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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

LULA EM PARIS


Imprensa sabuja dá vexame. 
Por que Lula e não Fernando Henrique Cardoso, seu antecessor, para receber uma homenagem da instituição?
Começa assim, acreditem, com esta pergunta indecorosa, a entrevista de Deborah Berlinck, correspondente de "O Globo" em Paris, com Richard Descoings, diretor do Instituto de Estudos Políticos de Paris, o Sciences- Po, que entregou o título de Doutor Honoris Causa ao ex-presidente Lula, na tarde de terça-feira.
Resposta de Descoings:
"O antigo presidente merecia e, como universitário, era considerado um grande acadêmico (...) O presidente Lula fez uma carreira política de alto nível, que mudou muito o país e, radicalmente, mudou a imagem do Brasil no mundo. O Brasil se tornou uma potência emergente sob Lula, e ele não tem estudo superior. Isso nos pareceu totalmente em linha com a nossa política atual no Sciences- Po, a de que o mérito pessoal não deve vir somente do diploma universitário. Na França, temos uma sociedade de castas. E o que distingue a casta é o diploma. O presidente Lula demonstrou que é possível ser um bom presidente, sem passar pela universidade".
A entrevista completa de Berlinck com Descoings foi publicada no portal de "O Globo" às 22h56 do dia 22/9. Mas a história completa do vexame que a imprensa nativa sabuja deu estes dias, inconformada por Lula ter sido o primeiro latino-americano a receber este título, que só foi outorgado a 16 personalidades mundiais em 140 anos de história da instituição, foi contada por um jornalista argentino, Martin Granovsky, no jornal Página 12.
Tomei emprestada de Mino Carta a expressão imprensa sabuja porque é a que melhor qualifica o que aconteceu na cobertura do sétimo e mais importante título de Doutor Honoris Causa que Lula recebeu este ano. Sabujo, segundo as definições encontradas no Dicionário Informal, significa servil, bajulador, adulador, baba-ovo, lambe-cu, lambe-botas, capacho.
Sob o título "Escravocratas contra Lula", Granovsky relata o que aconteceu durante uma exposição feita na véspera pelo diretor Richard Descoings para explicar as razões da iniciativa do Science- Po de entregar o título ao ex-presidente brasileiro.
"Naturalmente, para escutar Descoings, foram chamados vários colegas brasileiros. O professor Descoings quis ser amável e didático (...). Um dos colegas perguntou se era o caso de se premiar a quem se orgulhava de nunca ter lido um livro. O professor manteve sua calma e deu um olhar de assombrado(...).
"Por que premiam a um presidente que tolerou a corrupção", foi a pergunta seguinte. O professor sorriu e disse: "Veja, Sciences Po não é a Igreja Católica. Não entra em análises morais, nem tira conclusões apressadas. Deixa para o julgamento da História este assunto e outros muito importantes, como a eletrificação das favelas em todo o Brasil e as políticas sociais" (...). Não desculpamos, nem julgamos. Simplesmente, não damos lições de moral a outros países.
"Outro colega brasileiro perguntou, com ironia, se o Honoris Causa de Lula era parte da ação afirmativa do Sciences Po. Descoings o observou com atenção, antes de responder. "As elites não são apenas escolares ou sociais, disse. "Os que avaliam quem são os melhores, também. Caso contrário, estaríamos diante de um caso de elitismo social. Lula é um torneiro-mecânico que chegou à presidência, mas pelo que entendi foi votado por milhões de brasileiros em eleições democráticas".
No final do artigo, o jornalista argentino Martin Granovsky escreve para vergonha dos jornalistas brasileiros:
"Em meio a esta discussão, Lula chegará à França. Convém que saiba que, antes de receber o doutorado Honoris Causa da Sciences Po, deve pedir desculpas aos elitistas de seu país. Um trabalhador metalúrgico não pode ser presidente. Se por alguma casualidade chegou ao Planalto, agora deveria exercer o recato. No Brasil, a Casa Grande das fazendas estava reservada aos proprietários de terra e escravos. Assim, Lula, silêncio por favor. Os da Casa Grande estão irritados".
Desde que Lula passou o cargo de presidente da República para Dilma Rousseff há nove meses, a nossa grande imprensa tenta jogar um contra o outro e procura detonar a imagem do seu governo, que chegou ao final dos oito anos com índices de aprovação acima de 80%.
Como até agora não conseguiram uma coisa nem outra, tentam apagar Lula do mapa. O melhor exemplo foi dado hoje pelo maior jornal do país, a "Folha de S. Paulo", que não encontrou espaço na sua edição de 74 páginas para publicar uma mísera linha sobre o importante título outorgado a Lula pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris.
Em compensação, encontrou espaço para publicar uma simpática foto de Marina Silva ao lado de Fernando Henrique Cardoso, em importante evento do instituto do mesmo nome, com este texto-legenda:
"AFAGOS - FHC e Marina em debate sobre Código Florestal no instituto do ex-presidente; o tucano creditou ao fascínio que Marina gera o fato de o auditório estar lotado".
Assim como decisões da Justiça, criterios editoriais não se discute, claro.
Enquanto isso, em Paris, segundo relato publicado no portal de "O Globo" pela correspondente Deborah Berlinck, às 16h37, ficamos sabendo que:
"O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido com festa no Instituto de Estudos Políticos de Paris - o Sciences- Po _, na França, para receber mais um título de doutor honoris causa, nesta terça-feira. Tratado como uma estrela desde sua entrada na instituição, ele foi cercado por estudantes e, aos gritos, foi saudado. Antes de chegar à sala de homenagem, em um corredor, Lula ouviu, dos franceses, a música de Geraldo Vandré, "para não dizer que eu não falei das flores.
"A sala do instituto onde ocorreu a cerimônia tinha capacidade para 500 pessoas, mas muitos estudantes ficaram do lado de fora. O diretor da universidade, Richard Descoings, abriu a cerimônia explicando que a escolha do ex-presidente tinha sido feita por unanimidade".
Em seu discurso de agradecimento, Lula disse:
"Embora eu tenha sido o único governante do Brasil que não tinha diploma universitário, já sou o presidente que mais fez universidades na história do Brasil, e isso possivelmente porque eu quisesse que parte dos filhos dos brasileiros tivesse a oportunidade que eu não tive".
Para certos brasileiros, certamente deve ser duro ouvir estas coisas. É melhor nem ficar sabendo.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Por Ricardo Kotscho, do Balaio Kotscho
Ao voltar de Barretos (ver post anterior), o meu correio eletrônico já estava entupido de mensagens de amigos e leitores comentando e me pedindo para comentar a reportagem da revista "Veja" sobre as "atividades clandestinas" do ex-ministro José Dirceu, um dos denunciados no processo do "mensalão", que tramita no Supremo Tribunal Federal e ainda não tem data para ser julgado.
Só agora, no começo da tarde de segunda-feira, consegui ler a matéria. Em resumo, como está escrito na capa, sob o título "O Poderoso Chefão", ao lado de uma foto em que Dirceu aparece de óculos escuros e sorridente, a revista faz uma grave acusação:
"O ex-ministro José Dirceu mantém um "gabinete" num hotel de Brasília, onde despacha com graúdos da República e conspira contra o governo da presidente Dilma".
Para justificar a capa, a revista publica dez reproduções de um vídeo em que, além de Dirceu, aparecem ministros, parlamentares e um presidente de estatal entrando ou saindo do "bunker instalado na área vip de um hotel cinco-estrelas de Brasília, num andar onde o acesso é restrito a hóspedes e pessoas autorizadas".
Nas oito páginas da "reportagem"  _ na verdade, um editorial da primeira à última linha, com mais adjetivos do que substantivos _ não há uma única informação de terceiros que não seja guardada pelo anonimato do "off" ou declaração dos "acusados" de visitar o bunker de Dirceu confirmando a tese da "Veja".
Fiel a uma prática cada vez mais disseminada na grande mídia imprensa, a tese da conspiração de Dirceu contra o Governo Dilma vem antes da apuração, que é feita geralmente para confirmar a manchete, ainda que os fatos narrados não a comprovem.
Para dar conta da encomenda, o repórter se hospedeu num apartamento no mesmo andar do ex-ministro. Alegando ter perdido a chave do seu apartamento, pediu à camareira que abrisse o quarto de Dirceu e acabou sendo por ela denunciado à segurança do hotel Naoum Plaza, que registrou um boletim de ocorrência no 5º Distrito Policial de Brasília, por tentativa de invasão de domicílio.
Li e reli a matéria duas vezes e não encontrei nenhuma referência à origem das imagens publicadas como "prova do crime", o primeiro dos mistérios suscitados pela publicação da matéria. O leitor pode imaginar que as cenas foram captadas pelas câmeras de segurança do hotel, mas neste caso surgem outras perguntas:
* Se o próprio hotel denunciou o repórter à polícia, segundo "O Globo" de domingo, quem foi que lhe teria cedido estas imagens sem autorização da direção do Naoum?
* Se foi o próprio repórter quem instalou as câmeras, isto não é um crime que lembra os métodos empregados pela Gestapo e pelo império midiático dos Murdoch?
* As andanças pelo hotel deste repórter, que se hospedou com o nome e telefone celular verdadeiros, saiu sem fazer check-out e voltou dando outro nome, para supostamente entregar ao ex-ministro documentos da prefeitura de Varginha, são procedimentos habituais do chamado "jornalismo investigativo"?
As dúvidas se tornam ainda mais intrigantes quando se lê o que vai escrito na página 75 da revista:
"Foram 45 horas de reuniões que sacramentaram a derrocada de Antonio Palocci e durante as quais foi articulada uma frustrada tentativa do grupo do ex-ministro de ocupar os espaços que se abririam com a demissão. Articulação minuciosamente monitorada pelo Palácio do Planalto, que já havia captado sinais de uma conspiração de Dirceu e de seu grupo para influir nos acontecimentos que ocorriam naquela semana (6,7 e 8 de junho, segundo as legendas das fotos) _ acontecimentos que, descobre-se agora, contavam com a participação de pessoas do próprio governo".
A afirmações contidas neste trecho provocam outras perguntas.
* Como assim? Quem do governo estava conspirado contra quem do governo?
* Por acaso a revista insinua que foi o próprio governo quem capturou as imagens e as entregou ao repórter da "Veja"?
* Por que a reportagem/editoral só publica agora, no final de agosto, fatos ocorridos e imagens registradas no começo de junho, no momento em que o diretor de redação da revista está de férias?
Só uma coisa posso afirmar com certeza, depois de 47 anos de trabalho como jornalista: matéria de tal gravidade não é publicada sem o aval expresso dos donos da empresa ou dos acionistas majoritários. Não é coisa de repórter trapalhão ou editor descuidado.
Ao final da matéria, a revista admite que "o jornalista esteve mesmo no hotel, investigando, tentando descobrir que atração é essa que um homem acusado de chefiar uma quadrilha de vigaristas ainda exerce sobre tantas autoridades (...) E conseguiu. Mas a máfia não perdoa".
Conseguiu? Há controvérsias... No elenco de nomes apresentados pela revista como frequentadores do "aparelho clandestino" de Dirceu, no entanto, não encontrei nenhum personagem que seja publicamente conhecido como inimigo do ex-ministro Antonio Palocci.
O texto todo foi construído a partir de ilações e suposições para confirmar a tese _ não de informações concretas sobre o que se discutiu nestes encontros e quais as consequências efetivas para a queda de Palocci.
Não tenho procuração para defender o ex-ministro José Dirceu, nem ele precisa disso. Escrevo para defender a minha profissão, tão aviltada ultimamente pela falta de ética de veículos e profissionais dedicados ao vale-tudo de verdadeiras gincanas para destruir reputações e enfraquecer as instituições democráticas.
É um bom momento para a sociedade brasileira debater o papel da nossa imprensa  _ uma imprensa que não admite qualquer limite ou regra, e se coloca acima das demais instituições para investigar, denunciar, acusar e julgar quem bem lhe convier.
Diante de qualquer questionamento sobre as responsabilidades de quem controla os meios de comunicação, logo surgem seus porta-vozes para denunciar ameaças à liberdade de imprensa.
Calma, pessoal. De vez em quando, convém lembrar que repórter não é Polícia e a Imprensa não é  Justiça, e também não deveria se considerar inimputável como as crianças e os índios. Vejam o que aconteceu com Murdoch, o ex-todo-poderoso imperador. Numa democracia, ninguém pode tudo.
Censura e autocensura.
Até me surpreendeu a manchete de hoje da "Folha", tratando de um assunto pouco usual nos nossos grandes jornais:
"Banco infla calote para sonegar, afirma Receita Autuações chegam a quase R$ 200 milhões; instituições negam ilegalidade".
Ao ler a matéria toda, outra surpresa: em nenhum momento, nem na primeira página, nem no caderno Folhainvest, aparece o nome de qualquer banco. Contaram o milagre sem falar do santo (ou dos santos).
Dos 30 processos em curso na delegacia especializada em instituições financeiras de São Paulo, "pelo menos três poderão gerar processos criminais". Fiquei curioso em saber quais são os bancos investigados.
Como já escrevi neste espaço outras vezes, o que ameaça o futuro da nossa imprensa não é a censura do Estado, mas a autocensura nas empresas, que gera, entre outros males, o denuncismo seletivo.

domingo, 10 de julho de 2011

Por Ricardo Kotscho, do Balaio do Kotscho
Muricy estava certo; Mano é o novo Dunga?
Certo estava o Muricy Ramalho, que recusou o convite da CBF para dirigir a seleção brasileira após o fracasso na África do Sul. Com esta cartolagem, não teria nenhuma garantia de ficar até a Copa do Brasil.
Afinal, ele não só é um técnico vencedor como tem caráter e um nome a zelar. Vai querer se sujar, arriscar sua biografia juntando-se a Ricardo Teixeira? Para quê, para servir de boi de piranha?
Para a vaga de Dunga, atendendo a pedidos da grande imprensa, Teixeira acabou levando Mano Menezes, então técnico do Corinthians, time pelo qual foi campeão da segunda divisão.
Um gaúcho lembra muito o outro, embora os estilos sejam um pouco diferentes. Técnicos da escola Felipão, os times comandados por ambos gostam de chegar junto e bater pesado.
Dunga tinha Felipe Melo; Mano tem Lucas Leiva. Dunga era meio tosco, mostrava uma franqueza rude; Mano é mais jeitoso com a imprensa, dá longas entrevistas coletivas sem falar nada e desfila um agasalho chique com mais patrocínios do que o macacão do Ayrton Senna.
Dentro de campo, porém, pouco mudou. Nos dois primeiros jogos da Copa América, na Argentina, vimos a seleção mostrar o mesmo futebol desarranjado e burocrático da Copa de 2010, embora tenha agora os craques Neymar e Ganso.
Depois do vexame sem gols na estreia contra a Venezuela, o Brasil de Mano Menezes voltou a decepcionar no sábado, ao arrancar, no finalzinho do jogo, um heróico empate por 2 a 2 contra o Paraguai.
Deste jeito, ainda vamos sentir saudades do Dunga... Enquanto Ricardo Teixeira não desocupar a moita, Muricy não vai por a mão nesta cumbuca, para azar da seleção brasileira, e de todos nós.
Mano, claro, não tinha nenhuma obrigação de ganhar a Copa América. Tudo bem, mas se a seleção não ganhar do Equador e for eliminada logo na primeira fase, vai ser um vexame sem precedentes. A batata do técnico pós-Dunga já começou a assar. Muricy deve estar rindo à toa.

domingo, 3 de julho de 2011

Por Ricardo Kotscho, do Balaio do Kotscho, no R 7.
Itamar Franco tinha sido eleito vice de Fernando Collor, mas quando o então presidente foi cassado por práticas pouco republicanas, em 1992, chamou Lula, que tinha sido o adversário deles nas eleições de 1989, para ajudá-lo a formar o novo ministério.
A esta altura, Itamar já estava rompido com Collor e, diante do rabo de foguete que pegou, tentou montar um governo de coalizão com o PT e o PSDB - uma proeza que nem os líderes dos dois maiores partidos brasileiros nunca haviam conseguido.
Itamar era mesmo diferente, um político fora dos padrões habituais no cenário nacional.
Acompanhei Lula na viagem a Brasília para conversar com Itamar e percebi, desde o início das conversas, que o PT, derrotado em 1989, nas primeiras eleições diretas para presidente da República, não iria participar do governo Itamar, já de olho nas eleições de 1994 (o PSDB logo aderiu e acabou elegendo o sucessor).
Lula até chegou a sugerir alguns nomes para um ministério suprapartidário - lembro-me de Adib Jatene, Walter Barelli e José Serra -, mas nenhum deles era do PT.
Quando falou no nome de Serra, teve quem se espantasse, mas Itamar, com um sorriso maroto, deu a mesma explicação de Tancredo para não aceitar a indicação dele para o Ministério da Fazenda.
"Muito bom nome... Só que esse aí quer ser presidente, vai querer o meu lugar, como já disse o Tancredo...".
Dos três, só Walter Barelli, então presidente do Dieese, ligado ao PT, mas não filiado, acabou fazendo parte do governo Itamar.
Voltei com Lula a Brasília no ano seguinte, para levar ao presidente Itamar Franco o projeto de Segurança Alimentar elaborado no Instituto Cidadania pela equipe de José Gomes da Silva, pai do ex-ministro José Graziano da Silva, que acaba de ser eleito diretor-geral da FAO.
Repetiu-se a mesma história: Itamar topou adotar o projeto, que era um embrião do Fome Zero, desde que Lula indicasse alguém do PT para comandá-lo. Lula indicou novamente um nome fora do PT, o do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que não era filiado a partido algum, imediatamente aceito por Itamar.
Diante das circunstâncias, Itamar Franco acabaria fazendo um ótimo governo, deixando o Palácio do Planalto no final de 1994, com um índice de aprovação popular semelhante ao de Lula, no final do ano passado.
Foi ele, afinal, quem colocou Fernando Henrique Cardoso na Fazenda e bancou o Plano Real, que acabou elegendo o ministro como seu sucessor.
Reencontrei Itamar, já como governador de Minas, no Palácio da Liberdade, no início deste século, como repórter da Folha de S. Paulo, com a missão de entrevistá-lo e traçar um perfil do ex-presidente acidental. "Não dou entrevistas, mas se você quiser passar alguns dias comigo aqui em Minas será bem recebido", desencorajou-me o governador.
De fato, todos me trataram muito bem e, quando cruzava com Itamar em algum corredor ou evento, ele me perguntava se eu estava sendo bem tratado. "Muito bem, governador, obrigado, só falta a entrevista..."
Depois de quase uma semana de insistência, quando já tinha feito amizade com muitos dos seus colaboradores, ele topou responder a algumas perguntas por escrito. Soube mais tarde que Itamar não tinha gostado da matéria e queria saber quem me havia passado aquelas informações.
Assim era Itamar Franco, sempre meio imprevisível, instável, desconfiado de tudo e de todos, mas que acabou passando para a história como um presidente providencial, um homem probo, que nunca deixou de ser, antes de tudo, um político mineiro, embora tenha nascido num navio no litoral da Bahia.
Bobagem querer explicá-lo. Itamar era Itamar, primeiro e único.

domingo, 30 de janeiro de 2011

COMO PERDER 118 KG EM 28 SEMANAS

Por Ricardo Kotscho, do Balaio do Kotscho.
A opção dele era morrer. Aos 37 anos, quando chegou aos 218 quilos, sem mais poder andar ou trabalhar, o garçom mineiro Odair José da Costa optou pela vida e foi à luta. Sem condições financeiras para custear um tratamento médico, ele recorreu à Justiça e, desde junho do ano passado, internado num spa médico no interior de São Paulo, por conta da Prefeitura de Uberaba, já perdeu 118 quilos.
Caçula de nove irmãos, Odair era o único gordo da família. Desde pequeno foi assim. “Comia de tudo, uma vez por dia: começava cedo e só parava de noite na hora de dormir. Só via prazer e felicidade na comida”, lembra ele, sempre de bom humor, contando os dias para poder voltar a levar uma vida normal.
Já era muito obeso quando conheceu a mulher Lacelda Euripa, com quem vive há 18 anos e tem um filho de 14. Com a ajuda dela e de uma irmã, Maria Aparecida, Odair resolveu se tratar no ano passado. O primeiro passo foi obter uma declaração do médico Adão Jair de Souza, da Universidade Federal do Triangulo Mineiro, atestando que “o paciente é portador de obesidade mórbida (grau avançado IMC = 80,39) e necessita de tratamento urgente. Tais tratamentos não podem ser realizados neste serviço (UFTM)”.
O documento foi levado à promotora Cláudia Marques que imediatamente o encaminhou à juíza Régia Ferreira Lima. Em apenas 41 dias, foi dada a decisão: a Prefeitura de Uberaba, onde Odair nasceu e vive, deveria pagar o tratamento. Levado para um spa em Jundiaí, que não tinha estrutura para recebê-lo nem fazer o tratamento, Odair acabou voltando para Uberaba, numa viagem de 12 horas em que passou muito mal.
Foi a própria promotora quem se encarregou de entrar em contato com uma clínica de Sorocaba, o Spa Médico São Pedro, que imediatamente se prontificou a receber o paciente. Desta vez, Odair veio numa UTI Móvel, contratada pelo prefeito de Uberaba, Anderson Adauto. Viajou acompanhado de médico e assistente social, que acompanharam a sua internação e os primeiros exames.
De um dia para outro, ele passou a receber uma dieta diária de apenas 600 calorias, e nunca se queixou. “Eu queria viver, não sofri nada com a dieta, te juro. Aprendi que o prazer de viver é muito melhor do que o de comer”. Nestes sete meses, completados na quarta-feira, ele só saiu duas vezes do spa para ir com outros pacientes a um shopping. Recebeu três visitas da mulher e do filho.
Quando lhe perguntam de onde tira forças para enfrentar o tratamento, Odair dá um sorriso de mineiro: “Tudo que aconteceu comigo tinha que ser assim. Não fiquei obeso por acaso. Deus me pegou para provar que é possível perder peso na raça. Você tem que decidir o que vai fazer da tua vida”.
Seu peso atual é de 100 quilos e a dieta passou para 900 calorias por dia. “Ainda quero chegar aos 90 antes de sair do spa”, planeja Odair, que fará uma abdominalplastia, cirurgia para a retirada de pele, já marcada para o próximo dia 10. “Não precisa fazer cirurgia de redução de estômago, nada disso, sou contra. Só precisa de força de vontade e determinação”.
Além da dieta, ele faz seis horas diárias de exercícios. Sua primeira providência ao chegar a Uberaba será procurar uma academia para se inscrever. “Não vou mais conseguir ficar sem fazer exercícios por nada nesta vida”, diz Odair, que só está preocupado com sua situação financeira, depois de um ano desempregado. “Chegando lá, vou logo arrumar um serviço, acabou a moleza…”, brinca com ele mesmo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

LULA E JOSÉ ALENCAR, AMIGOS PARA SEMPRE

Por Ricardo Kotscho, no Balaio Kotscho.
O governo acabou, o poder mudou de mãos, os dois saíram de cena, mas a amizade deles continua cada vez mais forte, um caso muito raro na política e na vida. O metalúrgico que virou presidente da República e o grande empresário que foi seu vice tornaram-se amigos para sempre, daqueles de verdade, que fazem uma festa quando se encontram.
Foi que aconteceu na terça-feira, na hora do almoço, quando o ex-presidente Lula apareceu no Hospital Sírio-Libanês para fazer mais uma visita ao paciente José Alencar, que está internado desde o dia 22 de dezembro.
“Nós rimos muito, depois teve até choro, você precisava ver”, contou-me o ex-vice ao me ligar hoje de manhã para contar as novidades e falar da visita do amigo. ”Mais do que amigo, ele é um grande parceiro, uma figura extraordinária. Juntou um monte de médico aqui, minha mulher, minhas filhas, meus netos… Ficamos contando histórias, foi uma beleza…”.
O mineiro José Alencar se entusiasma e se emociona cada vez que fala do pernambucano Lula, o velho “amigo de infãncia” que conheceu na festa  de comemoração dos seus 50 anos de vida empresarial, em Belo Horizonte, poucos meses antes do início da campanha eleitoral de 2002.
O que os aproximou logo de cara, embora de origens e trajetórias tão diferentes, foi o fato de serem pessoas simples, terem estudado pouco (Alencar menos que Lula), começado a trabalhar ainda meninos para ajudar a família e, principalmente, o gosto por contar casos engraçados acontecidos muitos anos atrás quando eles nem imaginavam que um dia chegariam onde chegaram.
“Encontrei meu vice. Você precisa conhecer o Alencar”, disse-me Lula poucos dias depois, na festinha de fim de ano do Instituto Cidadania, em 2001,  onde o ex-presidente vai voltar a trabalhar na próxima semana.
Agora que os dois amigos voltaram à planície, Alencar acha que Lula precisa voltar logo à atividade política, lembrando os tempos de poder. “Para quem vivia no meio daquela agitação, sempre cercado por muitas pessoas, imagino que ficar isolado é um sofrimento. Ele precisa arrumar logo uma agenda”.
Assim que passou a faixa presidencial para Dilma Rousseff, no dia 1º de janeiro, ao chegar de volta a São Paulo e antes mesmo de ir à sua casa, em São Bernardo do Campo, Lula esteve no hospital para consolar e dar um abraço em Alencar, que estava muito contrariado com a decisão dos médicos, impedindo-o de ir a Brasília para que os dois descessem a rampa juntos. “Não fica chateado, não, Zé. Nós não descemos a rampa juntos, mas entregamos o país melhor do que pegamos”.
Com muito orgulho, o ex-vice conta que substituiu o presidente por 504 dias nos dois mandatos -”quase um ano e meio…” -, mais do que alguns antecessores de Lula duraram na cadeira. Neste período, Alencar registra que assinou exatos 2.139 atos presidenciais.
Os médicos não sabem ainda quando Alencar poderá deixar o hospital, mas ele sabe que Lula já esteve lá por mais de 20 vezes para visitá-lo, desde que voltaram seus problemas de saúde, provocados por um câncer no abdome que enfrenta há 15 anos, sem nunca entregar os pontos nem perder o bom humor.