“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”
Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago.
Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania.
Cada um viu o que quis, mas a maioria viu o que não queria mesmo sem enxergar um palmo diante do nariz.
As previsões eram de que a entrevista de Antonio Palocci ao Jornal Nacional seria o golpe de misericórdia que ele receberia – ou daria em si mesmo, pois, segundo um importante analista, o ministro teria optado pela “guilhotina”.
Não foi o que se viu. E pude confirmar isso indo ao Twitter provocar opiniões sobre a entrevista.
Apesar de alguns mais inconformados com o fato de que acusar quando o acusado se defende é mais difícil terem optado por teimar que teria havido a materialização da decapitação, a maioria reconhecia que Palocci fora bem, sim, mas atribuía ao fato de que a Globo o teria “ajudado”.
Diante disso, coube-me uma pergunta óbvia: se o JN aliviou, não fez as perguntas que devia, o que você perguntaria ao ministro para, digamos, arrasá-lo ao vivo e à cores? Recebi dezenas de mensagens. Dezenas. E nenhuma resposta.
Palocci foi bem simplesmente porque se manteve calmo e porque mostrou ao repórter Julio Mosquera e ao público que toda aquela história de que ele estaria “se escondendo” não se justificava, como se viu.
E o que se viu, em vez da decapitação, foi quase um chá das cinco ao melhor estilo bretão.
Palocci deixou claro que todas as perguntas que lhe fazem sobre quem são seus clientes, quanto lhe pagaram etc. serão respondidas aos “órgãos de controle”, ou seja, à Procuradoria-Geral da República, ainda que esta já tenha avaliado os dados antes de ele entrar no governo.
Logo, os pistoleiros do PIG começaram a rever a teoria da decapitação. O ministro, provavelmente, não cairia mais. A decapitação não ocorreria já, apesar de que era dada como favas contadas.
Pode ser, claro, que ocorra por razões políticas, sem provas, mas será dado à direita midiática e à manada útil o direito de punir alguém sem julgamento, sem provas e sem meros indícios.
E há outro motivo pelo qual a decapitação de Palocci não ocorrerá. Reportagem da revista IstoÉ de 1999, sobre o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, ajudará a entender por que.
Fraga deixou de receber um salário 20 vezes maior como empregado do mega investidor George Soros para trabalhar no governo FHC por 7 mil reais. À diferença de Palocci, porém, ninguém exigiu maiores explicações sobre a razão da troca de emprego.
Leiam, abaixo, a reportagem. Os mais sagazes entenderão tudo rapidamente, outros precisarão de explicação para entender e alguns não entenderão simplesmente porque não querem, o que não mudará nada.
Revista IstoÉ.
N° Edição: 1532 | 10 de fevereiro de1999.
Ao mestre com carinho.
Ligação com o especulador George Soros é virtude e defeito de Armínio Fraga, novo presidente do BC.
ANDRÉ VIEIRA.
Dinheiro em dobro. Foi o que garantiu Armínio Fraga Neto, o novo presidente do Banco Central (BC), aos investidores que lhe confiaram suas poupanças no final de 1992. Quem investiu a quantia de US$ 100 mil no fundo Quantum Emerging Growth – gerido por Fraga – colheu cerca de US$ 199 mil em dezembro, mesmo com a quebradeira generalizada dos países emergentes, como México, os Tigres Asiáticos e a Rússia neste período. O desempenho só não foi melhor porque o fundo perdeu 29,4% em 1998. Experiente operador, Fraga deveria causar uma sensação de bem-estar à frente da mesa de operações do BC, exceto por um detalhe. Quem irá preservar o valor da moeda mais derretida dos últimos tempos – o real –, afastando do