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quarta-feira, 11 de julho de 2012

OCCUPY NÃO TEM IDADE

Os movimentos “Occupy” trouxeram um novo impulso e um novo estilo aos processos de ocupação, em escala internacionalo, a que a Alemanha e Berlim não ficaram indiferentes. Mas tradicionalmente esses movimentos sempre foram associados a jovens, hippies, punks, militantes de esquerda, ou sem-teto. Agora a cidade de Berlim está às voltas com um novo movimento de ocupação.  
Por Flávio Aguiar, direto de Berlim. 
Berlim tem uma longa tradição de ocupações. Essa tradição se consolidou depois da queda do muro, em 1989. Já na Berlim Ocidental havia movimentos de ocupação, dirigidos para prédios abandonados – alguns desde a guerra. Com a reunificação, o movimento se estendeu para a antiga parte oriental.
O caso mais famoso dessas ocupações é o do prédio conhecido como Tacheles, em ruínas, tomado por artistas e seus ateliês, além de bares em março de 1990. Retomado em parte por uma empresa que comprou a área, uma parte dele continua ocupada, e o destino do prédio ainda é incerto.
Os movimentos “Occupy” trouxeram um novo impulso e um novo estilo aos processos de ocupação, em escala internacionalo, a que a Alemanha e Berlim não ficaram indiferentes. Mas tradicionalmente esses movimentos sempre foram associados a jovens, hippies, punks, militantes de esquerda, ou sem-teto.
Agora a cidade de Berlim está às voltas com um novo movimento de ocupação.
O objeto da ocupação é um prédio na antiga parte oriental da cidade, no bairro de Pankow, perto de um conjunto de residências onde moravam altas autoridades da Alemanha Oriental, numa rua ovalada conhecida como Majakowskiring.
O prédio em questão também teve ocupantes famosos – embora de sinistra memória: Erich Mielke e sua família, um dos chefes da temida Stasi, a polícia política da RDA. Também foi sede da própria Stasi local.
Mas os ocupantes de agora são de outra estirpe: a esmagadora maioria dos ocupantes têm mais de 70 anos – e são mulheres, em grande parte.
O objetivo da ocupação é preservar um centro de reunião para “seniores”, como se designam os idosos por aqui. Nesse centro eles e elas se reuniam para jogar cartas, dominó, outras formas de lazer, praticar ioga, fazer reuniões de interesse local, ou simplesmente para bater papo.
Acontece que a administração regional considerou cara a manutenção do prédio ( 60 mil euros por ano) e dispendiosa demais uma reforma que julga necessária, orçada em 2 milhões de euros. Então decidiu vender o prédio.
Foi a fagulha: em junho cerca de 300 freqüentadores – o caçula tem 65 anos – decidiram ocupar o prédio e resistir. Lá estão eles, nesse prédio da Stille Strasse – Rua do Sossego, ou do Silêncio – com seus colchões, dormindo no chão, fazendo revezamentos noturnos para que a administração regional não possa retomar o prédio, preparando cafés comunitários, refeições...
E chamando a atenção da cidade. Mais de 50 reportagens já foram feitas na mídia berlinense de todo tipo, além deles receberem moções de solidariedade de todo tipo, inclusive sob a forma de doações, sob a forma de frutas, alimentos, doces, e há até um restaurante local que doa refeições quentes para os “seniores – senhoras e senhores”.
A líder do movimento, Doris Syrbe, de 72 anos, garante que elas e eles vão ficar e resistir, até que uma solução seja encontrada. E sequer passa-lhe pela cabeça, pelo menos por ora, a remoção para algum outro prédio.
A mídia tem destacado que esse movimento assinala mudanças sociais importantes que estão ocorrendo na cidade. Depois de voltar a ser a capital da Alemanha, Berlim passa por um processo geral de encarecimento do custo de vida, tradicionalmente um dos mais baixos dentre as capitais européias, incluindo as do antigo leste. O preço dos aluguéis e da manutenção de imóveis tem aumentado, com a freqüência crescente de turistas, diplomatas, gente de negócios e até de estudantes. Berlim é uma das poucas cidades (com caráter de estado) na Alemanha onde o estudo superior permanece gratuito. Isso atrai estudantes de toda a Alemanha – que vêm morar nos bairros antes reservados predominantemente para imigrantes, trabalhadores e população pobre. Estes vão se deslocando para mais longe, e o preço dos aluguéis naqueles bairros começa a aumentar. Em seguida vêm os novos yuppies com seus ternos e carros caros – e condomínios fechados.
E a oportunidade da existência de prédios como o da Stille Strasse diminui.
Mas os velhinhos e as velhinhas da Stille Strasse anunciam que não vão desistir – no melhor estilo dos movimentos “occupy”, que, como se vê, não têm idade-limite.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

COMPLEXO DE VIRA-LATA

O complexo do beija-mão

Por Flavio Aguiar, na Carta Maior.
Muito se tem falado recentemente sobre o “complexo de vira-lata”, metáfora do sentimento brasileiro criada por Nelson Rodrigues, para se referir à política externa brasileira. Hoje, de maneira deselegante, o colunista da Folha Sergio Malbergier sugeriu que a presidenta Dilma Rousseff poderia estar substituindo este complexo pelo de “poodle”, ao fazer exigências à União Européia perante a cúpula do G-20.
A esquerda acusa a direita de “complexo de vira-lata” por esta querer que o Brasil se diminua perante as potências ocidentais. A direita acusa a esquerda do mesmo, e o governo brasileiro, por achar que ambos defendem um “terceiro-mundismo mofado”. Para mim, a razão nestas acusações fica com a esquerda, não com a direita, pelo fato de que, entre ambos os argumentos, coloca-se um outro complexo, que assola a direita em matéria de política externa, que é o "complexo do beija-mão".
O complexo do beija-mão é algo que assola a vida brasileira desde os tempos coloniais, e que consiste em pensar que o que se consegue na vida não se deve aos próprios méritos, mas sim ao favor dos poderosos. É um capítulo interessante da ideologia do favor, que tanto governou e nos governa ainda.
Para esse complexo, é um absurdo o Brasil se mostrar ostensivamente independente das potências ocidentais, a ponto de criticar algumas delas em público, como no caso do G-20, em que a presidenta Dilma vai cobrar medidas mais duradouras e anti-recessivas da bancada européia. É também absurdo o Brasil não se alinhar costumeiramente aos Estados Unidos. Por quê? Porque assim perderemos o beneplácito dos poderosos, e não teremos as vantagens comerciais que poderíamos ter. Como se o mundo comercial de hoje fosse regido por esses favores do beija cá dá lá.
Mas não só isso. Devemos adular também os pequenos emergentes. Para esse complexo, o Brasil errou redondamente ao não se alinhar ao neogoverno da Líbia, porque agora, nas prebendas que serão distribuídas como botim depois do bárbaro linchamento de Gadafi (que deveria ter sido julgado em Haia), não teremos parte alguma. Como se as potências bombardeiras deixassem algum espaço espontâneo para quem beijasse as mãos suas ou de seus apaniguados. A diplomacia brasileira – e nisso acerta – aposta em outra coisa, na multilateralidade de sua abordagem da cena internacional, tanto do ponto de vista comercial como do político.
Porque assim é o mundo contemporâneo: multilateral, não mais bi nem unipolar. É claro que existem considerações de natureza ética na política internacional. Apoiar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre uma “no-fly zone” na Líbia que vai servir na verdade para bombardear um dos lados da questão em detrimento de outro, inclusive para matar o líder desse lado em questão, não é ético. Além disso, não é pragmático: o Brasil perderia o perfil que vem laboriosamente construindo num mundo multi-lateral que inclui, além do Ocidente em crise monetária, fiscal, econômica e política, os BRICS, o G-20, a América Latina, a África subsaariana, o Oriente Médio, para dizer o mínimo e o máximo.
Tudo isso remonta a dizer que o mundo íntimo da nossa direita é completamente anacrônico. Ele não consegue visualizar a estatura que o Brasil atingiu na cena internacional. Também não consegue visualizar a própria cena internacional, que é bem mais complexa do que um jogo de mocinho e bandido ou de gato e rato.
Uma última observação. Toda a ironia tem dois gumes, a gente sabe. É bom lembrar que na época em que Nelson Rodrigues criou a metáfora do “complexo de vira-lata” o modelo ideal de cachorro era o pastor alemão, de triste memória (o modelo ideal, não o cachorro que, deixado a seu instinto, é de índole boa e pacífica).

domingo, 10 de abril de 2011

FUKUSHIMA E A INFOMAÇÃO

Décadas atrás, quando houve a catástrofe de Chernobyl, houve quem atribuísse as falhas técnicas e humanas, e a tentativa inicial de bloquear informações a algo como a "ineficiência" própria do regime comunista. A história recente do Japão mostra que isso também pode se dever à "eficiência" do regime capitalista.
Flávio Aguiar, na Carta Maior
Um caso recorrente na história do Japão (não tão recente) é a falta de credibilidade nas informações depois de desastres envolvendo responsabilidade por parte de grandes empresas.
O caso mais dramático foi o da baía de Minamata, onde a companhia química Chisso despejou mercúrio durante mais de 30 anos (1932 - 1968) causando danos irreparáveis a milhares de pessoas e animais, sem que houvesse providência por parte das autoridades ou da própria empresa que não fosse a de negar a origem do problema.
O envenamento, decorrente da ingestão de peixes e outros alimentos contaminados, provocava danos no sistema nervoso central e periférico, ataxia (perda de coordenação muscular), deformações nas extremidades dos membros, além de outros problemas, e afetava, inclusive, fetos. Finalmente, a partir do fim da década de 60, diversos processos judiciais estabeleceram a responsabilidade da Chisso em pelo menos 2265 casos diretos e graves entre humanos, com 1784 óbitos. Outras 10 mil pessoas tiveram suas vidas de algum modo afetadas pelo mercúrio, o que resultou em indenizações no montante de 86 milhões de dólares. Mas não houve responsabilização das autoridades pela omissão anterior, pelo menos tanto quanto eu tenha pesquisado.
Um caso semelhante ao de Minamata foi registrado a partir de 1965 em Niigata, por responsabilidade da companhia de eletricidade Denko. Tal como no caso da Chisso, a primeira reação da empresa foi desacreditar as pesquisas e as conclusões das equipes universitárias de investigação. Mas o caso de Minamata repercutiu sobre o de Niigata - vice-versa, sendo a Denko afinal responsabilizada.
Outros dois casos conhecidos são os de Yokkaichi e de Itai-itai. No primeiro, a poluição industrial da atmosfera em níveis altíssimos , originando nuvens de smog (neblina carregada de poluentes), provocou casos especiais e agudos de asma, por responsabilidade da companhia petrolífera Yokkaichi entre 1960 e 1972, quando afinal medidas foram tomadas para deter o efeito.
Itai-itai foi o caso mais antigo. Tratava-se da mineração ao longo de um rio, o Jinzu, que remontava ao século XVI. Entretanto a intensificação do processo e o uso progressivo de cádmio ao redor da chamada Toyama Prefecture entre 1912 e 1945 provocou uma doença cujos efeitos principais eram a falência dos rins e o amolecimento dos ossos. Novamente o processo de estabelecimento de responsabilidades foi longo e demorado, embora a partir de 1946 o lançamento de cádmio no meio-ambiente fosse contido, não se registrando desde então novas ocorrências. A partir de 1955 começaram as investigações sobre as causas e os efeitos das doenças, que se prolongaram até 1968 - quando veio à luz o caso de Minamata. Muitos dos processos judiciais decorrentes se estenderam até a década de 90 do século passado, alguns até 2000.
Casos semelhantes aos de Minamata e Niigata foram observados na província de Ontario, no Canadá, entre 1960 e 1972. Já a "asma de Yakkaichi" ocorreu também na Cidade do México e em algumas grandes cidades da China.
Já em Fukushima, a tentativa inicial de diminuir a extensão possível dos efeitos gerais da radioatividade, tanto por parte das autoridades quanto por parte da companhia Tepco gerou, de novo, compreensíveis desconfianças na população. Entretanto, hoje o nível e a quantidade de informação disponível é muito maior e veloz do que há 50 anos atrás, o que abranda de um lado, mas intensifica e dramatiza, de outro, as tentativas de minimizar os possíveis efeitos das catástrofes. De qualquer modo, fica a lição, a partir da própria história japonesa, que não é a única, sobre as tentativas de se tapar a informação com a peneira.
Décadas atrás, quando houve a catástrofe de Chernobyl na Ucrânia (então parte da finada União Soviética) houve quem atribuísse tanto as falhas técnicas e humanas, e a tentativa inicial de bloquear informações a algo como a "ineficiência" própria do regime comunista. Pelos casos aqui relatados, pode-se ver muito bem que isso também pode se dever à "eficiência" do regime capitalista.

quarta-feira, 2 de março de 2011

MOACYR SCLIAR

Uma das histórias de Scliar que mais me ficou na memória foi a de alguém (um menino?) que tomava um barco na beira do Guaíba e desaparecia na cerração que se erguia do rio. Era ao mesmo tempo a resposta a um chamado e uma ironia do destino. Ela foi uma das que inaugurou a página de "Estórias brasileiras" do jornal Movimento, nos idos de 1975.
Flávio Aguiar, da Carta Maior.
Ouvi dizer que, segundo um antigo provérbio árabe, quando morre um contador de histórias elas morrem um pouco também. O provérbio não deve se referir às narrativas propriamente ditas. Tradicionais, elas permanecerão na memória coletiva; originais, essa originalidade lhes garantirá a permanência. O provérbio deve se referir ao modo como as histórias são contadas, ou mesmo lidas. Até no livro, a persona - o jeito do escritor - permanece junto com as palavras da história.
De agora em diante, será impossível, pelo menos para os da minha geração, ler uma história do Scliar sem lembrar de que ele se foi para os eternos campos do seja-onde-for. Lá ele continuará, por certo, caçando palavras e histórias, e encantando as companheiras e os companheiros das peregrinações estreladas com seu jeito ao mesmo tempo translúcido e denso de contar.
Scliar escrevia simples e maneiro, cativava e espantava ao mesmo tempo. Universal, ele universalizou o seu bairro, o Bonfim, onde suas histórias - todas, mesmo aquelas que não tinham por tema as aventuras judaicas no mundo gaúcho - começavam. As histórias do Scliar tinham seu centro na idéia do deslocamento, eram histórias centrífugas.
Uma das que mais me ficou na memória foi a de alguém (um menino?) que tomava um barco na beira do Guaíba e desaparecia na cerração que se erguia do rio. Era ao mesmo tempo a resposta a um chamado e uma ironia do destino. Que histórias essa história continha? Ela foi uma das que inaugurou a página de "Estórias brasileiras" do jornal Movimento, nos idos de 1975.
Independentemente de outras que essa história materializava, ela tinha por moldura o chamado a que o próprio Scliar respondia, naquele afã de lutar contra a certeza do arbítrio ditatorial com a incerteza das palavras balbuciadas. A esse chamado da liberdade Scliar nunca se negou.
É justo que nos lembremos disso, no momento em que seu jeito de contar fica privado de sua presença física.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Os passos, contra-passos e impasses da diplomacia norte-americana.

A política dos Estados Unidos na recente crise do mundo árabe é atravessada por pressões internas e externas, expondo contradições, tensões, choques e rivalidades. Não dá para "ler" o governo norteamericano, como ifenso a essas tensões e contradições.
Uma maneira algo ingênua, embora possa ser bem intencionada, de olhar para as atitudes dos Estados Unidos na recente crise do mundo árabe – em especial a do Egito – é ver o governo norte-americano como se ele fosse um tijolo. Ele seria uno, indivisível e teria em mãos uma espécie de guia eletrônico que, como uma flecha, ditaria o que e quando fazer em cada avanço, recuo ou estagnação.
Um olhar mais perscrutador consegue perceber as frinchas e os cisalhamentos que submetem as atitudes da e dentro da superpotência a pressões internas e externas, expondo contradições, tensões, choques e rivalidades. Isso não torna a mão de Washington mais leve na política do mundo. Mas exige bastante complexidade e sofisticação na leitura do que essa mão intenta e o que de fato faz, sendo uma coisa pior do que a outra conforme a ocasião.
Um olhar sobre a contradança que está presidindo a política norte-americana em relação ao Egito pode elucidar a complexidade da questão. Um bom ponto de partida, por sinal, é o artigo de Julian Borger em seu Global Security Blog no The Guardian, de 06/02/11, “The Egyptian Crisis: another day, another two US policies”.
Ele relata o que aconteceu no dia 05 de fevereiro, sábado, à tarde, na 47ª Conferência Mundial sobre Segurança, em Munique, na Alemanha. No começo da tarde, a Secretária de Estado Hillary Clinton deixou claro que os Estados Unidos preferiam uma “transição egípcia” liderada pelo vice-presidente recém nomeado Omar Suleiman, chefe da política durante a ditadura de Hosni Mubarak, aparentemente o novo homem forte no governo.
Mais adiante, numa intervenção através de uma tele-conferência, o diplomata aposentado Frank Wisner, que fora enviado especial de Washington ao Cairo para dar o “recado” ao presidente Mubarak de que a mudança deveria começar imediatamente, fez uma intervenção bombástica.
Sem avisar Hillary Clinton, ele a contradisse, afirmando que a permanência de Mubarak na presidência até setembro era fundamental para que a transição se desse de forma ordenada, isto é, de forma a não romper a “pax romana” da região.
A saia justa foi de tal tamanho que seguiram-se declarações do Departamento de Estado dos EUA de certa

sábado, 15 de janeiro de 2011

A BANDEIRA ERRADA E A BANDEIRA CERTA

Na falta de um verdadeiro confronto militar na tomada de Bagdá, o embate se deu sob forma simbólica, através da derrubada de uma estátua de Saddam. Um militar pendurou uma bandeira dos EUA na cabeça da estátua, logo substituída por uma bandeira iraquiana. Era uma tentativa de projetar um fundo histórico que engrandecesse aquela cena ridícula.
Na manhã do dia 09/04/2003 eu estava sentado diante da televisão, em meu apartamento no bairro do Butantã, em São Paulo. Assistia ao vivo a entrada triunfal (à tarde lá, pela diferença de horário) das tropas norte-americanas em Bagdá. À noite, assisti as reportagens sobre o evento em vários canais de TV, nacionais e estrangeiros.
No dia seguinte, 10/04/2003, publiquei um artigo nesta Carta Maior (quando minha coluna ainda tinha o nome de “Cartas Ácidas”, pois eu substituía interinamente Bernardo Kucinski, convocado a colaborar com o Presidente Lula) chamado “A bandeira errada”, sobre a diferença entre o que eu vira à tarde e o que vira à noite.
O foco do título era uma atitude precipitada, descrita como “ato falho” de um militar norte-americano. Na falta de um verdadeiro confronto militar na tomada de Bagdá, o embate se deu sob forma simbólica, através da derrubada de uma estátua de Saddam Hussein, na praça Fildos. Um dos militares – que hoje sei se chamar o Cabo Edward Chin – pendurou uma bandeira norte-americana na cabeça da estátua. Ajudada pelo vento, ela se plantou em seu alvo de cabeça para baixo, o que, na linguagem internacional, é aviso de situação difícil e de pedido de socorro. A bandeira pertencia a outro militar – Tim Maclaughlin – que a levara com a esperança algo obsessiva de hasteá-la em algum lugar para compor uma cena histórica. Talvez o que o inspirasse fosse a famosa cena (montada e remontada algumas vezes) dos soldados soviéticos hasteando a bandeira vermelha no alto do Reichstag, em Berlim, no gesto que simbolizaria o fim da Segunda Guerra Mundial. Ou ainda a foto (também construída e reconstruída) dos soldados norte-americanos hasteando a bandeira de seu país em Iwo Jima.
A bandeira ficou naquele alvo pouco mais de um minuto. O suficiente para oficiais no local e até em Washington, que assistiam ao vivo a invasão, que nem eu, perceberem o “erro” que aquilo significava. A bandeira dos EUA foi retirada, e em seu lugar colocou-se uma do Iraque, na posição certa. Seguiu-se a derrubada da estátua, proeza feita por um buldozer do Exército norte-americano, puxando uma corda atada à sua cabeça.
O feito nada tivera de heróico, ao contrário, para quem o vira ao vivo soava e ainda soa como, sobretudo, ridículo. Mas o noticiário à noite apresentava a derrubada com ares épicos de uma guerra de libertação, no Ocidente; como uma invasão de conquista, no mundo árabe, como na Al Jazzeera. No primeiro, preferia-se a versão com a bandeira iraquiana na cabeça; no segundo, a imagem da bandeira norte-americana era incluída.
No primeiro, havia uma epopéia redentora de um povo; no segundo, uma manipulação grosseira de imagens, planejada desde o começo.
Pulemos 8 anos. Ao entardecer de 09/01/2011, navegando na internet a partir de meu apartamento em Berlim, deparei com interessante artigo do colunista de assuntos internacionais Marcos Guterman, do Estadão (publicado em 06/01). Nele o colunista reporta sob o título “A gênese de um factóide de guerra”, o conteúdo de outro artigo, desta vez do norte-americano Peter Maass, publicado no New Yorker (“The Toppling. How the media inflated a minor moment in a long war”).
Peter Maass estava lá, no dia 09/04/2003, em Bagdá, na praça Firdos. Talvez eu até o tenha visto, quem sabe? Fui até o seu artigo. De modo muito interessante, ele confirma a leitura do meu modesto “A bandeira errada”, mas acrescenta dados muito significativos. A tese principal de Maass é a de desmontar a argumentação, por exemplo, da Al Jazzeera, de que aquilo fora um factóide planejado e montado a priori pelas forças norte-americanas. Não: para ele, o que houve foi um suceder de fatos independentes um do outro. A obsessão do dono da bandeira; o impulso de fazer algo que desse significado a um ato, no fundo, decepcionante, para quem esperava um rude combate que glorificasse a “ação épica” de um exército “libertador”; a leitura do erro, in loco e à distância, que significara a cobertura da cabeça de Saddam com a bandeira norte-americana; sua substituição pela bandeira iraquiana. Para o repórter norte-americano, inclusive, a passagem pela praça Fildos foram inteiramente ocasional; o comandante da coluna blindada norte-americana procurava o Hotel Palestina, onde se concentrava a mídia internacional, e na busca de informações, já que não tinha um mapa detalhado daquele bairro em Bagdá, desembocara na praça onde estava a estátua. E tudo isso vem muito bem documentado e corroborado por entrevistas, testemunhos, etc.
Só que, ao fazer isso, Peter Maass torna explicitamente claro o papel da mídia ocidental, então 99% aderente, senão sua incitadora, à campanha invasora do Iraque, e à tese da posse, por Saddam Hussein, de armas de destruição em massa, tese que se comprovou fictícia e manipulada a partir da própria mídia e do governo Bush Filho. É discutível, mesmo lendo o artigo do New Yorker, que tudo tenha sido tão completamente fruto do acaso. Fica evidente que, no meio do tumulto, tanto na mídia como no escalão militar houve quem percebesse, no instante e a posteriori, o valor simbólico daquilo. Prova disso é o relato de alguns repórteres sobre como suas reportagens foram modificadas pelos editores, back home, para dar-lhe o realce épico que nossa mídia pró-ocidente no Brasil, provinciana e canhestramente ecoou.
Oito anos depois, o Estadão, mesmo inadvertidamente, dá o chapeau à Carta Maior. Mérito pessoal? Sim, guardo um, e com muita satisfação. O de ter assistido, ao vivo, aquelas transmissões, e ter podido, dessa forma, senão fazer um juízo preciso sobre os acontecimentos, detectar a exata medida sobre como as versões construídas depois eram deveras enganosas. Eram montadas para enganar, num crime jornalisticamente doloso, do lado do Ocidente.
Mas uma coisa é certa. Ainda me aferro à convicção de que o “ato falho” do cabo Edward Chin, hasteando a bandeira que o então soldado Maclaughlin levara, tinha em si a chave para o âmago do espetáculo, tenha sido ele planejado antes ou não: projetar um fundo histórico (advindo da Segunda Guerra, seja a soviética no Reichstag ou a norte-americana em Iwo Jima) que engrandecesse aquela cena ridícula.
Ou seja, para o olhar investigativo, a bandeira errada era a bandeira certa. Inclusive por estar de cabeça para baixo.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

OS MAIS RECENTES APOIOS A SERRA

Se perguntados sobre se apóiam forças obscurantistas que querem falsear uma eleição no Brasil alegando trevas inquisitoriais disfarçadas de religião, dirão: nós?! Como assim?! Jamais?! Nós somos pela liberdade de pensamento!
Flávio Aguiar
Pode ser que ainda surja mais algum. Mas os mais recentes e notórios apoios a Serra foram três: Financial Times, The Economist, e Bento XVI.
Nenhum deles supreeende.
Uma coisa: Financial Times e The Economist são fontes obrigatórias para quem quiser estar bem informado sobre o mundo. Por quê? Porque separam informação de linha editorial, coisa que não acontece com nossa mídia oligárquica, a hoje chamada velha imprensa. Mas assim mesmo, é incrível a desinformação de ambas as publicações. Por quê?
Porque, se perguntadas sobre seu eventual apoio à ditadura brasileira, mesmo que no passado, seus editores recuarão horrorizados. Como assim? Não faríamos isso, jamais!
Se perguntados sobre se apóiam forças obscurantistas que querem falsear uma eleição no Brasil alegando trevas inquisitoriais disfarçadas de religião, dirão: nós?! Como assim?! Jamais?! Nós somos pela liberdade de pensamento!
Se confrontadas com a realidade de que estão apoiando um candidato em torno de quem se cristalizou o que de pior restou da ditadura brasileira - os porões, os sótãos, os torturadores, os inimputáveis, os que se compraziam com a dor alhea - arregalarão britanicamente os olhos: 'nós?!!! Como assim?!!! We are democrats!!!!
Se disserem a eles que apoiam um candidato que pediu que as "moças bonitas" (sic) peçam a seus pretendentes que votem nele, para terem melhores chances com elas, elevarão as londrinas sobrancelhas: Hein? Nós fizemos isso? Jamais! The Queen would be disgusted!
Se dissessem a eles que um dos jornais que apóiam Serra - um dos mais importantes - demitiu sumariamente uma colaboradora de renome nacional porque ela escreveu um artigo que contrariava a sua linha editorial no quadro da eleição, dizendo basicamente que o voto dos pobres devia valer o mesmo que o dos ricos - ambos, Economist e Financial - diriam: como assim? Aqui, nas nossas páginas, isso não aconteceria! (O que, ademais, é verdade).
Então: mesmo na imprensa internacional tradicional, muito melhor do que a nossa oligárquica e velha, reina muita desinformação, ou má fé.
Agora, quanto a Bento XVI, nada nada tenho a comentar. Deixo o julgamento com vocês. E com Deus. Ele, sua Santidade, que se vire quando perante ele comparecer.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

ARGUMENTOS PRO-DILMA, CONTRA SERRA

Há um argumento constante que paira sobre e sob a argumentação demo-tucana: é o de que Serra estaria “melhor preparado” para exercer a presidência. Sem dúvida, ele é mais preparado para privatizar tudo o que encontrar pela frente e para, como lembrou Chico Buarque, falar grosso com a Bolívia e fino com os EUA.
Flávio Aguiar, Carta Maior.
Além das campanhas de medo e terror disseminadas pelo lado mais obscuro da campanha pró-Serra, há um argumento constante que paira sobre e sob a argumentação demo-tucana: é o de que Serra estaria “melhor preparado” para exercer a presidência. Há até quem diga que ele é um “mau candidato” (concordo com esse lado da argumentação), mas que seria um “bom presidente”.
Mas o “melhor preparado” exige uma complementação: melhor preparado para fazer o quê?
Ora, é fácil contextualizar que, sem dúvida, Serra é o melhor preparado para:
1) Privatizar tudo o que encontrar pela frente. Ele foi um dos capitães das privatizações no governo FHC. Os governos do PSDB privatizaram o que puderam em SP; e um dos últimos atos de Serra no governo do estado foi a tentativa de privatizar a Nossa Caixa – felizmente barrada pela ação do governo federal, através do Banco do Brasil (que deverá ser privatizado também, no caso de uma vitória serrista).
2) Como lembrou Chico Buarque no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, Serra é o melhor preparado para falar grosso com a Bolívia, como o próprio candidato já deu prova, e fino com os Estados Unidos. Posso ajuntar: também com o FMI, de cuja tutela escapamos durante o governo Lula. Agora o FMI, em seus relatórios, recomenda que o Brasil diminua a atividade de seus bancos estatais – justamente aquela atividade que nos fez sair rápida e com poucas seqüelas da crise financeira mundial. Mas se Serra for eleito, podemos contar com a obediência firme, segura e nada gradual a essa diretriz da ortodoxia econômica. E a chave das relações internacionais brasileiras não é “falar grosso” ou “falar fino”, mas agir com serenidade e firmeza na defesa dos nossos interesses em todos os planos e com uma estratégia de multi-lateralismo e tratamento igualitário dos múltiplos atores presentes, o que tem sido a marca diferencial, em relação aos anteriores, do governo Lula e da diplomacia liderada também por Celso Amorim.
3) Mas falando em falar grosso e fino, Serra também é o melhor preparado para falar grosso com os movimentos sociais e fino com o “espinhaço do agro-business”, onde teve suas mais expressivas

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O CHOPE DO AÉCIO NEVES

O ideal da República Velha é perseguido conscientemente desde o governo anti-getulista (!!!) de FHC, que quis fazer o Brasil percorrer 80 anos em 8 – só que para o passado, ao contrário do de Juscelino.
Flávio Aguiar, Carta Maior
Aparentemente, estaria de volta a política do café com leite. São Paulo e Minas querem comandar a política nacional. Ou melhor, seus caciques.
O ideal da República Velha é perseguido conscientemente desde o governo anti-getulista (!!!) de FHC, que quis fazer o Brasil percorrer 80 anos em 8 – só que para o passado, ao contrário do de Juscelino.
Agora, estaríamos diante de um acordo de bastidor entre o cacicato paulista e o mineiro. De algum modo se organizariam as coisas para que a sucessão de Serra, em quatro ou cinco anos, ficasse a cargo de Alckmin e de Aécio.
Com sobras para aliados no Rio de Janeiro, como Gabeira. Carguinhos para PVs apressados em subir escadarias ao invés de rios preservados.
Assim como antes isso valeria o Palácio do Catete, no Rio (embora apenas Getúlio o tenha habitado), agora valeria o do Planalto. Tudo isso, é claro, apoiado na sórdida canalhice que manda apaches para as portas de milhares de igrejas em todo o país distribuírem santinhos contra Dilma.
Vão chupar o chope de Aécio de canudinho. Nada vai deter a ambição que parte do Palácio dos Bandeirantes, que é a de reduzir o Brasil a uma província do cacicato de S. Paulo – desde que o mesmo cacicato permaneça no seu comando, é claro.
Mas vai haver mais conseqüências. Os novos grotões brasileiros – a parte da classe média crente que lê Veja e acredita, ou finge ou quer acreditar, mais o restante da mídia golpista – vai cobrar o preço da vitória. Menos investimento para guindar pobres ao consumo, mais gasto público com subsídios para seu próprio consumo, sob a forma de liberação de impostos (inclusive para supérfluos). É o fim para programas sociais, pro-unis, etc.
Isso vai levar a rupturas graves no tecido social. Os DEMs depostos de seus cargos legislativos vão querer prebendas e sinecuras. E, se o pretenso acordo com Minas exigir o salamaleque de uma reforma constitucional, mudando o mandato de quatro para cinco anos, imagine-se a que negociações isso levará, como no caso da mudança que permitiu a FHC concorrer a um segundo mandato. Mas tudo isso será para beneficiar Alckmin – ou o próprio Serra se, diante da “impossibilidade” de mudar a Constituição, ele “for forçado” a concorrer a um segundo mandato.
De qualquer modo, nesse cenário, adeus Aécio. Aécio, adeus. De quebra, tchau, Marina: Marina, tchau.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

MARIA RITA

Maria Rita Kehl afrontou um dos dogmas da direita brasileira, o de que o voto dos pobres deve valer menos do que o dos ricos. Logo que eu soube do acontecido, escrevi para ela dando-lhe os parabéns, e sugerindo que ela pusesse em seu currículo algo como “colunista do Estadão de xx/xx/xxxx até 03/10/2010, demitida por delito de opinião”.
Flávio Aguiar, Carta Maior
Conheci Maria Rita Kehl em 1975, no Jornal Movimento.
Desde então fomos companheiros fiéis de várias aventuras jornalísticas.
Aprendi muito com ela.
Com seu estilo firme e claro de escrever. Com sua coragem de destoar. E de toar também. Com sua
maneira autêntica de ser, de escrever, e de ler.
Maria Rita é radical, sem ser sectária. É livre. Desde sempre e para sempre.
Por isso não me surpreendeu que sua presença no Estadão acabasse como acabou: em expulsão.
Afinal, Maria Rita afrontou um dos dogmas da direita brasileira, o de que o voto dos pobres deve, sim, valer menos do que o dos ricos e remediados. Uma pregação que a UDN, a velha ou a neo, faz desde que em 1950 o povo reconduziu Getúlio Vargas ao poder.
E logo onde Maria Rita afrontou esse dogma! No bunker da Família Mesquita!
Imagino a cena: na diretoria (ou direitaria?) alguém se deu conta do que saiu nas páginas sacrossantas. Talvez tenha sido um telefonema de fora. Talvez alguém que tomou conhecimento pela repercussão na internet.
Não importa. Sem perda de tempo, as divisões Panzer foram acionadas contra a jornalista, com ajuda da Luftwaffe. Rajadas de metralhadora caíram sobre ela, e depois vieram as explicações mal enjambradas, querendo banalizar o mal feito. “Troca de colunistas”, “coisa normal”, “acontece”... etc. Mas a peneira não tapa o holofote: esse é o conceito de liberdade de imprensa e de expressão que a direita tem, e que reserva para o país.
Que vergonha!
Logo que eu soube do acontecido, escrevi para ela dando-lhe os parabéns, e sugerindo que ela pusesse em seu currículo algo como “colunista do Estadão de xx/xx/xxxx até 03/10/2010, demitida por delito de opinião”.
Para ela, ficou tudo muito bem. Foi um tropeço. Para o jornal, a empresa, no fim de contas, um papelão. A questão pior, agora, fica para os demais colaboradores e colunistas do jornal – pelo menos para aqueles que não pretendam se pautar pela ordem unida da direita brasileira: o que fazer?
Claro que há questões de contrato, etc. Mas nessa vida tudo é passageiro, exceto o cobrador e o motorneiro.

sábado, 9 de outubro de 2010

AÉCIO NEVES

Aécio Neves está diante dessas grandes encruzilhadas que surgem na vida das pessoas. Terá de escolher entre a tradição ilustrada de seu avô, que aponta para o futuro, e a tradição obscurantista dessa Opus Dei que há muito governa a direita brasileira.
Flávio Aguiar.
Há um momento na vida das pessoas em que elas chegam as grandes encruzilhadas.
Aécio está diante de uma dessas. Para o passado e para o futuro.
No passado recente, vê a face do seu avô. Um político que acreditava na política, que era um homem da ilustração, da educação, de acreditar no Brasil enquanto Brasil. Era da elite, não elitista.
Agora, querem lhe enfiar goela abaixo esse Brasil retrógrado, elitista, sem rumo, da coligação José Serra.
Para o futuro, se for por aí, Aécio vê o Brasil subserviente, beija-mão de impérios, herdeiro do escravismo, um Brasil e um Aécio sem futuro.
Tão se futuro que G. Alckmin já anunciou: vai acompanhar Serra em toda a sua campanha nacional.
Para quê?
Ora, para neutralizar quem queira ser herdeiro da derrota ou da vitória.
No momento, Aécio periga ser herdeiro de uma manobra retrógrada. Fala-se que Dilma não conseguiu a vitória no 1o. turno devido aos evangélicos,e aos desiludidos.
Mas também se diz que a Igreja Católica, em S. Paulo, se alevantou firme contra ela, nas homilias domingueiras.
Isso quer dizer uma coisa: Opus Dei, aquela comandada por sustendadora de Geraldo Alckmin. Só alguma organização política desse calibre poderia coordenar uma campanha desde os púlpitos contra a candidata vista como do demônio (ainda mais, uma mulher!).
Pois é entre isto e aquilo que Aécio terá de escolher: entre a tradição ilustrada de seu avô, que aponta para o futuro, e a tradição obscurantista dessa Opus Dei que há muito governa a direita brasileira.
Aécio que escolha. E que se cuide.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A ELEIÇÃO VISTA DE ALTO-MAR

O Brasil deixou de ser uma sardinha – se é que foi um dia. Olhando para a política externa brasileira, dá para comparar nosso amável e complicado país a um... golfinho! Os golfinhos são seres coletivos – ao contrário dos tubarões. Nadam em equipe, defendem-se e pescam em grupo.
Flávio Aguiar
A política brasileira tem muito a ver com peixes.
Lá por volta de 195... e poucos, Getúlio declarou num de seus discursos melhores e mais inflamados: “enganam-se os que pensam que o povo nos reconduziu ao poder para comer sardinhas. Vamos comer tubarões”. Ou algo assim, estou citando de memória frase que anotei mais de 50 anos atrás.
Depois, guardei essa frase que um amigo meu, engenheiro naval, me contou, na seguinte história:
“Conversando com um oficial da marinha sobre as opções do Brasil, há 30 anos, quanto à construção de navios de toda a sorte, ele me observou que tínhamos de escolher entre produzir não só navios, mas um parque industrial próprio para isso, e depender das potências então existentes (eram tempos da guerra fria). É uma escolha: ser rabo de tubarão ou cabeça de sardinha”.
Hoje só resta um tubarão na geopolítica. Com algumas orcas (baleias assassinas) e tubarinhos ao redor. Mas tem gente – as oposições – que continua afincada na idéia de que devemos ser rabo de tubarão. Talvez barbatana, porque no rabo a gente participa do leme, e isso é demais para aquela gente. Preferimos – eles, na verdade – só usufruir as algas que as correntes nos trazem aos bigodes, para eles, é claro, não para a maioria do povo. Este que vá pescar sardinhas.
Por outro lado, o Brasil deixou de ser uma sardinha – se é que foi um dia. Olhando para a política externa brasileira, dá para comparar nosso amável e complicado país a um... golfinho!
Os golfinhos são seres coletivos – ao contrário dos tubarões. Defendem-se, pescam, em grupo. Os tubarões não os atacam – porque uns cinco golfinhos juntos conseguem dar cabo de um tubarão, ou pelo menos mandá-lo para longe, senão para as profundas. Além do mais, os golfinhos nadam em equipe, deveriam ganhar a medalha de ouro da olimpíada de nado coletivo natural, se isso houvesse. Mal comparando (com óbvia vantagem para os golfinhos, mas sem desmerece-la) é isso que a nossa diplomacia tem feito, faz muito tempo e também nos últimos anos, na orquestra sinfônica de Lula sob a batuta de Amorim.
E é isso que as nossas oposições não agüentam. Por isso hoje pensam que são orquídeas, tão belas, nas árvores do nosso Brasil, quando não passam de caranguejos (nada contra os caranguejos naturais!!!), que só andam para trás e pensam que o espelho retrovisor é o pára-brisa. Ou vai ver que têm, eles sim, cabeça de sardinha. E das enlatadas, ao molho do império de plantão.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A RAPA DO TACHO

Como seu candidato preferencial tornou-se um anti-candidato, ou permanente anti-candidato a candidato, tudo o que resta a ambos – candidato a candidato e a mídia que o anima – é procurar rapar o tacho dos eleitores indecisos ou sensíveis a denúncias vazias para tentar levar a eleição a um segundo turno.
Flávio Aguiar
Enquanto a nossa mídia convencional continua, no seu tanque de roupa suja, a avacalhar o presidente Lula e a candidata Dima Rousseff, o “think tank” do International Institute for Strategic Studies atribuiu a ele e sua política externa a maior e melhor projeção que o Brasil alcançou no mundo, nos últimos tempos.
Em seu relatório (Strategic Survey 2010: The Annual Review of World Affairs) deste ano o Instituto destaca como o mundo passa por uma reavaliação das suas ordens de poder, depois da crise começada em 2008. Nesse cenário de mudanças o peso da América Latina cresceu, e o do Brasil foi potenciado pela abertura para vários cenários propiciada pela política externa do governo Lula, solidamente ancorada nas políticas sociais internas e no prestígio que isso trouxe a ele e ao país.
Diante de tais pesos e tais medidas, não surpreende a renitente insistência da campanha das oposições de

sábado, 21 de agosto de 2010

O PAPELÃO E O PAPEL DA DIRETA

A pulverização da frente partidária de direita no Brasil pode fazer surgir um novo pensamento conservador, renovado e um pouco mais arejado do que o dessas direitas atuais, que deixaram de ser conservadoras para se tornarem amplamente reacionárias.
Flávio Aguiar
Não sabemos ainda o que exatamente vai acontecer nas eleições de outubro. Os prognósticos, para nós das esquerdas – os nós que não nos entravamos nos nossos nós – são muito bons: vitória de Dilma, seja no primeiro ou no segundo turno, estabilização de Marina da Silva, que poderá se livrar da incômoda e completamente auto-centrada política de Gabeira, Plínio mantendo sua dignidade exemplar e, quem sabe, neutralizando o poder de biruta de aeroporto da atuação de Heloisa Helena junto às extremas. Mas tudo isso são prognósticos, a serem passados a limpo pelo crivo de outubro.
Pois é, mas e as direitas? É preocupante o estado das direitas. Estão fazendo um papelão. Essa é a moldura do excelente artigo do Nassif transcrito aqui nesta Carta Maior. Concordo no todo e discordo em parte do artigo. Não se trata de saber se Nassif é neo-tucano ou sei lá que bobagem dessa ordem. Trata-se de pensar no rigoroso problema que ele levanta.
Esse problema é, no fundo, o de observar o jogo político um pouco além do tabuleiro eleitoral. Este, sem dúvida, é importante. Mas o que está acontecendo por debaixo desse tabuleiro, como as engrenagens estão se movendo e como vão atuar sobre as peças do xadrez partidário?
É óbvio que está havendo um descolamento progressivo dessas direitas que hoje atuam ostensivamente, de suas bases tradicionais. Estas estão se movendo sim não necessariamente para a esquerda, mas para cima. A política do governo Lula, combinando estabilidade financeira, monetária e fiscal com transferência de renda e de foco dos investimentos, está provocando uma ascensão social de monta no país. Isso não significará necessariamente no futuro uma sociedade “mais progressista”. Pode prevalecer, e prevalecerá em parte desse grupo ascensional, que envolve diferentes níveis de renda, o complexo da Arca de Noé: “eu e os meus nos salvamos; agora fechemos as portas, porque aqui não cabe todo mundo”.
As direitas brasileiras – ofuscadas por seus sentimentos oligárquicos no caso da mídia corporativa, ou fascinadas, no caso dos políticos, pela ameaçadora perda do poder governamental por mais alguns anos – não conseguem perceber esse movimento, nem suas possibilidades, nem o que isso representa. Por isso, provavelmente, serão duramente castigadas nas próximas eleições. A frente partidária de direita será pulverizada, se nada de novo acontecer.
Aqui tenho uma discordância com a visão de Nassif, de que isso poderia ser necessariamente ruim. É a chance de surgir, não das cinzas, mas com base naquele novo quadro social emergente, um novo pensamento conservador, renovado e um pouco mais arejado do que o dessas direitas atuais, que deixaram de ser conservadoras para se tornarem amplamente reacionárias, vivendo num mundo virtual em que só elas e seus apaniguados mais empedernidos acreditam. A expressão acabada dessa cegueira é a tentativa de transformar José Serra em “Zé”, mais a favela virtual criada por sua campanha.
Uma direita mais “moderna” – se isso é possível – começaria por se tornar mais independente em relação à mídia corporativa que é autoritária em relação aos mais fracos – o sofrido povinho e o temido povão, que são dois lados da mesma moeda dos seus pesadelos – enquanto corteja e tenta acaudilhar pela representação os mais fortes. Adotaria uma posição mais aberta ao diálogo na América Latina e no mundo inteiro, ao invés de ficar brincando de Guerra Fria à antiga, vendo mocinhos e bandidos em tudo e se pondo no papelão de novo de assumir a defesa da cavalaria americana contra os índios hostis do resto do mundo. uma direita mais moderna prestaria mais atenção no Santos de hoje do que no Uribe de ontem, e digo isso por mais que não tenha qualquer simpatianem empatia pelo primeiro e apenas completa e total antipatia pelo segundo. Trata-se isso sim de fver o que eles representam hoje, qual o seu papel.
Não sei como seria o pensamento dessa “nova direita”, pois certamente não pensaria com nem como ela. Mas seria mais interessante do que isso que aí está.
Sem essa renovação “do lado de lá” as esquerdas tenderão a aprofundar suas divisões, porque a pressão social advinda do novo e mais complexo quadro social emergente assim as pressionará. A velha direita, massacrada, terá a tentação de renovar o cortejo às soluções autoritárias ou ditatoriais. Uma parte das “novas classes” emergentes poderá sair em busca de líderes popularescos, no estilo Berlusconi.
De todo modo, momentos interessantes estarão pintando no horizonte, se Dilma ganhar do jeito que parece que pode ganhar.
Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

IMPERIALISMO A LA CARTE

A coligação tucadema inventou o imperialismo a la carte, isto é, ao gosto do freguês. Funciona mais ou menos assim: como estamos em campanha, podemos fazer do nosso discurso um móbile (que pós-moderno!), uma instalação (que vanguardismo!) ao gosto do freguês que nos ouve.
Flávio Aguiar.
A campanha tucadema acaba de inventar um novo conceito geopolítico: o imperialismo a la carte.
Lá nos tempos idos do colonialismo, ainda que os impérios tivessem conceitos próprios e os aplicassem religiosamente (o termo vem a calhar), predominava uma concepção de conquista que a gente pode chamar de “no varejo”.
Ou seja, conforme as circunstâncias, os métodos aplicados tinham uma certa maleabilidade, inclusive aquela do “dividir para vencer”. No futuro Brasil, os portugueses foram doutores nisso. Iam dividindo e conquistando as tribos, fazendo-as inimigas umas das outras, destruindo primeiro as inimigas, depois destruindo ou engolindo através da assimilação, forçada ou não, as aliadas. Também os métodos da conquista variavam de continente para continente (basta estudar o teatro dos conquistadores nas Américas e na Ásia para dar-se conta disso).
Já nos tempos imperialistas propriamente ditos, os ingleses refinaram o método. Nas Américas sua ocupação era de um tipo, na África outro, na Ásia outro. Na China chegou a haver uma espécie de condomínio imperialista, uma espécie de “joint venture” avant-la-lettre, na qual os Estados Unidos já entraram. Nas Américas os britânicos praticaram à larga a “joint-venture” com as oligarquias que açambarcaram os movimentos independentistas.
No século XX, veio novo refinamento. Os movimentos nacionalistas, as disputas ideológicas e a Guerra Fria impuseram um tipo de “satelização” – manu militari ou pata econômica, ou ambas, - dos territórios e povos-alvo. Ou seja, estes tornavam-se uma espécie de “filial” dos vitoriosos, uma casa de negócios com gerência própria, mas não autônoma: quem determinava o cardápio e quem comia o quê era uma política negociada com a matriz.
O fim da Guerra Fria trouxe de vez o imperialismo no atacado. A potência supra-dominante impõe tudo: cardápio, entrada, prato principal, sobremesa e bebidas, tudo servido goela abaixo do freguês. É que, definitivamente, nos territórios-choque, a guerra deixou de vez de ser a extensão da política, como queriam os clássicos do ramo, e passou a ser a razão de ser da política. Nos territórios onde não há ou não havia guerra armada, a política passou a ser, nesta visada, ou patada, a extensão da economia concebida como guerra, e às vezes de extermínio, sobretudo de sonhos, alternativas, desejos outros, essas quireras que de uma vez por todas os povos subalternos não devem ter ou só podem ter de maneira comedida – quer dizer, medida pelos dominantes.
Pois agora, nesse quadro dramático da cena mundial, a coligação tucadema inventou o imperialismo a la carte, isto é, ao gosto do freguês. É mais democrático do que as versões anteriores, não resta dúvida. Funciona mais ou menos assim: como estamos em campanha, podemos fazer do nosso discurso um móbile (que pós-moderno!), uma instalação (que vanguardismo!) ao gosto do freguês que nos ouve. Ah, ele tem medo das Farc e do narco-tráfico? Então tome lá doses maciças nas manchetes da mídia “sempre alerta” de narco-Farc, sempre grudado isso, como “tags”, nos perfis da candidata da situação, e se não foi ela foi seu antecessor, e se não foi ele foi o partido, e se não foi o partido foi seu pai ou seu avô, como na fábula do La Fontaine, versão Monteiro Lobato.
Ah, os nossos correligionários têm preconceito contra “bugre”? Então pau no Evo Morales, no Lugo, e vamos chamar a política brasileira de igualdade no continente de filantropia, porque disso eles também não gostam. Ah, mas o freguês acha também que civilização é comer pizza em Miami. Então acrescenta aí no menu oferto mais uma dose dupla de subserviência aos impérios dominantes, para garantir os (supostos) privilégios das migalhas que caem da mesa só para “nós”, os que sabemos o que “política” e “civilização” devem ser. E por aí vai. A política, assim concebida, se transforma numa espécie de “portal de fragmentos” (ia dizer “colcha de retalhos”, mas para os tucademos isso é coisa de atrasado), colhidos ao acaso. Porque não há responsabilidade no dizer, não há aliados a construir.
A coligação da direita brasileira chegou a virar as costas à própria oposição venezuelana quando esta veio implorar-lhes que votassem pela aceitação do seu país no Mercosul. Esses fragmentos são colhidos ao acaso –conforme o rosto do freguês que está na frente e o que diz o marketing de hoje– mas não são concebidos assim. Eles fazem parte de um discurso articulado, que prega a subserviência em política internacional diante dos impérios e a arrogância ou o ignorar diante dos mais fracos. Mas como isso assim não pode ser dito na lata, então é necessário esfrangalhar o próprio discurso nesse esmerilho de pequenas farpas acusatórias do outro lado, para ir grudando nas suas vestimentas os “tags” do medo e também da falta de respeito para com os outros.
Pois é isso que a “massa cheirosa” quer.

sábado, 10 de julho de 2010

O BRASIL É O QUE É

A caixa de ressonância tucana nos aponta, quase com um dedo duro, o destino irremediável de sermos um país “menor”. Não no tamanho, é claro. Mas no sentido de “menor de idade”, aquele ser que, “ao querer ser mais do que é”, vira um “delinqüente”.
Flávio Aguiar - Carta Maior
“O Brasil não pode querer ser mais do que é”, afirmou, em algum momento de sua carreira, o ministro Lampreia, então Ministro de Relações Exteriores do Brasil do governo FHC.
“O Brasil é o que é”, penso, quando relembro esta frase do ministro (no sentido que tem na carreira do Itamaraty) que, dentro do seu ponto de vista, prestou bons serviços ao nosso país. Disso não duvido: das boas intenções do ministro Lampreia. Acontece que, como sabemos, de infernos as boas intenções são prenhes.
“O Brasil é o que é”: em duas ocasiões, essa frase me veio à mente, com sentidos completamente diferentes.
Em 1989, fiz boca-de-urna pelo Lula, no segundo turno (no primeiro também), em Itapecerica da Serra, onde eu morava, cidade-dormitório da Grande São Paulo. Foi um desastre. As famílias pobres para quem eu chegava me repeliam de modo assustador. Especialmente, se eram famílias negras. A afirmação de Miriam Cordeiro, amplamente divulgada como se fosse informação, de que “Lula era racista”, pegara de

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O Brasil é uma pedra no sapato

O Brasil passou, de repente, a ser uma pedra no sapato da União Européia. A pergunta mais patética formulada a Dilma foi: “como e por que o Brasil deu um reajuste de 7,7% aos aposentados?”. Isso vai na contramão de tudo o que está sendo programado e feito pelos governos europeus.
FLÁVIO AGUIAR.
Dilma Rousseff veio à Europa, passou por quatro países, alguns primeiros-ministros, e encontrou o que veio buscar: reconhecimento internacional. E mais: demonstração de que é capaz de viajar sem Lula – em todos os sentidos que a palavra viajar possa ter.
Mas colheu – e curiosamente plantou, porque colheu – mais.
Em primeiro lugar, colheu alguns epítetos (desculpem o palavrão antigo, mas cheio de charme) curiosos: “Dama de Ferro” (antes expressão reservada a Margareth Thatcher), “Delfim de Lula”, por exemplo.
Em segundo lugar, colheu uma impressão do Brasil, vigente aqui no Velho Mundo, muito peculiar, neste preciso momento em que a Zona do Euro atravessa uma turbulência sem par na história recente da Europa, pelo menos desde o fim da Segunda Guerra.
O Brasil passou, de repente, a ser uma pedra no sapato da União Européia. A pergunta mais patética formulada a Dilma foi: “como, e por que o Brasil deu um reajuste de 7,7% aos aposentados?”.
Isso vem na contramão de tudo o que está sendo programado e feito por aqui. Congelamentos de salário, ou diminuição, diminuição ou limitação de pensões e aposentadorias, suspensão de subsídios destinados ao mercado da classe média e dos mais pobres, fim de auxílios como os dados às mães solteiras, investimentos no pequeno e médio negócio: essa é a amarga receita que está sendo enfiada goela abaixo dos países – leia-se: os trabalhadores e aposentados – da U. E. Conhecemos a receita, fruto tanto do estouro do endividamento programado, como aconteceu na Ásia nos anos 90 e na América Latina no começo dos 80.
Ou seja: a presença do Brasil, que já provocava admiração ao ser um dos países que melhor saiu da crise recente, agora provoca perplexidade, inveja e um certo ar de ressentimento, além de se ter tornado um “mau exemplo”. O nosso país está se saindo bem exatamente por ter feito tudo ao contrário dessas receitas que há meio século, pelo menos, senão mais, são o vade-mecum das finanças internacionais.
Duas semanas atrás o economista Frederick Jaspersen, diretor para a América Latina no Institute of International Finance, uma organização criada em 1983 por 38 grandes bancos de atuação em escala mundial logo depois da crise da dívida latino-americana, previu a vitória de Dilma Rousseff nas eleições de outubro (o otimismo/pessimismo fica por conta dele). E acrescentou que isso era péssimo, porque significava aumentos dos “gastos” públicos, política industrial centrada em estatais, pressão política sobre as agências regulatórias (ou desregulatórias, para nós). Ao contrário, disse ele, a vitória de Serra significaria endurecimento no controle fiscal (leia-se, menos investimentos sociais), ênfase no setor privado (leia-se, transferência de verbas públicas para as empresas privadas) e uma política tributária para encorajar investimentos privados (leia-se, carga tributária regressiva na renda e progressiva no consumo).
Em suma, o que os agentes das finanças internacionais temem não é apenas que um setor como o Brasil venha a permanecer fora de sua influência. É também que o exemplo comece a contaminar corações e mentes pelo mundo a fora.
O curioso é que o exemplo brasileiro não é, digamos, inteiramente original. Já na crise asiática dos anos 90, o país que melhor e mais rápido saiu dela foi a Malásia. Por quê? Porque recusou a ajuda do FMI e fez tudo ao contrário do que ele receitava: aumentou o investimento público, reforçou o mercado interno, evitou a recessão e, sobretudo, saiu de cabeça em pé. Ao contrário de Tailândia (país em que o custo político da crise e das medidas recessivas continua a se fazer sentir de modo dramático), mesmo a Coréia do Sul, Singapura e até o Japão.
Sinal de que temos muito o que aprender onde eles – os arautos das virtudes do mercado – nunca aprendem.