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domingo, 21 de agosto de 2011

METÁSTASE

CARLOS HEITOR CONY
A imagem é mais do que sovada: de tanta corrupção que funciona como um câncer no organismo da nação, penetramos naquele estágio quase terminal da metástase. Não é um órgão, o baço, o fígado, o pulmão, o seio ou a pele que contraíram o tumor maligno: ele se espalhou e sua cura é cada vez mais problemática -se é que há cura radical para isso.
Dona Dilma deu azar. Geralmente no período que é considerado como a lua de mel do governante sempre aparecem problemas, alguns graves, mas a corrupção só começa a fazer estragos letais da metade para o fim do mandato.
Bem preparada, movida por ótimas intenções e lubrificada por apoios consideráveis, Dilma possui todas as condições para executar o seu programa de governo, alguns dos quais estão se iniciando, mas de forma confusa. Numa reunião com a cúpula do governo, propõe e recebe propostas para erradicar a miséria, mas o telefone toca: alguém a avisa que o secretário-executivo de tal ministério está sendo preso pela polícia por alta corrupção. A ela só compete, inicialmente, pedir que não usem algemas, até que tudo seja apurado
A erradicação da miséria no país se transforma na erradicação das algemas. A reunião acaba brutalmente, cada qual vai examinar a própria consciência para ver se poderá ser o próximo.
A mídia e a internet estão congestionadas de mensagens e protestos contra a calamidade. Mas é pouco. Pensando nisso, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) está propondo marchas populares nas principais cidades, fazendo a voz das ruas chegar aos escalões responsáveis. Foi assim no caso do impeachment de Collor.
E foi justamente a ABI, dirigida na época por Barbosa Lima Sobrinho, ao lado de Lavenère-Wanderley, então presidente da OAB, que botaram os caras-pintadas nas ruas. Todos sabemos o resultado.

domingo, 14 de novembro de 2010

O VERBO E A VERBA

CARLOS HEITOR CONY
O bom senso recomendaria que eu comentasse a eleição passada. Mas quase todos os cronistas escreveram sobre o assunto, com mais entusiasmo e mais autoridade do que eu.
Sendo assim, vou falar de um caso que não interessa a ninguém, nem mesmo a mim, mas que deve ter alguma coisa a ver com a situação que atravessamos.
Um sujeito vende livros usados no Largo do Machado. Não sei onde ele arranja seu estoque, que é fantasticamente variado, pois tem romances de Clarice Lispector em edições antigas e vagabundas, livros de medicina legal, catálogos de telefone de Alagoas e um guia turístico de Sergipe, até mesmo a coleção completa de uma enciclopédia espanhola.
Sempre que passo por ele recebo o tratamento de "doutor" e a oferta de uma novidade, que não compro, mas examino com interesse. Semana passada, ele me ofereceu um catatau de 600 páginas, intitulado "Por que perdi a eleição?"
Era de um tal Ataliba Pessoa (inventei este nome para não criar caso com o personagem verdadeiro), candidato a deputado estadual em Coroa Grande, acho que no Estado do Rio. Jurisconsulto, poeta, historiador, conicultor (nenhuma relação comigo, simplesmente um criador de coelhos), e nas horas vagas, maçom de elevado grau numa loja do Grande Oriente.
Ele perdeu a eleição e desabafa os podres da campanha com a mesma sinceridade com que se elogia. Faz um histórico dos problemas nacionais e internacionais, detendo-se, sobretudo na problemática situação de seu município.
Teve briga séria com um delegado local -que ele chama de "Satanás do litoral fluminense"- e defende-se com unhas e dentes de um caso de defloramento que lhe foi atribuído pela família da vítima.
E conclui que perdeu a eleição não por falta de verbo, mas de verba.

domingo, 24 de outubro de 2010

QUE PENA !

CARLOS HEITOR CONY.
Não dá para entender. Montado em 81% de aprovação popular, com sua candidata Dilma abrindo vantagem nas pesquisas para a decisão do segundo turno, Lula abdicou do seu dever de presidente de todos os brasileiros.
E como eficiente cabo eleitoral, com pós-doutorado em matéria de eleições, indignou-se com o incidente (que ele considerou uma farsa) de Campo Grande, quando petistas que nada tinham a fazer numa passeata do adversário, provocaram um tumulto no qual feriram, parece de que levemente, o candidato contrário.
Quando Dilma começou a descer nas pesquisas (que subiram logo depois), ela prometeu apelar para a "militância", famosa instituição do PT, uma parcela felizmente ainda pequena do partido, que se considera a tropa de elite para situações de emergência.
Por ora, nada que lembre as SS na Alemanha de Hitler e as esquadras fascistas na Itália de Mussolini. Pau para toda a obra, em momentos críticos do partido, esse tipo de força (que é conhecida como "militância") foi convocado por Dilma quando ela se deparou com a necessidade de enfrentar um novo turno.
Militância que não é fato novo, os dicionários ensinam que a palavra vem de "miles - milites", nominativo e genitivo que significam "soldado". E gerou outra palavra, "militar", que todo mundo sabe do que se trata, não faz muito tempo tivemos um regime em que a militância em todos os níveis era praticada por militares profissionais.
Não estou insinuando um paralelo, mas lembrando certas coincidências. O que salva o PT é que seu chefe máximo não tem vocação para tirano. Admiro Lula e lamento que ele esteja saindo da Presidência da República, em que se deu tão bem, para, embora vitorioso, vestir a carne, a pele e o grito de um irritado cabo eleitoral.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

QUEM ?

CARLOS HEITOR CONY.
Desconfio de que já contei esta história em crônica muito antiga, mas de forma incompleta. Agora, com a proximidade das eleições, acredito que ela deva ser relembrada.
O escritor Álvaro Lins foi editorialista do "Correio da Manhã", chefe da Casa Civil na Presidência de JK e embaixador em Portugal, onde, aliás, criou um caso internacional dando asilo a um adversário do regime salazarista. Muitos o consideram o crítico literário mais completo do Brasil. Sua entrada na Academia Brasileira de Letras foi uma noite memorável, pois chegou atrasado duas horas para a cerimônia.
Em Lisboa, ele decidiu visitar a Suíça, sendo ali recebido com todas as honras. Na manhã do seu primeiro dia em Genebra, depois de ler os jornais locais, deu um giro pela cidade em companhia de um funcionário do governo. Andou pelas ruas, de carro e a pé.
Em dado momento, comentou: "Li nos jornais que hoje é dia de eleições gerais. Mas não estou vendo nenhum movimento especial, nenhuma fila, nenhum posto eleitoral...". O funcionário explicou: "Senhor embaixador, hoje, realmente, é dia de eleições gerais, e elas estão se processando normalmente". "Mas como? Não vejo nenhum movimento... nenhuma fila... parece um dia qualquer...".
"Não precisamos de filas. Cada quarteirão tem uma urna em local determinado. O eleitor chega e deposita sua cédula. À meia-noite, as urnas são recolhidas e, no dia seguinte, o resultado é proclamado."
Álvaro Lins ouviu, abaixou a cabeça, pensou um pouco e perguntou: "Mas digamos... um eleitor pode depositar na mesma urna ou em outras muitas cédulas de um só candidato, dez, vinte... cem... e aí como é que fica?"
Foi a vez de o funcionário suíço ficar espantado:
"Mas senhor embaixador, quem faria isso?".

terça-feira, 28 de setembro de 2010

ENFIM, A SOLUÇÃO

CARLOS HEITOR CONY
Não lhe guardei o nome, o número e o partido. Guardei apenas a cara, uma cara subdesenvolvida. Poderia ser a de um figurante anônimo num filme do Cinema Novo. Durou poucos segundos na tela, mas houve tempo para dar o seu recado: "Eu sou a solução!"
Como não citou nenhum problema, entendi plenamente o seu recado. É dele que precisamos. Os demais candidatos se limitam a explicitar nossas mazelas, as valas negras, o corredor dos hospitais cheios de macas com doentes, escolas em frangalhos, queimadas no interior e tiroteios nas cidades, enfim, a nossa realidade. Realidade que é como o pão daquela prece cristã: a violência de cada dia.
Achei que a mensagem do candidato era positiva. Ele não afirmou que traria a solução para os problemas, mas que era, em si mesmo, a solução. Tinha nome, número, partido, provavelmente teria um CPF, endereço sabido, estado civil, tudo o que forma um cidadão em carne e osso.
O mal da democracia representativa é que ela se torna abstrata demais, conceitual. É um tesouro escondido que ninguém consegue achar. Por exemplo: acabar com a corrupção, a miséria, baixar os juros, criar empregos para todos.
O que precisamos não é de soluções, mas de "solução" pura e simples. À medida que as soluções são anunciadas, elas deixam de ser soluções e passam a ser problemas para todos, principalmente para aqueles que as propõem.
Outro dia, encontrei no largo da Carioca um sujeito de túnica branca e bordão em forma de cruz. Gritava para o mundo: "Eu sou a porta". Pensei em desdenhá-lo, mas parei para ouvir o que ele tinha a dizer. Ele só repetia que era porta.
No fundo, era o anúncio para o candidato que resolveu a questão, dizendo que era a solução, provavelmente atrás da porta.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O TERCEIRO MANDATO

CARLOS HEITOR CONY. 
A Constituição de 1988 proíbe o terceiro mandato presidencial, aliás, proibia também o segundo, mas os interessados descolaram a emenda para reeleger um tucano.
Em princípio, acho essa proibição um erro. Se determinado presidente deu certo, tem incontestável aprovação do eleitorado, apresenta bons índices de governo e garanta a democracia no país, poderia ser reeleito tantas vezes quanto durasse a sua eficiência e a sua moral.
Acontece que nesta atual campanha, com a disparada das intenções de voto para Dilma, ficou escancarada a participação legal e eleitoral de Lula nos comícios e na TV. A vantagem de sua candidata tenderá a subir a menos que ocorra um fato novo que beneficie o contendor ou bagunce o coreto montado pelo PT.
De uma forma ou de outra, por maiores e incontestáveis que sejam as qualidades de Dilma, inclusive o de sua independência política e administrativa, ela representará e atuará como um prolongamento natural dos oito anos de Lula. É evidente que o futuro ex-presidente não se imiscuirá no dia a dia dos despachos e medidas de rotina, mas o núcleo do novo governo terá a sua influência, em grau que as circunstâncias determinarão.
Todos os presidentes tiveram e terão seus conselheiros e assessores, pessoas graduadas que atuam em momentos de crise mais séria. Mas o caso da dupla Lula-Dilma tem tudo para ser diferente dos demais. Ela cresce nas pesquisas à medida que promete continuar rigorosamente o governo do qual participou.
E o grosso do eleitorado, que está dando a Lula uma aprovação compacta, vendo os dois vestidos da mesma maneira, com o mesmo boné vermelho e, sobretudo, dizendo o que estão dizendo, certamente dará a vitória a Dilma no primeiro turno.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A GRANDE BRIGA

CARLOS HEITOR CONY.
Garantem que o futuro a Deus pertence. É o caso de se perguntar a quem pertence o presente. Passado, bem, o passado passou e não pertenceu nem a Deus nem ao Diabo, mas a todos: Deus, Diabo e aqueles que nos antecederam na faina do viver.
Mas fiquemos no presente, que nos interessa mais de perto. Que tudo podia estar pior, podia. Além dos terremotos, guerras, enchentes, atentados e desgraças individuais, sempre sobra alguma coisa no planeta e na vida de muitos que tocam o barco para frente.
Para os crentes das diversas religiões, Deus é todo-poderoso, justo e misericordioso. Seus desígnios governam o mundo e a vida de cada um. Não cai um fio de nosso cabelo sem a sua anuência, mas os carecas sempre existiram e deverão existir.
Já o Diabo é o Pai-das-Trevas, o Maligno, o Coisa-Ruim, segundo Guimarães Rosa, um entendido na matéria.
Qual dos dois pode ser responsabilizado pelos nossos abrolhos pessoais e coletivos? A Deus se pode invocar, apelando para a sua misericórdia e justiça. Ao Diabo muita gente também invoca, mas ao demônio ninguém precisa invocar, embora muita gente o faça em proveito próprio, para atrapalhar o caminho dos desafetos.
A longo prazo, acredita-se na vitória de Deus, talvez no jogo em si, talvez na prorrogação, talvez na decisão por pênaltis. O fato é que, na altura do campeonato em que estamos, a coisa está mais para o empate.
É bem verdade que vem eleição por aí. Todos os candidatos garantem que estão a favor de Deus, mas há muito perna de pau em campo, e só no apito final ficaremos sabendo quem venceu.
Independentemente do resultado, nem adianta torcer por um ou por outro. Se o futuro pertence realmente a Deus, certamente o Diabo domina o presente, para maior emoção da partida.

sábado, 14 de agosto de 2010

DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS SEM FINS

CARLOS HEITOR CONY .
Sou contra o hábil cronista e contra o paciente pesquisador. Sobretudo, contra o vibrante jornalista.
SOU CONTRA o desenvolvimento autossustentável e contra a insustentável leveza do ser. Sou contra o esgotamento dos prazos legais e contra as objurgatórias indeclináveis. Sou contra o fomento da agricultura e contra o colóquio de física nuclear. Contra o abastardamento de nossas tradições, contra o dever inelutável de consciência e contra os soluços da espiral inflacionária.
Sou contra a transparência das decisões ministeriais e contra os legítimos reclamos do operariado. Sou contra os artefatos de fabricação caseira e contra as armas de uso exclusivo das Forças Armadas.
Sou contra a mais completa apuração das responsabilidades e contra a dilatação do perfil da dívida externa. Contra a camada de ozônio, contra a injusta concentração de renda e contra as colocações politicamente corretas.
Sou contra o quadro de nossas importações e contra o arbítrio das decisões apressadas.
Sou contra o apaziguamento dos espíritos e contra as inalienáveis prerrogativas da pessoa humana. Contra os lídimos representantes das classes produtoras, contra os autênticos interesses de nossa soberania e contra os sagrados postulados da civilização cristã.
Sou contra a exata compreensão dos meus direitos de cidadão e contra o impostergável dever de solidariedade. Sou contra as injunções de ordem econômico-social e contra a voz da consciência, contra o tato político, contra o gosto da glória, contra o cheiro de santidade e contra os pagamentos à vista.
Contra o arbítrio das decisões apressadas.
Sou contra o ovo de Colombo, a bacia de Pilatos, o tendão de Aquiles, a espada de Dâmocles, os gansos do Capitólio, as asas de Ícaro, o estalo de Vieira, a caixa de Pandora (nos tempos de Machado de Assis não se dizia "caixa", mas "boceta de Pandora") e contra a trompa de Eustáquio.
Sou contra o bico de Bunsen, o tonel de Diógenes, o teorema de Pitágoras, o disco de Newton, o gol do Gighia, o banho de Arquimedes, a casta Suzana, as rosas de Malherbe e o corvo de Poe.
Sou contra a retirada da Laguna e os canhões de Navarone, contra as ilhas Sandwich, contra o estreito de Bósforo, o farol de Alexandria e o colosso de Rodes. Contra o templo de Diana e contra o desfiladeiro de Termópilas, contra o herói de Maratona e, acima de tudo, contra o quartel do Abrantes.
Sou contra a nuvem de Juno e a maldição de Montezuma, contra a vitória de Pirro, contra a casa da mãe Joana, contra a Maria vai com as outras, contra as vilas do Diogo, contra a invasão da Normandia, contra o túnel do tempo e contra a dança das horas.
Sou contra a Lei de Murphy e contra a matrona de Éfeso, contra as Guerras de Peloponeso, contra a paz de Campofórmio, contra a batalha de Itararé, contra a dieta de Worms e contra o Édito de Nantes, contra o Tratado de Tordesilhas, sobretudo contra a vingança do Zorro, contra o voto de Minerva e contra a besta do Apocalipse.
Sou contra a ampla pesquisa ao eleitorado e contra a arregimentação de consciências. Sou contra o imediato socorro às regiões desamparadas e contra o mais fino ornamento de nossa sociedade. Sou contra o transplante de ideias alienígenas e contra os óbices que entravam o nosso desenvolvimento. Contra o lúcido ensaísta e contra o rigoroso crítico teatral. Contra o inspirado poeta e contra o agudo filósofo. Contra o hábil cronista e contra o paciente pesquisador. Sobretudo, contra o vibrante jornalista.
Sou contra os valores agregados, o veredicto das urnas, a paz da família brasileira, os dois pontos para mais ou para menos das pesquisas eleitorais, sou contra todos aqueles que dispensam apresentações, contra os vasos comunicantes e, principalmente, contra as mulheres que fazem os poetas sofrerem, os governantes roubarem, os comerciantes falirem, os filósofos meditarem e os pecadores pecarem.
P.S.: Esta crônica é baseada em texto antigo e já publicado em livro que a editora Leya acaba de lançar. Funciona como uma declaração de princípios sem fins, fala do trono de um plebeu que nem possui um reino para trocar por um cavalo.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A PRIMEIRA PEDRA

CARLOS HEITOR CONY
A questão não chega a ser política, mas religiosa, embora tudo na vida tenha seu lado político ou religioso. No século 21, é espantoso que um fundamentalismo desse tipo ainda seja exercido em nível estrutural de uma sociedade. Contudo, não se pode acrescentar o episódio ao saco de maldades do atual presidente iraniano, que se destaca como vilão da vez no panorama mundial.
Matar a mulher que comete adultério fazia parte da moral judaica muito antes de haver Irã e outros países islâmicos. Moisés antecedeu de alguns séculos o profeta Maomé.
Temos o conhecido episódio do Cristo com a adúltera. Os judeus levaram-lhe uma mulher que traíra o marido e quiseram saber se deviam apedrejá-la, como mandava a lei naquele tempo. A resposta ficou na história e entrou na linguagem comum do homem comum: Um samba gravado por Orlando Silva fez parte de antigo Carnaval e repete a mesma sentença.
"Quem nunca pecou atire a primeira pedra"
Quanto ao asilo que Lula ofereceu à pecadora, se de um lado revela a inesperada piedade do nosso presidente, de outro não deixa de ser uma intromissão num país ainda soberano, apesar das ameaças que o cercam.
Se fosse um assunto estritamente político, o asilo seria humanitário. Mas o problema é basicamente religioso, entranhado na cultura de sociedades fundamentalistas, como a do Irã.
Uma coisa é querer impor pelas armas e por invasões os princípios democráticos a países que vivem em ditaduras continuadas e nefastas. Outra é querer exportar uma cultura baseada em valores morais.
Lamenta-se e condena-se o episódio da iraniana pecadora, mas o castigo que lhe querem dar é selvagem e mais repugnante do que qualquer delito à lei de qualquer religião.

terça-feira, 29 de junho de 2010

VIDROS E VIDRAÇAS

CARLOS HEITOR CONY
Em um de seus filmes mais populares, Carlitos é vidraceiro e adota um menino de rua. Saem os dois para trabalhar, o garoto quebra o vidro de uma janela e foge, Carlitos aparece como por acaso, o dono da casa o chama, combinam o serviço, e o dia está ganho. Na hora do almoço, tanto o vidraceiro como o seu ajudante têm o que comer.
Lembro a cena porque estou começando a desconfiar da frequência com que os vírus eletrônicos estão fazendo estragos entre os usuários da internet.
Por acaso ou não, justamente em épocas festivas, quando todos se comunicam com mais intensidade, os vírus invadem nossas telinhas, bloqueando-as e obrigando-nos a chamar técnicos e curiosos para reinstalar programas cada vez mais complicados.
Um simples consumidor de e-mails não saberia produzir um vírus e infectar o equipamento de seus correspondentes virtuais. Os vírus têm uma hierarquia. Uns são mais devastadores, outros, mais difíceis de serem neutralizados.
Se quisesse sacanear alguém eletronicamente, não saberia criar um vírus. É possível que tenha transmitido sem saber esses micróbios de tratamento especializado.
Acredito que eles sejam produzidos por gente que domina a linguagem e o tipo de correio sofisticado que é a internet. E que muitos desses maníacos virtuais se ofereçam para excluir o câncer eletrônico, a metástase que pode destruir definitivamente nossos computadores.
Um entendido fabrica um vírus e o espalha entre conhecidos. Espera o telefonema pedindo ajuda. Cobra a visita e a instalação dos novos programas.
Como nos livrar dessa indústria artesanal? É evidente que não será colocando a polícia no meio. Mas apelando para o desenvolvimento tecnológico, que criará vacinas e tratamentos contra a peste que nos ameaça.

domingo, 27 de junho de 2010

VERDADES HISTÓRICAS

CARLOS HEITOR CONY
No final dos anos 60, Zé Kéti fez a marchinha que ficou sendo, senão a última, uma das últimas expressões deste gênero carnavalesco. Inspirando-se à sua maneira nos personagens clássicos da "commedia dell'arte", ele inverteu o triângulo amoroso formado pelo pierrô, pelo arlequim e pela colombina.
Como se sabe, o Pierrô é o traído, a face branca de alvaiade banhada de luar, chorando pelo amor da Colombina. O Arlequim, servidor de todos os senhores, é o alegre aproveitador da desdita do Pierrô.
Como disse Noel Rosa, "um grande amor tem sempre um triste fim, com o Pierrô aconteceu assim, levando este grande chute, foi tomar vermute com amendoim".
Zé Kéti inverteu o triângulo. Mais de mil palhaços no salão, o Arlequim é quem está chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão.
A crítica desceu o malho no compositor. Então ele não sabia que o Arlequim é quem ri e o Pierrô é quem chora? Zé Kéti deu uma resposta genial: "A letra é minha e nela quem manda sou eu". E assim o Arlequim chora até hoje pelo amor da Colombina.
Volta e meia, um cronista de qualquer quilate pode cometer um atentado contra aquilo que o Ruy Castro chama de "rigor histórico". Competente biógrafo de pessoas, como Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmem Miranda, e de movimentos coletivos como a bossa nova e a cultura de Ipanema, ele se esmera em apurar tudo direitinho. Nunca me perdoou por ter alterado a verdade histórica de um célebre Fla x Flu, a famosa partida das "bolas na Lagoa".
Num livrinho sobre o assunto, dei um resultado que não agradou ao Ruy. Ele me pediu que corrigisse o erro na segunda edição. Não o fiz. Mantive a minha versão. Tal como aconteceu com o Zé Kéti, invoco a meu favor o direito de mandar naquilo que escrevo.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

PERNAR DE PAU E CABEÇAS DE BAGRE

CARLOS HEITOR CONY
Considero Garrincha e Pelé jogadores excessivamente individuais, sem noção de homogeneidade do jogo.
Tempos atrás qualifiquei Garrincha e Pelé, principalmente Garrincha, como praticantes de um futebol provinciano, de pelada suburbana. Se tivesse metido o malho nas instituições pátrias ou no Verbo Unigênito teria ofendido a menos gente.
Não me preocuparia com isso, não fosse a opinião de alguns amigos a quem muito quero e que passaram a rosnar bons dias cavernosos, de cabeça baixa, sem o calor gostoso e habitual.
Não vou revogar o que disse. Considero Garrincha e Pelé jogadores excessivamente individuais, sem noção de homogeneidade do jogo que é, acima de tudo, associação.
Considero Didi o maior jogador que o futebol brasileiro produziu. Se seu nome não constar na enciclopédia britânica, ela não valerá nada.
Mas além de enciclopédias, há o futebol. E nele, pela observação de alguns anos, quando atravessava a baía para ver Carlyle fazer gol de bicicleta no Canto do Rio ou quando despencava com a arquibancada de Bariri -percebi o que qualquer um perceberia: as duas vertentes do futebol nacional.
Uma, de raízes populares, onde o indivíduo se sobrepõe ao conjunto; outra, onde o indivíduo se sacrifica, e muitas vezes chega à mutilação, em favor do conjunto. Nasci nas proximidades do campo do América, e vi Carola driblar defesas inteiras, voltar ao meio de campo, driblar o time contrário todo.
Vi Tim, Elba de Pádua Lima no civil, driblar toda a defesa da seleção argentina e dar um passe para Hercules digno de antologia. Tomás Soares da Silva, celebrado e famoso como Zizinho, empolgava essa mesma parcela de torcedores que mais tarde dedicaria a Garrincha seu generoso incenso.
Não se pode qualificar de prejudicial o jogo de Garrincha-Pelé. Seria mais que uma injustiça: uma tolice. Mas pode-se contar pelo número de dedos as vezes em que, em partidas duras, com fatores adversos, esses dois resolveram qualquer coisa. Se o jogo é fácil, o show é inevitável, eles fizeram ou ajudaram a fazer um resultado empolgante.
Mas quem nunca viu Pelé inerte no meio do campo diante de um marcador mais rigoroso? Sem o conjunto, Pelé era um pássaro ferido. Em Montevidéu, vi uma vez o Peñarol encher o Santos. Os torcedores uruguaios saíram de campo sem entenderem a fama de Pelé.
Garrincha foi, fora de qualquer dúvida, o maior driblador que o futebol já gerou. Mas futebol e drible são coisas diferentes. Principalmente quando o drible busca as laterais ou procura mais um adversário para mais um drible. Isso é província.
Durante anos ele ia driblando até esbarrar na bandeirinha do corner, depois melhorou, tinha noção de área, quando corria, procurava entrar onde realmente interessava entrar, mas ainda se dispersava em jogadas laterais que empolgavam os torcedores, mas prejudicavam "os soberanos interesses do seu quadro" -como diria um cronista esportivo que gostava de falar difícil.
Esse tipo de futebol está em decadência. As recentes Copas do Mundo provaram, entre outras coisas, uma constatação elementar: futebol é associação. Sou daqueles que consideram este tipo de esporte uma ciência onde devem entrar, pela ordem, a cabeça, o coração e o jeito.
Jeito apenas não basta, ainda que aliado ao coração. Somente com estes três elementos se obtém o verdadeiro jogador, aquele que alia o artesanato específico (o jeito) ao amor e, sobretudo, à cabeça. Quando um jogador é muito ruim, não se diz que se trata de um entrevado ou de um apático. Diz-se que é um "cabeça" de bagre.
Sob certos aspectos, futebol é tão racional quanto o xadrez. Assim o Brasil pode se dar ao luxo de produzir Garrinchas e Pelés. Pois seu futebol já possui uma infraestrutura que coloca um Didi na mesma linha em que há um Garrincha, na mesma linha de um Pelé. (Falo de jogadores antigos para não ferir as preferências atuais.)
E já que estamos com a mão na massa, um lembrete: a coisa na África do Sul não vai ser mole. Todos estão motivados para vencer, joga-se o fino quando se pode e o grosso quando se faz necessário. No fundo, os finalistas serão os mesmos de sempre: Brasil, Itália, Alemanha e Argentina. Haverá sempre um azarão e uma decepção. Que não seja o Brasil.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

MÃO DE OBRA

CARLOS HEITOR CONY.
Todas as noites, habituei-me a fazer um exame de consciência para ver se melhorei, se piorei ou se fiquei na mesma. Geralmente fico na mesma. Em tempos eleitorais, tenho motivos não para não me considerar melhor, mas para constatar que poderia estar na pior.
Penso na legião de candidatos espalhados por todo o Brasil. O trabalho que estão tendo, percorrendo suas zonas, providenciando reuniões, gastando o dinheiro que não têm, prometendo o que não podem cumprir.
Além do trabalho miúdo, que compromete todos os candidatos, dos presidenciáveis ao deputado estadual, há a necessidade de aparecer para proclamar: "Estou aqui. Sou o fulano que fez isso, que fez isso e que fará aquilo".
A mão de obra é imensa, e, na loteria eleitoral, muitos são os chamados e pouquíssimos os escolhidos. Daí que, a cada noite, antes de me entregar àquilo que antigamente se dizia serem os braços de Morfeu, folgo com o fato de não ser candidato a nada e a coisa nenhuma.
Mas tenho amigos que estão penando na pedreira eleitoral. Lembro um deles, que vendeu a herança dos pais e o futuro dos filhos para fazer uma campanha que ele mesmo reconhecia modesta.
Tão modesta que, no último dia em que podia divulgar seu nome e suas ideias, descobriu que ainda tinha mais de 5.000 cartazes com sua foto, seu número e seu slogan: "Tudo para o povo".
Poderia vender o papel a quilo, mas achou que era humilhação demais. Com o auxilio da mulher e do filho mais velho, levou os pacotes para um terreno baldio, jogou gasolina em cima e riscou um fósforo. Queimou sua esperança como se queimasse uma bruxa medieval.
Penso nele e dou-me por satisfeito, porque as bruxas que queimo todas as noites ressurgem no dia seguinte, com suas promessas enfeitiçadas.