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terça-feira, 16 de agosto de 2011

O CRIME NA FRENTE

JANIO DE FREITAS.
Não se veem debates sobre iniciativas ou propostas de melhor resguardo dos que vivem sob risco agudo.
O ASSASSINATO DA JUÍZA Patrícia Acioli bateu como um choque generalizado, e indutor da atribuição de sua ocorrência à firmeza da vítima contra a criminalidade violenta. O abalo, à parte o componente de comoção pelas circunstâncias de ser uma juíza moça e colhida sem defesa, exprimiu a força da surpresa com a escalada da criminalidade até a vingança contra a Justiça.
"É um atentado à independência do Judiciário", "Os projéteis atingiram também a dignidade de todos os brasileiros", "A democracia foi atingida no que há de mais importante em segurança para a nação, o Judiciário" - as manifestações foram sempre claras em seu sentido de reação ao inesperado.
O surpreendente nesse crime, porém, não é a convicção de vindita como causa, embora a polícia investigue também a possibilidade passional em sua origem. Surpreendente nesse crime é que seja um ato isolado. Surpreendente é que não ocorram há muito tempo, em conformidade com o nível da violência criminal no Rio e em cidades de São Paulo, os atentados a juízes que não se curvam aos seus riscos. E a promotores e procuradores que também ousam estar à altura do seu compromisso com a sociedade.
São eles uma multidão de pessoas expostas à violência dos sentenciados e comparsas. A proteção, nos casos mínimos de sua adoção, é precária já por dificuldades técnicas, e mais ainda por falta de meios para provê-la com melhor eficácia. A desproporção entre as possibilidades para um atentado e a segurança de seu pretendido alvo são assustadoras.
Em medida imprecisa, mas inegável, os que se ocupam dos processos e julgamentos criminais são também responsáveis por aquela desigualdade excessiva de condições. Não se veem debates sobre iniciativas ou propostas de melhor resguardo dos que vivem sob risco agudo. Há alguns anos, esteve em discussão a prática da audiência sem a presença física do juiz, feita por meio de TV, talvez com o réu no presídio. Os prós e os contras esvaziaram-se sem deixar rastro algum. Haveria outros recursos para preservar a identidade do juiz, mas nem por alto foram considerados. Como se os julgados em varas criminais fossem todos pacíficos.
Não há dúvida de que a magistratura do Rio e de São Paulo deve um agradecimento à criminalidade pela falta, em relação ao Judiciário, do espírito vingativo exercido entre os bandos.
O mesmo não precisam fazer inúmeros juízes em outras regiões do país. A conduta do Judiciário do Pará em processos escandalosos como o da mortandade em Eldorado do Carajás e o do assassinato da freira Dorothy Stang, entre tantos outros, é eloquente sugestão do que compromete o Judiciário, e o põe sob condenação moral, por efeito da desproteção dos incumbidos de julgamento. Com o Judiciário, é a Justiça que se torna foragida.
Se o assassinato de Patrícia Acioli sinaliza nova etapa da criminalidade urbana, é o caso de reconhecer que está à frente do Judiciário.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

DO JOSÉ AOS ZÉS

JANIO DE FREITAS.
A queda nas pesquisas converteu o programa na TV no único caminho para salvar Serra; deu-se o pior.
OS INSTITUTOS DE PESQUISA parecem disputar uma corrida, cada um ultrapassando os demais na indicação de maior vantagem de Dilma sobre Serra. Mas o pior para Serra já não está nos números. O consenso, que tem suas raízes lá atrás, combinou números com fatores passados e presentes, e os superou com uma opinião ouvida por toda parte, próxima da unanimidade: "Dilma não perde mais".
É certo que, não fossem os números, não seriam tão extremos os efeitos da má impressão deixada por Serra em sua participação no programa eleitoral. A queda dos números, porém, já viera sobrepor-se à imagem de insegurança deixada pela demora excessiva e injustificada da decisão de Serra por sua candidatura. Um período, estendido até o último instante possível, que seria de grande utilidade para negociações e articulações, produção de planos originais e propostas inovadoras. Serviu apenas para esgotar Aécio e para Serra ver a ação dos adversários.
Sensus, Ibope, Datafolha, Ibope e agora Vox Populi (com velozes 16 pontos de vantagem para Dilma) sucederam-se sem explicação mais firme pelo PSDB. A repercussão de debate ou entrevista que "não foi captada pela pesquisa" de um instituto foi captada por outro com resultado igual ou pior. As preliminares dúbias e os números da queda elevaram o programa eleitoral à condição de caminho único para o retorno de Serra aos índices promissores. Deu-se o pior.
Os programas iniciais são insuficientes para uma visão conclusiva. Podem valer como sugestão do que deve ser esperado. Não foi, porém, o que ocorreu em relação a Serra. Os comentaristas de jornal,TV e rádio emitiram verdadeiras sentenças contra o futuro da candidatura, tão mais fortes quanto menos disfarçáveis ou disfarçadas estiveram as simpatias por ela. A repercussão não profissional foi idêntica. E, entre políticos aliados de Serra, à parte o grau de empenho e sinceridade da aliança, foi ainda mais terminante. Só não se sabe se as lideranças do DEM mandaram ao comitê de Serra uma coroa, em nome do partido.
Em diferentes proporções, as pesquisas dão sinais de transferência de apoios de Serra para Dilma. A quantidade de indecisos e a dos que chegam a nem saber a quem Lula apoia é, ainda, expressiva. Nisso está o problema novo de Serra. Se disputa estivesse acirrada, aquele contingente seria uma esperança. Mas, uma vez formado, o consenso dos dotados de alguma informação propaga-se como incentivo aos indefinidos para aderir à impressão dominante. Mecanismo da opinião de massa que não é exclusivo das disputas eleitorais, é mesmo como uma regra geral.
Neutralizar essa tendência é difícil, quase sempre. Para Serra e sua equipe ainda mais. A inépcia que têm demonstrado para lidar com política e com opinião já desce até o cômico. Com o "Zé" que querem pespegar no Serra, no entanto, chamado de Serra em grande parte da propaganda, esqueceram que outro candidato é Zé mesmo, o Zé Maria do PSTU. Transbordo, de um Zé a outro, que pode ser inconsciente, mas não deixa de ser sugestivo.

domingo, 15 de agosto de 2010

SINAIS DE REVIRAVOLTA

JANIO DE FREITAS.
Resta a Serra introduzir alguma perspectiva capaz de seduzir aspirações frustradas do eleitorado.
A COINCIDÊNCIA DOS programas de propaganda eleitoral, a se iniciarem nesta semana, com a ultrapassagem de Dilma Rousseff sobre José Serra agora constatada também pelo Datafolha, oferece duas deduções.
Quanto a Dilma, mais significativa do que a conquista da liderança, cedo ainda, a propaganda de TV e rádio é a oportunidade de forçar a continuidade do seu impulso atual e, com uns poucos pontos a mais, alcançar logo a indicação de vitória no primeiro turno.
Essa condição funciona, em geral, como atrativo de votos mais numerosos e mais protetores. É o que se dá, a esta altura, com Eduardo Campos e Sérgio Cabral, com suas crescentes possibilidades de vencer em Pernambuco e no Rio no primeiro turno.
Para Serra, fica evidente que está em sua última oportunidade, ou muito perto dela, de indicar ao eleitorado o motivo de sua candidatura. Que sentido tem, afinal? O que Serra pretendeu a ponto de deixar o governo de São Paulo para lançar-se na disputa pela Presidência?
Sob o peso da aprovação popular de Lula, o próprio Serra diz que não é candidato de oposição, e de fato não se mostra como tal. Adversário da candidata do governo, também não é governista. Logo, o que lhe sobra é uma fímbria pela qual introduzisse algo novo, uma perspectiva capaz de seduzir e convencer aspirações frustradas do eleitorado.
Mas nem vislumbre de alguma ideia assim, até agora. Trata-se de uma candidatura que não se sabe o que representa nem o que pretende além de uma intenção pessoal.
As pequenas lantejoulas que revestem a candidatura de Serra, do tipo "vou duplicar o Bolsa Família" (sem ao menos explicar se em valor ou em beneficiados), ou "vou criar o Ministério da Segurança", "vou restabelecer os mutirões da saúde", e outros "vou" que não chegam a lugar algum, prestam-se a ampliar a impressão de vazio dada na improdutiva preferência de sua campanha pelos minúsculos corpo a corpo.
Ocupar-se tanto em criticar Dilma por estar "na garupa" de Lula? Serra e seus marqueteiros poderiam perceber que assim só confirmam o que é a principal bandeira de sua adversária. Façamos justiça: a candidatura de Dilma e seu êxito são produtos de Lula, como Gilberto Kassab foi de Serra, mas o PSDB e seu candidato não têm regateado facilidades e outras colaborações à candidata governista.
O horário eleitoral traz em ocasião oportuna um recurso que tanto pode ser decisivo para Dilma como para Serra. Os três minutos a mais no tempo da aliança petista não alteram a equivalência das oportunidades: em TV e em rádio, sete minutos -tempo de Serra- já são um arremedo de eternidade.
Oneroso, nesse item, é o minutinho de Marina Silva, cujo sucesso nas palestras não se reproduz em mais do que 10% dos eleitores pesquisados, mas talvez o fizesse, em boa parte, com maior tempo de TV. O horário gratuito segue a regra fundamental brasileira: mais renda concentrada em quem já a tem alta.
Para preencher o tempo até o início da nova fase de propaganda, uma boa especulação é a das causas da queda forte de Serra, quatro pontos em três semanas, e do grande ganho de Dilma, com os cinco pontos que a elevaram a 41 contra 33. O debate na Bandeirantes e as pequenas e ruins entrevistas na Globo não convencem como causa de tamanha reviravolta, até porque já insinuada, antes dos programas, em outras pesquisas.