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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A ESTRATEGIA DO MEDO

Atos de terror se transformaram em ações grandiosas e espetaculares que atraem a cobertura da grande mídia. Há autores, inclusive, que falam na existência de uma simbiose: se o terror precisa da mídia para divulgar sua mensagem de violência e medo, os terroristas proporcionam o espetáculo do qual a mídia comercial se alimenta.
Venício Lima, na Carta Maior.
Os 10 anos dos atentados terroristas de 11 de setembro, nos Estados Unidos, constituem mais uma oportunidade para se refletir em torno do recurso à violência na ação política e sobre a centralidade da mídia no conturbado mundo contemporâneo.
Uma vasta literatura sobre terrorismo floresceu nos últimos anos. Não se trata, evidentemente, de fazer um balanço dela. O que interessa, em particular, é recuperar as lições já aprendidas sobre o terrorismo como forma de comunicação. E essa característica vale para os diferentes tipos de terrorismo, inclusive aquele ao qual, eventualmente, grupos de mídia se aliam de forma explícita ou não.
“Sem comunicação não haveria terrorismo”Atribui-se a Marshall McLuhan a afirmação acima. De fato, existe consenso de que a divulgação, através da grande mídia, dos atos de terror constitui uma condição básica para sua própria existência. A violência terrorista tem como um de seus principais objetivos a transmissão de uma mensagem. Trata-se, portanto, de uma violência instrumental na medida em que seus executores pretendem que ela seja construtora de significações. A principal delas: o medo generalizado.
Ao disseminar o medo, o terror – na maioria das vezes – tenta identificar o conjunto da população como inimiga e, dessa forma, passa a “legitimar” qualquer tipo de ação violenta indiscriminada. De forma circular, quanto mais severas as medidas de repressão ao terrorismo adotadas pelo Estado, mais se tende a desrespeitar garantias de direitos e liberdades fundamentais e, muitas vezes, mais se legitima a própria ação terrorista.
Mas não é só o medo que o terror comunica. Os atos de terror servem como forma de manutenção da coesão interna, da moral e das motivações dos próprios grupos terroristas. Dirigem-se, dessa forma, também ao “público interno” além de facilitar o trabalho de recrutamento de novos membros.
Por tudo isso, atos de terror se transformaram em ações grandiosas e espetaculares que atraem a cobertura da grande mídia. Há autores, inclusive, que falam na existência de uma simbiose: se o terror precisa da mídia para divulgar sua mensagem de violência e medo, os terroristas proporcionam o espetáculo do qual a mídia comercial se alimenta.
Estratégia do medo.A estratégia do medo, por óbvio, não é um recurso exclusivo da violência terrorista. Ele tem sido utilizado também em nome do jornalismo.
No intrigante artigo sobre o escândalo do tablóide “News of the World” - “O medo que não ousava dizer o nome” – o professor Timothy Garton Ash afirmou:
“a débâcle de Murdoch revela uma doença que vem obstruindo lentamente o coração do Estado britânico nos últimos 30 anos. (...) A causa fundamental dessa doença britânica tem sido o poder exacerbado, implacável e fora de controle da mídia; seu principal sintoma é o medo. (...)
Se a medida final de poder relativo é “quem tem mais medo de quem”, então seria o caso de dizer que Murdoch foi – no sentido estrito, básico – mais poderoso que os últimos três premiês da Grã-Bretanha. Eles tinham mais medo dele do que ele deles”
(cf. http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/inews-of-the-worldi-o-poder-do-medo)
Na Terra de Santa Cruz a constatação da existência de situações semelhantes em diferentes momentos da nossa história recente não chegaria a constituir surpresa.
Conseqüências e lições.A simbiose mencionada entre mídia e terror parece ter se manifestado de forma clara quando, após o 11 de setembro de 2001, os EUA dividiram o mundo entre o “bem” e o “mal” e iniciaram “missões do bem”. A violência da invasão militar de países considerados do “mal” passa, de certa forma, a “legitimar-se” por essa dicotomia mistificadora.
Ademais, a ação de violência do Estado pode, então, tornar-se, ela própria, uma prática terrorista. O Ato Patriótico do governo Bush institucionalizou uma forma de terrorismo admitindo, por exemplo, a tortura e a prisão sem julgamento, além de definir randomicamente alvos simbólicos.
Nesse contexto, aparece a figura do “embedded journalist”. Os jornalistas da grande mídia que quisessem cobrir a ação das tropas americanas na invasão do Iraque em 2003 seriam “incorporados” (embutidos) aos próprios batalhões de combate.
O “embedded journalist”, por óbvio, abdica de qualquer autonomia. Sujeita-se às contingências da própria operação militar e a cobertura “jornalística” passa a ser conduzida de “dentro” pelo comando da tropa. Aqui a mídia se incorpora à própria ação de violência do Estado e, de certa forma, com ela se confunde.
É indispensável que a grande mídia se dê conta de seu delicado papel nas sociedades contemporâneas e abrace de forma inequívoca o compromisso com a não violência e – por extensão – recuse qualquer prática que se valha da estratégia do medo.
Em relação à conduta frente a atos de violência terrorista – seja qual for a sua origem – o fundamental é praticar a não-violência ativa, pautada por princípios civilizatórios. Não há outra forma de evitar a cumplicidade.

domingo, 14 de agosto de 2011

O governo paulista é contra a TV Cultura?
Por Eugênio Bucci em
O título deste artigo não é uma provocação. A pergunta que ele encerra está na ordem do dia. Afinal, o que o Palácio dos Bandeirantes quer da TV Cultura? Pretende asfixiá-la? Embora essa resposta se esconda nas ambiguidades melífluas do governo, os fatos parecem indicar que sim, a intenção é abandonar a nossa emissora pública à carência total de recursos. Entre as evidências mais recentes, destaquemos uma, apenas uma.
Na segunda-feira (8/8), reportagem da Folha de S.Paulo, assinada pela repórter Lúcia Valentim Rodrigues, mostra que, ano após ano, vai escasseando o investimento público na Fundação Padre Anchieta (à qual pertencem a Rádio e a TV Cultura). Em 2003, ele representava 81,53% da receita da fundação. Agora, está na casa dos 50%. Em valores absolutos, o declínio é dramático. A previsão de R$ 84 milhões de verba estatal para este ano fica 35% abaixo da verba de 2010.
Ainda que não sejam exatos, esses números não são acidentais. Há neles a consistência de uma política deliberada, embora não declarada. Prestemos atenção, porque, se levada ao limite, essa política vai matar a TV Cultura. Das duas, uma: ou ela não terá recursos para mais nada e se perderá na irrelevância, até desaparecer na garoa cinzenta, às margens do Tietê, ou terá de buscar o faturamento no mercado publicitário – o que já vem fazendo, há uns bons anos – e, nesse caso, ficará cada vez mais parecida com as televisões comerciais. Será a morte, do mesmo jeito.
Morte matada.
Uma televisão pública parecida com as emissoras comerciais é uma instituição dispensável. Não tem razão de ser. A TV pública só é necessária às sociedades democráticas porque consegue pôr no ar uma programação alternativa, substancialmente distinta, capaz de dar destaque a atrações que não trariam resultados econômicos a uma empresa que depende de lucro para sobreviver. Exatamente por isso, ela não deve exibir publicidade de lojas e de automóveis em seus intervalos. Quando cai nessa tola armadilha, fica esteticamente similar às outras; a sua cadência, o seu ritmo, vai se tornando igual – e, mais ainda, a sua lógica ordenadora interna é absorvida pelas leis do mercado, como se ela fosse comercial. Aí, ela passa a prestar contas aos anunciantes, em vez de prestar contas à cidadania.
Isso mesmo: a televisão pública presta contas à cidadania. É bem verdade que essa formulação, com essas palavras, eriça as sobrancelhas e franze a calva dos gestores mais, digamos, tecnocráticos. “Mas o que significa essa tal cidadania?”, eles contestam, do alto de sua razoabilidade aritmética.
Para que eles entendam – ainda que o esforço seja inútil – seria bom lembrar aqui o exemplo das escolas públicas. Pedir que as escolas públicas deem margem operacional positiva no final do ano seria um contrassenso, e disso eles bem sabem. As escolas públicas existem não para dar dinheiro no balanço contábil, mas para produzir conhecimento e qualificar gente numa escala que não aparece em business plan, mas faz toda a diferença no progresso e na vida nacional.
A televisão pública é mais ou menos a mesma coisa: sem ela a vida cultural se amofina, a diversidade das ideias se apequena, o horizonte existencial da Nação se estreita. Assim como a boa escola pública, a emissora pública presta o seu serviço à democracia, ao desenvolvimento, à educação. Assim como a escola pública, ela presta contas ao cidadão (não ao consumidor) e à sociedade (não ao mercado).
“Você está exagerando, meu caro”, vai debochar o tecnocrata. E, no entanto, não há exagero algum aqui. Em todas as democracias maduras existem instituições de comunicação pública. E todas elas vivem de dinheiro público. Mesmo num modelo de financiamento como o da BBC, baseado na cobrança de uma taxa anual (compulsória) nos lares com televisão, a garantia de financiamento vem do Estado, pois a taxa é cobrada por força de lei, assegurada pelo Estado. Assim, o dinheiro que sustenta a BBC é dinheiro público.
Nos Estados Unidos, as emissoras da National Public Radio (NPR) e do Public Broadcasting Service (PBS) recebem verba estatal. Não adianta procurar, não existe outra saída. Se o Estado não assegurar o financiamento das emissoras públicas, elas fenecem: ou morrem no acostamento, sucateadas, ou se convertem nesses monstrengos de segunda linha, exibindo comerciais de segunda linha e programas de quinta (existem algumas dessas pelo mundo).
Falta projeto.
Em resumo, cabe ao Estado assegurar os meios de financiamento público – e, de outro lado, cabe à direção da emissora pública promover uma gestão transparente, eficiente, baseada nos princípios da legalidade, da moralidade e da economicidade. É evidente que este artigo não defende o cabide de empregos nem a instrumentalização das antenas pelos interesses partidários de governantes – essa é a pior doença nas emissoras públicas brasileiras. A fórmula saudável reside na combinação do financiamento público com gestão fiscalizada, auditada e competente, mas independente tanto do governo quanto do mercado.
Quanto a isso, a atual direção da Fundação Padre Anchieta vem dando mostras de que tem compromisso real com o imperativo inadiável de sanear a administração. Ela chegou a demitir funcionários para ganhar produtividade e combater inchaços que eram inaceitáveis. Há coragem e disposição genuinamente pública na direção da fundação. O que falta é apoio claro do governo do Estado.
Falta, enfim, um projeto claro. A TV Cultura ainda é a única emissora brasileira a merecer o adjetivo pública. Ela não tem funções governamentais e opera com boa margem de independência. Cabe ao governo decidir e declarar se quer mantê-la ou se quer destruí-la.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

JORNALISMO DE RESULTADOS

Murdoch, o fraudador de espelhos.
Murdoch não é uma excrescência, não é falácia ou farsa, não é ficção científica nem um evento casual, singular. O espetáculo midiático-político a que assistimos galvanizados há mais de dez dias não tem nada de absurdo ou fantasioso. O impensável está aí, ao vivo, em cores, banda larga, 3D, alta velocidade, altíssima definição, continuamente repetido, reeditado. Vem sendo montado, a céu aberto, sem segredos ou disfarces, há pelo menos duas décadas com a participação de um elenco planetário. 
Alberto Dines - Observatório da Imprensa
“Nauseabundo, mas não extraterrestre.” Com apenas quatro palavras o jornalista Juan Cruz (El País, domingo, 17/7) derruba o caso Murdoch da esfera das tragédias shakespearianas sobre abusos & abismos do poder e o estende diante de nós com toda sua carga de crueldade e veracidade.
Murdoch não é uma excrescência, não é falácia ou farsa, não é science fiction nem evento casual, singular. O espetáculo midiático-político a que assistimos galvanizados há mais de dez dias não tem nada de absurdo ou fantasioso. Não leva a assinatura de Karl Kraus, Bertold Brecht, George Orwell, Orson Welles ou Billy Wilder: este dream team de críticos jamais conseguiria engendrar um enredo tão terrível e catastrófico para a imprensa livre.
O impensável está aí, ao vivo, em cores, banda larga, 3D, alta velocidade, altíssima definição, continuamente repetido, reeditado. Vem sendo montado, a céu aberto, sem segredos ou disfarces, há pelo menos duas décadas com a participação de um elenco planetário.
A última década do século 20 e a primeira do 21 somaram-se para produzir a mais arrasadora caricatura da civilização dita ocidental. E o objeto mais distorcido, deformado, desfigurado, desvirtuado desta civilização foi o espelho – a mídia periódica.
Ao invés de refletir com realismo, trincou, truncou; no lugar de sugerir contemplação, oferece fragmentações, pó. O mundo não se reconhece, não se encontra, esbalda-se delirante entre nostalgias e futurismos porque a referência, o espelho, partiu-se.
Personagens equivalentes.
Rupert Murdoch é o epítome desta degeneração alegre e consentida. É o fraudador de espelhos por excelência. Seu império global foi montado a partir dos padrões do “jornalismo de resultados”, seus paradigmas profissionais foram executados por uma ex-secretária, sua herdeira espiritual, que jamais havia freqüentado outra redação, hoje felizmente hospede de um xilindró britânico [em seguida, solta sob fiança].
As convicções políticas de Murdoch não diferem muito dos magnatas da imprensa alemã que nos anos 1920 e 30 apostaram suas fichas num agitador de rua, o único que segundo eles poderia enfrentar o bolchevismo – Adolf Hitler. Também detestavam espelhos, não queriam mirar-se nele e descobrir o papelão que desempenhavam.
Não se pode separar os objetivos, estratégia e táticas da News Corp. do ideário político do seu criador. Os tablóides ingleses não nasceram reacionários; ao contrário, dirigiam-se àqueles que hoje fariam parte da classe C. Murdoch injetou neles altas doses de direitismo populista. Quando apoiou o novo trabalhismo de Tony Blair, tinha um projeto de liquidar a esquerda inglesa. Quando comprou o Times e o Sunday Times extirpou deles os resquícios da respeitabilidade liberal que ainda conservavam. Está fazendo o mesmo com o Wall Street Journal, de Nova York.
Os jornais brasileiros que nos últimos dias reproduziram o elogio de Murdoch pelo colunista Roger Cohen, do International Herald Tribune, fazem parte da rede da Opus Dei. Coincidências.
O Financial Times e o Economist são igualmente conservadores, detestam qualquer interferência do Estado na vida econômica. No entanto, sempre se opuseram às idéias & jogadas de Murdoch. Não foram suficientemente determinados nesta oposição, gente fina não briga em público. Não perceberam que Murdoch e Hugo Chávez se equivalem. Igualmente nocivos para uma imprensa livre.
O Guardian desmascarou Murdoch porque é editado por uma entidade não-lucrativa. Isso significa alguma coisa?
A imprensa brasileira foi na onda do Tea Party, comprou a idéia de que Barack Obama é socialista, portanto não pode ser reeleito. Quem vendeu este produto foi a Fox News, cuja contribuição para a qualidade do telejornalismo americano é idêntica à do falecido News of the World ao jornalismo impresso britânico.
Ramo propício.
Murdoch combinou imprensa e poder político num momento em que o jornalismo mundial procurava manter, ao menos na aparência, os preceitos jornalísticos consagrados no caso Watergate. A promiscuidade da imprensa com o poder econômico é ruinosa para ambos. Murdoch vive desta promiscuidade, cresceu graças a ela. É o segredo de seu sucesso empresarial: enquanto os publishers procuravam manter uma aparente decência, o australiano topava qualquer negócio.
O segundo maior acionista da News Corp. depois da família Murdoch é um príncipe saudita que no sábado (16/7) falou à BBC a bordo do seu portentoso iate em nome dos acionistas preocupados com a desvalorização dos seus ativos. O que fizeram esses acionistas nos últimos anos quando o News of The World começou a freqüentar as manchetes na condição de malfeitor? E por que aceitam pagar ao espanhol José Maria Aznar, herdeiro de Franco, 220 mil dólares/ano?
O espelho, além de partido, está embaçado e não apenas no hemisfério Norte. Se os imensos cadernos de economia cobrissem o mundo de negócios com o mínimo de independência, o mega-empresário Abílio Diniz não teria iniciado há dois anos o vexante acordo com o Carrefour que agora foi obrigado a suspender.
A Folha de S.Paulo despediu-se solenemente do seu colunista, o ex-presidente da República e atual presidente do Senado José Sarney, depois de 20 anos de agradável convívio na página mais nobre do jornal. Em algum quality paper do mundo desenvolvido seria concebível manter como colaborador o chefe do Legislativo? Em que difere esta parceria da outra que o premiê inglês David Cameron mantém com a escória do jornalismo mundial?
Murdoch só conseguiu arrasar a credibilidade da instituição jornalística porque os órgãos de controle da concorrência nos EUA e no Reino Unido – encarregados de desativar cartéis e oligopólios – não o impediram de concentrar numa mesma cidade jornais e televisões.
Se Murdoch atuasse no segmento da aviação comercial ou da indústria farmacêutica, mesmo que fosse mais inescrupuloso do que é, não teria chegado aonde chegou. Teve tino, escolheu um ramo onde a impunidade é garantida: a fabricação de espelhos defeituosos.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Apuração, análise e reflexão em falta.
É comum confundirmos o formidável estágio alcançado pelos meios de comunicação como sendo o início de uma Era de Ouro da imprensa. Nada mais falacioso. O que temos atualmente é a repetição das mesmas informações, segundo a segundo, por diversas plataformas comunicacionais.
Por Washington Araújo, na Carta Maior.
Nunca recebemos tamanha carga de informação como nos dias atuais. O bombardeio informacional passa a ser a principal marca desses primeiros anos do século 21 e a sua principal imagem dificilmente poderia ser outra que não a derrubada das torres do World Trade Center, em Nova York. O atentado ocorreu às 9h25 do dia 11 de setembro de 2001. E assim é porque aquelas imagens correram mundo no momento mesmo em que estavam se esboçando no plano da realidade.
É possível que a visualização da impressionante sequência de imagens dos aviões se chocando contras as torres tenha sido mais visualizada que dois outros eventos igualmente marcantes: o assassinato do presidente John F. Kennedy, às 12h30 do dia 22 de novembro de 1963, e o primeiro passo do astronauta americano Neil Armstrong na superfície lunar, às 23 horas, 56 minutos e 20 segundos (horário de Brasília) do dia 20 de julho de 1969.
Considero marcantes os três eventos porque poucos são os que fazem as pessoas vasculhar a memória coletiva de nossa época em busca de resposta à questão: “O que você estava fazendo no dia...?”
É comum confundirmos o formidável estágio alcançado pelos meios de comunicação como sendo o início de uma Era de Ouro da imprensa. Nada mais falacioso. O que temos atualmente é a repetição das mesmas informações, segundo a segundo, por diversas plataformas comunicacionais – do velho jornal, do velho rádio, da velha TV e da nova internet. Não obstante o fácil acesso à informação, a verdade é que não mais procuramos a notícia; é a notícia que nos encontra. Além dos aparatos descritos, a notícia se encontra ao alcance de nosso aparelho de telefonia celular, de nossos computadores, móveis ou não, e não importa em que formato e tamanho estes se apresentem.
Os custos da guerra
A maioria dos chamados “escândalos” do fim de semana mal consegue sobrevida por duas ou três semanas. E é assim porque falta apuração, falta análise, falta reflexão sobre os dados apresentados. Há que se perguntar onde foi parar aquela capacidade que os profissionais da imprensa tinham no passado em relacionar diferentes acontecimentos, diferentes personagens, de estabelecer suas relações econômicas, políticas e sociais. É como se o objetivo fosse apenas atender à necessidade da instantaneidade, à velocidade com que o assunto é tornado público. O resto passa a ser mera repercussão.
E falta profundidade no que é noticiado. Por exemplo, acompanhamos com facilidade os desdobramentos de guerras no Iraque e no Afeganistão, apenas para ficar em duas, bem contemporâneas, mas somos informados apenas da visão que atende aos interesses imediatos do establishment. E como os custos envolvidos em uma guerra em nada ajudam o chamado “esforço de guerra midiático”, ficamos sem conhecer, por exemplo, o projeto Costs of War, realizado por especialistas da Universidade Brown, de Rhode Island, Estados Unidos. E o que informa este projeto?
“Em termos financeiros, de 3,7 trilhões a 4,4 trilhões de dólares, o dobro do PIB brasileiro e mais que a II Guerra Mundial (4,1 trilhões em moeda de hoje). Em termos humanos, 224 mil a 258 mil mortos (dos quais ao menos 137 mil civis), 620 mil soldados feridos e 7,8 milhões de refugiados. O relatório completo lista ainda custos políticos, sociais e ambientais. A Al-Qaida gastou entre 400 mil e 500 mil dólares e matou 2.995 no atentado de 11 de setembro. Para cada uma de suas vítimas, os EUA fizeram pelo menos 73 e para cada dólar do inimigo gastaram cerca de 10 milhões.”
Imprensa partidarizada.
Este é apenas um dos exemplos. E, mesmo assim, não encontramos especialistas em política internacional fazendo as necessárias conexões entre os custos da guerra e as fontes de seu financiamento. Nessa mesma toada ficamos sem saber qual a relação de tão impressionante volume de recursos financeiros com a ainda muito mal-explicada crise econômica iniciada em 15 de setembro de 2008 com a quebra do banco Lehman Brothers e que continua abalando a economia dos Estados Unidos e de vários países europeus, como Grécia, Espanha e Portugal.
Se miramos o flanco brasileiro, logo concluiremos que a tendência a apenas repercutir informações é amplamente majoritária. Vejamos a notícia-sensação de junho de 2011 sobre a chamada “lei do sigilo eterno” dos documentos do governo brasileiro. Na primeira quinzena do mês, tínhamos apenas a repercussão de frases do presidente do Senado, José Sarney, dizendo ser contra a derrubada do sigilo eterno uma vez que determinados documentos sobre as negociações conduzidas pelo barão do Rio Branco (quanto à aquisição do território do Acre junto à Bolívia) e ações do duque de Caxias em meio à Guerra do Paraguai poderiam “reabrir feridas mal-cicatrizadas” e causar “constrangimentos ao Estado brasileiro”. Repercutiu também que o senador Fernando Collor era contrário à derrubada do sigilo eterno.
Fato é que somente nos dois últimos dias de junho, não por instigação da imprensa, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso afirmou que assinou a lei em vigor “sem ter lido”, devido “ao grande número de documentos” que demandavam sua assinatura em seu último dia na Presidência.
O que a imprensa deixou de fazer? Absolutamente tudo. Poderia ter entrevistado historiadores e especialistas em política internacional para esclarecer à população em que situação se deu a compra do estado do Acre. O mesmo esforço poderia ser direcionado para informar, com base em fontes históricas confiáveis e acima de suspeita, sobre as ações do patrono do exército brasileiro na guerra do Paraguai. O espaço dedicado pela grande imprensa (Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo, Veja, Época, Rede Globo etc. ) ao tema foi inteiramente focado na questão partidária – ou seja, em como melhor acomodar o assunto no colo da presidenta Dilma Rousseff e no de seus aliados no Congresso Nacional.
Imprensa partidarizada. Nada mais que isso.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O MITO DA IMPARCIALIDADE


Jornalistas e alienígenas.

Por Mário Bentes, do Observatório da Imprensa.
Lá se vão quase 50 anos desde que o roteirista Stan Lee, patricarca da Marvel Comics, criou o personagem Uatu, o Vigia, em parceria com o colega Jack Kirby. Uatu, que apareceu pela primeira vez em uma das estórias do Quarteto Fantástico, em 1963, pertencia a uma raça de alienígenas cuja única missão em vida era observar os acontecimentos dos planetas e de seus habitantes em todo o Universo. O alien em questão, que vivia literalmente no mundo da Lua, ficou com a missão de observar o nosso planetinha azul. E um detalhe importante: Uatu e seus colegas alienígenas deveriam apenas observar, sem jamais interferir nos acontecimentos.
Recordo este personagem forjado do meio da cultura pop dos EUA como a analogia mais que perfeita para ilustrar aquilo que acreditam ser alguns jornalistas: seres dotados da capacidade de observar os acontecimentos sem interferir ou se deixar influenciar. No meio jornalístico, tal característica alienígena ficou chamada de imparcialidade e, mais interessante ainda, virou fator fundamental para quem se diz ser um bom profissional. O tema, apesar de cansado, batido e tão antigo quanto Stan Lee e seus personagens, sempre volta, de alguma forma, ao centro do debate entre jornalistas (e não jornalistas). E assim foi no dia 11 de maio, quando participei de uma atividade com alunos de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
Na ocasião, a convite da jornalista e professora Mirna Feitoza, compareci à atividade inerente à sua disciplina – Tópicos Especiais em Jornalismo –, chamada “Convergências Jornalísticas”, cujo objetivo era debater, sobre pontos de vistas diferenciados, um mesmo assunto: a convergência dos meios a partir das tecnologias em comunicação. Além de mim, jornalista e blogueiro, participou o empresário Dissica Calderaro, diretor-presidente da Rede Calderaro de Comunicação (RCC) – grupo de mídia do qual faz parte a TV A Crítica, afiliada da Rede Record em Manaus.
Causas e consequências.
Após cada um de nós falar sobre seus pontos de vista sobre o tema – o empresário, citando as ferramentas high-tech-web-social-media usadas pela emissora, entre elas um helicóptero; eu, tentando dizer que convergência também deveria abranger o espectador, e não apenas as empresas de comunicação –, a jornalista Mirna Feitoza, como é de praxe em todos os eventos do tipo, abriu para perguntas e o tradicional debate. Não lembro exatamente como acabamos por pairar sobre o tema imparcialidade, mas o fato é que o debate foi, no mínimo, interessante.
Enquanto o empresário Dissica Calderado, contrariando toda a História da Comunicação e dos nem tão recentes acontecimentos políticos-partidários-midiáticos locais, defendeu que a imparcialidade existia, sim, eu, de minha parte, disse exatamente o contrário. Dizia o empresário que o jornalista deve saber separar o que é fato, notícia, do que é opinião. E citou alguns exemplos, entre as próprias matérias da capa daquele dia do jornal A Crítica, pertencente ao grupo. De minha parte, comecei minha defesa por questionar o conceito de fato. Recordo ter argumentado que era características dos jornalistas o imediatismo e a quase constante separação de acontecimentos de seus contextos mais amplos e que, teimosamente, chamam isso de fato. Ou de notícia.
Em outras palavras, disse que nada – absolutamente nada – do que acontece no mundo se trata de um fato isolado. Taxar desse modo a dinâmica da própria História em andamento, na minha avaliação, é fazer de conta que não há causas e consequências relacionadas, assim como outros tantos, variados e imprevisíveis fatores. Arrisco a comparar isso com o que diz a Teoria do Caos, que tenta explicar o funcionamento de sistemas complexos e dinâmicos: “O bater de asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar um furacão em Nova York.” Para ver o que seria isso na prática, mesmo que em contexto ficcional, o filme Efeito Borboleta, de 2004, é interessante.
Mera convenção técnica.
Outra coluna argumentativa que usei é que, além da impossibilidade de se “recortar” um acontecimento (notícia) de seu contexto maior (a linha do tempo; História em andamento) sem comprometer parte de sua compreensão – que os jornais e jornalistas fazem todo dia –, há ainda outro fator, porém não tão externo: o próprio jornalista. É sabido que o ser humano, ao longo das várias etapas de sua formação pessoal, é submetido a uma série de experiências que, juntas, moldam e determinam de maneira objetiva o seu modo de enxergar o mundo. Como tais experiências são pessoais e intransferíveis, é possível dizer que a maneira como cada ser humano (o que inclui os jornalistas) enxerga o mundo é única.
Em outras palavras: nem todos analisam um mesmo acontecimento sempre sob o mesmo prisma. Enquanto uns o avaliam e o apreendem a partir de uma visão econômica e política, outros podem fazer o mesmo, porém sob o olhar cultural e social. Ou tudo junto. Ou por nenhuma destas. Ou seja, cada um verá um fato diferente, e seu recorte do contexto será variável. É mais ou menos por isso que lemos coisas como “Caminhada católica atrai um milhão de fiéis às ruas” e “Evento evangélico atrapalha a rotina do trânsito” (exemplos livremente adaptados de matérias reais).
Quando defendo que não existe imparcialidade, diante do exposto, não defendo, porém, a falta de ética na profissão. Pelo contrário: reconhecer a existência de tantos mecanismos em nossa mente capazes de nos darem leituras variadas dos acontecimentos é a única defesa que temos – nós, os jornalistas – para buscar o mínimo de equilíbrio na apuração e redação de reportagens. Ignorar a existência de tais mecanismos, inerentes à nossa própria natureza, e nos fecharmos no mantra da ilusória imparcialidade, é dar vez ao tendencionismo e à miopia jornalística. Não à toa, a regrinha do “ouvir o outro lado” acaba mais sendo mera convenção técnica que necessariamente coisa de jornalista imparcial ou ético. Do que adianta ouvir o outro lado se o discurso está pronto no lead?
Interferência no curso da História.
O saldo disso tudo, em minha avaliação pessoal e intransferível, é que imparcialidade – ou seja, apenas observar sem interferir ou se deixar influenciar – está mais para Uatu e seus amigos alienígenas que para jornalistas e seus amigos seres humanos. Não estou chamando Dissica Calderado de alienígena, evidentemente. Longe de mim. Estou dizendo que se ele realmente acredita em imparcialidade, de verdade, ainda mais sendo proprietário de um grupo de comunicação (e com seus interesses, o que é inegável), é porque vive no mundo da Lua, tal como Uatu, o Vigia.
Em tempo: no universo ficcional da Marvel Comics, o alienígena Uatu já interferiu, por várias vezes, no curso da História terrestre, quando achou que era necessário ou mesmo por ter se deixado influenciar pelo que via. Se Uatu, o Vigia, de uma raça alienígena imortal e super-poderosa, não se comporta como deveria nem na fantasia, como vamos cobrar o mesmo de reles jornalistas mortais, na realidade?

terça-feira, 7 de junho de 2011

Mídia começou serena, vai acabar enfurecida
Por Alberto Dines
Um dos três porquinhos teve um problema de saúde e licenciou-se da presidência do PT (José Eduardo Dutra). Outro, Antonio Palocci, vem sendo assado em fogo brando há mais de três semanas. Sobrou um, todo fagueiro, o agora ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo e, naturalmente, a fada-madrinha, criadora da trinca e da sua alcunha, a presidente Dilma Rousseff.
Palocci é um caso singular, cada passo que dá para sair do fogo mais tostado fica. Queridinho do empresariado e da mídia, quanto mais mimado, mais asneiras comete. A fala mansa, o ar desarmado e o senso comum que irradia são o seu encanto.
Com tais atributos, conseguiu que a mídia perdoasse o “mensalinho” de Ribeirão Preto, esquecesse a violência da quebra do sigilo fiscal (e do Estado de Direito) no caso do caseiro de Brasília e, quando a Folha de S.Paulo descobriu o seu fulminante enriquecimento patrimonial, a corporação midiática (incluindo a denunciante) uniu-se para preservá-lo.
Imagem dissolvida
Ao perceber que não poderia manter-se em silêncio, Palocci inventou um estranhíssimo e dissonante dueto de “exclusividades” e assim contornou a recusa da Folha e da Rede Globo de serem as únicas veiculadoras de uma explicação forçosamente pífia. As escolhidas preferiram dividir o preju – o prejuízo – no lugar de ostentar uma façanha.
As exclusivas quase simultâneas da sexta-feira (3/6) foram a perdição de Palocci. Como eram exclusivas, os hábeis entrevistadores não poderiam levantar-se, dizer que o entrevistado estava embromando e encerrar a lengalenga tergiversadora. Noblesse oblige, cabia ao entrevistado encerrá-la e ele só a encerrou depois de registrar todos os sofismas e platitudes que lhe convinham.
O mal-estar só aumentou ao invés de amainar. Em três edições os jornais dos dias seguintes despejaram toda carga de decepção acumulada nos 18 dias anteriores. A imagem de bonomia e prudência construída ao longo da última década dissolveu-se magicamente.
Gosto de cumplicidade
A decisão do Procurador Geral da República de arquivar a investigação sobre o seu vertiginoso enriquecimento favorece Palocci no primeiro momento, em seguida deve desgastá-lo mais ainda. Antes de ser definitivamente torrado só lhe restará demitir-se para prosseguir, sem riscos para os companheiros, uma extraordinária carreira de colecionador de imóveis suntuosos.
A imprensa entrou no episódio aparentando maturidade e poderá sair salpicada pelas cumplicidades. Decididamente, não sabe ser o Quarto Poder.

quarta-feira, 30 de março de 2011

TELEFONIA Vs RADIODIFUSÃO

A guerra anunciada

Será que teremos aqui uma versão explícita da briga entre teles e radiodifusores como está ocorrendo no México? O que está acontecendo ao norte do Equador pode perfeitamente vir a acontecer também ao sul, vale dizer, aqui mesmo entre nós.

terça-feira, 22 de março de 2011

LIBERDADE DE EXPRESSÃO

O silêncio como forma de censura

Um exemplo recente dessa censura disfarçada foi o silêncio sobre as manifestações populares que mobilizaram centenas de milhares de pessoas por várias semanas em Madison, a capital do importante estado americano de Wisconsin.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

LIBERDADE DE IMPRENSA

O relatório do CPJ, mais um.

O CPJ é um comitê, como o próprio nome indica, de proteção a "jornalistas", o que, por óbvio, não necessariamente significa proteção a empresas jornalísticas. Esperava, portanto, encontrar em seu relatório alguma referência a casos de censura à atividade profissional de jornalistas brasileiros ocorridos ao longo de 2010.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

SOPRO DE AR PURO NO DF

Conselhos de Comunicação.

Será que Brasília conseguirá dar mais uma contribuição histórica para a democracia no país instalando e colocando para funcionar, de fato, o primeiro Conselho de Comunicação Social regional do país?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

CONVERGÊNCIAS DE MÍDIAS

Convergência x propriedade cruzada: a quem interessa a confusão?

Além do Estadão, quem estaria interessado em confundir "convergência de mídias" com propriedade cruzada? Uuem estaria interessado em colocar na agenda pública a precária hipótese aventada por um conselheiro da Anatel, como se aquela opinião pudesse constituir uma decisão de governo em matéria que, de fato, é constitucional?
A chamada "revolução digital" provocou uma reviravolta no mundo das comunicações. Uma única tecnologia – por exemplo, a fibra ótica – possibilita a transmissão, vale dizer a distribuição para consumidores, tanto de sons como de textos e de imagens. Diluíram-se as fronteiras entre as telecomunicações e a radiodifusão, por exemplo. Além disso, jornalistas multimídia produzem conteúdo noticioso para rádio, jornal, revistas, televisão e portais na internet. Daí porque se fala na "convergência de mídias", expressão que tem por base as mudanças tecnológicas que permitem, por exemplo, que um "consumidor" escute rádio, veja TV, assista filmes, leia jornais e revistas em um único "receptor" – por exemplo, um computador pessoal.
Há, no entanto, uma diferença fundamental: emissoras de rádio e televisão, assim como operadoras de telefonia fixa e móvel, continuam sendo um serviço público, concedido pela União a grupos privados, para exploração sob determinadas condições e por prazo determinado. Os jornais, revistas e portais na internet, apesar de manterem a natureza de serviço público, não dependem de concessões do poder público.
Já a propriedade cruzada é um conceito da economia política do setor. No Brasil, ela tem sido historicamente a base sobre a qual se consolidaram os oligopólios privados de mídia. Um mesmo grupo, no mesmo mercado, controla diferentes mídias – concessões públicas ou não, em níveis local, e/ou regional e/ou nacional. Essa é a história da formação e consolidação, para ficar apenas em dois exemplos, dos dois principais grupos privados brasileiros de

sábado, 29 de janeiro de 2011

COMUNICAÇÕES NOS EUA

Obama recua, concentração aumenta.

Fusão da Comcast – a maior operadora de TV a cabo e maior provedora de internet dos EUA – com a NBC-Universal reforça a percepção de que, uma a uma, as promessas de Obama estão sendo descumpridas com prejuízos óbvios para a pluralidade e a diversidade na mídia dos EUA.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

MINISTÉRIO DAS COMUNICAÇÕES

Por onde começar?
A posse do novo ministro das Comunicações alimenta a expectativa de que, ao lado de outras prioridades, o caos generalizado nas concessões e as relações espúrias entre políticos no exercício do mandato e o serviço público de radiodifusão serão enfrentados. O recadastramento seria um excelente começo.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

BBB 11 - ÉTICA PELO RALO

O formato é o mesmo já consagrado pelo público e pelos anunciantes: invasão de privacidade com a venda de corpos quase sempre sarados, bronzeados e bem torneados e com a exposição de mentes vazias a abrigar ideias que trafegam entre a futilidade e a galeria de preconceitos.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

POR QUE A MÍDIA NÃO SE AUTOAVALIA

Ainda não será ao final deste ano de 2010 que a grande mídia fará uma avaliação pública de si mesma. Mas, com certeza, esta omissão grave já não passa despercebida para um número cada vez maior de brasileiros.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

FORMAÇÃO DE OPNIÃO

Revisitando o poder da mídia.

O fenômeno Lula, que deixa o poder, como observou um analista, "amado pelo povo e detestado pela mídia", deve servir não só para uma reavaliação do papel da mídia, mas também como horizonte para aqueles que trabalham pela universalização da liberdade de expressão e pela efetivação do direito à comunicação.
Com relação à monopolização afirmam: "Esta situação se concretiza quando não se manifesta qualquer oposição crítica na esfera dos meios de comunicação no que concerne à difusão de valores, políticas ou imagens públicas. Vale dizer que a monopolização desses meios ocorre na falta de uma contrapropaganda. Neste sentido restrito, essa monopolização pode ser encontrada em diversas circunstâncias. É claro, trata-se de uma característica da estrutura política de uma sociedade autoritária, onde o acesso a esses meios encontra-se totalmente bloqueado aos que se opõem à ideologia oficial" (cf. Paul Lazarsfeld e Robert K. Merton, "Comunicação de massa, gosto popular e ação social organizada" in G. Cohn, org. Comunicação e Indústria Cultural; CEN; 1ª. ed., 1971; pp. 230-253).
Aparentemente, a monopolização do discurso político "mediado" pela grande mídia – em regimes não-autoritários – foi quebrada pelo enorme aumento das fontes de informação, sobretudo com a incrível disseminação e capilaridade social da internet.
Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, quando de sua rápida visita ao Brasil, em abril passado, o fundador do diário espanhol El País, Juan Luis Cebrian, afirmava: "... a internet é um fenômeno de desintermediação. E que futuro aguarda os meios de comunicação, assim como os partidos políticos e os sindicatos, num mundo desintermediado? Do início ao fim da última campanha presidencial americana, circularam pela web algo como 180 milhões de vídeos sobre os candidatos Obama e McCain, mas apenas 20 milhões haviam saído dos partidos Democrata e Republicano. As próprias organizações políticas foram ultrapassadas pela movimentação dos cidadãos. Como ordenar tudo isso? Não sei. (...) ... hoje existem 2 bilhões de internautas no mundo, ou seja, um terço da população planetária já tem acesso à rede. Há 200 milhões de páginas web à escolha do navegante. Na rede, você diz o que quer, quando quiser e a quem ouvir, portanto, o acesso à informação aumentou de forma espetacular. Isso é fato (
íntegra disponível aqui).
A disseminação da internet – ou seja, a quebra do monopólio informativo da grande mídia – aliada a mudanças importantes em relação à escolaridade e à redistribuição de renda que atingem boa parte da população brasileira, certamente ajudam a compreender os incríveis índices de aprovação de Lula e de seu governo, mesmo enfrentando a "oposição" da grande mídia.
Resta muito poder.

Isso não significa, todavia, que a grande mídia tenha perdido todo o seu poder. Ao contrário, ela continua poderosa, por exemplo, na construção da agenda pública e na temerosa substituição de várias funções tradicionais dos partidos políticos, vale dizer, do enfraquecimento deles.
A grande mídia, em particular a mídia impressa (jornais e revistas), ainda continua poderosa como ator político em relação à reduzida parcela da população que se situa na ponta da pirâmide social e exerce influência significativa nas esferas do poder responsáveis pela formulação das políticas públicas, inclusive no setor das comunicações.
O fenômeno Lula, que deixa o poder, como observou um analista, "amado pelo povo e detestado pela mídia", deve servir, não só para uma reavaliação do papel da mídia de massa tradicional, mas também como horizonte para aqueles que trabalham pela universalização da liberdade de expressão e pela efetivação do direito à comunicação.