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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

DEVEM OS RICOS PAGAR MAIS IMPOSTO/

Por Eliakim Araújo, do Blog Direto da Redação.
O velhinho da foto é Warren Buffett, que vai completar 81 anos no próximo dia 30 de agosto. Chamá-lo de bilionário é pouco. Ele é um multi-bilionário investidor americano, dono absoluto de não sei quantas empresas e acionista de outras tantas, que está entre as três maiores fortunas dos Estados Unidos.
No início da semana, o NY Times publicou um poderoso artigo de Buffett que até hoje está dando o que falar. Simplesmente porque, em poucas palavras, ele disse ao governo: “eu e meus colegas bilionários não estamos pagando impostos suficientes, aumente nossa carga tributária”.
Pela originalidade da proposta - um rico reclamando que paga pouco em impostos - e pela repercussão alcançada, julgo oportuno trazer o assunto à consideração dos leitores, comentando alguns trechos do artigo.
Buffett começa lembrando os desvalidos das guerras interna e externa em que o país está metido e os compara com os favores que os ricos recebem do governo:
Enquanto os pobres e a classe média lutam por nós no Afeganistão e a maioria dos americanos luta para sobreviver, temos mega-ricos que continuam a ganhar incentivos fiscais extraordinários. Alguns de nós, gestores de investimentos, ganhamos bilhões em nosso trabalho diário, mas temos permissão para classificar nossos ganhos como "participação nos resultados", conseguindo assim uma pechincha de imposto de 15%. Outros possuem índices no mercado de bolsas por 10 minutos e 60% dos seus ganhos são taxados em 15%, como se fossem investidores de longo prazo.
Mais adiante, a partir de seus próprios ganhos, Buffett denuncia o sistema tributário injusto e cruel com aqueles que vivem de salários:
No ano passado, meu imposto federal - o imposto de renda que paguei, bem como impostos sobre os salários pagos por mim e em meu nome - foi $ 6.938.744 dólares. Isso parece um monte de dinheiro. Mas o que eu paguei foi apenas 17,4 por cento dos meus rendimentos tributáveis, e que na verdade é um percentual menor do que foi pago por qualquer uma das outras 20 pessoas em nosso escritório. Seus encargos variaram entre 33 e 41 por cento, uma média de 36 por cento.
Como no Brasil, o assalariado americano é vítima também do famigerado desconto em folha, que não lhe permite abater do IR despesas com restaurantes, viagens, prestação do carro, gasolina, etc., privilégios concedidos a pessoas jurídicas, nem sempre devidamente legais. Veja o que disse Buffett sobre isso:
Se você ganha dinheiro com o dinheiro, como alguns dos meus amigos super-ricos fazem, sua alíquota pode ser um pouco menor que a minha. Mas se você ganhar dinheiro trabalhando, como assalariado, o percentual será certamente superior ao meu, e muito.
E traz informações precisas sobre as fontes de receita do governo:
No ano passado cerca de 80 por cento dessas receitas vieram do imposto de renda pessoal e encargos sociais. Os mega-ricos pagam impostos de renda à alíquota de 15 por cento na maioria dos seus ganhos, e não pagam praticamente nada em impostos sobre salários. Para a classe média, a história é diferente. Normalmente, caem em alíquotas entre 15 e 25 por cento de imposto de renda e, em seguida, são atingidos com pesados impostos na folha de pagamentos.
Nos últimos quinze anos, segundo Buffett, o cenário tributário em relação ao faturamento e recolhimento de impostos do mais ricos mudou. Hoje eles faturam mais e pagam menos. Os dados são do próprio governo estadunidense:
Em 1992, os 400 mais ricos tiveram renda tributável total de US $ 16,9 bilhões e pagaram impostos federais de 29,2 por cento sobre essa quantia. Em 2008, a renda agregada das maiores 400 fortunas tinha aumentado enormemente para 90,9 bilhões de dólares -- um impressionante US $ 227,4 milhões em média por pessoa -- mas o imposto pago caiu para 21,5 por cento.
Buffett faz a defesa de seus colegas bilionários, alegando que “são pessoas decentes, que amam a América e agradecem a oportunidade que este país tem proporcionado a eles”. E garante que “a maioria não se importaria mais impostos, especialmente quando muito de seus compatriotas estão sofrendo verdadeiramente”. Eu e meus amigos ricos fomos mimados muito tempo por um Congresso amigo dos bilionários. É hora de nosso governo levar a sério o sacrifício compartilhado, destacou o bilionário que é conhecido como o Oráculo de Omaha, a cidade do Estado de Nebraska onde ele começou a construir seu império.
Embora alguns palpiteiros já tenham feito as contas para concluir que as sugestões de Waren Buffett quase não fariam diferença no orçamento do governo, pois representariam apenas 2% dos gastos federais, seu artigo teve o mérito de levantar a questão do sistema tributário injusto, que premia os ganhos de capital e penaliza o assalariado, que não dispõe de mecanismos para se defender da mordida do leão,como me referi acima. Exatamente como no Brasil.
De qualquer maneira, o apelo de Buffet por mais impostos para os ricos encontrou apoio em setores da sociedade americana. Circula na internet um abaixo-assinado com o objetivo de colher 200 mil assinaturas de pessoas. O documento – que será enviado aos congressistas - vai deixar claro que a maioria do povo americano não concorda com as benesses que eles derramam sobre seus amigos ricos e mega-ricos.
“Washington precisa parar de proteger-nos, como se fôssemos um raro tipo de coruja ou alguma outra espécie ameaçada de extinção” (Warren Buffett).

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

SERÁ INVENCÍVEL A SERPENTE?

Por Leila Cordeiro, do Blog Direto da Redação.
Nos anos 80, quando era repórter da Globo no Rio, praticamente não havia concorrência. Lembro-me que, ao cobrirmos os fatos na rua, tínhamos como rivais apenas repórteres da Band, cuja sede paulista não investia muito na filial da cidade maravilhosa.
Quando surgiu a Manchete, esse cenário da concorrência começou a mudar. A Globo, até então absoluta, começou a ver com outros olhos a chegada da emissora dos Bloch. Com uma proposta chic e inovadora, a Manchete começou bem.
No jornalismo, inovou com cenários parecidos com os dos telejornais americanos na época. Aço escovado na bancada, com os profissionais do controle de imagem trabalhando atrás dos âncoras, enfim, um cenário futurista que em nada lembrava os tradicionais da Globo.
Documentários, programas de entrevistas e shows musicais acenderam a luz vermelha na Globo. Ela começou a ver que havia vida televisiva depois dos muros do Jardim Botânico. Era preciso começar a sair do “berço esplêndido” e colocar o talento e a experiência de seus profissionais a serviço de uma programação mais ousada e moderna. Mas nem precisou se esforçar tanto..
O tempo passou para os Bloch que não tiveram força e dinheiro para segurar o canal, apesar do bom time de profissionais que havia formado. Com o fim da Manchete, acabaram-se as chances do mercado aceitar uma outra emissora com a mesma qualidade. Uma lástima para os profissionais que viram se fechar uma porta no difícil mercado de trabalho. Perda para os telespectadores que ficaram orfãos de uma opção inovadora e de mais qualidade.
Agora, lendo a coluna Oops do portal da UOL, encontro a seguinte informação: “Embora a Record esteja fazendo bastante alarde nos últimos anos, de que ultrapassará a Globo em Ibope, a distância entre as duas emissoras ainda é bem grande”. Pensei, acho que já vi esse filme antes. E não é que vi mesmo?
A Record que anunciara aos quatro ventos que estava “a caminho da liderança”, foi vítima do velho clichê: nadou, nadou, e morreu na praia.
Ela falhou e falhou feio. Achou que poderia derrotar a “poderosa” com suas próprias armas, mas não se criam guerras nem guerreiros da noite para o dia.
Os caminhos adotados pela Record e a forma como é administrada por bispos e prepostos, haja vista o papel ridículo que fez no caso Datena, não indicam que ela alcance o sonho de chegar perto da Globo, quanto mais ultrapassá-la. Um espasmo aqui, outro ali. Mas o cenário não muda. O telespectador vai ter que aturar a supremacia do plim-plim por muitos anos.
Certa vez, quando perguntaram ao todo poderoso da Globo na época, o Boni, se temia a concorrência, ele respondeu: “os outros canais são mais lidos nos jornais, do que vistos na TV”.
O Boni estava certo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

O BLOG MILIONÁRIO DE MARIA BETÂNIA

A ministra Ana de Hollanda (Cultura) minimizou a controvérsia gerada com a aprovação, pelo ministério, de projeto de R$ 1,3 milhão para a criação de um blog com leituras de poesia pela cantora Maria Bethânia. A informação é de Breno Costa da Folha de S. Paulo. Do montante total aprovado para captação junto a empresas via Lei Rouanet, com renúncia fiscal, R$ 600 mil constam como remuneração para a própria Bethânia. "Não tem nada (de mais). É uma polêmica que foi criada não sei por quê. Foi inteiramente dentro das regras", disse Ana de Hollanda.. "Ela participou, (o projeto) foi julgado por uma comissão da sociedade civil, com alguns integrantes do governo, e foi aprovado." Segundo a ministra, o R$ 1,3 milhão é justificado pelos "trabalhos" e pelas "filmagens" que o blog exigirá. Exposição em São Paulo apresenta acervo do MAC durante ditadura militar.

A arte brasileira que foi produzida no período da ditadura militar é o foco da exposição “Um Dia Terá Que Ter Terminado”, que está em cartaz no Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Ibirapuera, em São Paulo. A exposição é a segunda de uma série de três que pretendem investigar a formação do acervo do museu, fundado em abril de 1963, e também refletir sobre o papel desempenhado pelos museus públicos de arte sob o regime militar.

“A exposição faz também uma autocrítica institucional: como é que o museu pode ser uma plataforma de reflexão e de resistência, do ponto de vista artístico, num panorama político e social de exceção como foi aquele período”, disse Cristina Freire, uma das curadoras da exposição, em entrevista à Agência Brasil.

Cristina Freire disse que as obras que estão em exposição não são necessariamente políticas. “Temos (em exposição) o que se estava fazendo de arte no Brasil (naquele período) e essas obras não necessariamente  têm conteúdo político explícito. Temos o que os artistas estavam trabalhando no Brasil e que foi, de alguma maneira, incorporado ou entrou no acervo do museu e ficou como narrativa dessa história do ponto de vista artístico”, afirmou.

Uma das obras que representam bem esse período é São Sebastião (Marighella), de Sérgio Ferro. O nome da exposição deriva de trecho de uma carta escrita pelo artista ao então diretor do museu, Walter Zanini, antes de sair para o exílio. Na carta, Ferro solicita que sua obra seja protegida pelo MAC e fala de sua esperança de que a ditadura acabe: “Um dia terá que ter terminado”, escreveu.

 Também estão sendo expostas obras de Julio Plaza, Regina Silveira, Claudio Tozzi e Artur Barrio, entre outros.

A exposição está aberta até o dia 31 de julho, de terça-feira a domingo, das 10h às 18h, no MAC Ibirapuera, com entrada franca. O MAC está localizado no Parque Ibirapuera, no Pavilhão Cicillo Matarazzo, no prédio da Bienal.

Cinemas populares proliferam e se consolidam no Rio

A sala, num shopping em Guadalupe, zona norte do Rio de Janeiro, é pequena, com lugar para 73 pessoas. Mas, nem por isso simples: há equipamentos de última geração, poltronas ergonômicas e duas fileiras equipadas com assentos especiais para obesos. O preço: R$ 6 a entrada inteira e R$ 3 a meia. Criado há 11 anos, o Ponto Cine, idealizado por Adailton Medeiros, tinha como principal objetivo levar cinema de arte onde não havia, por preço popular, a um dos bairros da cidade com menor índice de desenvolvimento humano, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

Iniciativas similares surgiram e estão se consolidando em comunidades cariocas carentes de cultura e lazer. Algumas eram antes redutos de criminosos e hoje estão pacificadas. É o caso do Complexo do Alemão, na zona norte, recente palco de uma batalha entre traficantes e policiais mostrada pela televisão, que hoje tem um cinema Multiplex, com ingressos subsidiados pela prefeitura, filmes de grande bilheteria por R$ 8 a inteira e R$ 4 para moradores, estudantes e idosos — menos da metade do que é cobrado nos demais cinemas cariocas.

No subúrbio de Sulacap, o projeto Cine 10 inaugurou cinco salas populares em outubro passado num supermercado, com recursos da Agência Nacional de Cinema (Ancine) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O empresário Adhemar de Oliveira, responsável pelo projeto Cine 10, acredita que o quadro macroeconômico favoreceu o surgimento de uma nova classe média brasileira e a criação de novos formatos de cinema para despertar o interesse de novos consumidores. No entanto, ele afirmou que os financiamentos públicos são fundamentais para disseminar esse tipo de cinema voltado para a nova classe média.

Chico Buarque quer discutir na Justiça indenização recebida da EMI.

O cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda quer rediscutir na Justiça a indenização que recebeu da gravadora EMI, que foi condenada a pagar por autorizar uso de uma canção dele para publicidade.

Em 2007, a EMI depositou R$ 400.624,00 em juízo, que só foi liberado há um mês - hoje chega a R$ 500 mil. Os advogados do cantor acham que a correção não compensou totalmente o valor devido, segundo informações da coluna de Mônica Bergamo, no jornal `Folha de S. Paulo`.

José Diamantino Abelenda, advogado da EMI, disse que a gravadora já pagou o valor devido e que qualquer eventual diferença deverá ser definida por peritos e contadores da Justiça.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

MEXIDA NO TABULEIRO INTERNACIONAL

O foco agora é a Líbia, governada por quase 42 anos por Muammar Khadafi, o dirigente árabe que passou a ser aceito pelo Ocidente a partir de 2003, quando decidiu fazer uma série de concessões, inclusive deixando de lado o programa nuclear.  O ditador, homem forte, ou seja lá que denominação tenha, caiu nas graças dos Estados Unidos e da Europa. Afinal, o general petróleo pesa muito na balança.

De concessão em concessão, Kadhafi em 2006 abriu as portas da Líbia ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial adotando programas econômicos de austeridade em que o povo é sempre a principal vítima. As vozes roucas das ruas já se faziam sentir, mas o homem forte líbio/ditador se lixava.

Khadafi, hoje amigão do italiano Silvio Berlusconi, com quem firmou acordos petrolíferos de milhões de euros em 2008,  chegou até a receber a visita da então Secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice. O dirigente líbio abriu o tapete vermelho para saudá-la. Esta, lépida e faceira, disse sorrindo que as relações estadunidenses-líbias entravam em uma nova etapa.

 A questão dos direitos humanos então não passava de um mero detalhe. O cachorrinho de George W. Bush e o agora membro da Casa dos  Lordes, Tony Blair,  também  começaram a relacionar-se com Khadafi as mil maravilhas. Cessaram as acusações raivosas segundo as quais o Coronel líbio ordenara o atentado nos céus da Escócia que derrubou um avião provocando várias mortes. Khadafi mandou até pagar indenizações aos familiares das vítimas. Agora, o tema voltou à tona.

Vão longe os tempos em que quando tomou o poder derrubando um rei subserviente aos europeus e estadunidenses, um tal de Idris, Kadhafi parecia seguir os passos de Gamal Abdel Nasser, o líder egípcio que nacionalizou o canal de Suez e trouxe grandes benefícios ao seu povo, que conheceu um tempo de estabilidade e melhoria de qualidade de vida.

Nos anos 70, Khadafi era uma espécie do que viria a ser no Terceiro Milênio o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad para os Estados Unidos e Israel. Eram sanções atrás de sanções contra o então  integrante do “eixo do mal”.

Para ser ter uma ideia do tom de Khadafi, em uma entrevista para Marília Gabriela, claro, antes de 2003, ao ser perguntado o que faria se encontrasse Bush (pai), respondeu, deixando a entrevistadora desconcertada: “cuspiria na cara dele”.

Khadafi nos últimos tempos andava meio no ostracismo. Especulava-se que estaria muito doente e preparava o filho para sucedê-lo na missão de manter unidas as tribos que formam a Líbia. De fato, um dos filhos apareceu muito nos últimos dias com discursos inflamados de ameaça aos rebelados.

Uma parte da Líbia, segundo o noticiário das agências, já estaria sob controle dos rebelados e Khadafi só tinha consigo uma área da capital, Trípoli,  podendo perdê-la a qualquer momento. Mas na verdade, todo esse noticiário é passível de dúvidas, porque em outros episódios históricos as agências internacionais no frigir dos ovos acabaram errando e na prática desinformando.

Os mortos pela repressão já chegariam a mil, mas não dá para confirmar o número exato de vítimas. Há informações segundo as quais a Força Aérea bombardeou a população civil, o que é desmentido pelos khadafistas. O embaixador brasileiro em Tripoli não confirmou bombardeios, mas a notícia se espalhou pelo mundo.

O líder líbio, que segundo a maioria dos analistas, estaria em seus estertores, sendo abandonado por colaboradores próximos e ministros, voltou à retórica de antes de 2003. Culpa drogados, adeptos de Bin Laden, que desmentiram em um site, o imperialismo e grupos religiosos de serem os responsáveis pela rebelião.

Como não poderia de ser, numa linguagem como sempre hipócrita, o Departamento de Estado, na palavra de Hillary Clinton condenou a violência contra o povo cometida pelo Exército líbio obediente a Khadafi. Quando o Presidente iraniano Ahmadinejad condenou a repressão ao povo,  Clinton esbravejou dizendo que ele não tinha moral para falar o que falou. Como se o governo estadunidense, que sempre apoiou ditaduras sangrentas na região, tivesse. Até porque, quem apoia sem restrições a monarquia na Arábia Saudita não tem moral para coisa alguma, ainda mais falar em democracia na região ou em qualquer parte do mundo.  

O que está acontecendo nos países árabes é, sem dúvida, uma grande mexida no tabuleiro internacional. Mubarak já ocupa seu lugar no lixo da história depois de 30 anos com o apoio incondicional dos governos estadunidenses. Agora, como o ventou mudou, a dupla Obama & Clinton se manifesta efusivamente em favor da democracia no Egito. Brincadeira. Ninguém perguntou aos manifestantes, que nestes anos todos foram reprimidos por armas da indústria da morte estadunidense, se aceitavam de bom grado a democracia propugnada pela potência que não quer perder o controle da região.

É complicado saber com precisão quem são os rebeldes que não querem mais Khadafi. Foi só o povo? Há notícias que em Benghazi, a segunda cidade líbia, os manifestantes que agora controlam a área, teriam hasteado a bandeira da monarquia derrubada por Khadafi e o povo,  em 1969.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) lançou um comunicado dizendo que não pretende intervir na Líbia. Aí que mora o perigo. Basta consultar os jornais para ver que sempre em graves crises, como a de agora, inicialmente os dirigentes da Otan dizem que não pretendem intervir. Horas ou dias depois surgem os contingentes bombardeando ou ocupando cidades.  

Como a Líbia, ou melhor, o petróleo líbio é estratégico e mesmo nos EUA o ouro negro é cada vez mais escasso, não será surpresa alguma se no país conflagrado desembarcarem tropas da Otan com parceria estadunidense sob o pretexto de estabelecer a paz.

PS.  Quase 24 horas depois da elaboração deste artigo, o Pentágono já admite intervir militarmente na Líbia. Na verdade, não será propriamente nenhuma surpresa se tal fato acontecer. É possível que, nos bastidores,  Washington já esteja mobilizando países da Otan para darem o bote na rica região petrolífera. As mais recentes informações indicam que os EUA já estão deslocando força naval para as proximidades da Líbia.

O petróleo fala mais alto. Agora, sob o pretexto de evitar mais repressão de Khadafi,  os "justiceiros" do Ocidente podem entrar no país. Khadafi. ditador/homem forte etc pode ter aprendido a lição um pouco tarde: de que adianta costear o alambrado, como diria Brizola, se o outro lado numa primeira oportunidade entra de sola e vai direto no petróleo.

Podem dar o empurrão final em Khadafi, mas o que vem depois é um esquema para manter o país sob controle do Ocidente.Como isso pode ficar difícil sem intervenão estrangeira, a Otan está aí para isso mesmo. Como Barak Obama não quer repetir Bush, é bem possível que aguarde mais um pouco até que os países da Otan decidam na base do quero o meu (dote petrolífero) também... 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A NECESSIDADE DE UMA PÓS-DEMOCRACIA

Por Rodolpho Motta Lima, Direto da Redação.

Li recentemente  um instigante  artigo crítico  do escritor e pensador  Eduardo Portela (“Novidade à vista”),  que nos fala da possibilidade de estarmos no limiar de um período que ali se denomina “pós-democracia”.  Seria uma   consequência  praticamente inevitável dos sinais degenerativos que se percebem nas assim chamadas  instituições democráticas, incapazes de dizer ao que vêm nestes tempos de desigualdades e injustiças sociais que não escolhem espaços geográficos para proliferar.

A mídia tradicional, apegada aos princípios do neoliberalismo, trabalha estrategicamente o termo “democracia”, confundindo-o com o conceito de capitalismo, ao qual atribui qualidades libertadoras do indivíduo.

Como decorrência, identifica as ameaças a essa democracia em nações que seriam agentes contrários ao resto do “mundo livre”: Cuba, China, Coreia do Norte, Iran...  Essa identificação desses “atores do mal”, aliás, fica ao sabor de conveniências e interesses pontuais  e, às vezes, acaba se revelando até contra a intenção  do poder midiático: uma rebelião popular acabou de “descobrir”, por exemplo, que  o Egito é (ou era) um estado  antidemocrático, depois de décadas de apoio militar e econômico proveniente  do mundo da liberdade...

Que tal refletirmos um pouco sobre isso tudo?  Minha visão do que seria uma efetiva democracia, um mundo de liberdade, – que me perdoem os estudiosos e especialistas  -,  é a do senso comum, a da percepção imediata.  Para ser sincero, desde garoto absorvia com dificuldade a ideia de que o berço democrático teria sido uma sociedade escravista  – a grega -, onde mulheres e estrangeiros não tinham o

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

DO POSTE À GOVERNANTE ENCANTADORA

Por Mair Pena Neto, do Direto da Redação.
A mídia que tratou Dilma Rousseff como um poste durante o processo eleitoral enche a nova presidente de elogios, tenta apresentá-la como antagônica a Lula e cobra dela um programa de oposição, que foi fragorosamente derrotado ano passado. Para a imprensa de mercado, Dilma é comprometida com a austeridade e tem que resolver uma pesada herança deixada por Lula, “o gastador”
Um leitor desavisado poderia achar que Lula saiu derrotado das últimas eleições e não que fez a sua sucessora, escolhida pessoalmente. Que Dilma não foi eleita para prosseguir as políticas dos últimos oito anos, principalmente dos quatro últimos, de redução das desigualdades e erradicação da miséria. Estes são os principais compromissos de Dilma, reiterados constantemente e que guiarão o seu governo.
Enquanto esteve à frente da Presidência, Lula acusou a herança maldita do governo Fernando Henrique Cardoso, que se evidenciava num crescimento econômico pífio (menos de 1% entre 1998 e 2002), endividamento externo aviltante, falta de reservas cambiais, inflação de dois dígitos, desemprego em alta, privatizações e Estado cada vez menor e mais fraco.
Lula, com o auxílio de Dilma, mudou inteiramente essa lógica e entregou a sua sucessora um país com crescimento médio de 4,2%, sem considerar o resultado de 2010, estimado em 7,5%; mudança de devedor para credor internacional, reservas internacionais de US$ 300 bilhões (FHC deixou o país com menos de US$ 40 bilhões), inflação dentro da meta, emprego em nível recorde e, principalmente, um papel mais ativo do Estado, responsável pela ascensão de mais de 30 milhões de brasileiros à classe média, o equivalente a quase uma Argentina.
Agora, a mídia tenta criar uma herança maldita que Lula teria deixado para Dilma, com aumento dos gastos públicos, e chega a invocar inflação e taxa de juros em alta como problemas. Os dois últimos argumentos nem mereceriam resposta. FHC entregou o país com a inflação em dois dígitos (12,53% pelo IPCA) e a taxa de juros em 27%, enquanto Dilma começa com a inflação dentro da meta (5,85%) e a Selic em 11%,  depois de uma trajetória de queda no governo Lula que chegou a 8,75% em meados de 2009.
A questão dos gastos públicos é que merece discussão. O governo Lula não seguiu exclusivamente as regras de mercado, como seu antecessor e como aprecia a grande imprensa, e devolveu ao Estado um papel preponderante, não apenas nas questões econômicas, mas, sobretudo, nas políticas, incluindo a externa.
Lula aumentou os gastos para fazer políticas públicas, aquelas que causam ojeriza às elites, como o Bolsa-Família; para investir mais em educação, pesquisa, ciência e tecnologia (vide apoio maciço da comunidade acadêmica a seu governo e à candidatura Dilma) e para combater uma das maiores crises do capitalismo, que explodiu no fim de 2008 e afeta até hoje grandes economias, como a dos Estados Unidos e da Europa.
O governo Lula não aumentou impostos e desprezou o receituário dos analistas de mercado, os mesmos que sugerem agora a Obama que estenda o corte de US$ 1,1 trilhão no Orçamento à previdência e a programas de saúde para idosos e pobres. Para combater a crise, Lula obrigou os bancos públicos (política de Estado) a concederam crédito, fez desonerações tributárias e apostou no consumo, reduzindo o vagalhão que engolia o mundo à marolinha.
É lógico que isso tem custos e precisa ser revisto quando a situação melhora. O que Dilma herda não é uma situação desastrosa e inadministrável. Se fosse este o cenário que Lula tivesse encontrado quando assumiu o governo, em 2003, o Brasil certamente estaria muito melhor. Dilma foi parte importante do governo Lula, aprovou suas políticas e tende a aprofundá-las. O resto é tentativa de apresentar à população o que a presidente não é.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A TECNORREVOLUÇÃO AO VIVO

Alguma coisa mudou. Se de um lado, a revolução egípcia contra Mubarak pode ser comparada com o levante da comuna de Paris de 1871, dela participam componentes tecnológicos inexistentes naquela época.

Parodiando-se o canadense Marshall McLuhan, a revolução vem pelos novos meios de transmissão da mensagem. A ruptura com o Egito arcáico não foi possível com as rezas dos fundamentalistas da Irmandade Muçulmana, nem com a ideologia dos esquerdistas egípicios, mas pela mobilização permitida pelo twitter nos celulares e pelos grupos sociais do Facebook.

E, elemento importante, o fato de um terço da população ser constituída de jovens. Não se pode negar – essa revolução foi deflagrada por jovens estimulados pelo conhecimento da existência da democracia, jovens da classe média na maioria universitários, utilizadores dos novos meios de comunicação.

Eles próprios estão surpresos, pois materializaram uma mobilização virtual digitalizada no mundo eletrônico nas praças, ruas e cidades egípcias e estão em vias de mudar o quadro político do país.

O trailer dessa revolução tecnopolítica ocorreu, mas sem sucesso, no Irã. O partido Verde se apropriou das ruas e os celulares serviam de coesão entre os manifestantes, transmitindo ao vivo os momentos fortes da rebelião, como as cenas de uma jovem abatida a tiros, com seus últimos minutos de vida presentes em milhares de celulares ao vivo e depois em imagens post-mortem.

No Irã, essa tecnorevolução não deu certo, pela rapidez da repressão, mas na Tunísia e no Egito, não era possível a utilização do mesmo método. As câmeras de televisão transmitindo ao vivo para todo mundo eram não só as testemunhas como a garantia de que não haveria banho de sangue.

Se os estudantes chineses da praça Tianemen já dispusessem dos meios sofisticados da tecnologia de hoje, não teria havido o ataque dos tanques, pois teriam sido avisados a tempo e as imagens por celulares poderiam provocar um impacto mundial.

Evidentemente, Tunísia e Egito reunem os fatores necessários à eclosão da revolução – miséria, desemprego, falta total de perspectiva para a juventude, regime autoritário, porém neles não havia o apoio ideológico aglutinador. A união se fez em torno da rejeição da situação atual, porém sem um projeto imediato para o futuro, donde a visível dificuldade para se assegurar este momento de transição e a total impossibilidade de se prever os próximos seis meses e os resultados de esperadas eleições livres.

A conjugação das novas tecnologias desde o celular, laptop aos satélites permitiu mostrar na Tunísia, e está mostrando no Egito, uma revolução ao vivo, como se num amplo espaço fechado se tivesse reunido um povo para viver diante do mundo um imenso espetáculo Big Brother da revolta com seus mortos e feridos de verdade. Haverá relação da revolução ao vivo com a psicologia dos participantes dos reality shows, desejosos de ter na tela seus quinze minutos de exibição ? Não se pode deixar de pensar no filme The Truman Show.

Pouco importam as respostas que se possam apresentar, o certo é que os jovens detonaram a revolução, logo apropriada pelos satélites, midia, televisões, mas com um único objetivo, na falta de um programa tecnopolítico – ter liberdade. Talvez garantia contra a transformação do movimento numa ditadura teocrática, como ocorreu no Irã, quando a queda do Xá foi rapidamente assumida pelos aiatolás e imãs.

O mundo globalizado de amanhã terá provavelmente uma tecnodemocracia, calcada em preceitos tecnocientíficos, lançados por satélites.

Mas embora agora sopre o vento da vontade de liberdade que irá, com certeza, revolucionar as dunas das ditaduras árabes de areia, em busca de um mundo novo, regido mais pela tecnologia que pela política, um pesadelo nos espera na esquina. 

Todos os visionários da ficção científica nos fazem tremer com a profecia de um mundo totalmente controlado. As tecnologias de hoje que derrubam ditadores serão aperfeiçoadas e transformadas nos meios de controle dos indivíduos e das sociedades, sem espaços vazios de liberdade. Os religiosos chamam isso dos perfeitos reinos de deus ou de alá, onde todos serão felizes.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

IMPRENSA SEGUE A AGENDA DOS EUA

Qualquer cidadão brasileiro que se informe pelos tradicionais meios de comunicação, principalmente a televisão, tem opinião formada, e contrária, naturalmente, a Hugo Chávez, Mahmoud Ahmadinejad e Fidel Castro. Eles fazem parte do eixo do mal que os Estados Unidos difundiram aos quatro cantos, contando com a docilidade da imprensa que lhe serve de porta-voz.

Evo Morales também está nesse grupo, assim como estava Nestor Kirchner até que sua morte levou uma multidão de argentinos às ruas, mostrando que o povo tinha entendido e apoiado integralmente sua política, que recuperou a Argentina do desastre neoliberal que a levou ao fundo do poço.

Lula seria outro a integrar o grupo dos vilões. Nesse caso, nem foi preciso orientação norte-americana. Os meios brasileiros tentaram destruí-lo durante oito anos, mas não conseguiram. Mantiveram-se num combate sem tréguas a um líder que o povo consagrava e que deixou o governo com o mais alto índice de popularidade da história. Até em sua saída, Lula poderia recorrer ao bordão que criou de que nunca na história desse país um governante foi tão popular apesar de toda a oposição midiática.

Mas quem governa aqui, a gente pode olhar e formar opinião com mais gabarito. Mais difícil é analisar os governantes e regimes estrangeiros com a pobre cobertura internacional da imprensa brasileira. Os mesmos que conhecem e condenam Chávez e Evo jamais ou pouco tinham ouvido falar de Hosni Mubarak, o ditador egípcio há 30 anos no poder com base num regime brutal e corrupto. Alguns poderiam dizer que o Egito fica mais longe que a Venezuela e a Bolívia e por isso não chega muita informação por aqui. Mas o Irã também está muito distante e todo mundo tem o que dizer sobre Ahmadinejad.

O pouco conhecimento sobre a ditadura de Mubarak se deve ao fato de o Egito não estar na pauta de condenações dos Estados Unidos. Ao contrário, é um aliado confiável, que recebe US$ 1,3 bilhão de ajuda militar norte-americana por ano, quantidade só inferior à destinada a Israel. Os Estados Unidos funcionam assim: aos inimigos, a condenação permanente. Aos aliados, olhos fechados. O Irã é brutal porque condena pessoas ao apedrejamento. A Arábia Saudita, que tem formas semelhantes de condenação, não merece uma linha de condenação.

O infeliz nessa história é que a grande imprensa brasileira repete o pensamento do Departamento de Estado. Os noticários estão cheios de matérias sobre Irã, Venezuela e outros “mal vistos” e pouco se sabe do que acontece nos outros cantos do mundo. Quando explode uma revolta como a do Egito, as pessoas têm dificuldade de entender o processo. E a grande imprensa não se esforça muito em informar. Não é dito claramente que Mubarak está há 30 anos no poder com apoio e financiamento dos EUA, pois garante petróleo e gás a Israel e uma certa estabilidade do Estado judeu, além de ser um contraponto aos regimes islâmicos, que causam pânico aos Estados Unidos.

A cobertura é indigente e se perde em atos de vandalismo, como os que atingiram museus do Egito, como se questões colaterais tivessem mais relevância que o fato em si. Estamos testemunhando a história à frente dos nossos olhos. O Egito, assim como a Tunísia, está em convulsão e prestes a originar uma transformação radical em todo o Oriente Médio, e as oportunidades oferecidas aos brasileiros de compreenderem todo o processo é reduzida por uma cobertura sem dimensão histórica e com viés norte-americano.

Na TV Globo, a emissora de maior audiência do país, as informações, inicialmente, eram passadas via correspondentes nos EUA. Ora, a informação que o jornalista tem sobre os acontecimentos lá é a mesma que temos aqui. Ele não tem acesso a fontes primárias e apenas reproduz o que recebe de agências de notícias ou do governo americano. Seria legítimo ouvir o que tem a dizer sobre o que pensa o governo dos EUA e como pretende agir. Mas ter toda a história contada a partir de Washington é o fim da picada.

Entende-se que esse arremedo foi necessário enquanto um correspondente não chegava ao Cairo, mas a prática não foi interrompida mesmo após isso acontecer. A imprensa tradicional ainda tem grande importância no Brasil, embora já não dite mais o comportamento político como no passado. Nessa explosão egípcia, a imprensa como um todo ficou a reboque das redes sociais. Talvez fosse melhor ficar de olho nelas e sua capacidade de fazer história ao invés de reproduzir a cartilha norte-americana e seu discurso alienante.

domingo, 30 de janeiro de 2011

UMA DEMOCRACIA DE MENTIRA

Enquanto sobe o tom da voz rouca nas ruas da Tunísia, do Egito, do Iêmen, da Argélia, do Marrocos e da Jordânia, em Israel, o país considerado pelo senso comum com uma democracia, nestes dias ocorreu a criação de uma comissão especial para investigar as atividades de cidadãos e grupos de esquerda.

No mais puro macarthismo, a extrema direita israelense, estimulada pelo Ministro do Exterior Avigdor Lieberman, uma figura nefasta e fascista, está vomitando ódio não apenas contra os palestinos, mas também contra israelenses de esquerda que, envergonhados, denunciam uma série de violações dos direitos humanos cometidas contra os palestinos. Os extremistas guiados por Lieberman acusam de “financiados por terroristas” os grupos progressistas israelenses que denunciam a ação do Exército nos territórios palestinos.

A mesma extrema direita israelense mais uma vez utilizou-se do Holocausto, lembrado no Dia 27 de janeiro, para aparecer como vítima. De fato são seis milhões de judeus assassinados pelo nazismo na II Guerra, juntamente com outros segmentos como ciganos, eslavos, comunistas, socialistas, homossexuais, seres humanos com problemas mentais etc.

Realmente, o Holocausto ser lembrado por extremistas como Lieberman, Benyamin Netanyahu e outros do gênero, é não apenas uma hipocrisia, como até mesmo ofensivo às próprias vítimas da bestialidade nazifascista do século passado. Exatamente porque, segundo denúncias dos próprios israelenses, estão vestindo a camisa do opressor de ontem, os nazistas. 

Quem imaginava que isso pertencia ao passado, engana-se. Lieberman e Netanyahu são exemplos concretos de que o ideário extremista continua vivo. O Ministro do Exterior de Israel, egresso da extinta União Soviética, pregou em várias ocasiões uma solução final contra os palestinos e manifesta claramente ódio aos árabes. .  

Quem veste a camisa do racismo não tem condições morais de falar em Holocausto, no caso de Lieberman & Netanyahu, aproveitando o sentimento de repulsa da humanidade pela barbárie da II Guerra Mundial para usá-la em proveito de uma ideologia que prega também o ódio e a exclusão do outro.  

Imbuída pelo sentimento de repulsa pelo que o governo Netanyahu continua a fazer com os palestinos, inclusive os residentes no território israelense, considerados pelas autoridades sionistas na prática como cidadãos de segunda classe, a esquerda israelense não se cala, exatamente para mostrar ao mundo que há repúdio interno em relação às atrocidades contra os palestinos.

A resposta foi dada pelo Parlamento, onde a direita tem maioria e, como afirma o jornalista israelense Gideon Levy, do jornal Haaretz, “o que este governo está fazendo ruborizaria até (Joseph) McCarthy”, o senador estadunidense que promoveu uma caça às bruxas nos anos 50.

Como temas desta natureza dificilmente são apresentados nos jornalões e telejornalões, não só do Brasil como pelo mundo afora, é necessário que a opinião pública seja informada do que está acontecendo em Israel e nos territórios palestinos, isso para evitar que o atual governo extremista de Netanyahu &Lieberman e outros do gênero continue levando adiante na prática a eliminação do outro, ou seja, do povo palestino. O jornal Brasil de Fato foi o único por estas bandas a informar a vergonhosa caça às bruxas. 

Por sinal, mais dois países da América  Latina, o Paraguai e o Peru, acabaram de reconhecer o país  Palestina com as fronteiras de 1967, somando-se ao Brasil, Argentina, Uruguai, Equador, Bolívia etc. Os respectivos governos, alguns não de esquerda, não se dobraram as pressões do lobby sionista.

Enquanto isso, depois dos tunisinos terem mandado para o lixo o ditador-ladrão Ben Ali, os egípcios estão dando o claro recado de que não suportam mais Hosny Mubarak e o seu regime corrupto e autoritário, que além de governar o país com mão de ferro há mais de 30 anos é o principal responsável pelo arrocho salarial, pobreza e desemprego, para não falar da subserviência aos Estados Unidos, que banca o governo com uma polpuda mesada de 1,3 bilhões de dólares anuais para se alinhar a Washington.

A voz rouca das ruas no Egito e Tunísia é clara: chega de ditaduras, de submissão ao Fundo Monetário Internacional, que em 2007, juntamente com o Fórum Econômico Mundial para a África, considerava o país do ex-ditador Ben Ali o mais competitivo do continente, mais inclusive do que a África do Sul. E tudo isso com a chancela dos sucessivos governos estadunidenses nos últimos 30 anos.

Embora os povos tenham perdido o medor da violenta repressão há também o perigo dos ditadores abandonarem o cargo, mas o regime continuar o mesmo, havendo apenas uma troca do seis pelo meia dúzia. Daí Mubarak nomear pela primeira vez em 32 anos um vice, o chefe da inteligência, Omar Suleiman. Pode ser até que esteja preparando o terreno para cair fora e deixar em seu lugar alguém que mantenha o mesmo esquema de dominação que levou os jovens a ir para as ruas protestar e pedir o fim do regime chancelado pelo Ocidente.

Quando este artigo estava sendo elaborado veio a informação do Cairo sobre a proibição do canal da Al Jazeera de atuar no Egito. Coisas de uma ditadura. Resta saber se as entidades internacionais  que se consideram defensoras da liberdade de imprensa vão protestar. E o que dirão os governos ocidentais?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

JOÃO, O HISTORIADOR

Por Roberto Porto, do Direto da Redação.

João Jobim Alves Saldanha (1917-1990) foi meu companheiro em dois períodos em que passei pela faraônica sede do Jornal do Brasil, no número da Avenida Brasil. João, a rigor, era o que simplesmente poderíamos chamar de contador de histórias, que Sandro Moreyra (1919-1987), seu companheiro de inúmeras jornadas, sabia de cor e salteadas. Sabia e contava relativamente em segredo para todos nós, sempre rindo da presença constante de João em todas efemérides (perdoem o termo) importantes.

A primeira delas, para obedecer a uma certa ordem cronológica, ocorreu em 1912, quando o então ministro da Saúde – botafoguense de coração, Miguel Couto – cedeu, a título precário, o terreno de General Severiano, pois o alvinegro já não tinha mais campo para jogar – todos lhes tinham sido tomados. Quando eu, no JB, estava escrevendo uma matéria especial sobre a venda de General Severiano à Vale do Rio Doce, João aproximou-se de mim e perguntou discretamente:

- Roberto, o que você está escrevendo?

Respondi que era a venda de General Severiano e a consequente ida para Marechal Hermes (no distante subúrbio do Rio). De imediato, João decidiu dar um colorido especial à matéria (a melhor do esporte do ano de 1976 no JB). E passou a me dar detalhes da tomada do terreno, um matagal abandonado.

- Em 1912 – disse João – havia um português que consertava carruagens e tílburis no meio do terreno. E não queria sair. Eu então chamei uma rapaziada, Sandro, inclusive, e tocamos fogo no barracão. Só assim pudemos fazer o campo...

De longe, atento, Sandro esperou João sair de perto de mim e me perguntou:

- O que é que ele contou para você?

Relatei a conversa, mesmo sabendo que era mais uma ‘invenção’ de João.

Sandro ficou estarrecido.

- Como é que o João, que é de 1917 e eu, de 1919, poderíamos tacar fogo num barraco em 1912? Não coloque esse ‘chute’ na matéria, por favor...

É óbvio que eu sabia que era cascata, pois estava consultando a verdadeira enciclopédia de Alceu Mendes de Oliveira Castro – ‘O Botafogo, 1904-1950’.

De outra vez, João tentou nos convencer que estava ao lado de Mao Tsé Tung, quando a Grande Marcha tomou Pequim (hoje Beijing). Sandro desmentiu. Disse que em 1949, ano do ataque, ele estava tomando banho de sol no então quase desconhecido Arpoador. Dias depois, olhando para o horizonte, disse a Sandro que estava relembrando a tomada das praias da Sicília, na Itália, ao lado do marechal inglês Montgomery (1887-1976). Sandro garante que João permanecia pegando uma cor no Arpoador.

Tantas foram as histórias que, certo dia, José Inácio Werneck – sem qualquer culpa no cartório – teria sido ameaçado de levar uns tiros de João, em plena redação. José Inácio – a quem chamo carinhosamente de ‘Moderno’ – chegou assustado à redação. João estava lá, todo alegre, conversou animadamente com ‘Moderno’ e nada ocorreu. Teria sido um mal entendido? Não sei.

Em matéria de João Saldanha tudo era possível... 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O RIO VIROU HAITI

Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação.

Sai ano entra ano e as tragédias se repetem no período das chuvas de verão. Em 2010 foi Angra dos Reis e Niterói, agora é a região serrana com centenas de vítimas fatais. Amanhã poderá ser outra área do Estado do Rio ou do País. Mas o pior disso tudo é que se providencias preventivas fossem tomadas poderia se reduzir o número de vítimas. Para isso será necessário mudar o conceito de Defesa Civil.  No Rio de Janeiro e nas cidades serranas a especulação imobiliária tomou conta. Prédios e residências foram erguidos sem obedecer ao mínimo critério de segurança e ocasionaram desequilíbrios ecológicos.
São anos na base de sinal verde à especulação imobiliária. Prefeitos, governadores e parlamentares financiados em suas campanhas por empresas do setor, posteriormente cobravam a fatura, e cobram ainda. Resultado: quebrou-se o gabarito dos prédios em vários bairros das cidades e foram permitidas construções, não poucas luxuosas, em áreas de risco. O Rio e a Região Serrana que o digam.
A mídia de mercado, que durante muito tempo vem sendo contemplada com rica publicidade imobiliária silenciou sobre esses fatos. Os jornalões e telejornalões, no entanto, não pouparam as construções em áreas de risco nas favelas. Como se somente os pobres fossem culpados pelas tragédias de verão. Até editoriais nesse sentido foram escritos, como se os pobres fossem culpados por morarem em condições precárias nas encostas de alguns morros.
Como se tudo isso não bastasse, o Poder Público pouco ou nada tem feito em matéria de prevenção. As fortes chuvas de agora, mais fortes ainda do que as habituais, estavam previstas há pelo menos três meses, segundo especialistas do setor. E o que foi feito de concreto para minorar as consequências a não ser promessas e mais promessas não cumpridas?
Em países sujeitos a fenômenos naturais de graves consequências os efeitos são minorados porque o Poder Público prepara a população com antecedência. Um dos exemplos é Cuba, uma ilha caribenha, pobre, sujeita anualmente a ciclones e furacões com efeitos perversos. Lá, o Estado oferece alternativas à população e quase não há vítimas fatais. Para se ter uma ideia, 16 furacões, entre 1998 e 2008 provocaram prejuízos materiais de 20,5 bilhões de dólares, o que corresponde a metade do PIB da ilha.
Enquanto isso, nestas bandas, o governador Sergio Cabral estava de férias na Europa, repetindo o ano passado quando demorou a aparecer em Angra dos Reis, pois se encontrava recolhido em sua mansão em local próximo da tragédia. Teve de antecipar a volta porque a Presidenta Dilma decidiu ir pessoalmente à região serrana. Ele agora culpou “governos populistas” instalados nos anos 80 por permitirem construções em áreas de risco em locais pobres da cidade, mas calou a boca em relação à especulação imobiliária.  Será por quê?
Cabral como governador deveria saber que muitas residências construídas em áreas de risco bem antes dos anos 80 também foram atingidas pelas chuvas na região serrana. E os pobres que constroem seus barracos em áreas de risco não o fazem porque querem, mas porque precisam. Culpá-los por isso é coisa da elite, da qual faz parte Sergio Cabral.
Outra coisa, se a população brasileira hoje é 85% urbana e 50 anos atrás a proporção era 85% rural, de que forma aconteceu esse deslocamento? Os governos promoveram reformas agrária e urbana? Cuidaram da ocupação do solo e ordenaram as cidades?
Há exatamente um ano acontecia o terremoto do Haiti, tragédia que mobilizou o mundo com promessas de ajuda humanitária e verbas para reerguer Porto Príncipe. E o que está acontecendo neste momento? As imagens mostram que praticamente nada foi feito, dando a impressão que o terremoto foi ontem. Há até corpos ainda debaixo dos escombros, segundo informações da capital do Haiti.
Menos de 20%, dos US$ 5,6 bilhões prometidos pela comunidade internacional,  foram entregues. Da quantia que chegou, a maior parte foi usada para pagar dívidas. Cerca de um milhão de haitianos vivem em acampamentos improvisados, em condições de higiene precárias e ainda pior: em Porto Príncipe, centenas de milhares de seres humanos estão sendo obrigados pelos proprietários dos terrenos onde construíram suas tendas a sair dos locais. Como não têm para onde ir,  apelam às autoridades no sentido de evitar as expulsões. O governo não os atende.
O mundo, com raras e honrosas exceções, prefere mandar efetivos para as “forças de paz” das Nações Unidas controlarem a situação no Haiti do que médicos para atender aos necessitados. Uma das honrosas exceções ficou por conta dos médicos cubanos, presentes  no Haiti, aliás, bem antes do terremoto, com uma equipe que atendeu em duas semanas 9.857 pessoas vítimas de cólera e sem a ocorrência de nenhuma morte.
Por aqui, quando ocorrem as tragédias, também promessas e mais promessas são feitas. E quais os resultados? Perguntem às comunidades atingidas. No Rio, a Prefeitura pretende apenas aproveitar a ocasião e remover favelas que não estão em áreas de risco, tendo em vista os mega eventos de 2014 (Copa do Mundo) e 2016 (Olimpíadas). E tudo isso com o beneplácito dos jornalões e telejornalões com pautas preconceituosas e manipuladoras contra os segmentos pobres da população.
Por estas e várias outras, como disse o insuspeito Caetano Veloso, o Haiti é aqui.                      
Em tempo: O governador do Estado do Rio, segundo o jornalista Luis Nassif,  doou para a Fundação Roberto Marinho 24 milhões de reais do FECAM (Fundo Estadual de Conservação do Meio Ambiente), para a contenção de encostas e obras de drenagem. Isso aconteceu em outubro do ano passado. Podem imaginar como isso se reflete na cobertura das Organizações Globo sobre as realizações de Cabral. Mas como ele foi eleito, agora é aguentar as consequências.