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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

OS VENTOS DO DESPERO

Os defeitos existentes na ordem prevalecente estão patentes na incapacidade manifestada pelos Estados soberanos, organizados nas Nações Unidas, em exorcizar o espectro da guerra, a ameaça – já presente - de um colapso da ordem econômica internacional.
Washington Araújo, na Carta Maior.
Que tempos extraordinários estes que estamos vivendo. É como se as páginas da História de recusassem a escrever com a mesma tinta, com a mesma cor e, acima de tudo, com a mesma mão. Os sinais de caos e convulsões iminentes, tão vividamente acessíveis em imagens de telejornais e em vídeos na internet, podem agora ser discernidos, na medida em que, lastimavelmente, a ordem predominante demonstra ser defeituosa.
Os defeitos existentes na ordem prevalecente estão patentes na incapacidade manifestada pelos Estados soberanos, organizados nas Nações Unidas, em exorcizar o espectro da guerra, a ameaça – já presente - de um colapso da ordem econômica internacional, o alastramento da anarquia e do terrorismo, e o sofrimento intenso que estas e outras aflições estão causando a um número crescente de seres humanos.
O potentado norte-americano foi rebaixado em sua “capacidade de honrar compromissos financeiros”, de “ótimo” (AAA) desceu para “bom” (AA). E, em uma economia profundamente desorganizada, foi o sinal para que Bolsas de Valores de todo o mundo despencassem. A gravidade é de tal monta que a China emitiu notas veementes expressando grave preocupação com a capacidade de o governo dos Estados Unidos vir a honrar sua dívida com o gigante asiático.
As economias da Grécia, Portugal e agora, a da Espanha, encontram-se em petição de miséria: o Estado não consegue produzir riquezas para manter seu “padrão insustentável de consumo” e muito menos sua atividade econômica capaz de manter alguma forma de estabilidade nos índices de emprego de suas populações. Há poucos quilômetros do centro de Londres, nesta primeira semana de agosto de 2011, parte da população dos subúrbios promoveu incêndios e saques de lojas e residências, além da depredação de edifícios públicos. Exatamente aquela parte da população que não recebeu os benefícios do Welfare State, do Estado do Bem-estar Social e que engrossa as estatísticas, sempre alarmantes, de pobreza e miséria em meio à opulência e aos desperdício de uma minoria, que na Europa, acostumara-se a viver nababescamente, alimentando suas ilhas artificiais de consumo de bens supérfluos.
Bem, este panorama retrata apena breves vislumbres dos países desenvolvidos, aqueles que sempre estiveram na vanguarda do progresso econômico, científico e tecnológico. Aqueles que exportaram seus idiomas como quem exporta calçados e levaram seus padrões de consumo a limites insuportáveis não apenas para uma nação ou região, mas sim, para todo o planeta.
Nosso olhar que mira o chamado mundo de primeira classe com certo grau de perplexidade mira também a maioria da população mundial que desde que o mundo assim foi traçado nos mapas-múndi entravam na História apenas e unicamente pela porta dos fundos, pela entrada de serviço, contingentes populacionais com baixa escolaridade, alta mortalidade infantil, renda per capita subhumana e expectativa de vida inferior aos 35

sábado, 9 de julho de 2011

IMPRENSA CRIMINOSA

Em que diferem os “jornais tablóides britânicos” dos “jornais tablóides brasileiros”? Tantos uns quanto outros encontram-se sempre a poucos metros de se tornarem “sinônimo de leviandade na apuração dos fatos, exagero nos relatos e espetacularização da notícia”.
Washington Araújo, na Carta Maior.
O editorial da Folha de S.Paulo de 8/7/2011 confirma a afirmação sartreana de que “o inferno são os outros” e a popular máxima que “pimenta nos olhos dos outros é refresco”. A abertura é um primor de assertividade e clareza de pensamento: “Jornais tablóides britânicos se tornaram sinônimo de leviandade na apuração dos fatos, exagero nos relatos e espetacularização da notícia.”
‘Alimentemos, então, com parte considerável deste estoque de lenha a caldeira do pensamento. Em que diferem os “jornais tabloides britânicos” dos “jornais tablóides brasileiros”? Tantos uns quanto outros encontram-se sempre a poucos metros de se tornarem “sinônimo de leviandade na apuração dos fatos, exagero nos relatos e espetacularização da notícia”.
Os próprios arquivos deste Observatório, com seus milhares de textos tendo como tema central a crítica de imprensa, constituem valioso acervo a corroborar tais afirmações. Claro que cabe apenas ao pesquisador paciente casar reportagens, notícias, escândalos reais e escândalos para consumo dirigido com as respectivas chancelas: isto aqui é pura leviandade, isto ali não passa de rematado exagero da imprensa e toda essa montanha de textos pode facilmente ser chancelada como “espetacularização da notícia”.
A própria Folha de S.Paulo poderia, ao escrever tão cristalina abertura de editorial, estar mirando algumas de suas recentes investidas no campo da leviandade explícita, como por exemplo a publicação do artigo do cientista político César Benjamin no dia 27 de novembro de 2009 sob o título “Os filhos do Brasil” (pg. A8). À época muitos foram os que entenderam ser desejo do jornal fazer um contraponto à mistificação quase inumana do filme "Lula, o Filho do Brasil". A propósito, escrevi aqui no Observatório o texto “Os filhos da verdade”, que tinha intenção de ser o contraponto do contraponto. Aos que se inteiraram do tema, levado às páginas em estado de combustão, ficou a nítida percepção de absoluta leviandade na apuração dos fatos, onde a palavra a reinar inteiramente era a do articulista, sem qualquer interesse em dar voz a alguns dos personagens ainda vivos e dispostos a compartilhar suas memórias daqueles dias em que conviveram com o prisioneiro Luiz Inácio Lula da Silva. O mesmo episódio foi amplamente pautado pelo exagero em suas diversas cores e nuances e, finalmente, e em sua forçada espetacularização personificou o antiespetáculo ao que estava parra estrear nas telas de cinema.
O editorial em questão trata do fim decretado pelo magnata Rupert Murdoch a um dos

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Apuração, análise e reflexão em falta.
É comum confundirmos o formidável estágio alcançado pelos meios de comunicação como sendo o início de uma Era de Ouro da imprensa. Nada mais falacioso. O que temos atualmente é a repetição das mesmas informações, segundo a segundo, por diversas plataformas comunicacionais.
Por Washington Araújo, na Carta Maior.
Nunca recebemos tamanha carga de informação como nos dias atuais. O bombardeio informacional passa a ser a principal marca desses primeiros anos do século 21 e a sua principal imagem dificilmente poderia ser outra que não a derrubada das torres do World Trade Center, em Nova York. O atentado ocorreu às 9h25 do dia 11 de setembro de 2001. E assim é porque aquelas imagens correram mundo no momento mesmo em que estavam se esboçando no plano da realidade.
É possível que a visualização da impressionante sequência de imagens dos aviões se chocando contras as torres tenha sido mais visualizada que dois outros eventos igualmente marcantes: o assassinato do presidente John F. Kennedy, às 12h30 do dia 22 de novembro de 1963, e o primeiro passo do astronauta americano Neil Armstrong na superfície lunar, às 23 horas, 56 minutos e 20 segundos (horário de Brasília) do dia 20 de julho de 1969.
Considero marcantes os três eventos porque poucos são os que fazem as pessoas vasculhar a memória coletiva de nossa época em busca de resposta à questão: “O que você estava fazendo no dia...?”
É comum confundirmos o formidável estágio alcançado pelos meios de comunicação como sendo o início de uma Era de Ouro da imprensa. Nada mais falacioso. O que temos atualmente é a repetição das mesmas informações, segundo a segundo, por diversas plataformas comunicacionais – do velho jornal, do velho rádio, da velha TV e da nova internet. Não obstante o fácil acesso à informação, a verdade é que não mais procuramos a notícia; é a notícia que nos encontra. Além dos aparatos descritos, a notícia se encontra ao alcance de nosso aparelho de telefonia celular, de nossos computadores, móveis ou não, e não importa em que formato e tamanho estes se apresentem.
Os custos da guerra
A maioria dos chamados “escândalos” do fim de semana mal consegue sobrevida por duas ou três semanas. E é assim porque falta apuração, falta análise, falta reflexão sobre os dados apresentados. Há que se perguntar onde foi parar aquela capacidade que os profissionais da imprensa tinham no passado em relacionar diferentes acontecimentos, diferentes personagens, de estabelecer suas relações econômicas, políticas e sociais. É como se o objetivo fosse apenas atender à necessidade da instantaneidade, à velocidade com que o assunto é tornado público. O resto passa a ser mera repercussão.
E falta profundidade no que é noticiado. Por exemplo, acompanhamos com facilidade os desdobramentos de guerras no Iraque e no Afeganistão, apenas para ficar em duas, bem contemporâneas, mas somos informados apenas da visão que atende aos interesses imediatos do establishment. E como os custos envolvidos em uma guerra em nada ajudam o chamado “esforço de guerra midiático”, ficamos sem conhecer, por exemplo, o projeto Costs of War, realizado por especialistas da Universidade Brown, de Rhode Island, Estados Unidos. E o que informa este projeto?
“Em termos financeiros, de 3,7 trilhões a 4,4 trilhões de dólares, o dobro do PIB brasileiro e mais que a II Guerra Mundial (4,1 trilhões em moeda de hoje). Em termos humanos, 224 mil a 258 mil mortos (dos quais ao menos 137 mil civis), 620 mil soldados feridos e 7,8 milhões de refugiados. O relatório completo lista ainda custos políticos, sociais e ambientais. A Al-Qaida gastou entre 400 mil e 500 mil dólares e matou 2.995 no atentado de 11 de setembro. Para cada uma de suas vítimas, os EUA fizeram pelo menos 73 e para cada dólar do inimigo gastaram cerca de 10 milhões.”
Imprensa partidarizada.
Este é apenas um dos exemplos. E, mesmo assim, não encontramos especialistas em política internacional fazendo as necessárias conexões entre os custos da guerra e as fontes de seu financiamento. Nessa mesma toada ficamos sem saber qual a relação de tão impressionante volume de recursos financeiros com a ainda muito mal-explicada crise econômica iniciada em 15 de setembro de 2008 com a quebra do banco Lehman Brothers e que continua abalando a economia dos Estados Unidos e de vários países europeus, como Grécia, Espanha e Portugal.
Se miramos o flanco brasileiro, logo concluiremos que a tendência a apenas repercutir informações é amplamente majoritária. Vejamos a notícia-sensação de junho de 2011 sobre a chamada “lei do sigilo eterno” dos documentos do governo brasileiro. Na primeira quinzena do mês, tínhamos apenas a repercussão de frases do presidente do Senado, José Sarney, dizendo ser contra a derrubada do sigilo eterno uma vez que determinados documentos sobre as negociações conduzidas pelo barão do Rio Branco (quanto à aquisição do território do Acre junto à Bolívia) e ações do duque de Caxias em meio à Guerra do Paraguai poderiam “reabrir feridas mal-cicatrizadas” e causar “constrangimentos ao Estado brasileiro”. Repercutiu também que o senador Fernando Collor era contrário à derrubada do sigilo eterno.
Fato é que somente nos dois últimos dias de junho, não por instigação da imprensa, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso afirmou que assinou a lei em vigor “sem ter lido”, devido “ao grande número de documentos” que demandavam sua assinatura em seu último dia na Presidência.
O que a imprensa deixou de fazer? Absolutamente tudo. Poderia ter entrevistado historiadores e especialistas em política internacional para esclarecer à população em que situação se deu a compra do estado do Acre. O mesmo esforço poderia ser direcionado para informar, com base em fontes históricas confiáveis e acima de suspeita, sobre as ações do patrono do exército brasileiro na guerra do Paraguai. O espaço dedicado pela grande imprensa (Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo, Veja, Época, Rede Globo etc. ) ao tema foi inteiramente focado na questão partidária – ou seja, em como melhor acomodar o assunto no colo da presidenta Dilma Rousseff e no de seus aliados no Congresso Nacional.
Imprensa partidarizada. Nada mais que isso.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O que exige atenção é a saúde da imprensa
A capa da última edição da revista Época indica que a vontade de boa parte da grande imprensa não é outra que a de sepultar Dilma Rousseff. E nos faz pensar em quão desumana pode ser uma reportagem e sobre essa linha tênue que separa uma imprensa ética e séria de uma não-ética e sensacionalista.
Washington Araújo, da Carta Maior.
A edição de Época (nº 680 - 28/05/2011) traz em sua capa um primor de mau gosto: a foto da presidenta Dilma Rousseff, usando seu costumeiro traje vermelho com bordas negras, pálida, olhos cerrados, e aquele sorriso de funda aquiescência tão comum em cadáveres femininos, nos faz pensar logo de imediato que a revista conseguiu um furo realmente inédito: a imagem da presidenta no fundo de uma urna funerária.
A palavra exclusivo se sobressai em letras amarelas sobre fundo vermelho, bem à altura do peito. As chamada contrasta pesadamente com a imagem: A saúde de Dilma. O subtítulo informa que “Época teve acesso a exames, listas de remédios, e relatos médicos”. E não deixa passar a mensagem de alarme: “Por que seu estado ainda exige atenção”.
Como a imagem não alcança as mãos resta saber se nos “testes de capa” não existiria também alguma em que suas mãos se enroscavam ternamente em um terço católico, destes em que as contas e o crucifixo são de madrepérola. Mórbida é a capa. Algum desavisado que não tivesse tempo de ler as chamadas sombrias poderia supor que a presidenta não mais se encontrava no mundo dos vivos e que o país deveria logo se preparar para a cerimônia do adeus, trazendo à memória a morte do presidente Tancredo Neves em 21 de abril de 1985 e a catarse que tomou conta do país e se prolongou até seu funeral, três dias depois, em São João Del-Rei. Caso o futuro sombrio evocado pela capa fosse uma realidade tangível, o Brasil que foi presidido em 1985, por José Sarney, um político peemedebista, em 2011 ocuparia a presidência da República outro peemedebista, Michel Temer.
A reportagem em si não sustenta a capa. Aqui temos um caso em que a capa flerta com o sensacionalismo barato: morte sempre vende bem. E se for morte ou alusão a morte de um presidente da República, aí é que vende mesmo. A reportagem embora registre afirmações de seus médicos dando conta que a presidenta “apresenta ótimo estado de saude”, sua linha argumentativa – se é que existe - termina sendo a criação de uma tela tecida com fios de má intenção e dentro de um clima francamente agourento aborda os problemas de saúde que ela já apresentou e os outros que para uma mulher da sua idade são absolutamente normais.
Tratar da saúde é obrigação elementar de qualquer pessoa. Simplesmente porque a vida é o bem supremo, o bem maior a ser protegido e não é à toa que o instinto de preservação nos acompanha desde o primeiro segundo de vida até nossa última respiração.
A tese defendida aponta para uma suposta gravidade de seus problemas de saúde, mas as informações apresentadas não a sustentam. A reportagem chega a listar os tais “28 remédios da presidenta”, começando com um prosaico “bicarbonato de sódio para combater aftas” até aqueles receitados amplamente para uso infantil, como o Atrovent e os muito comuns Novalgina e Fluimicil. Uma boa assessoria médica agregaria valor ao texto ao informar, por exemplo, que o hipotireoidismo é encontrada com elevada freqüência entre as mulheres de mais idade sendo comum que lhes sejam requisitados exames de TSH.
Da mesma forma não faltaria quem no meio médico se dispusesse a afirmar que o hormônio T4 – Synthroid, Puran, Levoid, Euthyrox etc. – tomado em jejum integra tratamento básico para a enfermidade e é utilizado em larga escala por mulheres em todo o planeta há décadas. Logo na abertura da reportagem o leitor atento depara com o espírito que a norteou ao citar que no domingo, 22 de maio, a presidenta viajou para Salvador para participar da cerimônia de beatificação de Irmã Dulce e, logo em seguida, agregou que este “foi seu primeiro compromisso público desde a pneumonia que a obrigou a cancelar viagens e a despachar durante três semanas do Palácio da Alvorada, sua residência oficial”.
A dramaticidade não tarda a se revelar: devido à chuva, a organização do evento “improvisou toldo que lembrava uma bolha de plástico” para acomodar Dilma, concluindo assim que “não era apenas uma deferência justificada pelo cargo que ela ocupa. Era um cuidado necessário para evitar uma recaída da inflamação pulmonar que, segundo palavras que ela mesma disse, de acordo com um interlocutor de confiança, teria sido “a pior de todas as doenças que já enfrentei”.
A expressão ‘bolha de plástico’ nos faz recordar o mal conhecido como Nemo ("Nuclear Factor Kappa B Essential Modular", em inglês). Esta doença impede o bom funcionamento dos glóbulos brancos e implica na necessidade de o paciente passar por um transplante de medula, permitindo assim que ele receba um novo sistema imunológico. De qualquer forma, os médicos afirmam que tal enfermidade atinge o sistema imunológico e leva o paciente a contrair uma forma incurável de tuberculose. Teria Época a intenção de transformar na terrível Nemo a inflamação pulmonar que acometeu a presidenta? Os autores não poderiam concluir apenas que aqui ou na Conchichina é comum fazer uso de toldo em cerimônia a céu aberto e em período chuvoso? Obviamente, não se esperava que o Governo da Bahia providenciasse um ambiente bastante refrigerado para abrigar a principal autoridade da República, ainda mais sabedores de sua recente recuperação de um quadro de pneumonia.
Para uma imprensa que vira e mexe se sente “vítima do sistema” e que está sempre a dois passos da supressão da liberdade de expressão no país, causa espécie ver o esforço de Época ao pedir – e conseguir – autorização da própria presidenta para que o Hospital Sírio-Libanês facultasse à revista Relatório médico acerca de sua saúde. O assunto é, além de muito sério, bem delicado, uma vez que segundo a Resolução nº 1.605/2000 do Conselho Federal de Medicina encontra-se estipulado em seu primeiro artigo que “o médico não pode, sem o consentimento do paciente, revelar o conteúdo do prontuário ou ficha médica.” Não por acaso que a abertura do relatório médico principia com a frase autoritativa: “Por solicitação da Exma. Presidenta da República, Sra Dilma Vana Rousseff, o Hospital Sírio-Libanês emite o presente relatório médico”. Mas, como diziam os antigos, só encontramos o que procuramos, chama atenção o fato de a matéria inteira não dar relevo nem qualquer outro destaque ao que realmente importa no citado documento médico oficial. É a parte que diz o seguinte: “Em 21 de maio de 2011 a Sra. Presidenta realizou tomografia de tórax de controle, mostrando resolução completa do quadro de pneumonia detectado no mês anterior. Do ponto de vista médico, neste momento a Sra. Presidenta apresenta ótimo estado de saúde.”
Não sei qual foi a reação da presidenta ao mirar a capa. Mas não preciso ser doutor em psicologia para perceber que é muito estranho se ver retratado na capa de uma revista com circulação nacional da maneira como está – a pessoa parece sem vida, a capa remete a morbidez cadavérica. E se a pessoa está doente, por mais rotineira ou comum que seja a enfermidade, a reação não deve ser nem um pouco alvissareira. Ninguém soltaria fogos de artifícios após passar alguns segundos tendo esta capa ao alcance dos olhos.
Não posso deixar de fazer ainda outra leitura da capa desta edição de Época. É que a vontade de boa parte da grande imprensa, ou como alguns preferem, da grande mídia, não é outro que o de sepultar Dilma Rousseff. E nos faz pensar em quão desumana pode ser uma reportagem. E nos faz refletir sobre essa linha tênue que separa uma imprensa ética, séria, responsável de uma imprensa não-ética, sensacionalista e dada a dar à mancha o tamanho de montanha.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

BBB 11 - ÉTICA PELO RALO

O formato é o mesmo já consagrado pelo público e pelos anunciantes: invasão de privacidade com a venda de corpos quase sempre sarados, bronzeados e bem torneados e com a exposição de mentes vazias a abrigar ideias que trafegam entre a futilidade e a galeria de preconceitos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

JORNALISMO APRESSADO E MAL FEITO

O jornalismo brasileiro, que já não era muito assertivo, termina 2010 vestido em forma de grande ponto de interrogação, jornalismo que acha, além de improdutivo, entediante investigar os fatos e os dados antes de publicar a matéria.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O FURO E A ÉTICA DO COLETIVO

O leitor já parou para pensar se o protagonista do evento Wikileaks não fosse Washington e em seu lugar estivesse no olho do furacão... Brasília? Com certeza teríamos capas mostrando indignação, acusando o governo de total incompetência e amadorismo na condução de sua diplomacia.
Os Estados Unidos parece ter embarcado no século XXI sob a égide dos vazamentos. Em fins de abril de 2010 uma maré negra de petróleo atingiu a costa do estado americano de Louisiana e se alastrou por outros quatro estados da costa do Golfo do México, vazando de um poço que despejou no mar de forma contínua durante exatos 87 dias nada menos que 4 milhões de petróleo. Essa catástrofe começou com uma explosão que matou 11 trabalhadores, em 20 de abril. Além da tragédia ambiental, o prejuízo financeiro fez a British Petroleum perder US$ 70 bilhões em seu valor de mercado. No coração do capitalismo mundial esta cifra dá conta dos contornos da desgraça.
Há menos de uma semana alguns dos principais jornais do mundo vêm publicando o mais impressionante acervo de documentos diplomáticos vazados de embaixadas norte-americanas ao redor do mundo. O impressionante estoque de “mal-estar escrito” foi conseguido e vem sendo divulgado pela organização WikiLeaks. São exatos 251.287 itens. Todos com a marca oficial do governo americano. É no mínimo instigante constatar que os jornais que divulgaram os arquivos confidenciais foram simplesmente os maiores do mundo, seja em circulação, seja em tradição, como é o caso do The New York Times, dos Estados Unidos, El País, da Espanha, Le Monde, da França, Der Spiegel, da Alemanha, e The Guardian, da Inglaterra.
No Brasil, o jornal que publica o material é a Folha de S.Paulo. Deste montante, 1.947 foram emitidos pela Embaixada dos EUA em Brasília, 777 de São Paulo, 119 do Rio de Janeiro e 12 do Recife. As relações diplomáticas Brasil/EUA são desnudadas em exatos 2.855 documentos. Do que já foi divulgado ficamos sabendo que o então embaixador dos EUA no país, Clifford Sobel, informou a Casa Branca, em 2008, que o Brasil disfarça a prisão de terroristas. E que o Itamaraty era referido pelo embaixador americano como uma entidade de inclinação antinorte-americana, como um nicho adversário no Governo brasileiro. O embaixador cuidou de colocar no papel que nosso ministro da Defesa Nelson Jobim deveria ser visto como “um aliado dos Estados Unidos”. Noutro dia o jornal paulista revelou documentos em que a Embaixada dos EUA em Brasília faziam duras críticas à Estratégia Nacional de Defesa, lançada em 2008.
A imprensa tem se limitado a publicar os documentos, se atendo quase que exclusivamente ao seu conteúdo que, por si só, já é suficiente para causar embaraço aos governos e autoridades neles mencionados. Chama atenção o fato que nosso jornalismo tão marcadamente opinativo parece haver decretado férias coletivas. O fato é que os juízos de valor, sempre com tendência para o exagero e a contundência, são de todo escassos.
O leitor já parou para pensar se o protagonista do evento não fosse Washington e em seu lugar estivesse no olho do furacão... Brasília? Com certeza teríamos capas dos grandes jornais mostrando indignação, acusando o governo de total incompetência e amadorismo na condução de sua diplomacia. Não faltariam editoriais lança-chamas pedindo a cabeça do chanceler Amorim e analistas estariam fazendo as mais sombrias reflexões sobre o embuste que é o nosso Itamaraty, dado de barato como tendo sido aparelhado politicamente à enésima potência e por aí vai. Capas das revistas semanais tratariam de colocar uma penca de polvos habitando a piscina da Casa de Rio Branco e as matérias internas trariam entrevistas robustas com o ex-ministro Celso Lafer, textos contundentes e um tanto desfocados do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. No Congresso Nacional a confusão estaria armada com a circulação de listas de assinaturas pedindo assinaturas além dos costumeiros pronunciamentos inflamados contra o ministro Amorim, sendo que o parlamentar oposicionista mais pautado pela calma que nesses momentos se exige, estaria exigindo sua imediata demissão.
Acontece que foi nos Estados Unidos. Onde tudo parece superlativo. País com apenas 5% da população mundial e que é responsável por 32% do consumo global. Trocando em miúdos, se o mundo inteiro consumisse como os americanos, o planeta só suportaria 1,4 bilhões de pessoas. É o país em que o consumo de energia elétrica de um norte-americano equivale ao de quinhentos indianos. E que detêm em suas fronteiras megaempresas que estão na vanguarda da revolução tecnológica como a Apple e a Microsoft. Quando ficamos sabendo do conteúdo dos wikileaks e da forma como são coletadas informações sobre países como o Brasil, a maneira jocosa com que tratam nosso governo e nossas instituições, a importância desmesurada que se concede às pequenas vaidades dos governantes, podemos entender melhor que provavelmente o maior objetivo dos Estados Unidos é conscientizar o consumo dos países pobres para que o consumismo em seu território continue desenfreado e julgam que este processo ocorre, pois necessitam mais das matrizes energéticas e das fontes naturais.
Como um país tão rico, tão senhor de si e tão convencido de que é o umbigo do mundo, não consegue guardar consigo o que ele mesmo classifica como reservado, confidencial e secreto? Um país que não consegue separar a cozinha da sala e esta do quarto apenas demonstra sua fragilidade interior. Porque continua, como sempre fez, a confundir um anão com uma criança de tenra idade. Vive no mundo das aparências e sua métrica é apenas a das aparências. Com embaixadas tão guarnecidas, tão pesadamente prontas para receber os mais letais ataques, ainda assim não consegue conservar consigo o que nesses ambientes se produz por excelência informação.
Desconhecemos que foi ao longo dos tempos que o ser humano conseguiu conquistar seu espaço privativo e o direito de resguardar sua intimidade? Com as instituições, os governos deve ser diferente? No Brasil, o assunto é encampado em nossa Constituição Federal, com os chamados direitos da personalidade. No art. 5.º, inciso X da Constituição Federal encontramos abrigo ao direito à reserva da intimidade, assim como ao da vida privada. E a intimidade, segundo teóricos do Direito, consiste na faculdade que tem cada indivíduo de obstar a intromissão de estranhos na sua vida privada e familiar, assim como de impedir-lhes o acesso a informações sobre a privacidade de cada um, e também impedir que sejam divulgadas informações sobre esta área da manifestação existencial do ser humano.
As transformações pelas quais perpassa a humanidade nos últimos vinte anos, porém, criaram desafios à eficácia dos direitos da personalidade, notadamente ao direito à privacidade. Além de o indivíduo passar a ser visto não mais isolado de seu contexto, a explosão das comunicações veio trazer à tona novos debates, que chegam tarde dada a velocidade astronômica com que as novidades tecnológicas se incorporaram ao dia-a-dia das pessoas. É fato – e os wikileaks constituem robusta prova – que a Internet permitiu o surgimento de uma nova forma de correspondência, o chamado correio eletrônico. Fácil e eficiente, tornou-se ferramenta essencial. Tanto que parte considerável dos 251.287 documentos diplomáticos conseguidos pela Wikileaks é constituída por mensagens eletrônicas.
Feitas estas observações, considero igualmente importante debater o papel da imprensa em relação aos wikileaks. Será legítimo, constituirá um serviço à sociedade, servir como braço mecânico e prolongado de quem surrupiou informações confidenciais de governos e de suas autoridades para colocá-las ao alcance de todos? Onde é que começa o ato criminoso... e onde termina? O braço mecânico – o ente que divulga – tem vida própria ou segue a lógica inicial de quem acessa documentos privados?
Como estamos conhecendo o conteúdo de apenas duas dezenas desses documentos diplomáticos ainda é cedo para afirmar que muitos desses poderão agravar a instabilidade política no mundo, na medida em que tornam públicos sentimentos que antes existiam apenas em esfera privada. Qual a diferença entre ter minha residência invadida ou meu computador pessoal invadido e assim sem mais nem menos tomar conhecimento de que estranhos acessam facilmente minhas 5.334 mensagens eletrônicas existentes em meu provedor de internet? E se parte dessas mensagens forem parar na Folha de S.Paulo... que prejuízo isso me traria? Quem seria responsabilizado por isso? Apenas o criminoso invasor ou também quem, sabendo se tratar de documentos de natureza particular, portanto confidencial, os difunde? E, se por motivo que desconheço, viesse a ser ‘chantageado’ ou mesmo lesado financeiramente pelo fato de que em um dos 5.334 documentos fossem encontrados dados bancários sensíveis como agência, bancária, senha, três letras etc. etc.?
Átila, rei do Hunos, tinha razão quando em meio às suas conturbadas campanhas militares dizia que as palavras são uma fonte de mal-entendidos. Se a diplomacia estadunidense e, por extensão, toda e qualquer diplomacia como a conhecemos nos dias que correm, tivesse dado ouvidos ao huno não estaria em situação além de embaraçosa, vergonhosa, vexaminosa e, que cômputo geral do estado das coisas, não estaria refém de de seus próprios pensamentos, ações e documentos. E deve estar se preparando para saber que esse vazamento ultrapassará em muitos dias e meses aqueles ora minguados 87 dias de vazamento de petróleo e, os wikileaks terão potencial de despejar sobre a sociedade planetária nada menos que 40.205.920(*) palavras.
O leitor desavisado – ou aquele dado a ler sempre na diagonal – pode pensar que tomei partido por um dos lados: (1) os que recriminam a imprensa pela divulgação; (2) os que aplaudem a imprensa pela divulgação. Em casos de dois lados, como sempre, pode haver um terceiro: é um jornalismo saudável este que acredita que os fins (divulgar ao público documentos confidenciais e não autorizados) justificam os meios (quebrar protocolos de segurança, infringir a privacidade alheia, roubar dados e informações, bisbilhotar o que não lhe é de direito)?
(*) Fui conservador e estimei com base no movimento das nuvens de hoje que cada documento conseguido por Julian Assange contém em média 160 palavras.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A REINVENÇÃO E O VENENO

A Veja desencadeou mais uma de suas cruzadas, desta vez para menosprezar e ridicularizar o cantor e compositor Chico Buarque. E tudo por causa de Prêmio Jabuti. Longe de ser privilegiado ao receber um prêmio, de música ou de literatura, é mais provável que Chico agregue valor ao prêmio que o contrário.

domingo, 31 de outubro de 2010

DEBATE DA GLOBO


Onde está o rabo do gato?

Dentre o conjunto de 12 perguntas formuladas por cada "indeciso" no debate da TV Globo, parece que o que valeu mesmo foi o critério de seleção usado pela emissora do Jardim Botânico: nenhuma pergunta sobre privatização, Petrobras, banda larga, comparação entre governos...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

QUINZE QUESTÕES ? ?

Antes de 31/10 o Brasil espera respostas para 15 questões pontuais.
Se a imprensa quisesse teria muito trabalho por realizar. Bastaria ver as muitas matérias interrompidas abruptamente, as notícias sem continuidade, as manchetes anunciando que ontem pela manhã, por volta das 5h45m o mundo acabou.
Washington Araújo, Carta Maior
Pois bem, se a imprensa quisesse... não precisaria ficar se exercitando qual hamster passeando em sua roda-gigante dentro de sua minúscula gaiola... E também não teria que ficar repetido à exaustão que “tudo está indefinido”, que somente com “a abertura das urnas” saberemos alguma coisa (?), que “as pesquisas mostram números ligeiramente alteradíssimos”, que “os votos do PV não são do PV, são de Marina” ou outra variante afirmando que “os votos de Marina não são de Marina são do PV”.
É um festival de coisa morna, que longe de queimar a língua, no máximo lhe fa sentir quão desagradável é a coisa morna, seja leite morno, seja escândalo morno, seja opinião morna, seja notícia morna. A cobertura da imprensa destas eleições presidenciais se alterna entre o frio e o morno e qualquer calorzinho existente parece nascer do lado partidário da imprensa, aquela que mais se autoproclama isenta, independente, acima das ideologias, acima das eternas rusgas entre governo e oposição.
Mas, se a imprensa quisesse teria muito trabalho por realizar. Bastaria ver as muitas matérias interrompidas abruptamente, as notícias sem continuidade, as manchetes anunciando que ontem pela manhã, por volta das 5h45m o mundo acabou. Seria preciso, tão somente, responder, se possível ainda antes do dia 31 de outubro, a questões como as que enuncio a seguir:
1. Porque o avanço do tema aborto cruzava o Brasil como se planasse em céu de brigadeiro e, logo após “a publicação do relato de uma ex-aluna da mulher de Serra dando conta de que ela (Monica), em sala de aula, revelou já ter praticado um aborto” eis que o tema desaparece do noticiário com tal velocidade que até falar da construção da Transamazônica, nos momentos mais dolorosos do governo Médici pareceria notícia com muito mais cheiro de novidade para este segundo turno que a tal difundida questão do aborto?
2. Tendo o tema descriminalização do aborto se levantado como onda de 11 metros, com a informação de que Monica Serra, mulher do candidato a presidência José Serra (PSDB), teria feito um aborto durante o período em que o tucano viveu exilado no Chile e... procedendo de “gente com ficha limpa”: da bailarina e ex-aluna de Monica Serra na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Sheila Canevacci Ribeiro... fica a interrogação: cadê o jornalismo investigativo buscando ouvir ao menos mais 5 ou 6 alunas da professora Mõnica, ex-colegas de Sheila Ribeiro sobre o assunto?
3. Porque uma simples nota da Assessoria do PSDB negando o aborto da mulher de seu presidenciável ao invés de deixar a onda se acabar na praia não produziu o que se esperaria de um jornalismo minimamente independente: aumentar o esforço investigativo em torno do caso? Afinal, não era ela que há algumas semanas panfletava em Nova Iguaçu (RJ) bradando que Dilma Rousseff (PT) “é a favor de matar criancinhas”?
4. Porque partiu de um líder católico, Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, bispo da antes pacata Guarulhos (SP) a encomenda de impressionantes 20 milhões de panfletos, com assinatura de sua entidade-mor, a CNBB, com ataques claros e diretos à candidata da continuidade governista Dilma Rousseff?
5. E se em nota a própria CNBB afasta dos lábios sacerdotais o cálice amargo encontrado em Guarulhos... quem teria autorizado a impressão de sua chancela?
6. Como Dom Bergonzini conseguiu levantar tanto dinheiro para ação tão meritória e tão distante de ser considerada alinhada com as mensagens que há 2.000 anos sopram dos Evangelhos de Lucas, João, Mateus e Marcos?
7. E se não era dinheiro resultante de dízimos e doações de sua própria diocese, de onde viria tão elevada quantia – cerca de algo entre R$ 600 mil a R$ 800 mil - de que casa bancária e de que 'conta partidária' teria sido debitada?
8. E na outra ponta: em que conta da diocese de Guarulhos teria ido parar a dinheirama?
9. Paulo Preto, personagem de outro escândalo levemente noticiado no principal telejornal da tevê brasileira, estaria envolvido com a gráfica demandada por Dom Bergonzini?
10. Quais as ações tanto da Justiça Eleitoral quanto de sua mais operosa agente do Direito, esta que parece trabalhar em três turnos sem qualquer

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

VOZ DOS DONOS, O SELETOR DE OPINIÕES

Assíduo no twitter, o ex-governador José Serra bem que poderia ter teclado 140 caracteres para, ao tratar do ganhador do prêmio Nobel da Paz dizer algo como: "Se fosse brasileiro e escrevesse num jornal paulista, o professor Liu Xiaobo seria demitido".
Washington Araújo, Observatório da Imprensa.
Liberdade de expressão parece ser um seletor de opiniões grudado nas mãos dos donos de veículos de comunicação ou de seus prepostos (diretores de Redação, editores-chefes, editores em geral). A liberdade de expressão pode até ser exercida, mas seu alcance é limitado e não pode, em hipótese alguma, ultrapassar a cadeia hierárquica de comando. Que é louvável clamar por esta preciosa liberdade ninguém tem dúvidas, mas que é execrável concedê-la apenas aos que se alinham com a ideologia dos patrões, pouca gente se arrisca a duvidar.
Vejamos alguns casos bem recentes. Observo que ver apenas um caso nas cercanias da própria imprensa já reclamaria uma boa dose de atenção. Pois bem, até as paredes e os cenários da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, sabem o que teria sido o real motivo para a demissão do experiente jornalista e apresentador de tevê Heródoto Barbeiro: o exercício de sua liberdade para perguntar, da bancada do programa Roda Viva, ao ex-governador José Serra sobre os preços dos pedágios paulistas (ver aqui). No entanto, são estes mesmos que demitem, que mostram truculência e que desfraldam bandeiras pela liberdade de expressão; que altas horas da madrugada mostram-se receptivos a telefonemas exigindo a demissão desse ou daquele profissional que, na pior das hipótese, tenha cometido por pensamento ou por ação apenas um crime: o crime de pensar.
Não mais que passada uma semana e, em 8 de julho deste 2010, ainda na mesma emissora de cunho estatal, ficamos sabendo pela contumaz marolinha com que a imprensa repercute casos do gênero que o jornalista Gabriel Priolli deixara de ser diretor de jornalismo da TV Cultura. A decisão, tomada pelo jornalista Fernando Vieira de Mello, vice-presidente de conteúdo da emissora, alimentou boatos a respeito da ingerência política sobre o canal. O fato é que tanto nos corredores da emissora como na blogosfera, circulou – e ainda circula – a informação de que, por trás da demissão de Priolli, pendia em forma de guilhotina uma suculenta matéria sobre – adivinhem – o aumento nos pedágios paulistas.
Mais um pouco e ficaremos convencidos de que no jornalismo paulista expressões como "pedágios" e "liberdade de expressão" são como óleo e água e não podem conviver em uma mesma Redação. Um deles tem que cair, sumir, desaparecer, submergir, calar.
Indignação e espanto
Curioso é que o ato de pensar equivale em importância ao mesmo que cimento e tijolos representam para se tirar da prancheta de um arquiteto uma casa. Chama a atenção a este observador que nesses dois casos nem Barbeiro nem Priolli levaram os lábios ao trombone. No segundo caso é fácil de entender o motivo, uma vez que ele é funcionário da Cultura.
Mas tinha que ser assim? Estaremos diante de um imenso trololó midiático, essa coisa de defender em público seus próprios interesses e em privado fazer o que bem entender e do jeito que melhor lhes convier?
E, então, ficamos sabendo que o crime de pensar pode ser letal se não altamente contagioso: a psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida do jornal O Estado de S. Paulo depois de ter escrito, no sábado (2/10), artigo sobre a "desqualificação" dos votos dos pobres. Sintomaticamente, recebeu como título duas palavras e reticências: "Dois pesos...". Mas foi sua possível continuação – ... duas medidas – que levantou ondas e ondas na internet. Todas elas mesclando indignação e espanto por ver como é comum que nas casas dos abastados ferreiros os espetos continuem teimando em ser de pau.
140 toques
A explicação oficial do jornal paulista é que a colunista vinha de há muito enveredando por outros assuntos em sua coluna, que não os da psicanálise. Ora essa, pergunto a minha camisa sem botões: de qual tipo de imprensa estamos falando, quando se enquadra de forma muito natural o campo de expressão de um colunista? Então, na condição de psicanalista, é-lhe vedado abordar política? Tratar de política é campo de algum especialista somente – aqueles que portam carteirinha partidária – ou não se configura o tipo de tema que diz respeito ao interesse de todos nós cidadãos?
Sigamos em frente, do contrário este artigo corre risco de ficar inconcluso. Pois bem, Maria Rita, em sua elegância habitual e refinamento intelectual, afixou em entrevista ao Portal Terra na quinta-feira (7/10), este punhado de palavras sobre sua derrubada do Estadão: "Fui demitida pelo jornal O Estado de S.Paulo pelo que consideraram um ‘delito’ de opinião." A partir disso minha admiração por ela só fez crescer e olha que já era bem grande.
Na semana que findou o mundo, aquele mundo amante da liberdade de expressão festejou o Premio Nobel da Paz concedido ao pensador chinês Lio Xiaobo, preso por escrever um manifesto pela liberdade de expressão na China. Alguns poucos se apressaram em homenagear Xiaobo. Um deles foi o ex-governador paulista José Serra que escreveu em seu twitter: "O ganhador do Nobel da Paz foi o professor chinês Liu Xiaobo, preso por ter publicado um manifesto em defesa da liberdade de expressão" . Assíduo no twitter, bem que ele poderia ter teclado mais 140 caracteres para dizer algo como: "Mas se ele fosse brasileiro e escrevesse num jornal paulista, Xiaobo seria demitido".
Pelo que vejo existem legiões de pessoas decididas a cometer o crime de pensar.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Opções, perguntas e respostas
Por pouco os grandes jornais, um a um, tanto em ordem unida quanto em ordem alfabética não espancaram de vez os fatos do dia para ceder lugar à "manchete das manchetes", aquela que vale 1 milhão de euros dando conta que o mundo está acabando e que sua destruição principiava por Brasília.
Washington Araújo - Observatório da Imprensa
Todo mundo sabe exatamente como começa uma briga e poucos sabem como esta termina. É o caso do artificial debate sobre liberdade de imprensa no Brasil. As sombras, o simulacro, o medo neurótico de vir a perder regalias para uns, direitos para outros, levam a situação a um acirramento de ânimos que, embora cuidadosamente feito em proveta, parece destinado a envenenar as relações governo-imprensa. A última semana foi a semana dos fatos bêbados, dos fatos não-exatamente-fatos, do irracional ocupando o espaço do racional.
Teve início na quinta-feira (23/9) com a entrevista do presidente Lula ao portal Terra. Discorreu sobre muitos assuntos e, no meio desses falou o que até mesmo a secura do ar em Brasília não impede que se perceba: a imprensa deveria assumir que tem candidato nestas eleições. O presidente não revelou nenhum segredo de segurança nacional, não matraqueou qualquer PAC-3 para os assuntos ditos midiáticos, não aventou qualquer plano para empastelar jornais e revistas, calar emissoras de tevê e coisas maquiavélicas do gênero. Lula apenas sugeriu que a imprensa "deveria assumir categoricamente" que tem candidato e partido, deixando de "vender uma neutralidade disfarçada".
E por pouco os grandes jornais, um a um, tanto em ordem unida quanto em ordem alfabética não espancaram de vez os fatos do dia para ceder lugar à "manchete das manchetes", aquela que vale 1 milhão de euros dando conta que o mundo está acabando e que sua destruição principiava por Brasília. E, então, num passe de mágica, aconteceu o até então impensável: um dos grandes jornais brasileiros decidiu seguir à risca o conselho presidencial. O jornal Estado de S.Paulo em sua edição de 25/9/2010 publicou o editorial "Mal a evitar" para dizer duas coisas: (1) que o jornal apóia José Serra para presidente da República e (2) que o jornal deplora que Lula e seu entorno escolham "os piores meios para atingir seu fim precípuo: manter-se no poder. Para isso vale tudo: alianças espúrias, corrupção dos agentes políticos, tráfico de influência, mistificação e, inclusive, o solapamento das instituições sobre as quais repousa a democracia - a começar pelo Congresso". E como ninguém chega a juízos de valor tão contundentes como estes do dia para a noite, fica desde logo claro que tal primado é nutrido pelo jornal paulista há pelo menos oito anos.
Reflexos eleitorais
Restam responder ao chamamento do presidente os jornais Folha de S.Paulo e O Globo e as revistas semanais de informação Veja, IstoÉ e Época. E, isto feito, os leitores saberão de antemão qual o perfil político-partidário dos veículos que saciam suas mentes e seus corações com grande quantidade de opiniões, informações, fatos e o filtro ideológico que utilizam para cumprir sua função de comunicação.
E não há nada de mais nisso, ao contrário, é prática corrente na vistosa imprensa estadunidense declarar seu apoio àqueles que almejam exercer a presidência de seu país. Na Europa alguns países também agem assim. Mas, no Brasil, é sempre esse jogo de claro-escuro a semear desconfianças mútuas, aquelas que saem dos veículos de comunicação, aquelas que procedem dos governos democraticamente estabelecidos. E não precisava ser assim.
Chama a atenção à última pesquisa sobre a eleição presidencial encomendado pela Folha e pela Rede Globo realizada pelo Instituto Datafolha – empresa do Grupo Folha – entre os dias 21 e 22 de setembro de 2010. Os resultados alcançados serviram como freio de arrumação (?) dos números: Dilma Rousseff (49%), Serra (28%), Marina Silva (13%). Quanto aos votos válidos ficou assim: Dilma Rousseff (54%), Serra (31%), Marina Silva (14%). A novidade foi que a distância entre a primeira colocada e os demais concorrentes à presidência encurtou em 5, 6 pontos porcentuais.
Mas, afinal, como o Datafolha chegou a esses números? Não preciso de bola de cristal para responder. Acredito que parte preponderante do resultado tem muito que ver com a intenção do Datafolha de medir os reflexos eleitorais do caso Erenice Guerra. E, para alcançar este intento, o Datafolha adicionou as seguintes perguntas ao levantamento:
– Você tomou conhecimento da saída da ex-ministra-chefe da Casa Civil Erenice Guerra do governo? Se sim, está bem informado, mais ou menos ou mal informado sobre esse caso?
– A ex-ministra-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra, pediu demissão após as denúncias de que seu filho teria beneficiado empresas junto ao governo pedindo comissão. Você acredita que o filho de Erenice Guerra

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

COMO LIDAR COM GOVERNANTES BEM AVALIADOS

Esse negócio de tomar para si a missão de oposição política – pois esta se encontra fragilizada – nada mais é que grosseira falsificação do papel da imprensa em um Estado democrático de direito. É hora de deixar as bandeiras do partido no chão e voltar à prática do bom jornalismo.
Washington Araújo -  Observatório da Imprensa.
É fato que as campanhas eleitorais, a partir do estabelecimento da democracia plena no país, vêm se profissionalizando de forma crescente. Pesquisa de opinião tem para todos os gostos. Pesquisa de opinião é registro do momento. Pesquisa de opinião quando não derruba o governo, derruba o político-alvo; e quando não derruba este derruba o instituto, fazendo seu haraquiri.
O público eleitor se acostumou a falar em pesquisa, a discutir seus resultados, a acompanhar a evolução de seus candidatos através da mídia. E também passou a desconfiar dos resultados sempre que seu candidato favorito mostrou "anemia numérica" ou, então, quando outros institutos concorrentes apresentaram números diferentes.
É fato também que pesquisas de opinião exercem influência na escolha dos eleitores. Principalmente entre o contingente dos indecisos. É que existe a possibilidade – muito real – de boa parte dos indecisos não apostar em candidatos perdedores, aquiescendo assim à pressão psicológica do "querer ganhar" e não "perder". Outro fator de não menos importância é que resultados de pesquisas eleitorais têm efeito direto sobre a militância: pode mobilizar ou desmobilizar esforços em favor ou em detrimento das candidaturas.
Avaliação dos presidentes
As pesquisas de opinião vieram para ficar e podemos elaborar algo como "pensar em política é pensar em pesquisa". Pois bem, aproveitando o atual período de 25 anos ininterruptos de democracia no Brasil resolvi ir fundo na leitura de pesquisas realizadas para aferir a popularidade nossos governos legitimamente constituídos pós-golpe militar de 1964, que durou até 1985.
Optei pelo Instituto Datafolha por considerá-lo o mais controvertido, ao menos nestas eleições presidenciais de 2010. Acontece que o Datafolha começou a aferir a popularidade presidencial apenas a partir de 1987, e daquele ano até agosto de 2010 realizou nada menos que 129 pesquisas de opinião pública. E descobri coisas interessantes quanto ao quesito popularidade bafejando (positivamente ou não) cinco cidadãos que nas urnas, à exceção de Itamar Franco, foram sagrados presidentes do Brasil: José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva.
Considerando apenas as pesquisas do Instituto Datafolha ficamos sabendo que:
** José Sarney foi avaliado em 9 pesquisas no período de maio/1987 a março/1990. Sua melhor avaliação "Ótimo/Bom" alcançou 11% da população em pesquisa de novembro/1987 enquanto que seu pior "Ruim/Péssimo" verificou-se em setembro/1989 quando obteve 68% de impopularidade.
** Fernando Collor foi avaliado em 7 pesquisas no período de maio/1990 a setembro/1992. Sua melhor avaliação "Ótimo/Bom" alcançou 71% da população em pesquisa de março/1990, enquanto que seu pior "Ruim/Péssimo" verificou-se em setembro/1989 quando obteve 68% de impopularidade.
** Itamar Franco foi avaliado em 17 pesquisas no período de setembro/1992 a dezembro/1994. Sua melhor avaliação "Ótimo/Bom" alcançou 41% da população em pesquisa de dezembro/1994, enquanto que seu pior "Ruim/Péssimo" verificou-se em maio/1994 quando obteve 38% de impopularidade.
** Fernando Henrique Cardoso (dois mandatos) foi avaliado em 46 pesquisas no período de março/1995 a dezembro/2002. Sua melhor avaliação "Ótimo/Bom" alcançou 47% da população em pesquisa de dezembro/1996, enquanto que seu pior "Ruim/Péssimo" verificou-se em setembro/1999 quando obteve 56% de impopularidade.
** Luiz Inácio Lula da Silva (dois mandatos) foi avaliado em 50 pesquisas no período de março/2003 a agosto/2010. Sua melhor avaliação "Ótimo/Bom" alcançou 79% da população em pesquisa de agosto/2010, enquanto que seu pior "Ruim/Péssimo" verificou-se em dezembro/2005 quando obteve 29% de impopularidade.
** José Sarney (68%), Fernando Collor (68%) e Itamar Franco (38%) registraram sua mais elevada taxa de desaprovação popular ao término de seu exercício da presidência.
** Fernando Henrique Cardoso concluiu seu segundo mandato com 26% de avaliação positiva e 36% de avaliação negativa, registrado em pesquisa de dezembro de 2002.
** Luiz Inácio Lula da Silva está concluindo seu segundo mandato (23-24/8/2010) com 79% de avaliação positiva e 4% de avaliação negativa.
** Das 7 pesquisas durante a presidência de Fernando Collor o alagoano pontuou acima de 50% de avaliação positiva apenas em março/1990, quando atingiu sua melhor marca: 71%. As demais obtiveram pontuação positiva sempre inferior a 37%.
** Luiz Inácio Lula da Silva registrou popularidade positiva acima de 50% em 19 das 50 pesquisas divulgadas pelo Datafolha. De 2007 a 2010 sua popularidade tem sido regularmente acima de 50 pontos e de janeiro a agosto de 2010 é avaliado positivamente por índices sempre acima dos 70% da população brasileira.
Dilemas e desatinos.
Feitas estas considerações observo que nossa grande imprensa não sabe lidar com governantes muito bem avaliados, desses que conseguem ser bem aceitos por mais da metade da população e por longo período de tempo, de forma quase ininterrupta. É exatamente este o caso do presidente Lula. Na falta de experiência