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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

COISAS QUE INCOMODAM ou REFLEXÕES PARA O PRÓXIMO DOMINGO

Da novela "Coisas que  Incomodam", que apresentaremos de quando em quando, em capítulos, sobressaem hoje certas práticas peculiares à mídia moderna.  Práticas execráveis, que além de incomodar, irritam.
Tome-se as edições de fim de semana  de alguns jornalões. Na manhã de domingo  vamos  à banca, pedimos  o matutino de nossa preferência e, chegando em casa,  verificamos que a primeira página é fajuta, no todo ou em parte. Em vez das notícias e das chamadas, encontramos inteiro ou pela  metade um encarte anunciando sabe-se lá o quê. A reação da   maioria dos leitores é arrancar aquele corpo estranho de um só golpe, amassá-lo e deitá-lo no lixo, mas que ele  incomoda, não há que duvidar. Além de contribuir para sujarmos um pouco mais as mãos,  no sentido  literal, esse expediente faz-nos perder tempo e,  na  maioria dos casos,  contribui para não comprarmos o que vai nele  anunciado.
Para ficar na imprensa: aos domingos, compramos também uma revista semanal. Não se discutem sua linha editorial, suas idiossincrasias,  suas  meias verdades e suas agressões. Nas democracias, liberdade de imprensa significa cada um poder adquirir o veículo que melhor lhe agrade. O incômodo   não  é esse, mas o de verificarmos que,  cada semana mais, some o espaço para   material de redação e entra  publicidade. Nada contra ela, mas se vamos atrás  de resenhas, reportagens, artigos e comentários semanais e encontramos cada vez mais propaganda, sentimo-nos lesados. Em especial quando fica evidente que determinado  material apresentado como   jornalístico exprime, no fundo, faturamento, ou seja, parcialidade para agradar o cliente, desprezando ou iludindo o leitor.
Irritados com os meios de comunicação tradicionais, vamos para a frente da televisão.  Afinal, é domingo. O volume de publicidade chega a assustar, mas,  como estamos atrás de notícias, entretenimento e serviços,  aguentamos firme.  Só que ninguém suporta, a cada intervalo na programação, ter de  acionar as teclas dos controles remotos para diminuir o áudio na hora em que entram os anúncios, e aumentá-lo  quando retorna o  programa preferido. Pode tratar-se de uma técnica de marketing, mas marketing criminoso, o fato de as emissoras subirem o volume da propaganda cada vez que ela  aparece, como se o telespectador fosse bobo  e comprasse mais em razão dos decibéis estabelecidos em torno dos  produtos anunciados. Já houve uma lei proibindo essa lambança, mas, pelo jeito,a lei  não  pegou.
A tarde vem chegando.  No  almoço com  a família recomendamos à cozinheira para não  utilizar nada do que a televisão anunciou  aos berros durante a semana inteira. Vamos assistir, primeiro, algumas partidas de futebol transmitidas da Inglaterra, Alemanha, Espanha ou Itália. É hora de a pressão sanguínea aumentar por conta de mais uma irritação.    Viagens à Europa custam   caro para as empresas,  por isso os locutores transmitem daqui  mesmo, olhando como nós nas  telinhas.  Como não quiseram ter trabalho de conhecer os jogadores ou, ao   menos, de prestar atenção  nos números colocados nas respectivas camisas, narram tudo,  menos a partida em questão. Receberam dos produtores mil e uma informações irrelevantes, que apregoam,  como quantas vezes determinado craque trocou de time, em que cidade nasceu, qual o nome de sua  mãezinha, que campeonatos anteriores conquistou ou se prefere talharim ou inhoque. Mas nomeá-lo  quando pega a bola e chuta, só de vez em quando, nos momentos em que  o câmera, milhares de quilometros adiante, resolve apresentar um plano fechado. No mais das vezes, são erros em cima de erros.
Mas tem pior.  Se chove muito, se há tumulto nas arquibancadas,  se as partidas estão atrasadas, deve o locutor preencher o tempo. Mesmo quando se acha presente no estádio onde o jogo acontece, é um desastre que nos incomoda  mais do que  outros. Determinado astro do  microfone, outro dia,  começou  a divagar e, olhando para  além dos muros do estádio,  vislumbrou  montanhas ao longe.  Como estava em Bogotá, na Colômbia, não teve dúvidas: mostrou  a imagem afirmando tratar-se da  Cordilheira dos Andes,   centenas de quilômetros afastada.  Teceu uma ode ao que não via e, momentos depois, quando um produtor lembrou  que aquela era a modesta  montanha de Santa Maria,  encheu-se da mesma  empáfia de sempre e comentou, mudando a geografia do continente:  "é aqui que a Cordilheira começa..."
Por falar em comentários, trata-se de uma das maiores lutas de egos de que temos  notícia.    Porque  muitas vezes as emissoras contratam comentaristas de muita competência, para analisar os craques e os juízes. Pois o artista do  microfone  não deixa que eles opinem.  Fala bobagens antes,  durante e depois dos colegas de profissão. Atropela-os e, não raro, demonstra não estar entendendo nada da partida. Se o comentarista dos árbitros,  geralmente um antigo juiz, afirma que não foi pênalti,  é logo  contraditado.  Aguardam a retransmissão da imagem. Quando ela vem, dando razão ao comentarista,  o astro não dá o braço a torcer: "para mim foi..."
Permanecendo à noite ainda diante da televisão, nessa curta relação das coisas que incomodam, é bom lembrar: quando criados, os canais a cabo anunciavam a transmissão de filmes sem intervalos, expurgados de publicidade. Ledo engano.  No auge das cenas de suspense, somos interrompidos pela apresentação de diabólicos liquidificadores onde se colocam mandiocas imensas e saem, segundos depois, perfeitos  bobós de camarão.  E se,   com raiva,   mudamos para a chamada TV aberta, o risco é pior. O filme anunciado, sem qualquer explicação, transforma-se num   debate de luminares  que vão  discutir  as partidas de futebol realizadas à tarde.   A gente fica pensando se assistiram jogos  realizados em Marte, tendo acabado de desembarcar de um disco voador...

terça-feira, 7 de junho de 2011

LULA PODE MAIS ATRAPALHAR DO QUE AJUDAR

Por Carlos Chagas.
Haverá desgaste para a presidente Dilma Rousseff caso a decisão de Antônio Palocci afastar-se ou ser afastado da chefia da Casa Civil coincida com a presença do ex-presidente em Brasília, esperada a partir de hoje. Primeiro porque se tornará evidente, mais do que a influência,  a interferência do antecessor nos negócios da sucessora.  Depois se vier a público que um dos clientes responsáveis pelo enriquecimento meteórico de   Palocci   tiver sido a empreiteira  cujo jatinho  ainda há dias o primeiro-companheiro utilizou para visitar as Bahamas, Cuba e Venezuela.
Numa palavra, a lambança continua, podendo refluir caso o Procurador Geral da República, amanhã, anuncie a decisão de investigar o ministro, já que na quinta-feira ele viaja para o Paraguai. Haveria, pelo menos, fora do palácio do Planalto, um argumento capaz de justificar o  afastamento.
Em paralelo,  parece  questão de dias que algum veículo de comunicação anuncie a lista dos clientes da empresa de consultoria de Palocci, assim como a relação de quanto pagaram pelas consultas. Esse  tipo de segredo não dura muito, em especial,  como disse o próprio consultor, foram informados todos os órgãos   que a lei determina. No mínimo a Secretaria de Fazenda da prefeitura de São Paulo e a Receita Federal. A concorrência é grande entre jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão, se algum blog não se antecipar.
Fica claro que não basta lancetar o tumor. Haverá que esperar a derrama do pus, apesar do mau gosto da imagem.
A VEZ DAS AMARGAS.
Começam a surgir rumores de haver caído o índice de aprovação popular da presidente  Dilma, nas pesquisas rotineiramente realizadas mas nem sempre divulgadas pelos institutos contratados pelo governo. Se verdadeira a informação, será uma pena, porque o perfil e o estilo  dela,  muito diferente do antecessor, até que vinha agradando. Mais ação e menos exposição parece uma preferência nacional , apesar de certos   conselhos matreiros que a presidente vem recebendo  nas últimas semanas. Caso seus percentuais de preferência tenham mesmo caído, tomara que Dilma não se deixe levar pela necessidade de mudar de comportamento.
EXPLODE MAS NÃO CORRE.
Já se vão mais de quarenta anos de um episódio simbólico que bem poderia servir de parâmetro, claro que figurado, para a presidente Dilma Rousseff. Presidia o país o marechal Artur da Costa e Silva, sempre pronto a viajar pelos estados e a passar os fins de semana no Rio. O avião presidencial, naqueles dias, ainda era um Electra, depois substituído por um BAC-One Eleven. A lata velha, ao aterrissar no aeroporto Santos Dumont, enfrentou  súbita rajada de vento  e,  apesar da perícia do piloto, o trem de pouso raspou nas pedras do quebra-mar, na cabeceira da pista. Ninguém se acidentou. Uma vez desligados os motores, o chefe da Segurança Presidencial, aos gritos, mandava a comitiva sair rápido  pelas escadinhas  e correr, porque a aeronave poderia explodir. Muita gente seguiu o conselho, só que  o presidente desceu e caminhou naturalmente, para horror do coronel a seu lado. Ao ouvir a exortação de “corra, marechal!”, ficou bravo e,  dedo em riste,  afirmou: “um presidente explode mas não corre!
Vale o mesmo, agora que Dilma sofre  o risco de ver seu governo explodir, depois do episódio Antônio Palocci: mesmo assim, nada de correr...
A SUBSTITUIÇÃO.
Por conta da mais do provável hipótese de a  Casa Civil ganhar um novo chefe, há dias que começaram as especulações. Mirian Belchior, Paulo Bernardo, Gilberto Carvalho e outros. É bom tomar cuidado e refrear o cavalo branco da imaginação, porque a presidente Dilma  será bem  capaz de surpreender,  buscando um nome fora da zona de cogitações. Não parece haver muita chance para quem aposta que ela procura uma “Dilma da Dilma”, ou seja, uma mulher competente, gerentona, mas brava como o diabo. Desse perfil, basta uma...