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terça-feira, 12 de julho de 2011

Virtudes ou defeitos.
O Congresso entra em recesso daqui alguns dias e marca simbolicamente o fim da primeira fase do governo Dilma. Um período em que a presidente colecionou uma série de medidas e ações que podem ser classificadas tanto como virtudes ou como falta de coordenação e de estratégia no gerenciamento de decisões. Viveu suas crises, mostrou força em alguns momentos, fragilidade em outros e deixou na gaveta promessas de campanha.
Em vários episódios, o governo literalmente bateu cabeça. Foi um vaivém danado. Ora dizia que sim, ora que não, para depois recuar e aceitar algumas ponderações antes rejeitadas e consideradas totalmente inaceitáveis.
Foi assim no RDC (Regime Diferenciado de Contratações), aquele mecanismo encontrado para agilizar as obras da Copa e das Olimpíadas. Foi um tal de bota sigilo nos orçamentos, estica sigilo, tira e limita. No final, contudo, o governo mostrou força e aprovou o novo sistema.
O vaivém repetiu-se no caso do projeto de lei sobre acesso a informações públicas. Dilma era contra o sigilo eterno dos documentos, depois disse ser a favor. Em seguida, informou que a decisão é do Congresso e ponto final. Uma forma de dizer que continua contra. E conseguiu empurrar o tema com a barriga e deixar a votação para o segundo semestre.
A confusão na seara governamental voltou a acontecer na novela dos "restos a pagar", pagamentos pendentes de emendas parlamentares do Orçamento de 2009. Dilma disse que era contra liberar. Pressionada, bateu o pé. A seu estilo, falou grosso e encarou os aliados. Diante da ameaça de rebelião, rendeu-se à realidade e recuou. A dúvida é se irá, realmente, fazer os pagamentos. Deputados e senadores vão descobrir apenas depois de voltarem das férias.
Nas três situações citadas, a posição palaciana ou não ficou muito clara desde o início das pelejas ou então foi definida, de forma taxativa, como sendo inegociável pela equipe presidencial --mas acabou não sendo bem assim. Mudar de opinião nem sempre é algo condenável. Muitas vezes trata-se de uma virtude. Mas bater cabeça e firmar posições radicais costumam gerar desgastes desnecessários para um presidente da República que, como última instância, precisa arbitrar conflitos.
Enfim, o vaivém do governo nos três episódios consumiu tempo e capital político do Planalto. Em início de administração, não chega a ser grave. Mas não era para acontecer no governo de uma presidente que prima pela boa gerência.
O primeiro semestre antes do recesso parlamentar também foi pródigo em crises políticas para um governo tão novo. Caiu o então principal ministro de Dilma, Antonio Palocci, depois de um calvário de 23 dias. Cerca de um mês depois, em apenas cinco dias perdeu o cargo o ministro Alfredo Nascimento (Transportes), gerando mais uma crise nesta reta final antes do recesso do Legislativo. No primeiro caso, Dilma demorou a decidir o futuro do petista. No segundo, foi rápida ao traçar o destino do senador do PR.
Mas nem tudo foi crise. Dilma ganhou a batalha do salário mínimo. Em nome do ajuste fiscal, fez sua base aprovar o valor de R$ 545 contra a vontade das centrais sindicais. Depois de um início titubeante, conseguiu reverter as expectativas negativas do mercado e fez recuar os índices de inflação. Perdeu, contudo, a votação do Código Florestal, detonando sua primeira grave crise com o PMDB. Chegou a ameaçar ministros peemedebistas de demissão, para depois cair na real e buscar as pazes com o partido de seu vice-presidente, Michel Temer.
A relação de Dilma com seus aliados, por sinal, foi marcada por turbulências durante todo o primeiro semestre. O principal motivo foi a resistência da presidente em aceitar pressões de parlamentares governistas por nomeações para cargos federais. Acabou tendo de ceder aqui e ali. Não se pode deixar de reconhecer que Dilma, nesta guerra, trava um bom combate, só que sua base aliada não está nem aí. Quer mesmo é nomear e liberar verbas de suas emendas parlamentares.
Não por outro motivo a presidente não quis depender muito do Congresso nesta primeira fase. Desistiu da reforma da Previdência, não enviou a tributária, esta uma promessa de campanha. A pergunta que fica é como será o relacionamento entre Dilma e sua base aliada na próxima fase de seu governo? Sua disposição de receber todos os líderes aliados, nesta semana, para um coquetel de confraternização mostra que ela sentiu necessidade de distensionar a relação. Até que ponto, a conferir.

domingo, 22 de maio de 2011

QUEM VICER VERÁ . . .

Governo avalia que Palocci vai sobreviver.
Valdo Cruz, da Folha de São Paulo. 
Na semana passada, a Folha revelou que o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, multiplicou por 20 seu patrimônio em quatro anos. Entre 2006 e 2010, passou de R$ 375 mil para cerca de R$ 7,5 milhões.
A equipe do ministro não acreditava, no início, que a história renderia tanto. "Por enquanto, a avaliação dentro do governo e no Congresso é que Palocci vai sobreviver", afirma Valdo Cruz, colunista da Folha.com.
No áudio abaixo, o jornalista destaca que o político vai sair devedor de muita gente da base aliada, já que deputados e senadores estão trabalhando em seu nome no Congresso, buscando evitar uma convocação para explicar como funcionava sua empresa de consultoria.
Ouça.

terça-feira, 15 de março de 2011

AMBIGUIDADES

Por Valdo Cruz, na Folha de São Paulo.
Dilma Rousseff tem manifestado, com frequência, sua preocupação com a inflação. Seus assessores mais próximos, com gabinete no Palácio do Planalto, costumam dizer que ela não quer perder o controle sobre a inflação no seu primeiro ano de governo. Esse discurso faz sentido e estava sendo comprado pelo mercado até pouco tempo atrás. Agora, os ventos parecem mudar. Por quê? Porque analistas do mercado financeiro começam a dar maior importância para o que classificam de ambiguidade do governo Dilma.
Enquanto Dilma insiste aqui e ali que está preocupada com a inflação, seu governo emite sinais de que pode aceitar uma taxa inflacionária um pouco mais elevada neste ano para evitar um tombo na economia. Do Ministério da Fazenda, os analistas ressaltam as falas do ministro Guido Mantega de que a alta da inflação é, basicamente, mundial e não doméstica. E que os cortes no Orçamento não tiveram como alvo principal combater as pressões inflacionárias.
Do Banco Central, a turma do mercado destaca o tom da última ata do Copom (Comitê de Política Monetária). Para muita gente o BC teria sinalizado que não pretende sacrificar em demasia o crescimento econômico em 2011. Esse, por sinal, foi um dos temas da primeira reunião da atual diretoria do Banco Central com economistas do mercado financeiro. O clima do encontro não foi dos melhores.
O resultado dessa avaliação sobre a ambiguidade do governo Dilma se manifestou no relatório Focus desta semana, aquele levantamento feito pelo BC com economistas do mercado financeiro sobre previsões para o desempenho da economia brasileira. Na semana passada, o relatório havia registrado uma previsão de queda na inflação, depois de seguidas expectativas de alta. Agora, as previsões de uma inflação mais elevada voltaram a ser registradas.
Dependesse apenas do mercado, o BC deveria estar sendo mais duro no combate à inflação, subindo mais a taxa de juros. Só que, dentro do governo Dilma, há muita gente defendendo que não se leve muito em conta o que diz o tal de mercado financeiro. Há quem proponha, por exemplo, que o relatório Focus comece a captar também previsões de economistas de fora do sistema financeiro, para evitar que as previsões sobre a economia brasileira fiquem totalmente contaminadas pela visão financista.
O fato é que há, no momento, uma certa tensão no ar. Tudo indica que o Banco Central está disposto a testar um pouco mais a eficácia das tais medidas macroprudenciais, aquelas tomadas pela autoridade monetária para conter o crédito. Medidas normalmente adotadas preventivamente para evitar a formação de bolhas no mercado de crédito. Mas que também têm efeito sobre a inflação, na medida em que encarecem o crédito e desestimulam a população a se endividar.
O mercado entende que esse tipo de medida não foi totalmente testado e o BC pode estar fazendo uma aposta de risco. Se der certo, maravilha, conseguirá trazer a inflação para o centro da meta no próximo ano com baixos custos para a economia. Se der errado, o preço a ser pago para controlar a inflação será bem maior. A conferir.

sábado, 12 de março de 2011

Dilma tenta levar centrais na conversa.
Depois de bater o pé em nome do ajuste fiscal e conseguir aprovar no Congresso o salário mínimo de R$ 545, a presidente Dilma Rousseff recebeu representantes das seis centrais sindicais no Palácio do Planalto.
Segundo Valdo Cruz, colunista da Folha.com, Dilma vai "empurrando as centrais sindicais do jeito que pode, tentando levá-las na conversa, postergando ao máximo baixar outra medida pleiteada pelos sindicalistas".
As centrais queriam correção da tabela do Imposto de Renda na Fonte em 6,46%. A presidente disse que não dá para conceder mais do que 4,5%.
"E a medida, que já era para ter sido baixada, até agora não foi editada. Enquanto isso, o governo vai economizando mais um dinheirinho", diz Cruz neste podcast.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

ENCENAÇÕES E INVERSÕES DE PAPÉIS

Por Valdo Cruz, da Folha de São Paulo.
A votação do salário mínimo no Senado foi um jogo que começou com o placar final já definido. Nem a oposição, que ocupou a tribuna do Senado para defender um salário mínimo maior, queria de fato ganhar a disputa contra o governo Dilma Rousseff.
Nas conversas reservadas no espaço reservado ao cafezinho, salão contíguo ao plenário, alguns senadores tucanos e democratas chegavam a dizer que compreendiam a decisão do governo de transformar a votação do mínimo num sinal de austeridade.
Alguns criticavam, por sinal, a indexação do reajuste do mínimo ao crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), que, nas palavras de alguns, pode virar uma bomba relógio, principalmente se a economia entrar em crise.
Houve até senador da oposição que decidiu se manifestar publicamente a favor do salário de R$ 545 por conta da ameaça inflacionária que ronda a economia brasileira neste início de ano. Kátia Abreu (DEM-TO) subiu à tribuna para dizer que o mínimo mais magro é responsabilidade do ex-presidente Lula e sua gastança no ano passado, combustível para a alta de preços que forçará o Banco Central a subir os juros mais uma vez na próxima semana.
Restou ao senador Itamar Franco (PPS-MG) e aos senadores do PSOL os discursos mais aguerridos contra o governo, destacando a inversão de papéis dentro do Senado. Os que antes criticavam o discurso de que um mínimo elevado quebrava a Previdência, agora se agarram a esse argumento para defender a proposta do Palácio do Planalto petista.
Inversão de papéis bem representada pelo senador Paulo Paim (PT-RS), identificado desde sempre com aumentos reais elevados do salário mínimo, causando inclusive muita dor de cabeça ao governo Lula.
Ontem, depois de estar com a presidente Dilma, Paim se mostrou pragmático e anunciou o voto a favor do governo. Sinal dos novos tempos petistas, em que o PT adota um papel que durante o período lulista se recusava a assumir: o de colocar o controle da inflação acima de suas bandeiras.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O TROCO VIRÁ ?

Por Valdo Cruz, Lambido da Folha de São Paulo.
Brasília vive um momento diferente na política. Não diria que se trata de uma transformação total, porque ainda não é. Mas alguns novos ventos começam a soprar por aqui. A dúvida é se teremos uma troca verdadeira de estação ou apenas um ensaio. O fato é que, por conta dessa mudança de ares, o que mais se pergunta em Brasília é se o troco virá. Explico.
Dilma Rousseff decidiu enfrentar um grupo do PMDB. Basicamente aquele ligado ao líder do partido na Câmara, Henrique Eduardo Alves, e do deputado Eduardo Cunha (RJ). Não comprou briga com todos peemedebistas. Tanto que, na hora de barrar os pedidos de Alves e Cunha sobre o comando de Furnas, alojou na presidência da estatal um técnico com bom trânsito entre os peemedebistas do Senado.
Flávio Decat, o novo presidente de Furnas, foi escolha direta da presidente Dilma. Decisão tomada depois de ouvir relato de sua equipe sobre as ameaças feitas por Henrique Eduardo Alves e Eduardo Cunha, que desejavam manter influência na estatal. Quem estava na sala diz ter ouvido da presidente que os dois deputados "não mandavam no governo" e que ela iria nomear Decat e ponto final. Ainda houve uma tentativa de negociação. Dilma disse que topava adiar um pouquinho o anúncio do nome de Flávio Decat para que a turma de bombeiros entrasse em ação, mas que não recuaria de sua decisão.
Bem, decisão tomada, agora, como disse acima, a dúvida é se o troco virá. Na eleição das presidências da Câmara e do Senado tudo correu como previsto pelo governo. Mas a crise com os deputados peemedebistas ainda não havia acontecido. Agora, o governo tem pela frente a votação do salário mínimo. A equipe de Dilma vai, com certeza, trabalhar para isolar os peemedebistas descontentes e evitar uma derrota na Câmara na primeira votação importante de um projeto do novo governo.
Um aliado de Dilma acredita que o governo terá sucesso na empreitada. Ele lembra quando Antonio Carlos Magalhães, o todo poderoso senador baiano do então PFL, decidiu bater de frente com Fernando Henrique Cardoso. Na época, depois de tolerar inúmeras bravatas do baiano, FHC decidiu dar um basta, rompeu com ACM e demitiu ministros ligados a ele. O mundo na política parecia que ia cair na cabeça do tucano. Não foi o que aconteceu. Agora, lembra esse dilmista, são dois deputados que não têm nem de perto a força política de ACM. Além disso, lembra esse governista, Dilma manteve os canais azeitados com os peemedebistas do Senado.
Enfim, apostas e lances feitos, agora é esperar o Congresso voltar a funcionar normalmente para checar como se comportará a base aliada de Dilma Rousseff. Ela busca impor uma nova forma de se relacionar com os congressistas, mas ainda não se trata de uma grande reformulação no mundo da política. Tanto que, como ressaltado acima, ela enfrentou deputados, mas agradou senadores peemedebistas. Ou seja, esticou a corda, mas não a ponto de ela rebentar.

domingo, 9 de janeiro de 2011

TRAVESSURAS

Valdo Cruz, Folha de S. Paulo
O PMDB está parecendo aquele menino travesso que apronta das suas e sempre leva a fama de ser o culpado de todas as confusões da rua. É o personagem ideal para quem também comete suas estripulias, mas é mais discreto e trabalha em silêncio.
Longe de mim fazer o papel de advogado do PMDB, mas um olhar mais atento nessa guerra de cargos vai identificar outros personagens que estão passando ilesos.
A começar pelo PT. O partido da presidente Dilma Rousseff se aproveita da má fama peemedebista e vai avançando sobre o território do velho MDB, legenda que ganhou notoriedade na transição da ditadura para o regime democrático e, hoje, se tornou num ajuntamento de interesses regionais.
O fato é que os petistas seguem ocupando espaços no governo federal, com um apetite e desenvoltura ainda maiores do que nos tempos do governo Lula. E, no momento, consegue colar a pecha de fisiológico no PMDB.
A lógica dos petistas é a seguinte. Quando estão substituindo aliados por nomes do partido, estão apenas trocando dirigentes que não deram conta do recado ou tornaram seus órgãos num caos.
Em alguns casos, faz sentido, como o dos Correios. Em outros, nem um pouquinho. Faz parte da tática de ocupação do espaço alheio, guerra de poder. Mas como PMDB apanha com ou sem razão, e todos aplaudem, tudo bem.
O PMDB, pelo histórico, faz por merecer. O PT, porém, está longe de ser o santinho da vez. Apenas posa como tal para se apoderar ainda mais do aparelho estatal.
Enquanto isso, bem longe dos holofotes, outros partidos se aproveitam da guerra entre as duas principais legendas para espetar suas contas na agenda da presidente Dilma Rousseff.
Como os peemedebistas são profissionais do ramo, apanham, reclamam, mas seguem aprontando suas travessuras, Dilma terá ainda muita dor de cabeça pela frente. O jogo está apenas no começo.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O FAVORITO

Por Valdo Cruz.
Ele entrou na campanha de Dilma Rousseff por indicação do presidente Lula, se aproximou da candidata, virou seu principal interlocutor e foi o escolhido para estar a seu lado, no carro, quando foi considerada eleita presidente e se encaminhava para fazer seu pronunciamento da vitória.
Desde então, Antonio Palocci Filho é o alvo favorito de aliados e inimigos nas articulações de bastidores. Já foi considerado nome certo na Casa Civil. Hoje, há quem diga que nem no Palácio do Planalto estará.
Um assessor direto do presidente Lula não arrisca dizer o cargo que Palocci ocupará num futuro governo Dilma. Diz, porém, ter uma certeza. Seja qual for o posto, ele terá assento na reunião de coordenação do governo da primeira mulher presidente do país.
Em outras palavras, Palocci pode até vir a ocupar um cargo que não tenha sala no Palácio do Planalto, mas participará das reuniões em que Dilma irá analisar e tomar suas principais decisões de governo.
Segundo amigos, o ex-ministro da Fazenda e hoje deputado federal não se importa tanto assim com o cargo que ocupará, desde que participe das decisões centrais do futuro governo Dilma. Na avaliação desses amigos, não teria sentido Palocci ter participado das articulações com empresários e políticos, sendo a ponte entre esses setores e Dilma, assumindo compromissos, e depois ficar fora do principal grupo de poder do novo governo. Nesse caso, seria melhor nem participar e ir fazer outra coisa.
Apesar das avaliações dos amigos, Palocci gostaria de ocupar a Casa Civil ou outro cargo dentro do Palácio do Planalto. Talvez uma reformulada Secretaria Geral da Presidência. O fato é que Palocci estará no governo Dilma. Além de contar com o apoio pleno do presidente Lula, ele conquistou a confiança da presidente eleita. Nesse momento, porém, o que os amigos de Dilma e inimigos de Palocci mais dizem em Brasília é que a futura presidente não vai colocar num cargo de destaque alguém que possa lhe fazer sombra.
A conferir, porque, em momentos de montagem de novo governo, há muita especulação, disputas por espaços, intrigas e um baixo índice de informações seguras e firmes. Até porque, por enquanto, Dilma tem sido econômica nas suas conversas. O que se diz é que ela conversa mais abertamente somente com o presidente Lula sobre sua futura equipe. Apenas depois do retorno da Coreia é que ela começaria a falar mais diretamente sobre o tema com alguns interessados.
Em bloco ou de uma vez.
Dilma já disse que não faria anúncios individuais de ministros e preferia divulgar, por blocos, sua equipe ministerial. Começaria pela área econômica. Agora, porém, analisa se a melhor opção não seria deixar para divulgar toda equipe de uma só vez, em meados de dezembro. Ela confidenciou a um amigo temer gerar um clima de desânimo e paralisia no final do governo Lula com o anúncio de alguns ministros.
É que tem muita gente em Brasília nutrindo a expectativa de seguir no posto no próximo ano. Se descobrir ainda em novembro que terá suas pretensões frustradas, o candidato de si próprio perderá todo estímulo de seguir trabalhando. Quem irá penar com isso é o presidente Lula, seu criador

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

PRA PAULISTA VER

Por Valdo Cruz
O segundo debate do segundo turno teve um público alvo bem definido. Nas palavras de um dos coordenadores de Dilma Rousseff, ditas reservadamente durante o evento, a tática definida previamente estava tendo sucesso: focar no eleitorado de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, aquele que, juntamente com Minas Gerais, pode definir a eleição daqui a 15 dias.
O tucano José Serra, durante o debate, percebeu a estratégia petista e conseguiu se contrapor a ela. Mais de uma vez tentou colar na candidata adversária a pecha de ser contra São Paulo, sempre que Dilma criticava o desempenho dos governos tucanos em áreas como educação, segurança e drogas. Serra chegou a dizer que a petista mais parecia estar se candidatando ao governo de São Paulo, cuja eleição terminou no primeiro turno com vitória do PSDB.
As sacadas de Serra para se defender levaram a um certo desconforto na platéia petista. Lideranças do PT paulista corriam até os coordenadores de campanha de Dilma implorando para que ela buscasse uma f'órmula para se contrapor à reação serrista. Daí veio, em seguida, as falas de Dilma de que suas críticas não tinham como alvo o "povo paulista", mas sim os governos tucanos em São Paulo.
Como em todo debate, ao final, petistas celebraram vitória de sua tática. Tucanos, do seu lado, também cantaram vitória, festejando a experiência de Serra que teria conseguido anular os ataques da adversária.
O resultado, de fato, saberemos quando forem divulgadas as próximas pesquisas e forem analisados os dados de São Paulo, Estado onde Serra teve um desempenho melhor do que Dilma, mas no qual acredita haver espaço para crescer ainda mais, tanto que teve menos votos do que seu colega de partido Geraldo Alckmin.
AINDA SP
Não por outro motivo o presidente Lula deve passar boa parte dos últimos dias de campanha em São Paulo. Vai focar no Estado uma parecela de sua agenda oficial e de campanha. Lula, bem antes da equipe de campanha de Dilma, já havia definido que São Paulo, Minas e Paraná teriam de ser tratados como mais atenção na fase decisiva. Lula terá de redobrar seus esforços. Os tucanos, nesses três Estados, estão bem irritados com a tática presidencial de tentar derrotá-los nas disputas estaduais. O ex-governador mineiro Aécio Neves, com quem o presidente sempre teve um bom relacionamento, é um dos mais irritados. Isso pode fazer a diferença em Minas. A conferir.
MEU DELEGADO
Eleito deputado federal, o delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz passou todo o debate sentado bem próximo da equipe de coordenação de campanha de Dilma. Segundo um petista, ele está ajudando na coleta de informações para a candidata. Como sua experiência sempre esteve ligada à área de investigação, daí devem estar vindo suas contribuições.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

DORMIU NO PONTO !?

Por Valdo Cruz.
A leitura das últimas pesquisas de intenção de voto indicam que o candidato do PSDB a presidente, José Serra, pode ter dormido no ponto. Sua adversária, a petista Dilma Rousseff, já avança até em parcelas do eleitorado que não são totalmente simpáticos ao presidente Lula, como também ultrapassou o tucano na percepção do brasileiro como mais preparada para governar o país.
Esse desempenho favorável à candidatura governista indica que a tática dos tucanos de desconstruir a imagem da petista foi posta em prática um pouco tarde. Demorou tanto para ganhar certa carga de intensidade que permitiu a Dilma não só absorver os votos lulistas como transmitir a imagem de que pode ser confiável a outros segmentos do eleitorado não alinhados ao presidente Lula.
Daí que, agora, insistir na tecla de que Dilma não é exatamente Lula, como já tentou a campanha tucana, pode não render votos a Serra. Pior, corre o risco de aumentar ainda mais esse grupo de eleitores não identificados com o presidente mas que já admitem votar na ex-ministra da Casa Civil.
O dado mais preocupante para a campanha tucana, porém, é o fato de o eleitorado já identificar Dilma como mais preparada do que Serra para ser presidente. Antes do início oficial da eleição presidencial, a cúpula do PSDB apostava que, com a veiculação dos programas de TV, conseguiria consolidar e reforçar a percepção do eleitorado de que seu candidato reúne mais atributos para ser o próximo presidente da República.
Até maio, o cenário eleitoral era realmente mais propício para o tucanato semear esse discurso. Naquele mês, Serra ganhava de Dilma nesse quesito de 45% a 29%. Veio a propaganda eleitoral e a petista inverteu as curvas. Passou a ser vista, segundo a última pesquisa Datafolha, por 42% do eleitorado como a mais preparada para governar o país, contra 38% do tucano. E isso enfrentando a estratégia tucana de mostrar eleitores em seu programa de TV repetindo que Serra é mais preparado do que Dilma. Até aqui, a tática do PSDB não funcionou.
Ou seja, tudo indica que o tucanato dormiu no ponto e perdeu o melhor momento para tentar desconstruir a imagem da petista. Agora, a dúvida é se ainda dá para recuperar o tempo perdido. O prazo é curto. Tudo que deveria ter funcionado desde o início do ano precisa começar a surtir efeito em cinco semanas. Apesar de difícil, a missão de Serra não pode ser classificada de impossível. Levar a eleição para um segundo turno não depende de muitos pontos nas pesquisas. Os próximos levantamentos vão trazer a resposta para a agonia dos tucanos. A conferir.

terça-feira, 6 de julho de 2010

QUE PAÍS É ESSE?

VALDO CRUZ
Difícil não se lembrar do título da canção de Renato Russo, cantada pela sua banda Legião Urbana, ao ler a coluna da competente Mônica Bergamo no último domingo. Antes de seguir em frente, digo logo que não sou nenhum comunista. Considero o capitalismo, dentro das circunstâncias atuais, o modelo mais apropriado para garantir o crescimento da economia mundial, com seu estímulo à competitividade e à lucratividade. Não é um modelo perfeito, mas funciona com todas as suas imperfeições. Entre elas, a principal, em minha opinião, é não ter eliminado ou reduzido a contento o fosso entre ricos e pobres.
Bem, voltando ao início, é exatamente por isso que, ao ler a coluna de Mônica Bergamo, bateu o mesmo questionamento de Renato Russo. Impossível, na minha opinião, ler o "Guia da Pechincha" e não perguntar "que país é esse?". Está lá impresso, no caderno Ilustrada da Folha, que foi aberta a temporada de liquidações das grifes internacionais e clientes saíram correndo para comprar casacos por R$ 28 mil, vestidos por R$ 16 mil e botas por R$ 3.000. E, segundo registra a jornalista, a turma do andar de cima, como diz Elio Gaspari, achou tudo barato, avaliou que "o preço tava ótimo!".
A coluna de Bergamo revela o mundo da pechincha das grifes internacionais, de como o andar de cima consome o seu dinheirinho. Tudo bem, eles têm direito de gastar sua grana do jeito que quiserem, ainda mais se foi ganho honestamente. Ninguém tem nada com isso. Cada um faz o que quiser com o que é seu. Não vou nem entrar em comparações sobre quantas famílias poderiam receber o benefício do Bolsa Família com o casaco de R$ 28 mil adquirido na liquidação. Gostaria, sinceramente, é que a turma que governa esse país parasse para meditar um pouquinho sobre essas cenas de realismo fantástico relatadas no "Guia da Pechincha". Principalmente os políticos, como Serra e Dilma, que, neste ano eleitoral, estão disputando a sucessão do presidente Lula.
Sabe por quê? Primeiro, porque, proporcionalmente, o rico paga muito menos imposto do que as classes média e baixa desse país chamado Brasil. A baixa não paga impostos diretamente, mas sofre com a tributação indireta embutida nos produtos que consome. A média é tributada diretamente pelo Leão da Receita Federal e não tem como fugir da mordida. Quando tenta, corre o risco de cair na famosa malha fina. Já a classe alta, a verdadeiramente rica, tem fórmulas e fórmulas de fugir da tributação. As famosas brechas tributárias, ou elisão fiscal, no jargão fiscal. Assim, essa classe deixa de contribuir como deveria para os cofres públicos.
Enquanto isso, ela desfila pelas liquidações de grifes internacionais, torrando até R$ 200 mil em casacos de pele, de couro e outras peças por cabeça. Isso mesmo, uma única pessoa torrou essa grana na liquidação. Repetindo, se o dinheiro é dela, o que eu tenho com isso? Ela tem o direito de fazer da sua grana o que bem entender. Só que, quem governa esse país, deveria dar uma olhada mais atenta sobre essa turma. Checar se realmente está pagando impostos equivalentes ao seu poder de compra. Com certeza, vão descobrir que muitos não estão. Posso estar errado, mas a pessoa que comprou uma única peça de grife internacional por R$ 35 mil pode muito bem não ter contribuído para a Receita tanto quanto um assalariado de classe média. O triste da história é que, se esse grupo pagasse na mesma proporção que os demais, o tal fosso entre ricos e pobres poderia ser menor.
Aí vem o segundo ponto que os candidatos deveriam observar. Enquanto alguns poucos têm mais do que o suficiente para torrar sua grana em grifes internacionais, a maioria sobrevive com baixos salários. Esse fosso entre classes é o retrato da nossa desigualdade de renda, que está entre as maiores do mundo. Isso mesmo, continua sendo uma das maiores do mundo. E trabalhar para reduzi-la não significa ir contra o sistema em vigor. Pelo contrário. A experiência mostra, inclusive, que a economia melhora quanto mais renda for distribuída.
O detalhe dessa questão é que ninguém se mostra muito disposto a mexer com esse pessoal da classe alta. Principalmente quando se chega ao poder e com ele começa a conviver.