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domingo, 29 de janeiro de 2012

SERVIDÃO FINANCEIRA

* * Cúpula da Europa reúne-se nesta 2ª feira em Bruxelas, em meio à greve geral dos trabalhadores belgas contra as políticas de arrocho na UE.
** cúpula busca consenso para a 'regra de ouro' do arrocho fiscal que limita déficit no âmbito da UE em 0,5%
** Alemanha quer transformar a Grécia numa zona de ocupação do poder financeiro, revogando a soberania orçamentária de Atenas.
** objetivo é assegurar a destinação prioritária de recursos ao pagamento dos credores.
** SOLIDARIEDADE A BALTASAR GARZÓN leva milhares de pessoas às ruas de Madrid neste domingo.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

INCOMPATÍVEL COM A DEMOCRACIA

** Papandreu tem um espasmo de soberania e anuncia referendo popular para pacote de arrocho imposto ao país, que inclui abate de 50% da dívida grega.
** banqueiros e lideranças européias tem consciência da natureza espoliativa do 'ajuste', que dificilmente seria aprovado em escrutínio democrático.
** Bolsas desabam na UE nesta 3ª feira em pânico com o risco das urnas.
** EUA vão cortar sua contribuição à UNESCO, após o reconhecimento do Estado palestino como membro pleno da agência da ONU dedicada à difusão da paz e da cultura. (Carta Maior; 3ª feira, 01/11/ 2011)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

EURO EM TRANSE

**  greve geral contra arrocho fiscal paralisa a Itália nesse momento.
** contra a receita ortodoxa, Obama prepara um PAC anti-crise:  empregos e obras, a exemplo de Lula em 2007 e 2010.
** tucanato midiático faz terrorismo inflacionário contra corte de  juro.
**Delfim Netto: 'o mundo está literalmente vindo abaixo e ... sugere-se 'esperar para ver'! (Valor 06-09)
O DINHEIRO NÃO OBEDECE E NÃO HÁ NINGUÉM PARA DOMÁ-LO - O euro esfarela desde o início da crise mas  nesta 2ª feira ensaiou estrebuchar.  A União  Européia  praticamente não faz mais jus  ao nome. O laço monetário que a sustentava  deixou de ser um  trunfo para se consolidar em algoz. A Grécia, submetida à terapia ortodoxa para manter a moeda única, naufraga numa recessão que deixará de pé apenas as ruínas antigas, no dizer dos oposicionistas. O PIB deve cair  5,5% este ano. O descrédito é tamanho que  os credores exigiam ontem  taxas de juros de 50% para rolar a dívida grega por mais dois anos.  Eis o retorno  do pacote de arrocho imposto  pela Alemanha e o BCE  para escalpelar a sociedade e devolver confiança aos credores. A Grécia estáparalisada pela crise política:  governo, credores e  sociedade não se entendem. A exemplo de Atenas, a Itália patina nas mãos de credores que desacreditam da solvência de um país que deve 120% do PIB, é incapaz de arrecadar mais impostos da plutocracia, depende apenas de arrocho sobre os assalariados, tem um governante que se chama Berlusconi e está às voltas com uma greve geral que paralisa os transportes neste momento. Impasses semelhantes enfrentam a Espanha e Portugal. A crise aponta claramente as tarefas que se impõem. A salvação da UE pressupõe uma socialização do resgate fiscal de Estados periféricos atingidos no contrapé pela crise mundial. São duas as providencias  inadiáveis: a) arrecadar mais dos ricos e das grandes fortunas para desafogar o endividamento de Estados capturados pelo rentismo no  ciclo de alta liquidez neoliberal; b) lançar euro-bonus que diluam as fragilidades periféricas na força e na credibilidade das economia centrais, Alemanha e França, sobretudo. Angela  Merkel, porém, a dama-de-ferro conservadora resiste em fazer da UE  algo mais do que um quintal cativo das exportações germânicas.  Nem o aço ortodoxo de que é feitam todaviam resiste mais à corrosão da maré vazante. Derrotada  em sua própria base eleitoral nas eleições regionais de domingo último, Merkel deixou de ser referência (autoritária) de futuro para se transformar, ela própria, em fator de incerteza no presente. Bolsas da UE persistem em vermelho nest amanhã de 3ª feira. Em tempo:  e ainda há na mídia demotucana quem, de posse  plena de suas faculdades  mentais, classifique como  'precipitada' a redução de meio ponto na taxa de juro brasileira. O que seria do país se essa lógica ainda fosse governo? (Carta Maior; 3ª feira, 06/09/ 2011)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

NOVO MOTOR DA CRISE

** sindicatos espanhóis convocam manifestação gigante para 6 de setembro contra  introdução do arrocho fiscal na Constituição.
** proposta de Zapatero unifica protestos de operários e indignados.
** iniciativas de arrocho fiscal no mundo são desdobramento da crise de 2008: socorro aos mercados financeiros elevou em 130% as dívidas públicas dos países da OCDE.
**  Banco Central reúne-se nesta 3º feira para decidir o futuro dos juros no Brasil.
** encontro acontece em meio à desaceleração econômica e agravamento do quadro internacional.
BANCOS DA EUROPA TERÃO QUE OBTER  4 TRILHÕES DE EUROS ATÉ 2014 -'A banca do euro precisa ser recapitalizada', alertou Christine Lagarde, diretora-geral do FMI  na reunião conjunta do Fed com BCs de todo o mundo, na semana passada. Esse é o novo motor da crise. Nos próximos três anos, segundo o Financial Times,  a banca da UE terá que obter fundos da ordem de 4 trilhões de euros para garantir a liquidez de suas carteiras. A perspectva desse encontro com a hora da verdade move a fuga de fundos de investimentos que tem reduzido sua exposição na zona do euro elevando o custo de rolagem de passivos de bancos e governos. Falta coordenação e estratégia para deter esse processo. E essa é uma dimensão da crise sistemica: ela dissolve e anula  as próprias instituições ordenadoras da hegemonia financeira na atual etapa do capitalismo. Nesse salve-se quem puder errático e selvagem, alguns países dificilmente escaparão de um imprevisto. A dívida do setor privado espanhol, por exemplo, mediada pelos bancos, equivale a devastadores 170% do PIB. Zapatero tenta deter o tsunami prometendo arrocho fiscal eterno aos mercados, incorporando princípio ortodoxo à Constituição do país. Conseguiu unir operários e indignados contra o governo do PSOE a pouco mais de dois meses das eleições a sua sucessão. (Carta Maior; 2º feira, 29/08/ 2011)

domingo, 21 de agosto de 2011

CAOS CALMO

** Forças leais a Kadafi e grupos rebeldes se enfrentam nas ruas de Tripoli.
** Hamas e Israel amenizam escalada belicosa, após confrontos que mataram 22 pessoas nos últimos dias.
** Espanha tem encalhe de 700 mil imóveis.
** Bancos espanhóis estão soterrados sob estoques imobiliários de 20 bilhões de euros. CAOS CALMO . . .  A semana começa com Obama de férias, Merkel e Sarkozy acuados pela montanha-russa das bolsas que ignoram solenemente medidas, advertências e promessas da dupla (leia matéria do correspondente de Carta Maior em Londres, Marcelo Justo, nesta pag). O cenário da economia mundial assemelha-se cada vez mais ao de um país que perdeu a guerra pela defesa das suas fronteiras; em silencio, populares aguardam a chegada dos blindados nas ruas da capital. É o caos calmo: uma coreografia da normalidade que pode ser desautorizada a qualquer momento. A recessão já se acercou das fronteiras da economia mundial. Não encontrou resistências nos EUA, fiscalmente algemado pelo Tea Party; tampouco na UE de Merkel, Sarkozy e Trichet que juntos não formam um contrapeso político à desordem dos mercados. Olhos e ouvidos da última semana de agosto estão voltados assim para a reunião do Banco Central norte-americano, o Fed, dia 26, sexta-feira. O encontro anual do Federal Reserve em Jackson Hole, em Wyoming, tem um certo apelo simbólico. Foi num encontro semelhante, nesse mesmo lugar, que o presidente do banco, Ben Bernanke anunciou a abertura da segunda comporta de liquidez, QE2, na tentativa de facilitar o financiamento de passivos bancários e pessoais. É pouco provável que Bernanke tenha algo mais a dizer depois de tabelar a taxa de juro norte-americana em 0,25% por dois anos. A palavra está com os políticos mas estes apenas olham as avenidas; resignados, esperam os blindados. (Carta Maior; Domingo, 21/08/ 2011)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

A LIÇÃO DA GRÉCIA

SAÍDA PARA A CRISE MUNDIAL É IMPOR PERDAS AOS BANCOS E RENTISTAS - A decisiva reunião dos 17 países da zone do euro desta 5ª feira não pode adiar mais uma vez as  respostas ao impasse da Grécia. As hesitações e desencontros  anteriores  agravaram as condições de solvência do país. Contribuíram ademais para acelerar  a espiral de pânico  que  incentivou  a fuga dos detentores de títulos de outras dívidas soberanas, consideradas excessivas. Caso da Itália  e, secundariamente, da Espanha, por exemplo, mas também de Portugal e Irlanda.  Roma e Madrid  assumiram planos de ajuste pesados. Ainda assim pagam atualmente  juros recordes para provar que  não são a nova Grécia  e assim   reter e atrair  compradores de sua dívida. O perigo  de uma ruptura  sistêmica na viga fiscal  que sustenta o euro  acendeu as expectativas em relação às decisões desta 5º feira. No vácuo criado pelas incertezas, algum chão firme deve  ser reconhecido, ainda que ele seja inóspito ao cânone ortodoxo rentista: a) a dívida da Grécia que equivale a 150% do PIB  é impagável: a economia teria que crescer a uma taxa média de  8,4% durante 20 anos para que seu superávit primário permitisse reduzir esse endividamento a palatáveis 60%, como querem a UE e o FMI; b) o plano de arrocho recessivo  imposto a Atenas apenas agrava aquilo que se pretende corrigir, a insolvência  de uma economia sem ponto de fuga  cambial, em meio a um mundo em hibernação de crescimento; c) o tratamento dispensado ao país no escopo ortodoxo de arrocho e privatizações equivale a escalpelar uma Nação e exigir que ela  se reerga pelos próprios cabelos; em outras palavras, o manual  ortodoxo  tornou-se demente e perigoso; d) os títulos da dívida grega valem hoje no mercado menos da metade do seu preço de face; o calote, portanto, está precificado: quem colocou  10 euros  na Grécia só terá de volta, na melhor das hipóteses, 4,50 euros; e) a questão na Grécia e no resto do mundi é política: quem pagará o mico?; f) Ângela Merkel  lidera a corrente que preconiza  perdas aos bancos privados que se locupletaram no ciclo de alta da festa grega; g) a banca europeia, ancorada no terrorismo do BCE e nas fugas de investidores das últimas semanas, chantageia com o  caos: defende que o fundo europeu compre a totalidade dos títulos podres pelo valor de face: coisa de pai para filho;  h) por fim, as  agencias de risco sancionam a proposta da banca de forma canina e ameaçam caracterizar como calote qualquer desconto ou alongamento imposto à  dívida soberana grega.  É sobre esse braseiro faiscante  que os integrantes da cúpula de Bruxelas terão que caminhar hoje. Trata-se de encontrar uma brecha no manual ortodoxo e admitir aquela que é a única saída para a  Grécia e para a crise de um modo geral:  o calote de parte dos ativos em mãos de bancos e rentistas que surfaram durante três décadas no ciclo das finanças desreguladas. (Carta Maior; 5º feira 21/07/ 2011)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

TÃO É QUEBRADO MERMO . . .

Historiador diz que só fim do euro salva a União Europeia.
VAGUINALDO MARINHEIRO, da Folha de São Paulo.
ENVIADO ESPECIAL A EDIMBURGO.
O historiador Niall Ferguson, professor da Universidade de Harvard, nos EUA, sempre foi um crítico do uso de uma moeda única na União Europeia (UE).
Em 2000, após a adoção do euro, ele já previa que a moeda não duraria dez anos devido às diferenças fiscais entre os países.
Agora, afirma, a Europa precisa agir rápido: acabar com a união monetária para salvar a União Europeia.
Ferguson deu nesta quarta-feira uma palestra em Edimburgo (Escócia) dentro da TED, conferência sobre tecnologia, entretenimento e design que termina na quinta-feira.
Autor do livro "Civilization: The West and the Rest" (Civilização, o Ocidente e o Resto), falou sobre o declínio do Ocidente, após mais de 500 anos de domínio sobre o resto do mundo.
Depois, conversou com jornalistas sobre a crise econômica na Europa e nos Estados Unidos.
O que a Europa deve fazer para conter a crise da dívida?
Quando a Europa adotou o euro, eu já dizia que não iria funcionar, porque você não pode ter uma união econômica sem união fiscal. Em 2000, escrevi que a moeda não duraria mais de dez anos, porque as enormes diferenças entre os países causaria o colapso do sistema. É o que vemos agora.
A política de empréstimos não está revolvendo o problema. O que fazer?
Há duas opções para a Europa hoje, ou se transformar numa federação, como os Estados Unidos, ou abandonar essa ideia de moeda única. Mas não há vontade política para a federação. Estamos muito próximos de uma crise enorme. Os mercados já se voltaram para países como Itália e Espanha. Não faz sentido manter uma política de moeda única se você questionar a participação desses países.
Não é possível excluir países e salvar a moeda?
Eu acho que é preciso acabar com a moeda única para salvar a UE. Não há outra solução. A Grécia não vai ser competitiva com a mesma política monetária da Alemanha. Portugal também não. Há seis meses, ainda era possível manter o euro e excluir da união monetária um país ou outro. Mas essa solução foi sendo adiada e hoje não é mais uma opção.
Por que a Europa está demorando para tomar uma atitude mais drástica?
Porque as pessoas em Bruxelas (sede da UE) e em Frankfurt (sede do Banco Central Europeu) continuam a negar a realidade.
E o problema do déficit nos Estados Unidos?
Essa discussão sobre calote é estúpida. Entramos num território muito perigoso quando encontramos na mesma manchete de jornal os termos EUA e calote. Mesmo com o enorme problema fiscal dos EUA, não devemos falar de calote nesse momento. É incrível que os republicanos tenham ficado tão doutrinários que não queiram nem sequer discutir o fim de buracos no sistema tributário e nas despesas do país para reduzir o déficit. Para quem não tem um cérebro histérico, essa ideia de calote nos Estados Unidos é choca.

domingo, 10 de julho de 2011

SOCIALISMO EUROPEU  TENTA  RENASCER NA ESPANHA - "Há quem duvide que os votos sejam mais importantes que os mercados. Gente que acredita que a política perdeu a batalha. É preciso retomar o discurso por aí. É preciso dizer que os problemas atuais tem sua origem em decisões que foram tomadas na política e devem ser corrigidos por meio da ação política. Os problemas do mundo são políticos. E é a política que deve romper  a lógica de privilégios para poucos e perdas para todos". As palavras de Alfredo Rubalcaba, ex-ministro do Interior de José Luis Zapatero,  no lançamento de sua candidatura às eleições de março de 2012 pelo PSOE marcam um divisor no esfarelamento da socialdemocracia européia diante da crise que bate forte na UE, mas sobretudo na Espanha, Portugal, Grécia, Irlanda.  Desgastado por decisões econômicas e sociais que mergulharam seu governo na indiferenciação do receituário neoliberal e acossado pelas maiores taxas de desemprego da Europa, motivo de forte descrédito junto à juventude 'indignada', o primeiro-ministro Zapatero tenta a volta por cima numa sucessão ameaçada pela desilusão da esquerda e pelos avanços regionais da direita. O  nome de Rubalcaba foi consagrado na reunião do PSOE deste sábado montada para sinalizar uma espécie de retorno aos princípios dos socialistas espanhóis: Estado, democracia e desenvolvimento social foram os eixos norteadores dos compromissos resgatados.  "A banca pode esperar, a juventude não"."Devemos destinar uma parte dos lucros dos bancos para a criação de empregos". "Recuperar as finanças públicas com   imposto sobre a herança". "Não ceder às privatizações, sobretudo a privatização do sistema de saúde" . "Criar um imposto sobre transações financeiras". Essas foram algumas das bandeiras da tradição socialdemocrata européia ressuscitadas no pontapé  pela sucessão de Zapatero. A  guinada à esquerda do PSOE tonou-se o assunto do dia da agenda política espanhola. Ela contrasta vivamente com decisões e discursos de outros partidos socialistas, casos da Grécia e de Portugal, mas do próprio governo Zapatero diante da crise. A 'virada' do PSOE pode sinalizar um ponto de inflexão na hegemonia da agenda conservadora na UE, refletida na desilusão crescente dos 'indignados' com a esquerda e em sucessivas vitórias eleitorais  da direita. A União Européia tornou-se o epicentro da crise mundial. A rendição socialdemocrata tranformou o continente no principal laboratório de ressurgências mórbidas  de práticas e princípios que origiram o maior desastre capitalista desde 1929.  A disputa pela sucessão de Zapatero  pode mudar esse roteiro de submissão aos mercados. (Carta Maior; Domingo, 10/07/ 2011)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

SALAZAR, O RETORNO?

Em Portugal, o governo direitista da coalizão PSD/CDS-PP, elogiado pela ortodoxia por implantar um programa de arrocho que vai além do que exigiram os credores e o FMI, regalou os mercados oferecendo-lhes três mimos extras: a privatização da RTP1, a tevê pública portuguesa; a extinção da pasta do Trabalho e o rebaixamento da Cultura. As duas áreas desaparecem enquanto ministérios para ficarem subordinadas a outras esferas de governo. Arrocho fiscal, ostracismo do trabalho e esfarelamento da cultura; não poderia haver maior simbolismo da regressividade em marcha na UE. Epicentro da crise financeira mundial, o continente aderna sob o comando indiferenciado da obtusidade conservadora e da desintegração socialdemocrata. (Carta Maior; 5º feira, 07/07/ 2011)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

LIXO

UNIÃO EUROPÉIA EM TRANSEPAPÉIS DA DÍVIDA DE PORTUGAL SÃO REBAIXADOS AO NÍVEL  JUNK:   A agencia de classificação de risco  Moody's  anunciou  hoje que reduziu a classificação dos títulos da dívida externa portuguesa. Significa que esses papéis vão queimar nas mãos de investidores. Passaram a ser cotados  na faixa de 'junk', o que em bom português daqui e de Portugal expressa justamente o que são: 'lixo'. Queimam nas mãos do mercado mais do que já queimavam antes da posse do governo direitista que sucedeu ao Partido Socialista. Os novos governantes portugueses assumiram com o apetite manifesto de atirar o país no mais brutal ciclo de regressividade ortodoxa, com cortes de gastos e elevação de impostos e demais oferendas ao Deus mercado, em troca de um empréstimo de 78 bi de euros em três anos. A credibilidade dos próprios deuses na sua bíblia, porém, como se vê é sofrível.  E não é só no caso de Portugal que os mercados agora dão sinais cada vez mais explícitos de não acreditar no jogo de faz de conta embutido em acordos leoninos, quase impossíveis, de redução do déficit e da dívida, impostos pela União Européia (UE) e o FMI.Os bancos alemães e franceses, por exemplo, aceitam prolongar os prazos de pagamento da dívida contraída pela Grécia  desde que as agências de risco não façam o que já acabaram  de fazer com Portugal: baixem a avaliação de risco do país. Mas é exatamente o que a Standard & Poor"s (S&P) --escaldada pela desmoralização após a cumplicidade com malfeitorias na bolha imobiliária dos EUA-- está dizendo que fará em breve: classificar o prolongamento dos créditos a Grécia como calote, amigável, mas calote. Não se trata apenas de um fetichismo. É preciso lembrar que a UE é um só mercado e os capitais tem absoluta mobilidade. Um correntista grego, ou português, temendo dificuldades com os bancos do seu país pode, por exemplo, transferir seus depósitos para a Alemanha ou França livremente. Ou seja, a fuga de capitais anda com botas de sete léguas na crise de um continente em transe que se tornou o epicentro da crise dos mercados financeiros desregulados. (Carta Maior; 4º feira, 06/07/ 2011)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

POVOS X DÍVIDA


Grécia e Brasil: povos x dívida.
Tanto no Brasil como na Grécia, faz-se necessária uma ampla e profunda auditoria sobre esta questionável dívida, para se verificar de onde ela veio e a quem beneficia. No Brasil, propus a CPI da Dívida Pública, recentemente concluída na Câmara dos Deputados, e que mostrou diversos e graves indícios de ilegalidades.
Por Ivan Valente é líder do PSOL e membro da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados.
A grande imprensa internacional tem repetido uma grande mentira: de que a Grécia tem de, obrigatoriamente, aceitar as imposições dos rentistas - representados pelo FMI e União Européia - tais como cortes de gastos sociais, aumento de tributos e outras medidas neoliberais, como as privatizações. Tais medidas já têm causado grave crise social: desemprego, recessão e pobreza.
Este pacote nefasto, aprovado hoje na Grécia, é sempre justificado pela necessidade de acesso a novos empréstimos, para pagar a dívida anterior. A grande imprensa diz que a dívida grega é inquestionável, e deve ser paga, sem qualquer pergunta. Diz-se que a Grécia tem de pedir ajuda ao FMI e União Européia, porque o país gastaria muito com funcionários públicos e com a garantia dos direitos da população.
Nada se fala sobre a culpa dos bancos na crise da dívida, omitindo-se que eles incentivaram a Grécia a tomar empréstimos por meio de derivativos ilegais. Nada se fala também sobre o salvamento de bancos falidos, que também geraram dívida ilegítima. A grande imprensa também silencia sobre a grande redução, nas últimas décadas, do imposto de renda para as pessoas mais ricas, o que também teve papel importante na geração deste endividamento.
Também não se fala da manipulação do chamado “risco-país” pelos investidores e suas “agências de risco”, que levou os juros às alturas, tornando impossível para a Grécia refinanciar a dívida nos mercados, empurrando o país para este acordo com o FMI. O que ocorre na Grécia não é uma negociação, mas uma pressão feita por um oligopólio de banqueiros, representados pelo FMI e União Européia, o que representa claramente um desequilíbrio entre as partes, ilegal segundo princípios gerais do Direito.
Enquanto isso, no Brasil, o governo argumenta que a situação estaria completamente diferente, com a dívida controlada e sem as imposições do FMI. Porém, o governo brasileiro pratica as mesmas medidas propostas pelo Fundo e aprovadas hoje na Grécia: severos cortes de gastos sociais (que chegaram a R$ 50 bilhões), privatizações (como a dos aeroportos) e reformas neoliberais que tiram direitos dos trabalhadores, tais como a Previdência e Tributária, com a redução da contribuição previdenciária patronal sobre a folha e o aumento do tempo necessário para a aposentadoria, principalmente das mulheres.
Na realidade, a única diferença entre o Brasil e a Grécia é que lá o povo foi à guerra nas ruas contra estas medidas nefastas.
Tanto no Brasil como na Grécia, faz-se necessária uma ampla e profunda auditoria sobre esta questionável dívida, para se verificar de onde ela veio e a quem beneficia. No Brasil, propus a CPI da Dívida Pública, recentemente concluída na Câmara dos Deputados, e que mostrou diversos e graves indícios de ilegalidades da dívida, tais como juros sobre juros, falta de documentos e informações. A CPI constatou até mesmo a realização de reuniões do Banco Central com supostos “analistas independentes” – que, na realidade, eram principalmente rentistas – para a estimativa de variáveis como inflação e juros, que depois são utilizadas pelo COPOM na definição da Taxa Selic, beneficiando os próprios rentistas.
Recentemente, o Equador deu uma grande lição aos governos dos países endividados, tendo feito uma ampla auditoria da dívida, com participação da sociedade, e que provou várias ilegalidades no endividamento. Como resultado, o governo equatoriano anulou 70% da dívida com os bancos privados internacionais, permitindo grande aumento nos gastos sociais.
A experiência equatoriana foi um importante precedente, e prova que é possível enfrentar os "mercados", mostrando que, diante de tanta exploração da classe trabalhadora pela burguesia financeira, existe uma alternativa soberana e que garanta os direitos dos povos, e não dos banqueiros.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

GRÉCIA . . .

MERCADOS ESTÃO OTIMISTAS, MAS GREVE  GERAL ABALA O APOIO AO PACOTE DE ARROCHO  EM VOTAÇÃO NO PARLAMENTO - O que parecia ser um passeio tornou-se uma incerteza. Depois de obter um voto de confiança do Parlamento na semana passada para negociar um duro ajuste com os credores, que custará sacrifícios devastadores ao país e tem a oposição de  75% da sociedade, o governo Papandreu dava sinais de crescente tensão. Os mercados financeiros do mundo se dizem otimistas, mas o fato é que Atenas encontra-se paralisada pela greve geral que atinge todos os setores da economia e dos serviços. Apenas o metrô mantem seu funcionamento a pedido do comando grevista para  facilitar o transporte de manifestantes que se concentram em torno do Parlamento e também cercaram portos, paralisando assim a Grécia por ar, mar e terra. Rumores de defecções na base do governo ameaçam a maioria oficial que votará nesta 4º feira o apoio ao plano negociado com o FMI e a Comissão Européia. Diante da incerteza crescente em suas fileiras e da abrangência inesperada da quarta greve geral este ano, Papandreu iniciou a sessão parlamentar desta 3º feira com um discurso patético para um governo que abriu guerra contra a sociedade e se dispõe a colocar de joelhos a Nação: 'Peço que escutem sua alma, sua conciência patriótica, seu voto é essencial para que a Grécia se ponha de pé'.
(Carta Maior; 4º feira, 29/06/ 2011)

terça-feira, 28 de junho de 2011

GRECIA

SEMANA DECISIVA - A Acrópole, em Atenas, começou a semana recoberta de faixas convocando a greve geral de 48 horas marcada para esta terça e quarta-feira. A intenção dos sindicatos, movimentos e partidos de esquerda é que a paralisação se estenda por todos os setores, inclusive o de energia elétrica, cuja privatização é exigida pelos credores em troca de mais um empréstimo mitigatório de 12 bi de euros. A greve geral antecipa a reação popular à sessão do Parlamento, marcada para 5º feira --dia 30 -- quando será votado o plano de arrocho fiscal negociado pelo governo Papandreu em Bruxelas, com o FMI e a Comissão Européia. Os bancos estão otimistas. Apostam que as bases da 'travessia' grega estão pavimentadas. Avaliam que se tudo der certo, o 'modelo grego' poderá, inclusive, ser replicado em outras economias colapsadas da periferia européia. O acordo inclui requintes como a exigência de que o ajuste seja votado pelo congresso para ganhar ares de legitimidade. Pesquisas divulgadas na semana passada indicam que 75% da população é contra o pacote que inclui cortes de gastos em serviços essenciais, privatizações, a demissão de 150 mil funcionários públicos e aumentos de impostos, com redução da faixa de isentos. Comentário da secretária do Partido Comunista grego, Aleka Papariga: "O ultimato da UE não é dirigido ao governo grego, que já o aceitou há muito, mas sim ao povo grego. O que ele diz é: abaixem suas cabeças". O movimento grevista vai medir a capacidade que tem um povo de manter a espinha dorsal erecta, a revelia do governo e da maioria dos partidos. A ver. (Carta Maior; 3º feira, 28/06/ 2011)