DO BLOGROLL - Rafael Galvão.
Originalmente publicado em 23 de outubro de 2006.
A UDN vestida de azul e amarelo.
Há 52 anos, um homem cunhou uma frase belíssima sobre um então candidato a presidente. “Juscelino não pode ser candidato, se candidato não pode ser eleito, se eleito não pode ser empossado, se empossado não pode governar.”
O nome do sujeito era Carlos Lacerda. Homem absurdamente brilhante — certamente mais brilhante que a grande maioria da oposição de hoje –, mas também um dos maiores cancros que a sociedade brasileira já produziu.
Felizmente, apesar dos apelos de Lacerda, Juscelino foi candidato, eleito, empossado e realizou um governo memorável.
O golpismo de Lacerda, no entanto, não acabou ali. Tinha atrás de si uma vitória, ser um dos principais responsáveis pelo suicídio de Getúlio Vargas. Já tinha conseguido alguma coisa. Nos dez anos seguintes, Lacerda pediu incessantemente o golpe militar. Foi atendido em 1964, mas foi também uma de suas primeiras vítimas.
Carlos Lacerda morreu em 1977, politicamente destruído, vários anos depois de o partido de que era símbolo, a UDN, ter sido extinto pela ditadura da qual foi um dos principais artífices. Os militares sabiam que não podiam contar com aqueles golpistas. Aquelas vivandeiras eram muito pouco confiáveis.
Mas agora, quase 30 anos depois, o seu cadáver de triste lembrança foi exumado pela oposição tucana. Desesperados diante do que tudo indica será uma derrota incontestável, os tucanos sobem às tribunas para pedir, sem nenhuma vergonha, o golpe puro e simples, como o venerável senador sergipano José Almeida Lima, ex-prefeito e homem hoje rico, que utilizou a tribuna do Senado na semana passada para declarar que “não podemos tolerar a vitória da corrupção” e que o governo de Lula “tem que ser interrompido”. Assim como a UDN naqueles tempos, o discurso tenta usar disfarces democráticos. Mas as entrelinhas são grandes demais. E são golpistas.
O raciocínio é simples: se a gente não consegue ganhar no voto, vai ganhar no grito.
E assim cai o véu. O jogo democrático não interessa a eles. O discurso da vontade soberana do povo, para eles, é só isso: discurso. Vestindo a túnica puída da UDN, o PSDB sobe às tribunas pedindo o golpe. O povo, para eles, só sabe votar quando elege um tucano. Quando deixa claro que acredita no governo e que acha que, com Lula presidente, vai comer algo melhor que chuchu ao molho FHC, os neo-udenistas se acham no direito de recorrer ao golpe e à destruição da democracia.
Essa é a nova UDN, vestida de azul e amarelo.
Durante os primeiros anos do governo Lula, o tucanato elevava a voz para falar do seu republicanismo. Dir-se-ia serem vestais a serviço da democracia. Se não havia diálogo com o governo, era porque o governo Lula tinha tendências autoritárias, tinha voltado as costas para o social (é engraçado e estranho ouvir o PSDB dizer isso, mas na oposição a gente pode falar o que quiser). Com o escândalo do mensalão, eles passaram a ter algo mais concreto nas mãos. Mas a verdade é que a nova UDN ainda não está acostumada a fazer oposição, e errou na medida.
Por isso o ódio udenista da oposição passou dos limites. Com sua histeria e ferocidade, acabaram criando uma certa repulsa por parte de quem interessa: o povo. O que as últimas pesquisas do Ibope, do Datafolha e do Vox Populi indicam é que, apesar de tudo, apesar de ano e meio de campanha cerrada, o povo ....