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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

DILMA COM A FACA E O QUEIJO

Por Fernando Canzian, na Folha de São Paulo.
A nova pesquisa Datafolha vai além do previsto. O governo de Dilma Rousseff tem a aprovação de 59% dos eleitores, dez pontos a mais do que há seis meses.
A aprovação subiu a ponto de seu governo ser considerado ótimo/bom pela maioria dos eleitores mais escolarizados, com ensino superior, e ricos, em famílias com renda mensal acima de R$ 6.220 (10 salários mínimos).
A presidente tem 59% e 53% de aprovação nesses dois segmentos. Eles formam a elite brasileira.
Entre os menos escolarizados e mais pobres, a satisfação com o governo Dilma é ainda maior. Isso pode ser explicado facilmente pela situação de quase pleno emprego no Brasil e pelo alargamento do crédito ao consumo.
De cada dez empregos criados hoje no país, cerca de oito (80%) pagam só até dois salários mínimos (R$ 1.240). Já os juros cobrados no crediário seguem entre os mais altos do mundo por conta da caixa-preta do "spread" bancário.
Mesmo assim, milhões vêm podendo satisfazer sonhos de consumo e necessidades básicas, além de poder perseguir um projeto de ascensão.
Mas e a elite?
A distribuição da renda nacional na última década foi muito distinta entre pobres e ricos, fato que explica a queda da desigualdade.
Entre os 10% de brasileiros mais pobres, a renda real per capita (descontada a inflação) subiu 70%. Entre os 10% mais ricos na outra ponta, o aumento foi de 12,6%.
A metade mais pobre (50%) da população teve um ganho quase 320% maior do que os 10% mais ricos (segundo o Centro de Políticas Sociais da FGV/RJ).
Os dados mostram que o país como um todo melhorou. Mas melhorou bem mais para quem estava pior. E a elite gostou.
A grande notícia para Dilma é que ela entra em seu segundo ano de mandato fortalecida. Sobre um tablado firme de popularidade alta.
Mas que segue dependente de "empregos baratos" e crédito caro.
A ver o que fará disso.
Cerca de 4 milhões de brasileiros vão viajar para o exterior nos próximos seis meses. A maioria vai comprar roupas, sapatos e eletrônicos por menos da metade do preço no Brasil.
No ano passado, gastamos US$ 22 bilhões nisso.
É isso aí.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

ESTRUBUCHA, BRASIL


Por Fenando Canzian, da Folha.com
O país viveu uma espécie de comoção geral pela divulgação de vídeo na Folha.com em que policiais tripudiam em cima de assaltantes baleados.
"Estrebucha, filho da puta", diz um funcionário do Estado para um dos caídos. Muitos defenderam sua conduta. Outros ficaram chocados com o sadismo na cena.
Dias antes, o Brasil pôde ver também em vídeo como o presidente do Senado, José Sarney (PMDB), passeava em helicóptero que deveria estar atendendo a um coitado com traumatismo craniano no Maranhão.
No final da mesma semana, fotos por todo lado de um acidente com um bondinho que matou cinco pessoas e feriu outras 57 em Santa Teresa, no Rio. O governador Sérgio Cabral (PMDB) mandou fechar o serviço até a execução de um plano de modernização.
Desvios de conduta, vigência por anos de contratos suspeitos ou malfeitos e medidas reativas como a de Cabral, depois de uma tragédia, são a regra no Brasil.
Infelizmente (ou felizmente), a semana passada só trouxe uma série concentrada disso, em vídeos e fotos coloridas.
A AGU (Advocacia Geral da União) estima que até 70% dos desvios de verbas públicas no Brasil ocorram nas áreas de educação e saúde (incluindo saneamento básico).
Nesses setores, os crimes são considerados hediondos. Pois matam por falta de assistência médica ou comprometem o futuro de crianças sem merenda escolar e educação adequadas.
Mais de 60% dos réus são prefeitos ou ex-prefeitos. Há um número mínimo de condenações e outro ainda menor de prisões.
Na área de transportes, a corregedoria do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura dos Transportes) acumula mais de mil processos sobre pagamentos suspeitos, que somam R$ 400 milhões nos últimos oito anos.
Segundo a AGU, quando ocorre, a devolução de parte das verbas desviadas demora, em média, 17 anos.
Apesar da conversa sobre "faxina" no governo Dilma, o que se vê é ex-ministro, secretário e diretor saindo do governo e tirando férias, voltando às suas consultorias ou reassumindo postos no Congresso.
Infelizmente, há poucos vídeos sobre isso.

domingo, 28 de novembro de 2010

RIO QUEM PAGA A CONTA?

Por Fernado Canzian
Felipe Dana/Silvia Izquierdo/AP
Policiais fortemente armados cercam traficantes em favela do Rio; bandidos tentam fugir em moto da ação da polícia
Policiais fortemente armados cercam traficantes em favela do Rio; bandidos tentam fugir em moto da ação da polícia.

Os favelados fluminenses que vivem há anos sob o terror de traficantes, milícias e policiais corruptos são os maiores financiadores da operação de "resgate" que o Estado iniciou na semana passada no Rio.
A perversão da carga e do sistema tributário do Brasil faz com que os pobres paguem, proporcionalmente, muitíssimo mais impostos do que os mais ricos.
Em tese, todo mundo come. Mas pobres e ricos pagam os mesmos 37% de imposto em um pacote de biscoito, 17% no quilo do arroz, 32% no açúcar, 26% em uma água sanitária. E por aí vai.
Como o rico ganha mais que o pobre, é o segundo quem compromete, proporcionalmente, grande parte do seu dinheiro para manter o Estado.
Segundo dados oficiais (IBGE e Ipea), a carga tributária sobre os pobres teria de cair 86% para se igualar à dos mais ricos.
Quem ganha até dois salários mínimos hoje compromete 49% de seu rendimento com impostos. Quanto mais pobre, mais tungado.
Portanto, é o pobre oprimido no Rio (pela conivência e desprezo desse mesmo Estado que o esfola com impostos, taxas e tributos) que deveria ter sido protegido, em primeiro lugar, de seus algozes.
Durante muitos anos, a polícia (que custa muito mais ao pobre do que ao rico) foi justamente quem ajudou a instalar a indústria do tráfico no Rio. Por não combatê-la ou por ajudá-la diretamente pela via da corrupção.
É, portanto, lamentável todo o ôba-ôba em torno da ação "heroica" das "tropas de elite" e outros superlativos a respeito do novo papel das polícias e das forças de segurança.
Eles não fazem mais do que a obrigação. São pagos (e extremamente caros aos favelados) justamente para fazer isso.
Pior. O que as ações das forças de segurança em ação no Rio revelam é que é muito mais fácil do que se supunha desmantelar a ação desses grupos de criminosos (des)organizados.
As imagens de traficantes fugindo como ratos para o morro do Alemão são emblemáticas. É só comparar as fotos nesta página.
São policiais financiados pelo dinheiro dos impostos com armamento pesado, coletes, etc., contra um bando de traficantes desdentados que (revelam termos de diálogos grampeados) parecem ter saído ontem de uma caverna neandertal.
Eles perderam muito em quatro dias. Centenas de motos e veículos, armas, munição e milhares de quilos das drogas que os financiam além dos pontos de venda do produto.
Em menos de uma semana, a polícia e os fatos mostraram que, quando o Estado quer, não há nada que possa ser feito contra ele.
O Estado é o ente mais forte de um país normal.
A grande questão é: como ele é usado? Quais suas prioridades?
É preciso ter sempre em perspectiva: os pobres (a grande maioria) são os que mais financiam o Estado brasileiro com seus impostos.
É a eles, por justiça moral, que país deveria voltar suas prioridades.
Precisamos de uma trem-bala de R$ 33 bilhões financiado pelo Estado para a classe média viajar ao Rio ou SP?
Ou seria melhor acabar de vez com a opressão no Rio e coalhar essas comunidades com programas sociais? Ou eliminar o esgoto a céu aberto em centenas de favelas brasileiras, repletas de pagadores de impostos?
A resposta a essas perguntas é simples: quem vai pagar?

terça-feira, 16 de novembro de 2010

QUANTO VALE UM POBRE ?

LAMBIDO DA FOLHA DE SÃO PAULO.
Em 2006, nos cafundós do Piauí, tive a infelicidade de perguntar ao filho adolescente de uma beneficiária do Bolsa Família quantas vezes por semana eles conseguiam comer alguma proteína. "Não sei o que é isso", foi a resposta.
"Carne. Vocês comem carne?" Ao que respondeu: "De vez em quando a gente acerta um passarinho".
A maior promessa de Dilma Rousseff como presidente é erradicar a pobreza. De propósito ou não, ela usou o termo "miséria" ao fazê-lo.
Especialistas no assunto e o próprio MDS (Ministério do Desenvolvimento Social), responsável pelo Bolsa Família, usam os termos "pobre" e "indigente".
Assim, é pobre e elegível ao Bolsa Família grupos familiares com renda mensal per capita inferior a R$ 140. Se uma família de quatro pessoas vive com R$ 400 ela é pobre (precisaria de R$ 560 ou mais para deixar essa classificação).
Já os indigentes são os que têm renda familiar per capita mensal abaixo de R$ 70.
Os valores são ridículos. Equivalem a R$ 4,60 por dia (um maço de Malrboro para o pobre) e R$ 2,30 (menos que uma passagem de ônibus em SP para o indigente).
O MDS reconhece que o ideal seria usar o valor do salário mínimo como referência. Assim, uma família de quatro pessoas deixaria de ser pobre quando recebesse (via rendimentos do trabalho e/ou benefícios sociais) R$ 2.040,00, ou R$ 510 por cabeça.
A meta de Dilma com a atual definição de pobreza (abaixo dos R$ 140) é factível e não custaria tanto.
Vista de maneira mais honesta, porém, não seria nada sensacional. Virariam "ex-pobres" os que passassem a viver com os R$ 4,60 ou mais ao dia.
Segundo cálculos do Centro de Políticas Sociais da FGV, o Brasil teria de investir mais R$ 21,3 bilhões ao ano (em cima dos R$ 13,4 bilhões do Bolsa Família) para atingir esse objetivo.
Somados, os quase R$ 35 bilhões corresponderiam a apenas 1% do PIB e chegariam a mais de 80 milhões de pessoas.
Como comparação, nos primeiros oito meses de 2010 o governo separou R$ 50 bilhões para pagar juros de sua dívida. Proporcionalmente, os que receberam em juros esses R$ 50 bilhões são um grão de brasileiros diante de um mar de conterrâneos pobres.

Leo Caldas/Folhapress
O pescador Flavio de Mesquita com mulher e filhos em Porto de Pedras (AL), um dos locais mais pobres do país; beneficiários do Bolsa Família, ainda passam fome.
O pescador Flavio de Mesquita com mulher e filhos em Porto de Pedras (AL), um dos locais mais pobres do país.
O quadro abaixo mostra que o total de pobres e indigentes no Brasil caiu à metade nos últimos dez anos. E mostra onde eles ainda se concentram.
A partir de 2003, mais de dois terços (71%) da redução de pobres se deu porque o mercado de trabalho melhorou. Foram quase 14 milhões de novos empregos formais sob Lula.
Até 2008, para cada 1 ponto de crescimento do PIB, a ocupação também crescia 1 ponto. Hoje, essa proporção caiu quase à metade, pois houve ganhos de produtividade (um mesmo número de trabalhadores passou a produzir mais).
Assim, é de se esperar que o governo Dilma invista mais dinheiro público na área social se quiser mesmo erradicar a pobreza.
Outra questão, nada trivial, é se Dilma se contentará com o atual critério, equivalente ao Malrboro e à passagem de ônibus por dia.
Isso quem deve nos dizer é Dilma. E sua consciência.
Editoria de arte/Folhapress
Fonte: Censo de 2000, atualizado pelas Pnads (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) até 2009. Elaboração Marcelo Neri, CPS/FGV-RJ