois afirmou que “por tudo que conquistou ao longo dos anos e por ter ficado mais tempo no topo é justo que Michael Schumacher seja considerado o melhor”. No melhor estilo “1984”, de Orwell, há aqui a reescritura da História: o esquecimento em prol da sacralização de uma versão mais conveniente ao mercado. Nesse cenário, lembrar que o “Tema da Vitória” foi composto para Nelson Piquet soa de péssimo tom. Além de herói e campeão, enquanto produto, Senna é mais rentável sendo vendido como o melhor de todos os tempos. Para boa parte dos sennistas brasileiros, principal público-alvo do filme, nada menos parece servir.
Os admiradores de Senna dividem-se em dois tipos básicos: os conscientes e os fanáticos, também conhecidos como “viúvas”. Os primeiros apreciam mais o automobilismo do que idolatram Senna. Costumam ser pessoas centradas e racionais. Sabem que Senna foi um gênio do volante, não era um semideus infalível. Os outros parecem acreditar que a principal razão da existência da F-1 foi fazer o Piloto do Capacete Amarelo brilhar. Lamentavelmente, o primeiro grupo é sufocado pelo segundo.
Brasileiro faz piada com tudo: das asas de frango nos bolsos de D. João VI ao avião que não voava de Santos Dumont, passando pelos travestis de Ronaldo até a surra que Maguila levou de Holyfield. Nada é sagrado. A grande e, talvez, única exceção é Senna, que foi elevado a condição de santo secular por várias gerações de fãs. É comum encontrar crianças que nunca o viram correr afirmando que Senna é seu ídolo, seu espelho, etc. Essa deificação de um
Para minha grata surpresa, o documentário é muito bom. A edição criativa utiliza apenas material de arquivo. Evitou-se o caminho fácil da inclusão daqueles muitas vezes anacrônicos depoimentos ao estilo “eu me lembro”. A trilha sonora, a cargo de Antonio Pinto, é um dos pontos altos da produção. Conduz brilhantemente o espectador pelas cenas, construindo climas, alternando-se de forma eloquente com o ronco dos motores. Para decepção de muitos fãs, o maestro teve o cuidado de não utilizar o “Tema da Vitória”. Foi uma boa ideia, considerando sua vulgarização pela TV. Ademais, sendo uma produção internacional, não fazia sentido incluir uma idiossincrasia conhecida apenas no Brasil.
O filme, sim, é apologético, mas nada exagerado. Louva seu protagonista sem endeusá-lo. Mostra um homem multifacetado, consciente do papel que desempenhava no imaginário mundial e, particularmente, brasileiro. Um atleta obstinado em alcançar a perfeição em seu esporte. Ambicioso, procurava aperfeiçoar-se sempre e quebrar recordes. Sua disciplina era espartana. Muito cuidadoso no trato com a imprensa, soube construir de forma meticulosa uma imagem pública de bom-moço, de homem de família. Sua religiosidade genuína sempre foi destacada. Ao mesmo tempo, o longa revela aspectos obscuros de sua personalidade: o quanto era orgulhoso, fanatizado e irritadiço. Não esconde que o piloto de gênio era também uma pessoal banal, desinteressada por cultura, dono de uma infindável coleção de superficiais frases de efeito, proferidas com a solenidade de quem fala verdades filosóficas definitivas. Curiosamente, essa face de homem comum falando para homens comuns aquilo que eles querem ouvir, sempre foi um dos alicerces de sua popularidade. Com habilidade, sem apelar para excessos de verborragia, deixando as imagens falar mais alto do que as palavras, Kapadia conseguiu tirar proveito desse lado “autor de autoajuda” de Senna, promovendo a identificação emocional imediata entre o espectador comum e seu protagonista.
Inteligentemente, o documentário evita tocar, ou aprofundar-se, em temas escorregadios. A sexualidade do piloto é um deles. Seu primeiro casamento é ignorado, assim como seu tão falado “amigo” de infância. Nesse vácuo ganha destaque seus dois relacionamentos mais famosos, com a apresentadora Xuxa e com a modelo Adriane Galisteu. Apesar da presença de imagens captadas por câmeras caseiras, o Senna público prevalece sobre o privado.
Da mesma forma, o filme não polemiza sobre a veracidade de algumas lendas sennianas, como o “milagre da sexta marcha”, na qual o piloto teria vencido o GP Brasil de 1991 com a caixa de câmbio emperrada na sexta marcha. Mesmo mostrando que ao final da corrida o piloto desacelerou o carro, quase o parando, para pegar de um fiscal de pista uma bandeira brasileira, voltando a acelerar em seguida, atestando que ele tinha marchas fortes, o diretor não interfere na flagrante dicotomia entre imagem e locução. Deixa para o espectador tirar suas próprias conclusões, acreditar ou não na lenda. Ou talvez, como estava mergulhado na cultura brasileira, Kapadia emulou Nelson Rodrigues na conclusão de que, simplesmente, “o videotape é burro”.
Os mais cínicos poderiam defender que o documentário blinda Senna de julgamentos de valor, colocando-o acima do bem e do mal. Isenta-se de discutir se seu controverso estilo de direção era perigoso, suicida ou apenas arrojado. Não coloca em questão os episódios onde reagiu de maneira antidesportiva. Não problematiza, digamos, se sua atitude de garantir o campeonato de 1990 batendo na Ferrari de Alain Prost foi ou não tão repreensível quanto à mesmíssima agressão que sofreu do francês no ano anterior. Tudo isso é verdade, mas acredito que, consciente das expectativas de seu público, o diretor inglês trabalhou essa cena em seu aspecto puramente cinematográfico: trata-se da justa vingança do protagonista da trama que se desenrola na tela. Nada mais. Pura questão de ação e reação imagética. Mais do que biografia, é cinema.
Nada disso desqualifica o filme. Não são erros, são opções estéticas conscientes. Não se trata de uma cinebiografia não autorizada, interessada em desencavar revelações bombásticas. Não se trata de um tratado fílmico erudito sobre automobilismo, como o ótimo “A Era dos Campeões”. É, ao contrário, uma celebração. Considerando sua proposta básica, “Senna” é um documentário honesto e empolgante. Acredito que muitas de suas qualidades advêm do que inicialmente parecia ser um problema: seu diretor britânico de origem indiana pouco afeito à F-1. É bem possível que um cineasta brasileiro não tivesse o distanciamento político e emocional necessário para trabalhar o tema. Teria feito a patriotada melodramática, acrítica e laudatória que eu tanto temia. De posse do vasto material de arquivo que teve à sua disposição, Kapadia tratou Senna como um personagem com imenso potencial dramático e emocional, não como um mito intocável ou herói invencível.
Infelizmente, como era de se esperar, o filme foi vendido dessa forma no Brasil. Além do apelativo e ufanista slogan publicitário “o Brasileiro, o Herói, o Campeão”, lia-se acima do título uma frase do tricampeãode F-1 Niki Lauda, aparentemente pronunciada por ocasião do enterro de Senna, em maio de 1994: “Ele foi o melhor piloto que já existiu”. Contudo, Lauda mudou de ideia, considerando que anos depois afirmou que “por tudo que conquistou ao longo dos anos e por ter ficado mais tempo no topo é justo que Michael Schumacher seja considerado o melhor”. No melhor estilo “1984”, de Orwell, há aqui a reescritura da História: o esquecimento em prol da sacralização de uma versão mais conveniente ao mercado. Nesse cenário, lembrar que o “Tema da Vitória” foi composto para Nelson Piquet soa de péssimo tom. Além de herói e campeão, enquanto produto, Senna é mais rentável sendo vendido como o melhor de todos os tempos. Para boa parte dos sennistas brasileiros, principal público-alvo do filme, nada menos parece servir.
Os admiradores de Senna dividem-se em dois tipos básicos: os conscientes e os fanáticos, também conhecidos como “viúvas”. Os primeiros apreciam mais o automobilismo do que idolatram Senna. Costumam ser pessoas centradas e racionais. Sabem que Senna foi um gênio do volante, não era um semideus infalível. Os outros parecem acreditar que a principal razão da existência da F-1 foi fazer o Piloto do Capacete Amarelo brilhar. Lamentavelmente, o primeiro grupo é sufocado pelo segundo.
Brasileiro faz piada com tudo: das asas de frango nos bolsos de D. João VI ao avião que não voava de Santos Dumont, passando pelos travestis de Ronaldo até a surra que Maguila levou de Holyfield. Nada é sagrado. A grande e, talvez, única exceção é Senna, que foi elevado a condição de santo secular por várias gerações de fãs. É comum encontrar crianças que nunca o viram correr afirmando que Senna é seu ídolo, seu espelho, etc. Essa deificação de um