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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O TEMA DA ELEIÇÃO

Marcos Coimbra, do Correio Braziliense.
Em todo ano eleitoral, mais cedo ou mais tarde, a imprensa repete uma velha pauta: editores, repórteres e colunistas põem-se a procurar “o tema” da eleição.
Parece que acreditam que é possível identificar um único assunto, uma só preocupação, que os eleitores do país inteiro — ou uma proporção majoritária deles — compartilhariam. Como se houvesse alguma coisa, minimamente relevante, que os mais de 135 milhões de brasileiros em condições de votar possuíssem em comum.
Fora as generalidades mais triviais (amam o Brasil, desejam a felicidade, querem o melhor para seus filhos e coisas do gênero), são muito diferentes. Trabalham em coisas diferentes e ganham quantidades de dinheiro completamente diferentes. Moram em lugares diferentes, de favelas paupérrimas a bairros de alto luxo. Muitos são jovens, outros idosos, e têm necessidades diferentes.
Diferem em outro aspecto fundamental. Além das segmentações socioeconômicas que existem na sociedade brasileira, nosso eleitorado está, crescentemente, dividido em termos políticos.
É verdade que não é grande a parcela com declarada e firme identidade partidária. Mas está longe de ser inexpressiva a proporção dos que se dizem simpatizantes de algum partido, entre os quais se destaca o PT (que tem, sozinho, mais que o dobro da soma dos demais).
À medida que o tempo passa, essa simpatia tende a deixar de ser algo tênue ou puramente atitudinal. Ao longo dos anos, o eleitor começa a traduzi-la em comportamentos eleitorais concretos, renovando seu voto em sucessivas eleições. Com isso, seus vínculos com o partido — ou determinada liderança — se estreitam e se consolidam.
Surgem, assim, eleitores petistas, peessedebistas, peemedebistas e por aí vai. Talvez não estejam inscritos em um cadastro qualquer (como acontece, por exemplo, nos Estados Unidos, onde a maioria do eleitorado tem uma identidade partidária “oficial”), mas isso não os torna menos entusiasmados na defesa de “seu” partido — e de “seus” candidatos —, ou menos previsíveis em suas escolhas.
Faz algum sentido imaginar que uma idosa pobre do interior, admiradora de Lula e do PT, e um jovem rico metropolitano, antipetista e admirador do PSDB, tomam suas decisões eleitorais da mesma maneira, em função de um mesmo “tema”, de uma só agenda?
A pergunta é ainda menos razoável em ano de eleições municipais. Nelas, achar que existe algo semelhante a esse hipotético “tema” apenas mostra desconhecimento a respeito de nossos eleitores.
É possível que, em condições excepcionais, existam eleições tão dominadas por um assunto que as diferenças objetivas e políticas do eleitorado se tornem secundárias. Se o país está frente a uma ameaça externa, se atravessa uma crise econômica, “o tema” da eleição é óbvio.
Isso aconteceu conosco na saída da ditadura e da hiperinflação. E deve ter sido então que nossa imprensa adquiriu o hábito de buscar “o tema” das eleições, mesmo quando ele não existe.
Em uma eleição municipal, como a que faremos este ano, é até difícil imaginar qual poderia ser. São milhares de candidatos a prefeito e a vereador em quase 5,6 mil cidades, que vivem realidades completamente diferentes. Os eleitores os escolhem levando em conta inúmeros aspectos — embora sempre acreditem que votam nos mais qualificados (entre os que conhecem).
Faz parte da normalidade democrática e do amadurecimento político que a eleição municipal seja municipal, a estadual seja estadual, e que a nacional seja nacional. Poucas pessoas, hoje em dia, se confundem com isso.
A imensa maioria dos eleitores não define seu voto local em função de questões nacionais, e nem entenderia se alguém perguntasse que “recado” pretende mandar para Brasília ou a capital de seu estado. Para o cidadão normal, seria absurdo votar em um candidato a prefeito (ou a vereador) sabidamente inferior a outro, apenas para enviar uma esdrúxula mensagem — que ninguém, aliás, decifraria.
Pode dar mais trabalho, mas, em vez de tentar encontrar “o tema” da eleição de outubro, os analistas fariam melhor se tentassem identificar os muitos temas que serão discutidos nas cidades brasileiras.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

HADDAD, NOVO TESTE PARA LULA

Marcos Coimbra, no Correio Braziliense.
Em São Paulo, a vida política tem uma característica peculiar: os dois principais partidos nacionais não se renovam. Há anos, em qualquer eleição majoritária, PT e PSDB escalam os mesmos nomes, seja para disputar o governo do estado, o Senado ou a prefeitura da capital.
Entre os tucanos, Serra e Alckmin já foram candidatos a esses cargos, somados, nove vezes (e ainda deveríamos contar suas três candidaturas a presidente da República). No PT, Marta Suplicy e Aloizio Mercadante, oito.
Na definição do que iriam fazer nas eleições da capital este ano, por pouco não tivemos a enésima repetição da presença de José Serra e Marta Suplicy nas opções oferecidas ao eleitor: seria a quarta tentativa de ambos.
Não podemos esquecer que Alckmin está prestes a se tornar, nos tempos modernos, o recordista de permanência no Palácio dos Bandeirantes: ao completar seu mandato atual, totalizará 10 anos lá residindo, mais que Ademar de Barros (mesmo computando seu período como interventor). Se viesse a ganhar a reeleição em 2014, aproximar-se-ia dos governantes do período colonial, com 14 anos de exercício da função.
Na maior parte dos estados, não temos uma rigidez como essa. Novas gerações de políticos petistas e peessedebistas já emergiram no Rio de Janeiro, em Minas, no Paraná, assim como no resto do país. Existem novos senadores, governadores e prefeitos dos dois partidos (e de outros) país afora.
Aécio e Antonio Anastasia, em Minas; Beto Richa e Glesi Hoffmann, no Paraná; Marconi Perillo, em Goiás; no PSB, Eduardo Campos, em Pernambuco, e Cid Gomes, no Ceará; no Rio, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, do PMDB, e Lindberg Farias, do PT. Todos são exemplos do que não acontece em São Paulo.
É nesse contexto que se deve analisar a opção de Lula por Fernando Haddad na escolha do candidato do PT a prefeito de São Paulo. Sem sua intervenção, é muito possível que a dinâmica interna do partido levasse a mais um adiamento da renovação e a insistir na aposta em uma candidatura conhecida — no caso, de Marta Suplicy, que liderava as pesquisas.
Pode ser que Haddad vença a eleição ou não. Para o PT, mais relevante é começar a se apresentar ao eleitorado da maior cidade brasileira com uma nova identidade, de um político com uma trajetória diferente do padrão típico do petismo no estado.
Haddad não é sindicalista na origem, nunca foi da esquerda católica, tinha 5 anos quando o AI-5 foi editado. É um profissional de gestão pública, como alguns tucanos de sua geração.
Existem muitos petistas com essas características. Mas é o primeiro candidato a um cargo de “primeiro escalão” com esse perfil que seu partido vai lançar em São Paulo.
Há quem tenha visto a intervenção de Lula como manifestação de caciquismo e de sua vontade de submeter o PT a seus caprichos e idiossincrasias. Não parece, no entanto, ser uma critica razoável.
Ao bancar a indicação de Haddad, Lula se mostra disposto a submeter seu prestígio popular a um teste nada pequeno. Na verdade, maior até do que ele acabou de enfrentar em 2010, com Dilma.
Uma coisa é apresentar alguém para continuar seu próprio trabalho, algo que o eleitor — brasileiro e de qualquer lugar — compreende e aceita, levando a que a chamada “transferência horizontal” não seja rara. Ela, no entanto, é muito mais incerta quando se aponta uma pessoa para outro cargo.
Com o gesto, Lula aceita a responsabilidade de liderar seu partido, com os riscos que daí decorrem. E coloca sua popularidade a serviço da renovação pela qual o PT precisa passar em São Paulo.
Melhor que se eximir e lavar as mãos. Uma das razões que levam o PSDB paulista a bater cabeça na eleição da capital é que suas lideranças não lideram (ou não conseguem liderar).

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

OLHANDO PARA 2.014

Por Marcos Coimbra, do Correio Braziliense.
Enquanto se entretinham na contabilidade das crises nos ministérios e se ocupavam com as escaramuças entre os partidos da base governista, poucos analistas de nossa política perceberam algo que ocorreu em 2011. Trata-se, no entanto, de um fato de consequências mais relevantes que todos esses episódios somados.
Ao longo do ano, Dilma tornou-se uma candidata fortíssima a vencer a eleição em 2014 e a permanecer no cargo até 2018. Com isso, a repetir a performance de Lula e a completar um período de 16 anos de hegemonia petista à frente do governo federal.
A possibilidade sempre existiu. Desde quando foi aprovado o instituto da reeleição (não esquecendo que por iniciativa e intenso trabalho do PSDB e de Fernando Henrique Cardoso), foram raros os casos de ocupantes de cargos executivos — presidente, governador ou prefeito — que perderam a eleição de renovação do mandato.
São as exceções, governantes cuja gestão era considerada péssima ou que enfrentaram adversários notáveis. A regra é vencer, mesmo quando as administrações não enchem os olhos. Na dúvida entre o razoável, mas seguro, e o ótimo, porém incerto, a maioria das pessoas costuma preferir o conhecido. Sem contar que é comum a convicção de que quatro anos não são suficientes para pronunciar-se sobre o trabalho de alguém.
Dilma tinha o problema dos que venceram mais pelo prestígio de um patrono do que por seus próprios atributos. Sua vitória veio apesar de quase ninguém a conhecer e de não haver vínculos emocionais entre ela e o eleitor. Seu julgamento poderia, portanto, ser mais severo, e maior o risco de muitos se decepcionarem com ela.
Mas era a sucessora de Lula e se beneficiaria da aprovação das políticas que estavam em andamento e que permaneceriam. E seria, em 2014, a presidente em exercício.
Tudo considerado, era fácil imaginar que Dilma poderia, em tese, ser uma candidata com chance de vencer a reeleição. Salvo se seu governo fosse uma catástrofe.
Terminado 2011, o que vimos foi aumentar a avaliação positiva de seu trabalho. As pesquisas de dezembro e janeiro confirmaram o que se podia perceber desde o início do ano passado: uma tendência de melhoria dos índices de satisfação da população com o governo.
Ela atravessou o desgaste de uma série de problemas no ministério e no segundo escalão, atingidos por sucessivas denúncias, das quais algumas eram verdadeiras e exigiram providências. Enfrentou um ano de complicações crescentes na economia mundial, com reflexos relevantes no nosso desenvolvimento.
Foi aprovada pela vasta maioria da opinião pública e, de candidata potencialmente forte, tornou-se forte no sentido concreto.
É claro que é cedo e que muita água ainda vai correr por baixo da ponte até 2014. Mas é assim que ela começa o segundo ano de governo.
Hoje, o PT tem, portanto, dois muito bons candidatos à Presidência: Lula — não se precisa demonstrar — e Dilma. Qualquer um deles, se tivéssemos uma eleição agora, venceria (provavelmente com folga). E ambos têm idade (ele aos 66, ela aos 64) para disputar algumas mais nos próximos anos.
E as oposições?
Como mostram as pesquisas, só há dois nomes nacionais, de políticos que a maioria da população identifica: FHC e Serra. Nenhum, no entanto, em condições de disputar novas eleições: o primeiro diz que não deseja; o segundo não tem apoio sequer em seu estado e entre seus (ex-) amigos.
O mínimo que deveriam fazer era lançar, o quanto antes, seu candidato “óbvio”, como diz Fernando Henrique. Aécio precisa ser logo identificado como o rosto da oposição, o político que vai representar o “outro lado” em 2014.
Os próximos três anos são indispensáveis para alguém que apenas 20% da população conhece um pouco melhor. Talvez não resolvam, mas não podem ser desperdiçados.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

FGTS

O Tesouro Nacional vem usando, indevidamente, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para fazer superavit primário, a denominada economia para o pagamento de juros da dívida pública. Em vez de destinar recursos do Orçamento da União para bancar o subsídio nas taxas de juros cobradas das famílias de baixa renda beneficiadas pelo programa Minha Casa, Minha Vida, como sempre foi regra, transferiu a maior parte da fatura para o patrimônio dos trabalhadores.
No ano passado, R$ 4,5 bilhões saíram do FGTS a fundo perdido, ou seja, sem qualquer possibilidade de retorno.
Neste ano, serão mais R$ 5,5 bilhões e, em 2012, outros R$ 4,4 bilhões.
Texto do Correio Braziliense de 25/11/2011.
A política de socializar a miséria continua, resta saber quanto estão cobrando por mais este roubo ao cidadão trabalhador para subsidiar seus currais eleitorais. Cobram muito e fazem tão pouco e o brasileiro sem cidadania acredita, isto é muito triste. Sanguessugas da ignorância.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O PT E O SISTEMA ELEITORAL

Marcos Coimbra
Na Resolução aprovada em seu 4º Congresso, realizado no começo do mês, o PT dedica uma seção inteira ao tema da reforma política. Natural, pois era de esperar que o partido se pronunciasse sobre algo que está no centro das discussões políticas desde o início do ano.
Primeiro, tivemos uma comissão especial no Senado, criada para elaborar uma proposta que contivesse os pontos fundamentais e menos polêmicos, assim permitindo que as mudanças na legislação pudessem ser rapidamente adotadas.
Seu trabalho parece, no entanto, não ter servido de muito, pois está sendo ignorado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Casa, onde a matéria hoje tramita. Ela desdiz, praticamente, tudo que a comissão especial havia dito.
Em sua resolução, o PT não apresenta propostas para mudar de forma ampla nosso sistema político. É menos ambicioso.
O documento afirma que são dois os “objetivos programáticos estratégicos do PT” na reforma política: a adoção do financiamento público exclusivo das campanhas e do voto em lista nas eleições de deputados (federais, estaduais e distritais), assim como de vereadores.
Além dessas, outras três mudanças são sugeridas. Duas são bem específicas: a proibição das coligações nas eleições proporcionais e a “garantia da presença de sexos diferentes na lista”. A terceira, ao contrário, é difusa: a “ampliação da participação direta na política através da remoção de obstáculos que hoje a dificultam”.
Salvo a última, as ideias formam um todo coerente. São questões que o sistema político discute há tempo e que possuem larga sustentação em nosso pensamento e tradições democráticas. Não é o que se poderia dizer dessa da “participação direta”, que, se não for claramente delimitada, conflita com os fundamentos
da democracia representativa.
É difícil entender de onde os autores do documento tiraram a noção de que “a campanha pelas leis cidadãs é a melhor resposta que podemos dar à crise internacional”. Como se leis de iniciativa popular fossem superiores e mais eficazes do que as originadas no parlamento! Elas e os plebiscitos e referendos, igualmente defendidos no texto, são instrumentos que se devem usar de forma muito parcimoniosa e que estão longe de ser panaceias para os problemas da democracia.
O curioso é que as quatro propostas básicas do PT são quase idênticas às que a comissão especial do Senado aprovara. Lá, os notáveis dos principais partidos haviam chegado às mesmas recomendações dos petistas.
Financiamento público exclusivo, voto em lista, fim das coligações nas proporcionais e fixação de uma cota de 50% das listas para candidatas mulheres, todas constavam do relatório da comissão especial. É a CCJ que as está suprimindo (com exceção da proibição das coligações nas eleições proporcionais, que ninguém defende). Se depender do parecer do relator, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), delas não restará nada.
Essas propostas, especialmente as que o PT chama “objetivos estratégicos”, são inovações em nossa legislação destinadas a fortalecer os partidos políticos. Adotadas em conjunto, mudariam as condições institucionais de seu funcionamento e organização.
Na opinião unânime dos estudiosos, o voto proporcional favorece os partidos, sendo o voto majoritário seu adversário potencial. O sistema em que ganha o mais votado, independente de sua filiação partidária, faz com que os candidatos se bastem e prescindam da votação de seus companheiros de legenda.
Os eleitos se tornam os únicos senhores dos votos que receberam e, portanto, dos mandatos.
O multipartidarismo não é impossível, mas fica difícil quando se adota o voto majoritário nas eleições legislativas. Os países onde prevalece o voto distrital são, quase sempre, bipartidários, pois a eleição do representante local tende a se tornar polarizada entre apenas duas correntes (como ocorre nas eleições para prefeito, que, na maioria dos municípios brasileiros, particularmente os menores, costumam ser resolvidas entre os dois “lados” da vida política local).
A lista partidária preordenada, em que o eleitor vota no partido e os candidatos são eleitos de acordo com sua posição na lista, conflita com nossa experiência eleitoral. Segundo as pesquisas de opinião, a vasta
maioria da população a rejeita. Muitas vezes, com a ilusão de que, no modelo atual, é mais livre para escolher.
Não há, no entanto, como negar coerência ao PT nas propostas que faz de reforma política. Nada mais lógico que o maior partido que já tivemos em nossa história seja favorável ao fortalecimento dos partidos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

COMO FALAM OS PARTIDOS

Marcos Coimbra, no Correio Braziliense.
No 4º Congresso Nacional do PT, realizado no último fim de semana, o mais importante documento aprovado foi uma “Resolução Política”. Muita coisa foi significativa nos três dias que durou o evento (como a saudação entusiasmada que recebeu José Dirceu, em desagravo ao modo como foi tratado por certa imprensa), mas é ela que vai durar.
Para todos efeitos, é uma espécie de atualização do programa do partido, a mais recente desde o 3º Congresso, que aconteceu em 2007, após a reeleição de Lula. Nela, o partido toma posição em relação ao governo federal, fornece sua visão do cenário nacional e internacional, e estabelece uma agenda de curto prazo, seja para a atuação de seus parlamentares, seja para as próximas eleições municipais.
Pode-se gostar ou não do PT enquanto partido, mas de uma coisa quase ninguém duvida: está a anos-luz dos demais, em qualquer dimensão relevante de comparação objetiva. É, de longe, o maior e o mais organizado de todos os partidos que tivemos em nossa história.
Pode-se, também, concordar ou discordar do conteúdo da resolução, mas é um docmento que não pode ser ignorado.
A começar pelo simples fato de existir. Estamos exageradamente acostumados a que os partidos nada tenham a dizer institucionalmente, e a ouvi-los apenas através de suas lideranças. Sua manifestação formal e oficial é rara, o que é reflexo da dificuldade que têm para construir consensos e encontrar os sentimentos majoritários de seus integrantes.
Nos pequenos, o personalismo dos dirigentes é tão grande que eles decidem sozinhos e divulgam suas opiniões quando querem e da forma que lhes apraz. Alguns têm tanta consideração por seus correligionários que os informam de decisões partidárias por meio do Twitter.
Nos grandes, temos alguma vida partidária efetiva. Mas as dissensões interpessoais costumam ser tão intensas que apenas raramente é possível chegar a acordos que permitam elaborar ou rever programas e documentos semelhantes.
O PSDB, por exemplo, desde sua fundação em 1988, só sentiu que precisava preparar um novo documento programático em 2007. Ainda assim, o apresentou como um simples “manifesto”.
De lá, para cá, não falou mais como partido. Especialmente, depois que Fernando Henrique passou a publicar com regularidade seus pontos de vista pela imprensa. Seus artigos, sempre assinados, se tornaram o que de mais perto há no PSDB de documentos programáticos. (O que não deixa de ser coerente: partidos de quadros, documentos individuais, elaborados por “notáveis”; partidos de massa, documentos coletivos, fruto da negociação entre correntes.)
Deixando, por ora, a discussão do conteúdo da Resolução petista, podemos comparar sua linguagem à do texto tucano de 2007. É um modo de ver as diferenças que existem entre os partidos.
Algumas palavras aparecem em proporção totalmente diversa nos dois documentos. “Corrupção”, assunto relevante para o PSDB em 2007 (dois anos depois do mensalão), surge em seu documento quatro vezes. No do PT, escrito agora, 12. “Comunicação”, algo pouco importante para os tucanos, lá está apenas uma vez. Como é preocupação atual do PT, aparece 12 vezes no seu.
“Eficiência” e “gestão” (com suas combinações) são marca tucana: 14 vezes no seu manifesto. Nem tão relevantes para o PT: quatro, na Resolução.
Totalmente diferentes as interlocuções: “mulher”, 13 (PT) a 1 (PSDB); “movimento (social, sindical, etc.)” 19 a 2; “negro” 4 a 1; “trabalhador” 13 a 9; “sindicato” 4 a 1. Ambos citam “jovens”(ou “juventude”) em quantidade parecida: o PT por 11 vezes, o PSDB, 9. Nos “empresários”, empate: 1 a 1.
Diferente também a geografia: no documento petista, há 12 menções à América Latina (ou do Sul), enquanto no tucano apenas 2; os Estados Unidos são citados 7 vezes pelo PT (de forma negativa em quase todas) e não aparecem no documento do PSDB. Já a China e a Índia estão nos dois em igual medida: juntas, são mencionadas 6 vezes pelos tucanos e 5 pelos petistas.
Nas suas 11 mil palavras, a Resolução do PT cita Dilma (pelo nome ou pelo cargo) 41 vezes.
Lula aparece 33. “Neoliberal” (ou “neoliberalismo”), 26 vezes (todas, é natural, de forma crítica); “socialismo”, 5; “esquerda” (ou “centro-esquerda”), 15. Nenhuma está no texto tucano.
Há quem ache que a leitura dos programas partidários é irrelevante. Não é. Pode ser elucidativa.

domingo, 28 de agosto de 2011

XADREZ NACIONAL

Marcos Coimbra, do Correio Braziliense.
Existe alguma cidade, em especial, em que a eleição municipal de 2012 precisará ser acompanhada de perto por quem se interessa pela presidencial de 2014? Onde tudo que vai acontecer, no ano que vem, poderá ser relevante, desde as movimentações preliminares aos resultados finais?
Talvez seja cedo para responder, mas parece que sim. Muitas cidades passarão por eleições que poderão ter impacto na política nacional, reforçando ou enfraquecendo lideranças, aproximando partidos ou provocando rupturas entre eles. Em uma, no entanto, o significado deverá ser maior.
É em Belo Horizonte que os primeiros lances da próxima eleição presidencial serão jogados para valer. Por uma razão: o principal candidato das oposições, o senador Aécio Neves, é um ator decisivo na sucessão da capital mineira.
O que Aécio vai fazer (ou deixar de fazer) em Belo Horizonte, em outubro de 2012, tem consequência direta na montagem do tabuleiro da eleição de 2014.
Esse é o motivo de a escolha do próximo prefeito da cidade ser especialmente significativa.
A afirmativa pode soar estranha para quem está acostumado a achar que a eleição do prefeito de São Paulo é sempre a mais importante. Por ser a maior cidade, a capital do estado mais rico, aquela com o maior orçamento, muita gente supõe que a escolha de seu prefeito tem impacto decisivo nas eleições presidenciais.
Não precisamos ir muito longe para verificar que a hipótese não se sustenta.
Ganhar ou perder em São Paulo, na eleição de prefeito, não quer dizer nada (ou quase nada) para a eleição presidencial subsequente. Assim foi em todos os casos desde a redemocratização, seja nas vitórias tucanas ou nas petistas (os candidatos a prefeito do PSDB foram derrotados em 1992 e 1996, e Fernando Henrique venceu em 1994 e 1998; os do PT perderam em duas – 2004 e 2008 – das três que antecederam as vitórias de Lula e Dilma).
Quem também pode estranhar o raciocínio são os que apostam que Serra será o candidato tucano em 2014. Para essas pessoas, é perda de tempo prestar atenção naquilo que Aécio faz.
Na capital de seu estado, ele se defrontará com uma situação até certo ponto parecida com a que estava à frente de Serra em 2008: lançar candidato próprio, egresso do PSDB (ou de qualquer um dos diversos partidos a ele ligados na política estadual) ou apoiar a reeleição de Marcio Lacerda, o atual prefeito.
Serra havia começado a fazer seu jogo na eleição de 2004, quando compôs chapa com Gilberto Kassab, então um jovem quadro pefelista. Seu objetivo era tranquilizar os setores conservadores e de direita, que o viam (naquela época) como excessivamente estatista e antiliberal. Pensava, é claro, em aliar-se a eles em alguma eleição presidencial, seja na de 2006 (da qual acabou desistindo) ou de 2010.
Quando Kassab resolveu disputar a reeleição (o que era previsível), ele o apoiou, apesar de seu partido ter candidato. Em um gesto que deixou indignada a mídia serrista, Alckmin cometeu um crime de lesa-Serra e contrariou os planos do governador. Perdeu, Kassab ganhou e Serra ficou como o grande arquiteto da vitória, consolidando suas pontes em direção à direita. Acabou com o Índio.
Na eleição de 2008 em Belo Horizonte, Aécio fez diferente. Moveu-se para a esquerda, aliando-se ao prefeito Fernando Pimentel, do PT. Juntos, apresentaram um mesmo candidato, Marcio Lacerda, filiado ao PSB (por orientação de Aécio). Seu companheiro de chapa foi indicado pelo PT.
Marcio faz uma gestão aprovada pela grande maioria da cidade e é um natural candidato à reeleição.
Qual vai ser o comportamento de Aécio? Na eleição mais visível do estado onde está sua base eleitoral, voltará a apoiar um candidato do PSB? Insistirá em uma aliança à esquerda, consolidando seus vínculos com lideranças como Eduardo Campos e Cid Gomes? Ou vai conduzir o PSDB para uma candidatura própria e buscar uma composição mais ao centro ou à direita?
Se apoiar Marcio, como será a convivência com o PT mineiro? E que consequência terá uma vitória do atual prefeito na sucessão estadual em 2014, quando Anastasia não poderá concorrer e Aécio, muito provavelmente, disputará a Presidência da República pelo PSDB? Quem dividiria o palanque com ele, como candidato ao governo do estado?
É esperar para ver. Pelo que tudo indica, em Belo Horizonte, um capítulo importante de 2014 começará a ser escrito dois anos antes.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O VOTO LOCAL

Marcos Coimbra
Toda eleição é importante para a comunidade em que ocorre. Da maior à menor, qualquer uma provoca efeitos na vida das pessoas. Seja para o Legislativo, seja para o Executivo.
É falsa a tese de que, na sociedade moderna, a administração se racionalizou ao ponto de torná-las irrelevantes. De que estamos na era do depois da política, em que as questões da vida coletiva se tornaram técnicas. De que não interessa a cor do cachorro, sendo unicamente importante que saiba latir.
Fez clara diferença, por exemplo, a eleição de Lula em 2002. É provável que algumas coisas que o petista realizou em seus dois mandatos não fossem muito diferentes das que Serra teria empreendido se tivesse ganho. De um lado, existe uma inércia na ação de governo que não permite, em diversas áreas, alterações significativas de rumo a cada vez que se troca o presidente. De outro, a realidade internacional nem sempre deixa espaço para decisões inteiramente livres. Faz-se o que é possível, e o que é possível, muitas vezes,
não varia.
Mas qualquer um sabe que o Brasil depois de Lula não é igual ao que teríamos se Serra tivesse ocupado seu posto. Nas coisas boas e nas ruins.
O eleitor tinha perfeita consciência disso quando votou em Lula. Ao escolhê-lo, as pessoas sabiam que faziam uma opção entre determinado rumo e outro. O que estava em pauta não era uma simples troca de administrador, de alguém para desempenhar um papel basicamente igual e fazer as mesmas coisas.
Em 2010, isso voltou a estar claro para a grande maioria do eleitorado. Até o cidadão mais ingênuo sabia que o Zé (Serra) não ia continuar o trabalho do Lula da Silva, apesar da campanha do tucano dizer que sim; que, se quisesse continuidade, votaria em Dilma.
As eleições estaduais e municipais também são assim. Votar em um candidato a governador ou a prefeito é escolher o modo como serão administradas políticas que afetam o cotidiano de cada eleitor. É trazer determinados temas para o primeiro plano e deixar outros em menor destaque. É afirmar o que cada um prefere para seu estado ou cidade. Certamente, é mais do que apenas optar entre pretendentes a aplicar receita idêntica.
Ano que vem, na hora em que os eleitores votarem nos candidatos a vereador e prefeito, estarão se manifestando a respeito dos rumos que desejam para os municípios em que vivem. Alguns votarão orientados por preferências políticas e partidárias estruturadas há muito tempo, outros de acordo com sua percepção do momento. Uns levarão determinados aspectos em conta, outros não. Mas todos estarão pensando fundamentalmente em suas cidades. Ainda bem.
Parece estranho, mas há quem acredite que o eleitor vota em um candidato a prefeito como se quisesse “passar um recado” ou “homenagear um líder”. Que, no fundo, acha secundário o ocupante do cargo, pois sua verdadeira preocupação é transmitir a alguém uma “mensagem”.
O eleitor procura o candidato com mais possibilidade de fazer com que a prefeitura de sua cidade se pareça com o que deseja. A chance de que vote em quem, a seus olhos, não conseguiria isso, a fim de “enviar mensagens”, é mínima. Afinal, quem pagaria a conta seria ele, tendo que suportar alguém desqualificado no cargo durante quatro anos.
Ele pode errar (e sabe disso), mas não deliberadamente. Pode, por exemplo, estar frustrado com o governador de seu estado, mas não deixará de votar no candidato a prefeito de seu partido, se o considerar o melhor para a cidade.
Vice-versa, o contrário: não é por gostar do governador que votará em um mau correligionário dele.
Raciocínio semelhante serve para os chamados “grandes eleitores”. Porque um eleitor, lá na sua cidade, conhecedor dos candidatos, ciente do que representam, votaria em quem, por exemplo, Lula quer que ele vote? Se for em quem já pensa, ótimo, o apoio somaria. Mas, quando está convencido de que o melhor é outro nome? Porque mudaria sua decisão? Para expressar seu apreço pelo ex-presidente? E desde quando uma homenagem como essa faz sentido (para os eleitores normais)?
Vamos fazer, ano que vem, quase 6 mil eleições. Cada uma é diferente, todas são importantes. Se enganam os que acham possível nacionalizá-las ou dirigi-las.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

DUROS APRENDIZADOS

Marcos Coimbra, do Correio Brasiliense.
O fortalecimento de partidos de direita na Europa é a parte visível de um movimento mais profundo, de xenofobia e preconceito, que se dissemina por todo o continente, dos maiores aos menores países.
Não há nada de bom em tragédias como a que aconteceu na Noruega. Foi uma coisa estúpida, que causou a morte de quase 80 pessoas e trouxe dor a todo um país.
Alguém teria coragem de dizer que foi boa, em qualquer sentido que seja?
A respeito das tragédias, só uma coisa se sabe. Que, quase sempre, poderiam ser piores. Em chacinas e atentados como esse, mais gente poderia morrer, mais destruição advir, maiores os custos humanos e materiais. Nos desastres ambientais, como o recente no Japão, maior o impacto e o tempo de recuperação.
No morticínio na Noruega, tudo seria pior se o assassino não fosse um nórdico louco de direita. Se não tivesse as características exteriores de um “legítimo” cidadão de seu país.
Quem viu o manifesto deixado por ele terá notado o paradoxo do ato que cometeu  à luz das ideias em que acreditava. Diz que a Europa precisa se proteger de três forças que ameaçam destrui-la: o “marxismo cultural”, o

segunda-feira, 18 de julho de 2011

CONTINUIDADE E APROVAÇÃO

Marcos Coimbra, no Correio Braziliense.
Dilma está sendo bem avaliada pelo que seu governo faz. Lula continua a ser um fator que contribui para explicar o desempenho, mas seu peso tende a ser menor a cada dia.
Ao longo da campanha presidencial do ano passado, foi comum a discussão de precedentes para a candidatura de Dilma. Nos meios políticos e na imprensa, volta e meia eram lembrados casos parecidos ao dela.
Desde muito cedo, ficou evidente que era a favorita. Apesar de não ter experiência eleitoral. Apesar de começar sua carreira pelo alto, sem ter pleiteado cargos menores. Apesar de ela nem sequer ser militante histórica de seu partido. Apesar de não ter “jeito” para a televisão e o palanque. Apesar de seu visível mal-estar no trato com os políticos tradicionais.
A todas essas limitações, sua candidatura respondia com um argumento: o apoio de Lula. Podia faltar-lhe tudo, mas tinha esse trunfo. Como legítima herdeira do ex-presidente, ela representava algo que a maioria do eleitorado queria: continuidade.
Nisso, a novidade estava apenas em que o cargo em disputa era a Presidência da República. Nosso sistema político já conhecia vários exemplos bem-sucedidos de candidaturas com perfil semelhante, em eleições estaduais e municipais. Em todos, havia alguém encerrando sua administração com alto nível de aprovação popular e que indicava um sucessor para prossegui-la.
Com base nesses casos, ficou mais fácil prever o resultado da eleição de 2010. Parafraseando a famosa (e equivocada) frase “É a economia, estúpido!”, a vitória de Dilma pôde ser antecipada e, depois, explicada por outra: “É a continuidade, estúpido!”.
Esse raciocínio não responde, no entanto, a outras perguntas relevantes. Até quando um governante que se elegeu dessa maneira consegue se sustentar somente assim? Se a continuidade é suficiente para garantir uma vitória, bastará para levar o eleito a governar com aprovação e apreço?
São questões que começam a fazer sentido a respeito do governo Dilma. Passado o primeiro semestre, com a eleição ficando mais longe, o fato de ela ter sido “a candidata de Lula” continua a ser decisivo para sua imagem? Até que ponto os precedentes de candidatos que venceram por “transferência de prestígio” nos ajudam a entender suas particularidades?
Se nossa imprensa tivesse se interessado pelas pesquisas publicadas de maio para cá, essa seria uma boa discussão. Poderíamos, por exemplo, discutir se Dilma, aos seis meses, se assemelha ou é diferente de governadores e prefeitos que chegaram aos cargos de maneira parecida.
Mas ela não lhes deu atenção, pela simples razão que contrariavam a expectativa (ou terá sido o desejo?) que mostrassem que Dilma caía, por qualquer motivo (crise Palocci, ameaça de recrudescimento inflacionário, crise nos Transportes, etc.). Como diziam o inverso, que ela e seu governo tinham níveis elevados de aprovação, ninguém falou nelas (sequer seus contratantes).
Tomemos um caso muitas vezes lembrado durante a campanha: Celso Pitta, o sucessor de Maluf, que chegou a ter, em São Paulo, números semelhantes aos de Lula no conjunto do país. Formalmente, tem vários pontos de contato com o caso de Dilma. Ambos eram auxiliares de governantes com alta popularidade, técnicos, sem passado eleitoral. Os dois enfrentaram adversários de largo currículo e grande biografia (um deles, curiosamente, o mesmo José Serra) e venceram.
Cessam aí as analogias. Enquanto Dilma chega aos seis meses com números recordes de aprovação, Pitta foi escorregando ladeira abaixo ao longo do primeiro ano. No fim de 1997, tinha, segundo dados do Datafolha, 13% de “ótimo” e “bom”, e 52% de “ruim” e “péssimo”. Quase exatamente o oposto do que Dilma obtém agora.
Que lição podemos tirar disso? Talvez que seja possível explicar uma vitória eleitoral pelo modelo da transferência, mas que, à medida que o tempo passa, o prestígio do patrono não é suficiente para fazer com que o eleito sustente uma aprovação elevada.
Em outras palavras: Dilma está sendo bem avaliada pelo que seu governo faz. Lula continua a ser um fator que contribui para explicar o desempenho, mas seu peso tende a ser menor a cada dia.
Se quisermos um caso semelhante: Antonio Anastasia tem níveis iguais aos dela como governador de Minas Gerais. Em parte, por ser o sucessor de Aécio, em parte por ser quem é.

domingo, 10 de julho de 2011

NOSSO PRESIDENCIALISMO

Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Insituto Vox Populi e esceve para o Correio Braziliense.
Não é impossível que, se Serra fosse presidente, Alfredo Nascimento (ou alguém muito parecido a ele) fosse ministro. E o que Dilma viveu teria sido vivido por ele.
Apenas como exercício de especulação, vamos imaginar que José Serra venceu a última eleição presidencial. Parece uma hipótese maluca, mas, há pouco mais que seis meses, era uma possibilidade real.
Se, por exemplo, Marina tivesse ido além do que foi (o que poderia perfeitamente ter ocorrido), levando Dilma para menos de 40 milhões de votos, não ficaríamos longe disso. No taco a taco, Serra poderia ter ganhado.
Hoje, estaria sentado no Planalto e PSDB, DEM e PPS formariam a “base do governo”.
Seria deles o papel que PT, PMDB, PR, PSB, PDT e PCdoB desempenham, pois os outros que integraram a coligação pró-Dilma (PRB, PTN, PSC e PTN) são pouco expressivos.
Como a eleição para o Congresso ocorreu no início de outubro e, na nossa hipótese, Serra só venceria no segundo turno, o resultado das eleições parlamentares não seria afetado pela vitória do tucano. Teríamos Serra presidente e sua coligação com a performance que conhecemos.
Além do núcleo com os três partidos, que possuem 108 deputados e 18 senadores (somando os eleitos em 2006 e 2010), o governismo serrista teria o apoio de outros três partidos que fizeram parte de sua coligação, mas que preferiram passar-se para perto de Dilma. Seriam mais 30 deputados e sete senadores de PTB, PTdoB e PMN.
O governo teria, portanto, 138 deputados em 513 e 25 senadores em 81. Em termos percentuais, o voto de 27% da Câmara e de 30% do Senado.
Com uma “base” desse tamanho, no presidencialismo que temos, onde o Parlamento pode paralisar o Executivo, Serra não governaria. Para consolidá-la e ampliá-la, teria que solucionar três problemas.
O primeiro seria garantir que todos os eleitos pelas siglas de sua coligação permanecessem fiéis. No PSDB, no DEM e no PPS, isso poderia ser menos problemático (embora, aqui e ali, seus articuladores no Congresso fossem enfrentar resistências). Mas, nos três outros (particularmente no PTB), não seriam poucos os deputados e senadores com pequena ou nenhuma afinidade com o Planalto.
Seu segundo desafio seria atrair os parlamentares dos partidos que não se alinharam com nenhum candidato a presidente. Foram poucos e pequenos, salvo o PP, que elegeu 44 deputados e tem quatro senadores. Juntos, PHS, PRTB, PRP, PTC e PSL fizeram somente oito deputados. Mesmo com todos, o governo chegaria a apenas 37% dos votos na Câmara e a 35% no Senado.
Por isso, ele seria obrigado a resolver um terceiro e mais complicado problema: levar adversários para seu lado. Sem um naco apreciável deles, o governo claudicaria nas suas relações com o Legislativo e seus projetos andariam aos trancos e barrancos. Como Câmara e Senado seriam presididos por representantes
de partidos derrotados na eleição presidencial, tudo ficaria difícil.
Nesses partidos, haveria quem nunca seria governista e quem mudaria de lado sem pestanejar. No PT, no PSol e em alguns setores da esquerda, todos permaneceriam na oposição, mas no PMDB, no PV e em outros, muita gente debandaria alegremente.
O relevante é que, em todos os casos, o Executivo precisaria ter argumentos. Seja para garantir a fidelidade de correligionários, atrair os descompromissados ou, especialmente, convencer oponentes a virar a casaca. Que argumentos e de que tipo é que são elas.
Com quais forças políticas teria Serra montado seu ministério? Exigindo o que dos indicados pelos partidos que quisesse fidelizar?
A tomar pelo que ocorreu nos oito anos em que o PSDB governou e pelo que Serra fez quando foi governador e prefeito, não faria muito diferente de Dilma.
Simplesmente porque é desse modo que funciona nosso presidencialismo. O Executivo precisa de maioria no Congresso e está disposto a ceder espaço aos partidos em troca dela. Desde que não exagerem.
Agora, na demissão do ministro dos Transportes, a oposição, com razão, aproveita para criticar o governo e acusá-lo de “estar cheio de corruptos”. Mas vai devagar, pois já foi vidraça.
Não é impossível que, se Serra fosse presidente, Alfredo Nascimento (ou alguém muito parecido a ele) fosse ministro. E o que Dilma viveu teria sido vivido por ele.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

SIMPATIA E IDENTIDADE PARTIDÁRIA

Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi.
Os partidos tendem a olhar apenas para dentro de si mesmos. Parece que seus dirigentes e quadros só se interessam pela vida interior, nas brigas pelo poder e o controle de recursos que ele enseja.
Ao contrário do que muita gente pensa, a proporção de eleitores brasileiros que se identificam com algum partido pode ser considerada elevada. Já foi o tempo em que era avassaladora a maioria dos que não tinham afinidade com nenhum.
Comparações internacionais relevantes são difíceis. Cada país tem sua história, seus partidos e seu tipo de participação política. Fundamental, por exemplo, é a distinção entre aqueles onde o voto é universal e obrigatório, como o Brasil, e aqueles onde é facultativo, como na maior parte dos desenvolvidos.
Melhor é comparar nossa situação de agora com a do passado. Fazendo isso, podemos ver com mais clareza como e em que estamos mudando.
No começo do século passado, éramos um sistema político tão limitado e restritivo que nem fazia sentido a pergunta a respeito de identidades partidárias.
Os partidos que tínhamos pouco mais eram que grupos regionais de interesse, dos quais

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O DILEMA TUCANO OUTRA VEZ

Marcos Coimbra, do Correio Braziliense.Marcada para o próximo dia 28, a convenção nacional do PSDB ocorre em um momento especialmente importante para o partido. Talvez mais que em qualquer outra, nela ele se defrontará com escolhas decisivas para seu futuro.
Por extensão, para o futuro das forças políticas e sociais que fazem oposição ao PT e ao governo. Em função de vicissitudes de nossas eleições desde os anos 1990, o PSDB se tornou o principal e, para muitos efeitos, o único contraponto real ao petismo. Na vitória e na derrota.
Nada sugere que o quadro será diferente em 2014. Pelo que se pode antever, deve voltar a sair do PSDB o candidato oposicionista, pois das outras legendas (as que sobreviverem até lá) dificilmente algum nome emergirá. (Se tivéssemos que apostar, o mais provável é que se repita um cenário parecido com o do ano passado: oposições unidas, em torno de um tucano, contra mais de uma candidatura egressa do governismo. Não foi isso que ocorreu com Serra versus Dilma e Marina?)A convenção peessedebista é relevante, portanto, para o jogo político nacional, e não somente para o partido. O que lá for deliberado tem consequências para todo o sistema político.
Com sua atávica predileção por ficar em cima do muro, as lideranças do PSDB conseguiram evitar uma confrontação que agora parece inevitável. Na verdade, o que fizeram foi apenas circunscrevê-la, não deixando que se explicitasse e se tornasse uma guerra aberta.
Mas até as pedras da rua sabem que o PSDB está dividido entre duas correntes, o serrismo e o aecismo. Pelo menos nas questões nacionais, pois, nas regionais, há outras.
A mais relevante é liderada por Alckmin, mas seu horizonte é diferente. Enquanto Serra e Aécio só têm a Presidência da República pela frente, ele pode voltar a disputar o governo de São Paulo (o que, se for bem-sucedido, vai fazer com que atinja a marca impressionante de permanecer no Palácio dos Bandeirantes por 14 anos, pulverizando o recorde de Ademar de Barros, de 11, contado o período como interventor).
Como também sabem as pedras da rua, Alckmin e Serra não se entendem, pelo menos desde quando o segundo sucedeu o primeiro e não o poupou de críticas a (quase) tudo que fizera. Começou ali o pior período da carreira de Alckmin, que se acentuou quando, na eleição para prefeito da capital em 2008, Serra fez de tudo para eleger Kassab, pensando em ter o DEM a seu lado na eleição presidencial de 2010. Derrotado, só restou ao atual governador aceitar um posto subalterno no governo Serra.
Quem achou que essa era uma jogada de mestre de Serra vê agora que o efeito foi nulo, para dizer o mínimo. Hoje, Alckmin administra com seus aliados de primeira hora e deixou o serrismo ao relento.
Com boa imagem e apoio popular (pelo menos neste início de mandato), ele terá uma decisão complicada em 2014: se larga o estado (e corre o risco de ver o serrismo de volta) para disputar uma eleição difícil contra Dilma (talvez Lula) ou tenta continuar no governo. Faz sentido que opte por não sair de São Paulo.
Já Aécio e Serra não poderão evitar a disputa presidencial. Serra não terá nada nas mãos (pois é pouco provável que concorra à prefeitura de São Paulo) e o fato de Aécio ser senador só aumenta a possibilidade de que venha a ser candidato a presidente (pois também é pouco provável que queira voltar ao plano estadual ou encerrar sua carreira no Senado).
Nenhum dos dois parece disposto a ceder ao outro a vez. E nada indica que estarão mais propensos a isso adiante.
O PSDB pode deixar a decisão para a frente, como é sua tendência. Pode reencenar o “colégio de ilustres”, convocando os caciques (FHC, Serra, Aécio, Tasso, mais um ou outro) para fingir que estão de acordo. Pode deixar que as pesquisas de opinião voltem a comandar a escolha quando tiver que sair de cima do muro.
A pergunta é qual identidade pretende assumir agora e nos próximos anos. Se quiser ficar com a que tem, basta não fazer nada e deixar que a convenção do dia 28 se esvazie. Se achar que perder três vezes é um sinal de que as coisas não vão bem e que precisa mudar, é bom que se prepare para o enfrentamento.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

TOLERÂNCIA ZERO

Marcos Coimbra, Correio Braziliense.
Para um país como o Brasil, um aspecto da caçada e morte de Osama bin Laden é mais grave que para outros. Talvez não devesse ser assim, pois diz respeito a valores e a princípios universais.
Não haveria motivo para que algumas sociedades fossem mais e outras menos tolerantes com a tortura. O repúdio deveria ser igual, independentemente das particularidades de cada uma.
Não é universal a reprovação de traços culturais bárbaros, mesmo quando fazem parte de tradições milenares? Alguém admite práticas como o apedrejamento ou a ablação de mulheres? Alguém as justifica com base em algum tipo de argumentação, incluindo a invocação da ideia de relativismo?
À medida que a globalização nos torna mais parecidos, muita coisa boa corre o risco de se perder, mas muita coisa ruim desaparece. Se não fosse assim, só haveria a lamentar que o mundo esteja ficando culturalmente menos heterogêneo.
Mas cada sociedade é única e tem uma experiência específica. E coisas que algumas toleram são radicalmente inaceitáveis para outras.
Em quase todos os países da América do Sul, a tortura foi uma presença constante ao longo dos últimos 100 anos. Dezenas de milhares de pessoas foram submetidas às suas formas mais cruéis e muitos milhares morreram. Quem as infligiu foram governos quase sempre de direita e que quase sempre chegaram ao poder por meio de golpes militares.
Faz pouco tempo, em termos históricos, o Brasil viveu uma experiência traumática com ela, da qual não se recuperou totalmente, pois muitas feridas continuam abertas. A anistia apagou diversas coisas, mas a tortura, não (e nem deveria).
Parte fundamental de nossa elite política foi torturada durante o período militar. Hoje, temos uma presidente da República, bem como governadores, prefeitos, senadores, deputados e ministros que sofreram brutalidades nas mãos de agentes públicos. Em nome do risco que representavam para a “segurança nacional”, foram marcados para sempre. Aquilo em que se tornaram, passados 30 anos, é, em si, uma condenação de quem os torturou (ou mandou torturar, pois dá no mesmo).
A trajetória americana é diferente. Lá, por mais belicosa que seja a cultura, não havia uma experiência com ela. Até quando a “guerra ao terror” passou a justificá-la, os americanos podiam se orgulhar dela não fazer parte de sua vida como país civilizado. Nunca houve nos EUA uma Operação Bandeirantes ou um delegado Sérgio Fleury (ainda que o governo os conhecesse e tolerasse seus congêneres mundo afora).
Logo após a execução de Bin Laden, a imprensa americana voltou à discussão dos “métodos extremos de interrogatório”, como eufemisticamente designam a tortura que praticaram contra militantes do radicalismo islâmico, para obter confissões ou colher informações. Como bons burocratas, anotaram até o número de sessões de sevícias a que submeteram algumas lideranças: 183, no caso do segundo na hierarquia da Al-Qaeda, para dar um exemplo.
Com o sucesso da operação, muitos críticos da tortura ficaram sem argumentos e se calaram. Inversamente, os criticados se sentiram vindicados. A morte de Bin Laden desculpou, retrospectivamente, a tortura que o aparato militar e de contra-terrorismo ordenou. Os fins justificaram os meios. Seus porta-vozes se rejubilaram.
Tanto nossas lideranças, quanto nossos jornais preferiram evitar o assunto. Ninguém subscreveu a tese de que, no caso, a tortura era aceitável (salvo os Fleurys da imprensa). Houve declarações de repúdio, mas foram poucas.
A eficácia da tortura é o argumento dos ditadores e dos torturadores. Com relação a ela, não cabe qualquer tolerância. O mundo civilizado já disse que não a aceita, em qualquer intensidade ou proporção: ela é inadmissível. Admitida, quem estiver no comando pode querer usá-la, do fanático ao brutamontes.
Os americanos ficaram felizes quando o prefeito de Nova Iorque disse que teria tolerância zero para com as pequenas infrações, pois, se as aceitasse, não teria como dizer um basta às grandes. Quem jogasse um papel de bala no chão era um infrator e como tal deveria ser penalizado.
É triste ver onde chegaram. Ou tomam cuidado, ou, daqui a pouco, estarão achando natural que qualquer um faça justiça com as próprias mãos. Para que leis, se nem o Estado, quando se sente moralmente justificado, as obedece?

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A CRISE DOS PARTIDOS DE OPOSIÇÃO

Marcos Coimbra, no Correio Braziliense.
Os partidos de oposição vivem um momento complicado. Tanto o PSDB quanto as legendas menores atravessam dificuldades internas. Nas suas relações com a opinião pública, nenhum alívio. Tampouco nesse front as coisas vão bem.
Essa dura realidade contrasta com o discurso de suas principais lideranças após a eleição do ano passado e mesmo no início deste. Quem não se lembra de como saudaram os “43 milhões de votos” de Serra na disputa presidencial? Ou a conquista de 10 governos estaduais, contados os do PSDB e os do DEM?
Parecia que a derrota de Serra era uma vitória. Quem olhava os mapas coloridos que os grandes jornais publicaram, em que os estados azuis, onde ele venceu, pareciam sobrepujar os vermelhos, onde Dilma se saiu melhor, ficava com a impressão de que o resultado era outro.
Os analistas e comentaristas ligados à oposição ajudaram a difundir a ficção de que os resultados da eleição “até que não foram tão ruins”. Achavam que ela tinha revelado que o “Brasil oposicionista” era grande, muito maior que se imaginava. Grande e dinâmico, pois Serra tinha vencido na maior parte do Brasil moderno e educado. E, em muitos dos principais estados, governadores tucanos ou do DEM haviam derrotado candidaturas do PT e de outros partidos governistas.
Se o Brasil fosse mesmo assim, seria de esperar que Dilma enfrentasse grandes dificuldades em seu relacionamento com a sociedade. Com quase um eleitor oposicionista para um simpático ao governo, ela viveria uma realidade muito diferente daquela que Lula experimentou. Os altos índices de popularidade a que nos acostumamos não se repetiriam.
Passaram-se os meses e nada disso aconteceu. O exército formidável de eleitores oposicionistas se dissipou. Nada sugere que sobreviva. Nas pesquisas de opinião divulgadas de março para cá, Dilma não só mostrou estar com altas taxas de aprovação, como superou os números que o próprio Lula alcançava na mesma altura de seus dois mandatos. Para tristeza de quem apostava que ela seria uma decepção, o que estamos vendo crescer é a parcela que se surpreende favoravelmente com ela.
Em retrospecto, parece claro que o tamanho do “Brasil oposicionista” estava superestimado. Consequentemente, que o sentimento pró-governo (e pró-Lula) era maior que a votação obtida por Dilma. Por razões que têm a ver com nossa cultura política e seu culto às personalidades, Serra teve mais votos que o oposicionismo real que existe no país. Ele inchou porque as pessoas relutaram em conferir o voto a alguém que conheciam havia pouco, por mais que respeitassem e estivessem satisfeitas com quem a indicava.
Na raiz dos problemas atuais da oposição está a constatação de que suas bases diminuíram. Como diria Fernando Henrique, ela não consegue falar com “o povão” e tem que ir à cata das “novas classes médias”, sabe-se lá o que sejam.
O mais grave é que não são só esses seus dilemas. A eles somam-se crescentes dificuldades internas. As mais óbvias são do DEM. O que dizer de um partido (cuja origem remota é a velha Arena, que já foi saudada como o “maior partido do Ocidente”) que não consegue resistir ao ataque de um político do calibre de Gilberto Kassab? Que desmilingue ao ouvir o canto de sereia do PSD?
E o PPS? Talvez seja o preço a pagar pelo personalismo de sua direção e pela falta de coerência de um ex-partido comunista que virou destino para políticos de qualquer convicção. Mas sua crise ameaça ser igual à do ex-PFL, seu companheiro atual de militância.
Quanto ao PSDB, o problema é o de sempre, a relutância em escolher o caminho que pretende seguir. O serrismo continua a puxar o partido para trás, insistindo em uma sobrevida sem perspectivas. É um afogado que se debate e ameaça levar os outros para o fundo.
FHC está certo quando diz que as oposições precisam se reinventar. O problema é como fazê-lo com o que lhes resta.

domingo, 10 de abril de 2011

CEM DIAS

Marcos Coimbra,  do Correio Braziliense.
Hoje, ao chegar a 100 dias, o governo Dilma completa uma etapa. Ninguém sabe sua origem, mas é antigo o costume de considerar especial esse momento. É quando se faz o primeiro balanço, a primeira avaliação de como funciona um governo.
Para a opinião pública, não é uma data relevante. Na vida das pessoas, são raríssimas as situações em que 100 dias significam algo. Na família, no trabalho ou nas relações sociais, nada acontece quando são completados. Alguém comemora os 100 dias de nascimento de um filho? De um namoro? De um emprego?
Mas o meio político anda depressa, a imprensa precisa de notícias e estamos habituados às datas redondas. Daí que nos pomos a discuti-los, apesar de saber que nem tanta importância têm.
Na verdade, um novo governo revela-se rapidamente nos seus aspectos fundamentais. Vendo a montagem do ministério, a cerimônia e o discurso de posse, as iniciativas dos primeiros dias, conhecemos logo suas características — para onde pretende ir, de que maneira e com quem — e podemos antecipar como será, pelo menos em seus traços gerais. Não precisamos aguardar 100 dias.
Com o governo Dilma foi assim, pois, desde janeiro, sabemos o que é. De lá para cá, nada de bombástico aconteceu. Para muitos, só isso já é uma virtude.
As pesquisas realizadas no fim de março e neste começo de abril são coerentes e mostram que Dilma tem uma avaliação positiva semelhante à de Lula na mesma época de seu primeiro mandato e maior que no segundo. Para o Ibope, os 56% de “ótimo” e “bom” que ela tem agora não estão distantes dos 51% que seu antecessor alcançava em março de 2003, mas são superiores aos 49% que ele obteve em março de 2007.
Na comparação com FHC, Dilma está bem na frente. Ele tinha, no início de seu governo, em 1995, 41% de respostas positivas e nunca chegou aos 50% no seu transcurso. No segundo governo, tudo foi pior: em março de 1999, foram apenas 22%. A crise cambial e o descontrole monetário levaram sua popularidade ladeira abaixo, de onde não saiu mais. Até o fim de 2002, seus índices de avaliação positiva sempre ficaram aquém do patamar de 25%.
Collor e Itamar experimentaram breves momentos de elevada avaliação positiva: o primeiro antes da posse, o segundo quando seu período estava terminando. No governo, ambos começaram com 30% e foram a perto de 10%, mas Itamar se recuperou, saltando a 40% no pós-Real.
A Dilma de hoje só perde, portanto, para o Lula que tivemos de 2008 em diante. Ou seja, só perde para um fenômeno que misturava carisma, desempenho superior ao esperado e boa gestão de imagem. E que ainda contava com a colaboração involuntária das oposições, que não conseguiram se contrapor a ele.
Lendo nossa grande imprensa, fica-se com a impressão de que esses bons números vêm de diferenças que existiriam entre ela e Lula. A seriedade, em oposição à imprudência; o gosto pelo trabalho, contra o fascínio pelo espetáculo; a racionalidade, contra a emocionalidade.
Mas o mais provável é que venham do inverso, da percepção de que Dilma continua, a seu modo, um governo aprovado pela maioria do país. Fundamentalmente, de que ela cumpre o que prometeu na campanha.
Dois tipos de pessoas se espantam com a presidente. Quem gostava de Lula, mas não a conhecia e ficou desconfiado, apesar de ele a avalizar. Quem não gostava do ex-presidente e não acreditou quando ele a apresentou como uma pessoa plenamente qualificada para o cargo.
Nos seus 100 dias, Dilma corresponde à expectativa da maioria que a elegeu. E mostra que Lula estava certo: ela é realmente uma boa presidente da República. Está sendo aquilo que ele disse que ela seria.
Por isso, não é surpresa que sua avaliação seja tão positiva.

quinta-feira, 17 de março de 2011

MANOBRAS PAULISTAS

As recentes movimentações do prefeito de São Paulo nos fazem pensar sobre algumas questões de fundo do sistema político brasileiro e deixam no ar várias perguntas.
Desde o início do ano, são insistentes as notícias de que Gilberto Kassab vai abandonar o DEM, partido ao qual esteve filiado nos últimos 15 anos e pelo qual se elegeu deputado federal, vice-prefeito e prefeito da capital. Antes, atuara na interseção empresarial-política, com seu primeiro mentor, Guilherme Afif, com quem militou na Associação Comercial de São Paulo. Pelo antigo Partido Liberal, havia obtido um mandato de vereador, apoiado pelos colegas corretores de imóveis.
É possível não se impressionar com essa biografia, mas ninguém pode acusá-la de ser incoerente. Em qualquer quesito, Kassab sempre foi um político com clara identidade liberal, na acepção em que a expressão é usada em nosso vocabulário político, como sinônimo de direita moderna.
Aliás, foi esse perfil que levou Serra a convidá-lo a ser seu companheiro de chapa na eleição municipal de 2004. Recém-saído da derrota para Lula e já pensando em voltar a ser candidato a presidente, Serra queria mostrar-se capaz de reeditar a coalizão PSDB/PFL, que havia dado a FHC suas duas vitórias. Estava na hora de descartar a velha imagem de esquerdista estatizante e sinalizar que não tinha problemas de convívio com a direita.
Para demonstrar isso, dispunha-se a dar ao DEM a Prefeitura de São Paulo, pois era óbvio que não permaneceria no Palácio do Anhangabaú mais que o mínimo dos 15 meses em que lá ficou (apesar das juras de que não sairia). Dito e feito, Serra renunciou, Kassab assumiu e o DEM ganhou uma cadeira que muito dificilmente conquistaria sozinho.
A fim de reforçar o recado, Serra foi mais longe. Em 2008, apesar de o PSDB ter Alckmin como candidato à prefeitura, preferiu isolar o correligionário e pôs suas fichas na reeleição de Kassab. Deu certo e Serra saiu daquela eleição com a sensação de que havia manobrado com habilidade para a seguinte, a única que o interessava.
Hoje, Gilberto Kassab, esse símbolo do político liberal contemporâneo, emite sinais curiosos. Primeiro, disse que iria deixar o DEM e rumar para o PMDB. Depois, que faria um partido novo, mas apenas como um truque para chegar ao PSB, sendo o socialismo seu verdadeiro destino.
É difícil imaginar algo mais deseducativo e que mais evidencie os problemas de nosso sistema político. Em plena hora em que Senado e Câmara se reúnem para buscar caminhos para aperfeiçoar as instituições e fazer andar a reforma política, o prefeito da maior cidade do país e dileto discípulo de uma das principais lideranças da oposição mostra que os partidos (e suas hipotéticas ideologias) são irrelevantes. O que importa são os projetos individuais de poder.
Qual será a insatisfação de Kassab com o DEM? Terão os companheiros traído subitamente os princípios do liberalismo? O que teria havido com o DEM nos últimos meses, tão grave que um militante de mais de uma década se vê prestes a largar a legenda? Se não saiu quando estourou o escândalo do mensalão do governo Arruda, por que agora?
Seria possível responder a essas perguntas com outra: tivesse Serra vencido a eleição presidencial, estaria Kassab deixando o partido? Ou a vontade de mudar de ares é fruto da perda espaço do serrismo no DEM?
Nas dúvidas de Kassab sobre seu destino político e sobre o que vai fazer ano que vem (e nas próximas eleições para o governo do estado em 2014), percebem-se as digitais do mestre. O que parece é que, mais uma vez, Serra tenta montar o tabuleiro para o jogo da sucessão de Dilma.
Ninguém sabe se vai funcionar o projeto PDB, o partido-baldeação que está sendo cogitado, nem se o PSB acolherá o incerto número de políticos dispostos a embarcar nele. A chicana e o grau de artificialidade são tamanhos que é até possível que a Justiça Eleitoral se sinta ofendida com a esperteza.
O certo é que alguém imagina que vai lucrar com ela. Ganha uma bolinha de papel quem descobrir.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

segunda-feira, 14 de março de 2011

DISTRITOS E DISTRITÕES

Marcos Coimbra, preside o Instituto Vox Populi e escreve no Correio Braziliense.
Pelo que se lê na imprensa, uma das propostas mais cotadas na comissão do Senado para a reforma política é a que altera nossa legislação eleitoral. O voto distrital está em alta, especialmente na versão do chamado “distritão”. Depois de quase 80 anos, parece que os dias do voto proporcional estão contados.
Desde quando se estruturou como país independente e até a década de 1930 (salvo durante o pequeno intervalo em que esteve em vigor a chamada “Lei do Terço”), o Brasil teve voto distrital. Conhecemos, portanto, seus alcances e limites, o que pode nos ajudar nas discussões atuais. Sempre, é claro, lembrando as imensas diferenças que existem entre os dois momentos.
A história do voto distrital começa, por aqui, em 1855, com a promulgação da Lei nº 842, conhecida como “Lei dos Círculos”. Com ela, a elite política do Império pensava aumentar a representatividade do processo eleitoral, aproximando-o dos votantes (não esquecendo que o voto não era universal, dele sendo excluídos mulheres, escravos e incapazes), e evitar que “as maiorias provinciais sufocassem as maiorias locais”, como afirmou o Marques do Paraná, no Senado, em julho daquele ano.
O que o notável presidente do Conselho de Ministros buscava era um mecanismo que melhorasse a representação das diferentes opiniões existentes no país, que seria inibida se apenas as maiorias de cada província fossem levadas em conta. O voto majoritário provincial (igual ao distritão de hoje, diga-se de passagem) refletiria equivocadamente a realidade, pois em um ou mais distritos a maioria local poderia ser outra. Era preciso, portanto, criar uma forma que permitisse que essas opiniões se expressassem, impedindo a ditadura da maioria.
Na eleição dos deputados gerais (equivalentes aos federais de hoje), o sistema estabelecia que um deputado seria eleito por distrito — o “círculo eleitoral”. Esses tinham como referência as freguesias, sendo sua sede a cidade ou vila mais central, na qual os votantes se reuniam em um colégio (em sentido literal) para escolher quem os representaria. Desejavelmente, a população de homens livres de cada distrito seria igual.
Como se vê, não se inventavam distritos arbitrariamente. Ao contrário, as freguesias tinham significado real, e, embora fossem unidades eclesiásticas, eram reconhecidas pelo Estado para fins administrativos. Ninguém desenhou no mapa, pensando na sua conveniência, um distrito para chamar de seu.
Se formos em frente na adoção do voto distrital, é bom prestar atenção no risco de termos distritos “artificiais”, criados com base em cálculos que levam em conta apenas as vantagens que seus autores pensam auferir do modelo. O gerrymandering, nome que os americanos dão às chicanas usadas para manipular fronteiras entre distritos, teria que ser repelido com rigor.
Como seriam, no entanto, definidos distritos “reais”? As freguesias não existem mais, nem nada parecido. Diferentemente de outros países, nossa vida econômica, social, cultural, política e administrativa nunca girou em torno de distritos (ou quaisquer outras formas de regionalização) que pudessem ser considerados “naturais”. Seria estranho que, apenas na hora das eleições, alguns municípios fossem juntados a outros para escolher um mesmo representante.
A Lei nº 842, ao propor distritos de tamanho tão igual quanto possível, aplicou o clássico princípio de “cada cabeça, um voto”, que é comum nos países que têm voto distrital. Será que é isso que pensam seus defensores hoje?
O tamanho das bancadas estaduais na Câmara é o oposto do que teríamos se o adotássemos. Nossa Constituição super-representa os estados menores (fixando o número mínimo de oito cadeiras para cada um) e sub-representa os grandes (fixando o máximo de 70). Hoje, um deputado de São Paulo representa, em média, cerca de 450 mil eleitores, enquanto outro de Roraima, pouco mais que 30 mil. O voto distrital corrigiria essa distorção, mas à custa de uma drástica redução das bancadas de Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Resta saber se o atual Congresso a aprovaria.
Tentando escapar desses problemas, circula na comissão senatorial a ideia do “distritão”. Ela nada mais é que a adoção pura e simples do voto majoritário nas eleições de deputados. Torcendo os conceitos, os estados seriam considerados distritos, nos quais se elegeriam, por maioria, todos os deputados a que têm direito pela legislação em vigor. Parece-se em muito com o que tivemos de 1846 a 1855.
É o pior dos mundos. Vão-se embora os problemas do voto proporcional, mas, também, as virtudes (fortalecimento dos partidos, representação de minorias, voto ideológico, etc.). Cria-se algo que não traz as vantagens do voto distrital (proximidade entre eleitor e eleito, compromisso do eleito com seu eleitorado, etc.) e que consagra o predomínio do indivíduo sobre os partidos.
Saímos do ruim e vamos para o pior. Ainda bem que o Marquês do Paraná não está aqui para ver o que fazem os estadistas do presente.

segunda-feira, 7 de março de 2011

A REFORMA POLÍTICA E A OPINIÃO PÚBLICA

Marcos Coimbra é sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o Correio Braziliense.
Nestes tempos em que a reforma política está no centro das atenções, é bom considerar o que pensa a opinião pública. Não que as pessoas comuns reflitam com frequência ou tenham muita informação a respeito. Ainda assim, na democracia, é sempre necessário conhecer os sentimentos e percepções dos cidadãos. Afinal, são eles que pagam a conta.
O início dos trabalhos da comissão do Senado e a disposição da Câmara de criar outra em seu âmbito são sinais de que a reforma política deverá andar em ritmo veloz no Legislativo. O Executivo já deixou claro que tem interesse no seu rápido trâmite, até porque Dilma se comprometeu com ela durante a campanha eleitoral e em pronunciamentos recentes. Resta o Judiciário, que a defende há muito, até para se livrar das acusações de judicialização da política que volta e meia recebe.
Se os Três Poderes a desejam, se a hora é boa (pois a experiência recomenda tratar de coisas como essa quando começam o governo e a legislatura), só falta à reforma política contar com o apoio da sociedade. Que nunca o negou, pois faz tempo que a opinião pública e seus formadores se convenceram de sua conveniência.
Aprovar a ideia não quer dizer, no entanto, subscrever as diferentes propostas que circulam no meio político e na imprensa. O que significa que a reforma, nos termos em que está sendo concebida, deverá enfrentar dificuldades junto à população.
Já foram feitas, nos últimos anos, algumas pesquisas sobre o tema. Em geral, com resultados parecidos.
Em uma recente pesquisa da Vox Populi, a primeira pergunta foi sobre qual seria a reforma “mais prioritária” entre quatro: política, tributária, previdenciária e sindical. Em primeiro lugar, ficou a política, com 35% das respostas, seguida da previdenciária, com 33%. A tributária foi escolhida por 17% dos entrevistados e a sindical, por 4%. Os 11% restantes disseram não saber.
Quanto à reforma política, foi perguntado se o respondente a considerava “necessária e urgente”, “necessária, mas não urgente” ou “nem necessária, nem urgente”. Quase dois terços dos entrevistados, 64%, optaram pela primeira resposta, 16%, pela segunda e apenas 7% foram de opinião de que ela não era nem uma coisa, nem outra.
Ou seja, é grande e expressiva a maioria que considera que a reforma política é uma necessidade para o país e que ela deve ser feita logo. De todas as reformas, seria a mais importante, dividindo o posto com a reforma da previdência social.
As principais medidas atualmente em discussão são, no entanto, vistas negativamente ou com ceticismo. É claro que ainda falta informação à opinião pública para tomar posição sobre a maioria dos temas, mas o ponto de partida é desfavorável.
O item que a população mais reprovou na pesquisa foi aquele que mais simpatia tem no meio político: o financiamento público das campanhas. Perguntados sobre se eram a favor ou contra sua adoção, 62% dos entrevistados disseram reprovar a ideia, com 19% de aprovação e 19% de indecisão.
Outra vedete nas discussões políticas, o voto em lista fechada foi reprovado por 51% e aprovado por 27% dos ouvidos, com 22% de indecisão — a pesquisa forneceu a informação de que ele implicaria em votar em lista elaborada pelos partidos, e não nos candidatos individualmente.
A população tende a aprovar coisas que os políticos dizem defender, mas que, raramente, praticam. É o caso da fidelidade partidária, definida na pesquisa como a necessidade de o eleito “obedecer às decisões dos partidos na hora de votar” e “não poder mudar do partido (pelo qual se elegeu)”: 62% dos entrevistados concordaram com a ideia, contra 24% que não.
Outra regra com a qual a maioria está de acordo é a reeleição, incluída na pauta da comissão do Senado apenas porque alguns de seus membros implicam com ela. Mais de dois terços (67%) são a favor de sua permanência e 28%, contrários.
De todos, o tema que mais dividiu os entrevistados foi a obrigatoriedade do voto. São praticamente iguais as proporções dos que querem que seja mantida e dos que gostariam que acabasse. Apesar disso, em outra pesquisa da Vox, feita nas vésperas da eleição do ano passado, 74% dos entrevistados disseram que votariam ainda que o voto fosse facultativo.
Enfim, esse é um retrato da reforma vista pelo eleitorado. Se quiserem, os membros das comissões das duas Casas podem levá-lo em conta (ou não).

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

CHEFE DE GOVERNO

Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.
Uma das notícias mais curiosas da semana passada relatava o desconforto de alguns auxiliares próximos a Dilma com seu comportamento. Segundo publicado, estão preocupados com o “excesso de seriedade” da presidente.
Na avaliação deles, Dilma gastaria todo o seu tempo em tarefas de governo: reuniões, despachos, cobranças, providências e coisas do gênero. Não contente em ler cada documento, anota detalhes e solicita esclarecimentos.
Tamanha disposição já estaria impressionando os integrantes do núcleo duro do governo, que melhor a conhecem. Para eles, ela é um caso de “obstinação pela gestão”.
Mas não é apenas quem tem mais intimidade com Dilma que acha isso. Os governadores que com ela estiveram nestes primeiros dois meses de governo pensam de forma parecida. Eles confirmaram o diagnóstico, achando que gerenciar é “a praia da presidente”, aquilo que ela faz com gosto.
O engraçado é que isso é tratado como se constituísse um problema, uma patologia estranha. Como se não fosse natural que ela encarasse assim suas responsabilidades administrativas. Como se o correto fosse que as delegasse e cuidasse apenas das “altas matérias de Estado”.
Nas democracias modernas, existe uma diferença entre chefia do Estado e chefia do governo, a primeira envolvendo funções eminentemente simbólicas e de representação, e a segunda, atividades propriamente administrativas. No parlamentarismo, seja monárquico ou republicano, a distinção é tão nítida que elas são desempenhadas por pessoas separadas; no presidencialismo, ao contrário, é menos clara. Quem chefia o Estado também chefia o governo.
No parlamentarismo monárquico atual, reis e rainhas foram de tal forma perdendo prerrogativas governamentais que se tornaram figuras quase que somente decorativas, ao ponto que passou a ser comum dizer que alguém “manda menos que a rainha da Inglaterra”. Nas repúblicas parlamentaristas, acontece coisa semelhante: as pessoas sequer sabem o nome do presidente e só conhecem o primeiro-ministro (salvo em exceções, como a França, onde o inverso é verdade).
No presidencialismo brasileiro, a regra é outra, mas nem sempre ela prevalece na prática. Aqui, desde a Proclamação da República (descontado o breve interregno parlamentarista no início dos anos 1960), o presidente enfeixou as duas funções. Isso no plano formal, pois, na vida real, nossos presidentes sempre se esmeraram na chefia do Estado e se dedicaram com menos entusiasmo ao trabalho pedestre de administrar o dia a dia.
A liturgia do cargo, como dizia Sarney, sempre os atraiu. Ricos ou pobres, instruídos ou não, foram cativados pelo glamour da vida em palácio (daí a dificuldade de readaptação que todos, em graus diferentes, experimentaram ao sair de lá).
Em razão disso, foi comum em nossa experiência a figura do primeiro-ministro de fato, que assumia a tarefa de governar no cotidiano enquanto o titular cuidava de outras coisas. Os tivemos na República de 1945, no ciclo militar e nos governos pós-redemocratização. A própria Dilma foi quase isso para Lula.
No governo dela, a balança parece pender para o outro lado. Se seus antecessores encantaram-se com a pompa de chefiar o Estado, ela prefere administrar. O que eles faziam às vezes, ela faz (com prazer) a toda hora. E, se eles não delegavam a representação, ela não transfere o poder de governar.
Estará nossa cultura política preparada para essa mudança? Conseguiremos nos acostumar com uma presidenta “obstinada pelo governo”, depois de mais de um século de presidentes que nunca raciocinaram dessa forma?
Parece que os brasileiros querem experimentar a novidade, pois foi isso que Dilma prometeu em sua campanha e foi nisso que votou a maioria.
Aliás, ela não é a única governante com esse perfil na safra atual. Já em 2008, muitos prefeitos com características semelhantes foram eleitos. Entre os governadores atuais, pelo menos um de peso se parece com ela nesse aspecto.
A vitória folgada que Antonio Anastasia teve em Minas é outro indício de que é grande a proporção de eleitores que admitem votar em políticos não convencionais para cargos importantes.