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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Por Nizan Guanaes, da Folha

Nosso lugar no pódio. . .
Escrevo emocionado do estádio de Wembley, uma das grandes catedrais do mundo, como a de Notre-Dame ou a de São Pedro. Até uma anta futebolística como eu sente o peso do lugar, que, mesmo reformado como o Maracanã, será sempre o histórico Wembley.
Tudo numa Olimpíada é carregado de significado. A glória e a derrota: entramos na historia e saímos dela em frações de segundos.
Ver Michael Phelps conquistar a 18ª medalha de ouro é estar num momento do século que não passará. E há muito de shakespeariano no choro de Rebecca Adligton, de quem a Inglaterra esperava mais ouro neste ano e que terá de remoer seus bronzes pela vida inteira. A trama era digna de Glória Perez: a feia e simpática inglesa disputando com uma italiana sensual que posou nua para a "Vogue". Só que Lady Gold virou as costas para as duas favoritas, num enredo superado apenas por Carminha e Nina.
Esporte é novela, teledramaturgia pura, reality show de alto nível.
Rezo apenas para que o Brasil --nosso povo, nossos governantes em todos os níveis, nossos empresários grandes, médios e pequenos-- entenda que agora é a nossa hora.
A mais difícil e a mais bela. Como diria Churchill, "our finest hour".
Terei 56 anos na nossa Copa e 58 na Olimpíada. Os dois eventos formam oportunidade única de o Brasil assumir o lugar que já é dele. A questão desses tempos é ser e não ser. Não basta ser, você tem de ser percebido.
O Brasil melhorou muito nos últimos três governos. Mas nossa história não pode ser contada pelos mercados e por seus interesses. Ela tem de ser contada por nós, "we, the people", como lindamente escreve a Carta americana.
Temos de cuidar de nossos interesses e de como nossos filhos, nossas empresas, nossos produtos, nossos livros e nossa arte são percebidos no mundo neste século. E este século pode ser nosso.
Digo isso não por megalomania. Não precisamos dominar o mundo, mas podemos encantá-lo. O Brasil tem tudo para ser a "soft" potência do século. O que não pode acontecer agora é a montanha parir um rato. Nestes próximos quatro anos, todos os olhos do mundo estarão voltados para nós. Não é hora de "forfait". É hora de brio, de amor próprio, de sangue nos olhos.
É preciso ter senso de história. A velhinha inglesa que se despede de nós depois de um dia de sol e de um anoitecer gelado tem isso no seu dedicado sorriso de voluntária da Olimpíada. A Inglaterra, que de história entende bem, até escalou sua rainha de 86 anos para brilhar como "Bond girl" neste mundo midiático.
A discussão sobre ser o dinheiro da Copa ou da Olimpíada mais bem usado na saúde ou na educação é uma discussão mal posta. Dinheiro mal usado é mal usado em qualquer lugar. Se usarmos esse dinheiro apenas para sediar dois eventos, sem dúvida o custo será maior que o benefício. Mas o Rio de Janeiro, o Estado e a cidade, já está usando a Olimpíada para se posicionar como marca, lugar de negócios, sociedade e destino.
Estou em Londres a convite de um dos patrocinadores da Olimpíada, a revista "Fortune", que realizou um dos muitos eventos empresariais paralelos. Tudo foi bancado com o dinheiro chinês da municipalidade de Changdun, onde ocorrerá o próximo fórum global da revista, com a presença do líder chinês e dos maiores empresários do mundo, ou seja, enquanto a bola ou o cronômetro correm, a grana corre também.
É um jogo grande, e o Brasil entrou nele por conta própria. Volto feliz do evento sob a lua cheia de Londres, e o "dean" da Harvard Business School, que participou do fórum da "Fortune", com sorriso maroto e cabeça brilhante, me diz: "It's you, guys, in four years", e todos os olhos do ônibus se dirigem a mim.
Meus amigos e inimigos, ninguém mais é uma pessoa. Agora somos todos um país. Se um de nós em Santa Catarina ou na Bahia atropelar um ciclista francês, o Brasil terá atropelado um ciclista francês. Os olhos do mundo estarão postos em nós. Cheios de curiosidade, de preconceito e de inveja.
Não é hora de amarelar nem de ser soberbo. Nem de vir com burrice, achando que se trata de jogo de futebol ou de vôlei. O que está em jogo é a evolução do país das commodities para o do valor agregado.

domingo, 8 de julho de 2012

PESSIMISMO


Pessimismo empresarial trava retomada, diz presidente do BNDES
Por Valdo Cruz/Ana Estela de Sousa Pinto, da FolhaPress.
O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, comemora o fato de não estar mais "solitário" dentro do governo na defesa de uma taxa cambial mais competitiva e insinua que o real poderia estar ainda mais desvalorizado.
Declara-se motivado com o fato de que o desafio de "salvar, revigorar, reindustrializar cadeias que perdemos" ter se tornado consenso no governo. "Fui solitário neste processo", disse em entrevista à Folha.
Ele atribui boa parte da estagnação da indústria ao fato de a moeda brasileira ter passado por "longos períodos" de valorização.
Cita especificamente os "últimos dois anos", período no qual o dólar chegou a ameaçar cair abaixo de R$ 1,50, quando diz ter vivido um "período de grande angústia". Conselheiro da presidente Dilma, Coutinho diz que o empresariado brasileiro é ciclotímico e está numa posição "muito mais pessimista" do que o potencial brasileiro justifica no momento.
Para ele, esse é um dos fatores para a demora na recuperação do crescimento. O empresariado "travou um pouco o investimento".
Ele evita fazer previsões sobre o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), mas diz que indústria começa a dar sinais de recuperação.
Classificando a era dos juros altos como uma "página virada" e nosso "último ato" a recuperação da "solidez cambial", Luciano Coutinho diz que o país tem, agora, dois desafios principais: a redução da carga tributária e a melhoria da competitividade e da produtividade.
Coutinho reconhece, porém, que a redução da carga tributária, "complexa e imperfeita", é difícil de ser implementada, por envolver disputas federativas.
No curto prazo, o governo vai atacar os "custos sistêmicos" do país, entre eles o de energia, afirma.
Responsável pelas ações do governo no financiamento de grandes projetos da economia, o presidente do BNDES aponta o setor de bens de capital como o que mais "sofreu" na indústria brasileira e anuncia que vai adotar medidas para revigorá-lo. Ressalva, porém, que serão estímulos progressivos. "É fácil, muito mais fácil destruir do que construir."
Rebatendo as críticas de que o governo Dilma está se limitando a medidas pontuais para combater a crise, Coutinho diz que são elas que permitem uma "transição" para a indústria "sobreviver" durante o período de turbulências. Reconhece, porém, que, apesar de serem "necessárias", não são "suficientes".
Segundo ele, o que o governo tem feito é dar "oxigênio" para "manter vivo" o setor de bens de capital durante o desaquecimento da economia brasileira. Diz, porém, que apesar de "um ou outro pequenininho" estar na UTI, não há problemas mais graves. "Problema eu tive em 2008 para 2009, aqui foi problema", quando a economia nacional entrou em recessão.
Leia trechos da entrevista.
Joel Silva/Folhapress
O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, no escritório do banco em São Paulo, no Itaim
O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, no escritório do banco de fomento em São Paulo, no Itaim

Folha - No momento em que o BNDES completa 60 anos, a indústria brasileira passa por um momento delicado, num quadro em que nossa economia não dá sinais de recuperação. Qual o papel do banco hoje?
LUCIANO COUTINHO - Não sei se é um momento delicado, acho que é rico em desafios positivos para o país. Tivemos mudanças qualitativas importantes na combinação câmbio e juros, uma redução real da taxa de juros, considerada alta demais diante dos bons fundamentos macroeconômicos.
Ficamos com uma herança de juros muito altos, mas isso está sendo corrigido, tirando proveito de uma janela de oportunidade que é a crise internacional.
Estamos caminhando firmemente para ter um patamar de juros condizente com nossa condição macroeconômica.
O que é isso?
O Brasil é um dos poucos países que está reduzindo sua dívida líquida sobre o PIB, tem um superávit primário, caminhando para um déficit nominal muito baixinho. Um déficit nominal de 1%.
Todos os países desenvolvidos estão com deficit de 6%, 7%, 8% do PIB. Os europeus vão suar sangue para chegar a 5%, 6%.
Temos uma condição macroeconômica privilegiada, e isso vai se refletir numa taxa de juros mais baixa. O que abre caminho para uma grande mudança qualitativa em termos de desenvolvimento do sistema financeiro privado do país e do mercado de capitais.
Então, nós precisamos ter em perspectiva que temos, e repito sempre isso, uma fronteira de investimentos de alta rentabilidade, que será um fator de propulsão do crescimento brasileiro.
A combinação dessas duas grandes condições é que nos permitirá crescer, aumentar os investimentos em relação ao PIB, e crescer a taxas mais altas do que das taxas recentes. E essas taxas poderão ser tanto mais altas quanto mais capazes sejamos de enfrentar os dois grandes desafios que restam, que são estruturais. Quais? O desafio da competitividade e da produtividade. E o da estrutura tributária. São os dois desafios de longo prazo.
Por que ainda não enfrentamos de frente esses dois desafios? A taxa de câmbio passou dos R$ 2, os juros estão mais baixos, mas a confiança do empresário segue também muito baixa.
É verdade. Estamos falando de uma circunstância de curto prazo. Precisamos lembrar aqui duas coisas. Primeiro, o empresariado é muito ciclotímico. O mercado é ciclotímico em geral.
Ele vai para a euforia quando, em 2010, tínhamos um estado de euforia que ia além da realidade. Quando as coisas, especialmente com a crise internacional, são mais difíceis, o empresariado também cai numa posição muitas vezes mais pessimista do que o potencial brasileiro.
Ele está mais pessimista do que deveria estar?
Acho que sim. Está muito afetado pela conjuntura de curto prazo de um lado. De outro, aí é uma questão específica da indústria, tivemos muitos períodos de apreciação cambial.
Primeiro, foi o Plano Real, um período de cinco anos, até que ele se desfez da forma como foi concebido e foi para o sistema flutuante. Aí tivemos um período relativamente curto de câmbio mais favorável. Depois, veio um outro período, também longo, de contínua apreciação cambial, que vem de 2004 até a crise de 2008.
Houve uma breve interrupção e o sucesso brasileiro em vencer a crise levou de novo a um ciclo de apreciação. Esse mais recente.
Até 2010 e 2011.
Esse mais recente, até o ano passado, quando a política de redução de juros e a intervenção regulatória, de regulação do mercado cambial, via impostos, via IOF, mitigou a situação.
E a crise internacional também mudou de mão. Aí você conseguiu escapar de uma trajetória de apreciação cambial.
Agora, ao longo desses períodos, a indústria veio perdendo substância. Foi perdendo lentamente mercado no exterior, porque vários concorrentes se aparelharam, tomaram market share.
O México capturou nosso market share de manufaturados no mercado americano. Houve a tremenda expansão chinesa para todos os mercados de manufaturados. Esse movimento começou a induzir a um esvaziamento das nossas cadeias produtivas, com ampliação da importação de partes, de peças.
Esse processo tornou-se mais claramente percebido por todos nos últimos dois anos.
Eu pessoalmente vivi um período de grande angústia com isso. Em muitos momentos eu fui solitário neste processo.
Foi um momento de críticas à política cambial do governo por parte do empresariado.
Eu fui solitário neste processo e acho que, depois, hoje, isso virou.
Aquele sentimento meu, que era solitário, virou um sentimento de todos. O que me deixa muito feliz, porque finalmente acho que sociedade brasileira e o empresariado brasileiro começam a compreender porque é tão relevante ter uma indústria forte e competitiva.
Porque a indústria é essencial hoje em nossa sociedade, não tanto para gerar empregos, porque a indústria cada vez mais eficiente vai para padrões de automação mais profundos, mas porque, nos serviços pré e pós-manufatura, ela cria empregos de alta qualificação.
Na pré-manufatura são serviços de engenharia, design, informatização, sistemas.
Depois, vêm os serviços pós, desde os de assistência até os de marketing, que só se cria quando você tem uma indústria.
O que o país ainda está devendo, ainda não está sendo resolvido, ficou para trás?
Ficou por conta de um conjunto de fatores. O câmbio apreciado.
Quais são os fatores?
Primeiro, a subida de uma série de custos sistêmicos, como o de energia na margem. Combinada com o aumento de carga tributária sobre os insumos em geral e sobre a energia também.
O Brasil passou de uma economia onde os custos sistêmicos eram competitivos, nos anos 70 e parte dos anos 80, para uma economia em que eles se tornaram altos.
De outro lado, tivemos um saudável processo, mais recente, do governo do presidente Lula, de aumento da taxa de crescimento do país.
Esse processo, embora aquém do que todos gostaríamos que fosse, combinado com a transição demográfica brasileira, que fez reduzir o crescimento da população economicamente ativa, produziu um aumento muito saudável do emprego formal.
Num contexto em que a economia cresce e a taxa de desemprego cai, os salários reais sobem. O que é saudável, porque melhora a distribuição de renda no país.
O que ajuda a segurar a popularidade da presidente Dilma.
Por mérito do governo. Mas não quero discutir política. O fato é que isso afeta o custo da competitividade, há uma pressão sobre os custos sistêmicos e um aumento de custo de salário unitário.
Combinados com a apreciação da taxa de câmbio, provocaram uma pinça de esmagamento da rentabilidade da indústria, da taxa de retorno na atividade industrial, reduzindo sua competitividade.
Temos também um problema de produtividade, sim, especialmente do trabalho. O Brasil precisa subir rapidamente a produtividade do trabalho, ter uma agenda de reforço da automação para preservar a capacidade competitiva da indústria.
Temos um tremendo desafio, que é salvar, revigorar, reindustrializar cadeias que perdemos, de tal maneira que a indústria brasileira volte a ter um papel relevante na dinamização da economia brasileira. Eu me sinto muito motivado no momento em que a compreensão desse desafio começa a se tornar consensual.
Dentro do governo?
Na sociedade. Que é mais importante, porque agora há uma compreensão disso.
Por que estou motivado? Porque temos até uma cobrança, que até certo ponto é injusta, de que o governo só está atuando num plano tático, de medidas, quando na verdade a grande angústia é a compreensão de que os problemas são mais estruturais e precisamos de estratégias de longo prazo.
O que posso assegurar é que o governo está plenamente consciente desses grandes desafios.
Eu não mencionei, quando falei dos custos, um outro fator, que é a subida da carga tributária, que não é um fator de um governo, vem desde os anos 70.
À medida que foi subindo, tornou-se tecnicamente mais cumulativa, complexa e imperfeita. Foi ficando qualitativamente pior, não só maior como pior. O governo tem plena consciência de todos esses problemas e desafios estruturais, quais sejam, de ganhar competitividade, produtividade, reduzir a carga tributária, os custos sistêmicos, inclusive os de energia. Porém, a complexidade desses problemas é muito maior do que o manejo diário. Obviamente é uma questão complexa.
O sr. vê possibilidades de a reforma tributária avançar no curto prazo, já está em estudo no governo?
Há uma reflexão que está sendo feita a respeito de como começar. Não quero adiantar, mas há uma reflexão permanente sobre o melhor caminho.
Agora, um pouco para responder à percepção de que nada está sendo feito, o que não é verdade, chamo a atenção primeiro para o fato de um dos grandes desafios brasileiros, que era o primeiro que o empresariado sempre colocava, os juros muito altos, esta é uma página que está sendo virada. Vamos fazer pouco disso? Não.
Segundo, a questão da chamada guerra dos portos. Uma batalha difícil foi enfrentada, outra página que está sendo virada, e que é fundamental para a questão da indústria. E a melhoria relativa da taxa de câmbio real.
Relativa, ainda?
Sim.
Ela deveria ser mais alta ainda?
Acho que a gente deve continuar com o sistema de câmbio flutuante, mas... Eu não quero dar um número, mas eu acho...
Poderia ser maior e seria melhor?
Enfim, se fosse, melhor. Isso é uma coisa que nós temos que pensar em faixa, e não em números.
Seguinte, como os problemas estruturais são difíceis, gera uma ansiedade.
Temos de transformar essa ansiedade em uma consciência e uma criação de condições para enfrentar as questões estruturais. Porque as questões estruturais não podem ser enfrentadas só por governos.
São questões que demandam uma ampla consciência da sociedade, do Congresso Nacional, para poder enfrentar reformas mais profundas.
O sr. diria que as duas mudanças essenciais são o custo da energia e a reforma tributária?
Não só o custo da energia, mas o de vários insumos importantes, incluindo energia. A questão tributária e a da produtividade do trabalho.
E o desenvolvimento do mercado de capitais?
O desenvolvimento de mercado de capitais. O BNDES tem um papel importante em, primeiro, cumprir o papel clássico de suprir créditos, de longo prazo enquanto o mercado não se estrutura. Segundo, o BNDES tem de se preparar para esses novos grandes desafios do futuro.
Quando o sr. pensa na cadeia produtiva da indústria, qual foi a etapa que mais sofreu com essa crise recente, houve em algum setor um problema grave de desindustrialização?
Se olharmos com visão de prazo mais longo, quem sofreu mais? Foram os setores de bens de capital. O Brasil chegou a ter, no início dos anos 80, uma indústria de bens de capital muito mais importante. Ela veio perdendo substância. Perdemos empresas de setores importantes na área de equipamentos de telecomunicações, de eletrônica em geral, um pouco de indústria de informática, na área de farmacêutico e química. Aí, sim, tivemos um renascimento mais recente por causa do mercado de genéricos, mas perdemos muita substância. E permitimos um esvaziamento de valor agregado dentro da cadeia automotiva, que era muito integrada e começou a ficar uma indústria só de montagem final. Num período mais recente, algumas destas tendências se agravaram.
Um dos fatores que vamos preparar, num contexto de recuperação da nossa capacidade e da nossa densidade industrial, é um processo de revisão da política do BNDES da Finame, do financiamento de máquinas e equipamentos. Queremos induzir o fabricante a ganhar mais capacidade de agregar valor no país. Sabemos que, para reverter esse processo, no que toca a equipamentos e bens de capital, teremos de criar estímulos e fazer isso de uma maneira progressiva. É fácil, muito mais fácil destruir do que construir.
Leva quanto tempo?
Não sei exatamente, depende muito do setor. Em algum setor pode levar cinco, em outro, dois.
Por que o setor de bens de capital foi o que mais sofreu na indústria?
Temos uma agenda muito difícil de reforço da estrutura de capital das empresas. Precisamos recuperar primeiro o oxigênio. Esse período de desaquecimento da economia, num período mais recente, inspira que nós nos preocupemos em manter vivo o setor para que ele possa retomar o oxigênio para enfrentar o desafio. Temos uma agenda, de médio e longo prazos, de ganhar capacidade. Na agenda de curtíssimo prazo temos que assegurar a capacidade de sobrevivência da indústria. Daí porque o governo tomou uma série de medidas, que falaram que eram "medidas pontuais, determinou compras de equipamentos". O que quero dizer é que as medidas táticas têm seu valor e seu lugar, sua necessidade, não podemos descartá-las, essas medidas táticas é que permitem uma transição para sobreviver. Elas são necessárias, o que não são é suficientes.
A principal crítica não é nem sobre as medidas de curto prazo, mas a falta das de longo prazo.
Mas elas estão sendo gestadas.
Na área tributária?
Não, a área tributária é a mais difícil. Porque qualquer mexida em sistema tributário tem impacto sobre a distribuição entre esferas de governo e regiões do país. Mudanças tributárias primeiro têm um certo grau de risco. Precisaríamos estar num grau de solidez macroeconômica tal, estamos chegando perto disso, porque qualquer mudança no sistema tributário pode produzir perdas maiores do que as previstas. Um sistema mais perfeito tem de combinar uma redução paulatina da carga tributária, porque não é realista imaginar uma redução radical da carga tributária, como muitos querem. Esse é o desafio mais difícil, precisa ser amadurecido, não é apenas uma coisa de um governo, são propostas que precisam ser amplamente costuradas. Começa na sociedade e com o sistema político, porque caso contrário a chance de sucesso é pequena.
Pensando nos gargalos industriais que o sr. citou, que são a questão tributária, a da energia, eficiência, da automação, a questão de desenvolvimento de um mercado de capitais de financiamento de longo prazo. Qual deles tem mais chance de progresso?
O que tem mais chance de andar mais rápido, com a redução da taxa de juros, é o desenvolvimento financeiro, porque o nosso é sofisticado e temos estoque de poupança preexistente, em grande parte ancorado em papéis públicos que podem migrar para papéis privados. Esta é uma reforma muito relevante e pode acontecer. O outro, que está em processo de reflexão, tem a ver com os custos de energia, mas eu não posso adiantar, mas há uma reflexão a respeito e pode resultar em algum avanço importante.
No caso do custo de energia, a presidente quer uma decisão até o final do ano, é isso?
É, existe uma reflexão em nível de governo deste tema. O tema do aumento da produtividade e da competitividade é de médio e de longo prazo, mas que precisa começar e temos de impulsioná-lo. Acredito que aqui não se constrói da noite para o dia, mas temos de começar a caminhar. Temos condições de avançar em muitas cadeias importantes. Na área de óleo e gás, continuar avançando no agronegócio e na sua base industrial. Temos capacidade de revigorar a nossa indústria automotiva e agregar valor dentro dela.
Temos condição de sustentar e avançar na capacidade competitiva de vários sistemas, nos quais o Brasil ainda tem competitividade, mas tem de preservar. Falo de celulose e papel, da siderurgia. Temos que retomar nossa reflexão a respeito do nosso complexo intensivo de informação, cadeia de fornecimento em telecomunicações, em eletrônico de consumo, nós estamos trabalhando intensamente para trazer a indústria de display, que é fundamental.
Temos condições de avançar na indústria farmacêutica, que tem hoje uma nova geração de produtos de base biotecnológica. Temos que capturar essa oportunidade. Temos que avançar em toda a indústria tanto de equipamento como de consumo para construção. É uma cadeia poderosa. Temos uma oportunidade nova, com a Vale, com a obtenção do licenciamento do projeto Serra Sul, no Pará, vai agregar mais R$ 40 bi de investimentos nos próximos anos, um outro Carajás.
Então, o Brasil tem muita oportunidade e precisamos enxergá-las. Precisamos voltar a pensar a longo prazo. Se tivesse de sintetizar tudo o que estou falando, é o seguinte: o Brasil desorganizou seu modelo de crescimento, nos anos 70, porque tinha um calcanhar de aquiles, que dependia na margem intensamente de poupança externa. Esse modelo foi desarmado pela crise da dívida no início dos anos 80, jogou o ônus da dívida em cima do setor público, desorganizou as finanças públicas, deu quase hiperinflação, tivemos de suar sangue para vencer e fizemos um longo caminho de recuperar a saúde fiscal do Estado, o último ato foi recuperar solidez cambial. E, milagrosamente, conseguimos recuperar um volume de reservas internacionais, que é um colchão superimportante.
Por que o Brasil está demorando tanto a se recuperar neste ano?
Tem uma combinação de vários fatores pontuais e outros conjunturais. Primeiro, você tem a digestão do ciclo de endividamento das famílias, que não é feito da noite para o dia. Segundo, os estoques altos em vários setores. Terceiro, o setor privado é ciclotímico, ele travou um pouco o investimento. E aqui há fatores pontuais. Um pouco de perspectivas, uma visão de mais de curto prazo do setor empresarial. E, no plano do investimento público, a reorganização do Dnit, caiu um pouquinho o investimento.
Pouquinho?
Transportes está sendo recuperado. Esses fatores pontuais vão ser recuperados. Meus dados mais recentes do Finame já apontam uma recuperação na ponta.
Para quando?
Preciso ver ainda qual o ritmo disso, mas parou de cair e está embicando para cima, a venda de bens de capital na Finame. Vamos superar isso, as medidas estão tomadas.
Quando o sr. falou em dar oxigênio para a indústria, eu imaginei logo em hospital. O sr. colocaria a indústria na UTI ou numa unidade semiintensiva?
Esse negócio de hospital já não existe mais.
Mas o sr. falou que ela precisava de oxigênio para se manter viva.
Olha, o oxigênio você obtém tornando o ar mais puro e fazendo as pessoas aprenderem a respirar bem. Com aeróbica.
Então está na fase de reabilitação, fisioterapia?
Está longe [disso], tem um ou outro pequenininho na UTI ou querendo entrar, mas não estamos tendo nenhum problema. Problema eu tive em 2008 para 2009, aquilo que foi problema.
O sr. acha que tem de reduzir superávit primário para impulsionar investimento público?
Não, precisamos manter o superávit para garantir que o BC possa seguir reduzindo juros.
arte2/Editoria de Arte/Folhapress



domingo, 22 de abril de 2012

O Brasil continua dividido pela linha de Tordesilhas, que estava em vigor quando Pedro Álvares Cabral aportou no país há 512 anos, data celebrada hoje.
Em vez de dividir terras portuguesas e espanholas, a linha de Tordesilhas do século 21 divide a riqueza a leste e o potencial a oeste.
Das 50 cidades que mais cresceram entre os censos de 2000 e 2010, 37 estão do lado espanhol de Tordesilhas.
A soja, segundo principal produto na pauta de exportações brasileiras, responde pela maior parte do crescimento. Além da sua própria colheita e beneficiamento, é o seu transporte que gera obras de infraestrutura, que atraem riquezas e trabalhadores.
"A população e a economia historicamente se concentraram numa faixa de até 100 km do litoral, o que facilitava as exportações", diz Antônio Nivaldo Hespanhol, diretor da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Unesp em Ribeirão Preto --cidade localizada a 720 km do mar.
Com dois terços do território, o lado que foi da Espanha responde hoje por cerca de um quarto do PIB do país. Essa proporção já foi menor. Em 50 anos, o Centro-Oeste aumentou sua participação no PIB de 2% para 9,6%.
O Sul do Brasil desenvolveu-se mais cedo, por estar próximo ao mar, e Porto Alegre ainda hoje seria a capital mais rica do além-Tordesilhas. O geógrafo Marcos Aguiar, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, aponta uma diversificação recente no sul do Estado, tradicionalmente agropecuário.
MAIS TECNOLOGIA.
Investimentos em portos e em tecnologia de produção são apostas de Aguiar para o crescimento da região.
O Centro-Oeste cresceu a partir da década de 1930, no governo de Getúlio Vargas, a partir da agricultura.
Com a construção de Brasília, a infraestrutura para levar a classe política até a nova capital fez surgirem novos polos urbanos.
A Embrapa também colaborou na ocupação do Centro-Oeste ao pesquisar como adaptar grãos ao cerrado.
Quando as commodities recuperaram valor no mercado internacional, a terra e o know-how estavam posicionados. "Hoje, agroindústrias como Bunge e Cargill investem diretamente na região que é a fonte dos grãos, o Centro-Oeste", afirma o professor da Unesp.
Para o futuro, ele aposta mais no desenvolvimento econômico do que no crescimento populacional do além-Tordesilhas. Grandes extensões de terra são necessárias para a agroindústria.
Embora o dinheiro do campo desenvolva a economia dos polos urbanos regionais, ainda faltam serviços atraentes a essas cidades.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

YOANI SÁNCHEZ NÃO AJUDA CUBA

Por Julia Sweig, na Folha de São Paulo.

Uma confissão: a viagem da presidente Dilma a Cuba me faz sentir “inveja de política externa”. Como historiadora e analista política que vem viajando à ilha e escrevendo sobre ela há 25 anos, já teci fantasias sobre ter a oportunidade de assistir a meu próprio presidente fazer uma viagem dessas.
Mas, nos EUA, a ideia de que eleitores e financiadores de campanhas cubano-americanos puniriam um presidente que fosse longe demais nos leva a ignorar as transformações monumentais, embora lentamente implementadas, advindas sob Raúl. Perda nossa, ganho do Brasil.
Quando primeiro decidi escrever uma coluna sobre a viagem de Dilma a Cuba, imaginei que eu falaria sobre o teor das reformas econômicas, sociais e políticas -empresas privadas, acúmulo de capital e produtividade agora são coisas patrióticas, e não contrarrevolucionárias- abrangidas no eufemismo governamental sobre “atualização do socialismo cubano”.
Mas, quando uma jornalista de uma séria agência de notícias internacional me telefonou para falar sobre a visita, ela me surpreendeu ao apresentá-la, como a imprensa brasileira vem fazendo, como um teste da política de direitos humanos de Dilma.
Após um ano na Presidência, Dilma vem lentamente, e com alguns desvios incômodos, assinalando a intenção de fazer dos direitos humanos uma parte de sua agenda nacional e internacional.
Em Cuba, porém, não são o blog de Yoani Sánchez nem a comparação autoelogiosa e historicamente falsa que ela traçou com Dilma na juventude que merecem atenção ou são medidas de avanço dos direitos humanos.
Os tuítes dela não se comparam às críticas aguçadas e profundamente focadas ao governo que podem ser encontradas, por exemplo, em nada menos que o site da Arquidiocese de Havana, www.espaciolaical.org.
Ali, uma gama inusitada e ideologicamente diversificada de vozes critica o governo, a burocracia e o Partido Comunista por sua opressão desumanizadora dos cidadãos cubanos. As críticas não medem palavras, mas sua intenção é serem construtivas, e não histriônicas -escritas no espírito de uma oposição leal, nacionalista.
A Igreja Católica não é a única outra voz ativa no país, mas sua voz, e a de numerosos outros acadêmicos, figuras culturais e jornalistas, torna obrigatório perguntar “o que significa a dissidência na Cuba de Raúl? E qual seria a melhor maneira de potências externas apoiarem o movimento em Cuba em direção a uma sociedade e economia abertas?”.
O “diálogo político” que o ministro Patriota e a presidente Dilma pretendem realizar com Cuba, além da geração de empregos (o porto de Mariel) e os primeiros passos em direção ao aumento do comércio e dos investimentos, tem muito mais chances de reforçar transformações positivas do que se poderia conseguir brincando de favorito com este ou aquele “dissidente”.
Nos EUA já tivemos mais de um século de experiência tentando e não conseguindo identificar vencedores na política interna cubana.
Se não posso ter meu presidente em Havana, permita-me a liberdade de oferecer uma sugestão não solicitada a Dilma: falar com Raúl sobre opções para a imprensa brasileira abrir sucursais em Havana em tempo para a viagem do papa Bento 16, em março.
A cobertura das transformações na ilha e das vozes que fazem parte dela só poderá ajudar a vocês e seu público, no momento em que o Brasil se abre para Cuba e Cuba se abre para o Brasil. E talvez também ajudar Washington a ver Cuba além de sua política doméstica.
*Julia Sweig é diretora do programa de América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations, autora de “Inside the Cuban Revolution” e “Cuba: What Everyone Needs to Know”, e escreveu para a ‘Folha’.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

EURO - 2.012 . . .

Espanha e Itália caem no mesmo grupo da Euro-2012; Portugal pega pedreiras.
Espanha e Itália caíram no mesmo grupo da Euro-2012, que será disputada na Polônia e Ucrânia. No sorteio realizado nesta sexta-feira, a atual campeã mundial e e a vencedora da Copa de 2006, respectivamente, ainda enfrentarão Irlanda e Croácia pelo Grupo C.
Diogo Shiraiwa/Editoria de Arte/Folhapress

No Grupo D, outros dois campeões mundiais vão se enfrentar: França e Inglaterra, que ainda terão Ucrânia e Suécia.
O Grupo A acabou sendo o mais fraco com Polônia, Grécia, Rússia e República Tcheca.
Já o Grupo B promete ser o mais disputado com Holanda, Dinamarca, Alemanha e Portugal.
A Euro vai começar no dia 8 de junho de 2012 com o jogo da Polônia contra a Grécia, em Varsóvia. A decisão será 1 de julho, em Kiev.
Os dois primeiros países de cada chave avançam para as quartas de final.
Kai Pfaffenbach/Reuters
Detalhe da bola "Tango 12" que será usada na Eurocopa da Polônia e Ucrânia
Detalhe da bola "Tango 12" que será usada na Eurocopa da Polônia e Ucrânia.

Essa é a última vez que a Eurocopa será disputada com 16 seleções. A partir de 2016, serão 24 times.
TANGO
A bola oficial da Eurocopa do ano que vem será chamada de "Tango 12".
Kai Pfaffenbach/Reuters
Zinedine Zidane (dir.) gesticula ao lado do ex-jogador holandês Marco Van Basten (esq.)
Zinedine Zidane (dir.) gesticula ao lado do ex-jogador holandês Marco Van Basten (esq.)

"Ela foi fabricada levando em conta as exigências do nosso tempo e os desejos dos jogadores. É um marco revolucionário", disse o presidente da Adidas, empresa responsável pela criação do produto, Herbert Hainer.
O nome "Tango" remete ao modelo utilizado pela primeira vez em 1978, na Copa do Mundo da Argentina, foi utilizada também no Mundial da Espanha (1982), além das Eurocopas da Itália (1980), França (1984) e Alemanha (1988).
PS.: Dinheiro pra isso tem né? Como sempre só o 'povão' é quem se ferra!

domingo, 16 de outubro de 2011

O VOO FRUSTADO

JUCA KFOURI.
O caso do avião fretado pelos clubes que só chegou após os jogos já terem terminado.
O FUTEBOL BRASILEIRO já tinha três voos famosos, históricos, escandalosamente inesquecíveis: os voos da alegria promovidos pela CBF com representantes graúdos do Poder Judiciário do Rio de Janeiro convidados para as Copas do Mundo de 1994 e 1998 e o não menos célebre voo da muamba, quando a delegação da CBF chegou ao Brasil trazendo o tetracampeonato mundial e um sem- -número de artigos que os comandantes da seleção não queriam que passassem pela alfândega. Agora, temos mais um, sem a participação da CBF, embora causado por ela: o já consagrado voo que nunca chegou.
Melhor retrato da organização do futebol brasileiro seria impossível.
Primeiramente por ter sido encomendado, pois é um absurdo que se quisesse botar para jogar atletas que tinham participado da partida contra o México, na terça-feira à noite, menos de 24 horas depois no Brasil; segundamente porque o voo chegou quando os jogos já estavam terminados, porque o avião teve de voltar para a Costa Rica por falta de autorização para sobrevoar a Colômbia.
Sem se dizer que tudo porque o Campeonato Brasileiro não para quando a seleção joga, uma dessas coisas nossas, típicas de quem faz um montão para os clubes e suas ambições.
Clubes que são dirigidos por cordeiros incapazes até de fazer um avião fretado cumprir o seu papel. Quer dizer, cordeiros na subserviência, mas verdadeiras águias para defender seus próprios interesses, que raramente são os dos torcedores.
E que não são homens o suficiente nem sequer para fazer com que a própria CBF trate de devolver seus jogadores a tempo e a hora, embora, repitamos, tenha sido um absurdo o Flamengo tentar que Ronaldinho Gaúcho enfrentasse o Palmeiras (por mais que sua ausência tenha colaborado para a perda de dois pontos obrigatórios e que devem ser postos nas contas de dona Patrícia Amorim e seu novo amor Ricardo Teixeira) e que o Botafogo quisesse que Jefferson jogasse no lugar de Renan, de resto um dos maiores responsáveis pela ótima vitória sobre o líder Corinthians.
Absurdo comparável à escalação do hiperdesgastado Neymar contra o Galo, como se no Santos ele fosse visto como Super-Homem, o que está longe de ser. Azar do Botafogo que o pegará descansado. É isso. O tempo passa, o tempo voa e o futebol brasileiro continua muito longe de uma boa.
TOSTÃO
Lógica da incerteza.
Os craques, com poucas exceções, só brilham quando atuam em equipes com ótimo conjunto.
O Botafogo venceu e foi superior ao Corinthians, que jogou muito bem e ganhou do Atlético-GO, que deu um baile no Botafogo. É a dança das vitórias e das derrotas.
Mudam pouco as posições na tabela. É a lógica da incerteza, o caos organizado.
Na coluna anterior, escrevi que, além do equilíbrio, uma das causas de tanta irregularidade é a ausência de um futebol coletivo consistente, constante, e que a maioria das partidas é decidida em lances isolados, erros de árbitros, expulsões e pelo acaso -situações comuns, frequentes, que acontecem a favor e contra todas as equipes.
O Botafogo mereceu a vitória sobre o Corinthians, mas o imponderável também entrou em campo. No primeiro gol, após um belo contra-ataque, a bola bateu no defensor e caiu na cabeça de Loco Abreu, livre. No segundo, a bola desviou no zagueiro antes de entrar.
Quanto mais o acaso aparece, mais os operatórios o desprezam. O ser humano, prepotente e racional, vê o acaso como uma afronta ao conhecimento.
Como não sou torcedor nem comentarista de melhores momentos e gosto do futebol coletivo, bem jogado, organizado, com troca de passes, não posso achar que o Brasileirão é ótimo. Há equilíbrio, emoção, boas partidas, bons jogadores, mas não há um ótimo time.
A seleção carece também de um bom futebol coletivo. Os gols saem de lances isolados, às vezes belíssimos, como os dois contra o México. Isso não dá nenhuma segurança, ainda mais que falta mais qualidade no meio-campo e no ataque.
Só se forma uma grande equipe com craques e ótimo conjunto. Os grandes talentos, com poucas exceções, brilham apenas em times organizados. Enganam-se os que acham que eles não precisam ter funções definidas em campo. É o contrário. Sentem-se mais seguros. Na Copa de 1970, até Pelé tinha obrigações táticas. E as cumpria. Para ser um craque, é necessário, além de talento individual, ter talento coletivo. É a capacidade de ver o que está em volta, saber o que é bom para o time e fazer coisas para ajudar o companheiro. O craque pensa nele e nos outros. Faz isso porque sabe que precisa da equipe para ter sucesso e não porque seja desambicioso, um franciscano. A ambição é característica dos grandes talentos.
Renato, do Botafogo, tem muito talento coletivo. Dos que vi jogar, Gerson foi o que mais tinha essa qualidade. Jogava como se estivesse vendo a partida da arquibancada. Enxergava até o que ainda não tinha ocorrido.

POLÍTICA SEM SONHOS

FERREIRA GULLARNinguém sabe ao certo quem é Kassab nem o que será este partido, o PSD, que não diz a que vem.
Estou longe de me ver como um comentarista político, de modo que as considerações que às vezes faço aqui, em torno desse assunto, na verdade atendem à necessidade que tenho, como qualquer pessoa, de entender o que está acontecendo e pode ser que atendam também à necessidade de um ou outro leitor. De qualquer maneira, além do mais, me divirto com isso, já que pensar -certo ou errado- é a minha cachaça. E foi assim que, meses atrás, levantei aqui a hipótese de que os dois partidos nascidos de uma discordância ideológica radical com o regime militar -PT e PSDB- já esgotaram sua vida útil e, agora, surgiram novas lideranças, com outra história e outra visão do problema político, do modo de formulá-lo e conduzi-lo.
Dizendo de outra maneira: a nova geração de políticos, que vem substituir a de Fernando Henrique, Lula e José Serra, não teve que enfrentar a ditadura, não conheceu o exílio e, por essa e outras razões, tem uma visão menos ideológica, mais pragmática das questões políticas e sociais. Em razão disso, Serra não chegará à Presidência da República e o PT, se continua no poder, é porque já deixou de ser um partido (pretensamente) revolucionário: hoje é um partido sem compromissos ideológicos, que, para se manter no poder, aliou-se a cobras e lagartos, do PC do B, que já nada tem de comunista, aos evangélicos do bispo Macedo.
Pois bem, e não é que, de repente, Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, inventa um outro partido que, segundo ele mesmo, não era nem de direita, nem de esquerda, nem de centro? Alguém diria então que não era um partido. Essa foi minha conclusão, em face da primeira notícia, uma vez que os partidos nascem para pôr em prática uma opção política ou ideológica. Então, que partido seria esse, que vinha para defender nada, sem tomar nenhuma posição? Ele agora diz que o PSD é de centro.
Em abril deste ano, quando Kassab anunciou a criação do PSD, escrevi uma crônica qualificando-o de oportunista por inventar um partido que, sem projeto para o país, visa somente o poder.
Errando e aprendendo. Para minha surpresa, porém -e de muita gente mais-, o partido inventado por Gilberto Kassab cresceu em seis meses de maneira surpreendente, a ponto de se tornar, ao que tudo indica, a terceira maior representação na Câmara dos Deputados, desbancando o PSDB.
Realmente, não fui o único a me espantar, e não era para menos. Às vésperas de findar o prazo para a inscrição de candidaturas às eleições do ano que vem, o número de prefeitos filiados ao PSD chegava a 600, e o de vereadores, a mais de 6.000. Segundo a avaliação dos entendidos, o PSD lançará cerca de 12 mil candidatos a vereador e 1.400 candidatos a prefeito.
Isso significa que milhares de políticos, filiados a outros partidos, os abandonaram para se inscreverem no partido de Kassab. Dezenas de prefeitos dos mais diversos Estados deixaram seus partidos e a ele se filiaram. Os governadores do Amazonas e de Santa Catarina também mudaram de barco, arrastando consigo prefeitos, deputados e vereadores. Ao que tudo indica, o PSD se tornará em breve o terceiro maior partido do país.
Qual a razão disso? Como se explica tal fenômeno? Certamente haverá mais de uma razão para que tanta gente deixe seu partido e embarque numa aventura como essa, já que ninguém sabe ao certo quem é Kassab nem o que será esse partido, que não diz a que vem. Surpresa maior ainda foi, no apagar das luzes, a filiação de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central durante o governo Lula que pertencera ao PSDB e depois ao PMDB. Ele transferiu seu título de eleitor de Goiânia para São Paulo a fim de se candidatar, pela novel agremiação, a prefeito da capital paulista. Mas ele afirma que sua filiação ao PSD não tem objetivo eleitoral, pois visa tão somente ajudar na construção de um grande partido nacional. Ou seja, o lugar está vago.
Se vai fazê-lo ou não, pouco importa. O que fica evidente, porém, é que Kassab, ao se dar conta do vácuo político surgido do esgotamento do PT e do PSDB, viu que era chegada a hora de criar um partido que, ao contrário daqueles, não se define ideologicamente e no qual, por isso mesmo, cabe todo mundo.
O governo e o setor privado inauguraram novo ciclo de desenvolvimento e ocupação da Amazônia Legal, que tem 24,4 milhões de habitantes e representa só 8% do PIB, informam Julio Wiziack e Agnaldo Brito. O pacote de investimentos planejado para os nove Estados da região até 2020 já soma R$ 212 bilhões, segundo levantamento feito pela Folha com base no PAC e nos principais projetos privados em andamento.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

AGAPÉ - AMOR DIVINO

Padre Marcelo vende 6 milhões de livros.

Do repórter Morris Kachani, da Folha
Embalado por “Sunday Bloody Sunday”, do U2, padre Marcelo corria a 9 km/hora na esteira de sua casa em 29 de abril do ano passado quando deu um passo em falso e se acidentou. Foi uma lesão séria no tornozelo.
“Chorei uma semana inteira. Até pensei que foi por inveja”, diz. Três dias antes ele havia sido convidado para uma palestra particular com o papa Bento 16 no Vaticano.
Quando o papa passou pelo Brasil, os dois mal se conheceram - muito por conta da má-fé dos organizadores, segundo o padre Marcelo.
Entre fazer uma cirurgia -e não ir a Roma- ou tentar a recuperação com medicação pesada, o padre optou pelo segundo caminho. Inchou 12 quilos, desafiou o estômago, mas visitou o papa.
A vida na cadeira de rodas lhe trouxe uma nova perspectiva. “Fiquei com princípio de depressão. Primeiro eu tentei jogar Playstation ‘pra’ passar o tempo, mas desisti. Busquei escrever, o que jamais faria porque sou muito agitado.”
Assim nasceu o livro “Ágape”, espécie de diário escrito em dois meses, e que em 13 vendeu 6 milhões de cópias a R$ 19,90 segundo Mauro Palermo, diretor da editora Globo, responsável pelo título.
Editores de best-sellers ouvidos pela Folha acreditam que nenhum livro lançado no país atingiu esse número em um período tão curto.
“O livro traz uma linguagem de fácil compreensão, situações do cotidiano e sugestões de orações. É quase um manual de instruções assinado por uma figura carismática”, diz Palermo.
O padre usa o livro na missa dominical transmitida ao vivo pela TV Globo e no programa matinal diário que mantém na rádio Globo AM.
A turnê por 42 cidades do país também ajudou. Padre Marcelo contabiliza 400 mil dedicatórias nesses eventos.
Considera que metade de seu público é da emergente classe C. O valor dos royalties ele não divulga -diz que ganhou “milhões e milhões”. Mas é consenso no mercado de que menos do que 10% a 15% do valor de capa -ou seja, de R$ 12 milhões a R$ 18 milhões- certamente não foi.
Todo esse dinheiro de acordo com o padre é revertido para a construção de um santuário com capacidade para 100 mil pessoas, que está sendo erguido em Interlagos. “São milhões que poderiam ficar comigo, mas é o sonho de minha vida”, afirma.
“O livro foi fundamental nesse sentido. Imagine o Itaquerão, veja o preço que é a obra. Somente nosso terreno valeu R$ 6 milhões, hoje vale R$ 40 milhões”. E afirma: “Nossa atividade não pode mesmo ser tributada. Só nos custos de manutenção você teria um elefante branco”.
O santuário ocupa 6.000 m² de área construída e 25 mil de externa. Será o maior templo da Igreja Católica no Brasil, superando Aparecida. Só de vagas de estacionamento, haverá 5.000. O projeto prevê uma cripta embaixo do altar, onde o padre pretende ser sepultado (com seus companheiros de diocese).
A inauguração está prevista para dezembro, quando cerca de 60% da obra estiver concluída. Até lá, padre Marcelo trabalha duro na divulgação do novo CD, que acaba de ser lançado com 430 mil cópias pela gravadora Sony.
O CD consiste em uma extensão do livro e por isso leva o mesmo título. “É um CD contemplativo. Você o coloca para tocar e ele leva você ao ágape, que em grego antigo significa amor divino”, diz.
Mais de 30 músicas foram testadas no “fantástico laboratório humano” (sic) de sua missa semanal para 60 mil pessoas. “Pretendo atingir os ‘católicos à toa’”, diz.
Sobre a pirataria, o padre é direto: “Piratear é crime. E crime é pecado. É por isso que as gravadoras investem no gospel, porque ninguém vai comprar pirata”.
Recentemente, padre Marcelo acidentou-se novamente na esteira. Quase teve que operar o menisco. No momento usa bengala. Não se sabe se Deus lhe concederá a graça de escrever “Ágape 2″.
De 2003 a 2010, o ministro do Turismo, Pedro Novais (PMDB), pagou sua governanta com dinheiro da Câmara, revelam Andreza Matais e Dimmi Amora.
Doralice Bento de Sousa recebia como secretária parlamentar, apesar de cozinhar e organizar o apartamento do então deputado. Doralice Bento de Sousa recebia como secretária parlamentar.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Entre os anos de 2003 e 2010, os brasileiros subiram do sétimo para o terceiro lugar no ranking dos turistas que mais gastam nos EUA. O gasto médio cresceu 250%, atingindo média per capita de US$ 5.918 (equivalentes a R$ 9.800). Só perdeu para o aumento de despesas dos chineses. Os dados são de levantamento do Departamento de Comércio dos EUA a que a Folha teve acesso.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Após dois meses de alívio, a inflação voltou a subir com força em agosto, batendo em 0,37%, por conta de nova alta dos alimentos. Em 12 meses, a taxa acumulada do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) está em 7,23%, a maior desde junho de 2005. Alguns analistas já estimam que o IPCA supere o teto de 6,5% em dezembro, embora a maioria acredite em taxa um pouco inferior a isso.

domingo, 4 de setembro de 2011

AH, ESSES CARIOCAS . . .

JUCA KFOURI
O Rio de Janeiro continua lindo. E com invencível imaginação, a ponto de se achar primeiro em tudo.
FALAR BEM de Ruy Castro é chover no molhado.Falar mal é heresia. Registrar seu cego amor ao Flamengo é redundância também.
E torcedores cegos, é claro, não olham a não ser para dentro de si mesmos, a ponto de negar que a ainda indiscutível maioria rubro-negra no país se deve grandemente aos tempos do Rio capital federal e da rádio Nacional, mesmo efeito que, paulatinamente, a Rede Globo vem causando no aumento da torcida do Corinthians, que, além do mais, por óbvio, tem muito mais torcida em São Paulo do que o Mengo tem no Rio.
Mas tudo isso são divagações.
O ponto central é a Charanga do Jayme de Carvalho, que, surgida em 1942, foi, no máximo, a primeira torcida uniformizada do Rio, jamais a pioneira no Brasil, como escreveu o meu considerado Ruy Castro.
Todos os registros mostram que a Tusp, Torcida Uniformizada do São Paulo, fundada por Manoel Raymundo Paes de Almeida, na Mooca, em 1939, foi a primeira.
Há registro, também, da torcida do Inter, fundada em 1940 por Vicente Rao, hoje chamada de Camisa 12.
A Tusp, por exemplo, teve presença marcante e documentadíssima na inauguração do Pacaembu, em 1940.
Ou seja, tão certo como a inutilidade de proibir a Mancha Alviverde, que já foi só Verde e que, provavelmente, amanhã será Alviverdíssima, Jayme de Carvalho fundou, no máximo, a terceira torcida, que, por sinal, então, ainda não levava o nome de organizada.
Veja que não se pode garantir que em alguma outra cidade brasileira, antes disso, não tenham surgido outras torcidas uniformizadas, mas é possível dizer com certeza que a Charanga do Flamengo não foi a primeira, coisa dessa gente bronzeada da zona sul carioca que, por seus encantos mil, acha que tem a primazia em tudo.
Será que já não basta ser o cartão de visita do Brasil e uma das cidades mais lindas do mundo, se não a mais linda, digna mesmo de ser a sede olímpica, da final e da abertura da Copa do Mundo e tudo mais que desejar?
Só precisa cuidar de seu BBB -bueiros, bombeiros e bondes.
E manter o bom humor com que sei que o amigo receberá estas linhas -que até gostariam de não ter sido escritas a não ser que fosse para dizer que o pioneirismo também neste tema, como no Mundial de Clubes da Fifa, é do Corinthians...

OPOSIÇÃO SEM RUMO

TENDÊNCIAS/DEBATES. 
JOSÉ DIRCEU
Ao criticar as alianças de Dilma, Eduardo Graeff parece se esquecer de que o PSDB se alinhou com as mesmas siglas nos Estados que governa.Enquanto o Brasil avança com o PT no governo federal, a oposição demo-tucana permanece inerte, saudosa de um passado distante e perdida em seus próprios dilemas.
Sem propostas viáveis para o crescimento do Brasil, os velhos mandatários centralizam seus esforços em inúteis tentativas de desestabilizar o governo e o país, por meio de ataques sem provas ao PT e a seus militantes.
No último dia 23, fui grosseiramente atacado, nesta Folha, em artigo assinado pelo cientista político Eduardo Graeff, secretário-geral da Presidência da República no governo FHC. Graeff tomou versões mal-intencionadas e sem compromisso com a verdade para reembalar teses que há muito não encontram eco na sociedade.
Seu artigo "Aliados e companheiros" é uma coletânea desatualizada de equívocos e hipocrisias.
Graeff chega a dizer que, em 1998, eu teria arrecadado recursos em prefeituras para financiar campanhas do partido. Trata-se de uma mentira, de uma acusação que não se sustenta caso seja questionada judicialmente.
O episódio fantasioso se tornou público na investigação do assassinato do então prefeito de Santo André, Celso Daniel, e seu autor se retratou em juízo pelas falsas alegações. O ex-assessor tucano vai ao fundo do poço ao dar conotação política a um caso que, por duas vezes, ficou comprovado em inquéritos policiais se tratar de crime comum. Na tentativa de provocar estragos, investe até mesmo contra a imagem de Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência.
Graeff critica as alianças do governo Dilma. E parece se esquecer de que o PSDB se alinhou com essas mesmas siglas nos Estados que governa. O PMDB não está na base de sustentação da gestão de Geraldo Alckmin em São Paulo?
Antonio Anastasia não levou o PDT e o PSB para a base de seu governo em Minas Gerais?
E mais, o tucano mineiro não desmontou a oposição a seu governo ao tirar primeiro o PR da frente parlamentar Minas sem Censura, e agora o PMDB? José Serra, quando assumiu a Prefeitura de São Paulo, não nomeou prefeitos derrotados no Estado para as administrações regionais da cidade? Quer maior aparelhamento e uso da máquina do que esse?
Quando secretário-geral da Presidência, na hoje longínqua era FHC, parte das tarefas de Graeff não era ouvir reivindicações da base aliada a respeito da ocupação dos cargos públicos e de emendas parlamentares?
E agora vem o próprio Graeff questionar a legitimidade da participação dos partidos que apoiam o governo. Quanta hipocrisia!
Estamos dispostos a um debate mais profundo do que esse. Já realizamos as reformas da Previdência e do Judiciário e colocamos na pauta a Tributária e a do Código Civil.
Nos oito anos em que governou o país, o PSDB não foi capaz nem de apresentar uma proposta de reforma que pudesse corrigir erros históricos e estruturais de nosso sistema político-eleitoral e conter a forte influência do poder econômico em nossas eleições.
O tema também já está lançado com a reforma política. Nós, do PT, defendemos o financiamento público exclusivo das campanhas eleitorais, de forma a acabar com a contribuição direta a partidos ou candidatos e a anular a força do poder econômico na eleição. Somos favoráveis ao sistema proporcional misto, no qual o eleitor votará duas vezes: primeiro, na lista do partido de sua preferência, e depois em um candidato da própria lista.
Nossa posição é clara. Surpreende a fuga do PSDB a esse debate.
Para eles, talvez seja melhor atacar a honra alheia do que discutir questões realmente importantes para o país.

CORRUPÇÃO FAZ BRASIL PERDER UM A BOLÍVIA

ESTUDO REVELA QUE RECURSOS DESVIADOS PODERIAM REDUZIR À METADE O NÚMERO DE CASAS SEM SANEAMENTO NO PAÍS.
MARIANA CARNEIRO, da Folhapress.
Pelo menos o valor equivalente à economia da Bolívia foi desviado dos cofres do governo federal em sete anos, de 2002 a 2008.
Cálculo feito a partir de informações de órgãos públicos de controle mostra que R$ 40 bilhões foram perdidos com a corrupção no período -média de R$ 6 bilhões por ano, dinheiro que deixou de ser aplicado na provisão de serviços públicos.
Com esse volume de recursos seria possível elevar em 23% o número de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família -hoje quase 13 milhões.
Ou ainda reduzir à metade o número de casas sem saneamento no total, cerca de 25 milhões de moradias.
O montante apurado faz com que escândalos políticos de grande repercussão pareçam pequenos.
Na Operação Voucher, que no mês passado derrubou parte da cúpula do Ministério do Turismo, por exemplo, a Polícia Federal estimou o prejuízo em R$ 3 milhões.
Apesar de elevada, a quantia perdida anualmente está subestimada, pois não considera desvios em Estados e municípios, que possuem orçamentos próprios.
A estimativa, feita pelo economista da Fundação Getulio Vargas Marcos Fernandes da Silva, contabiliza apenas os desvios com recursos federais, incluindo os recursos repassados às unidades da federação.
Durante seis meses, o economista reuniu dados de investigações de CGU (Controladoria-Geral da União), Polícia Federal e TCU (Tribunal de Contas da União).
São resultados de inspeções em gastos e repasses federais para manter serviços de saúde, educação e segurança pública, por exemplo.
Os dados servem de base para inquéritos policiais e ações penais, além da cobrança judicial do dinheiro público desviado.
Para o autor, esses desvios têm custo social e econômico. "Privar as pessoas de saúde é privá-las de crescer, de aprender, de competir com igualdade. Para o Brasil, isso é perda de produtividade."
Em outra comparação, o pesquisador estima que, se os R$ 40 bilhões fossem aplicados na redução da desigualdade só por meio do Bolsa Família, a expectativa de vida do brasileiro poderia aumentar em dois anos e cinco meses em uma década.
Os desvios também afetam a capacidade de o país crescer e gerar empregos.
Tomando como base apenas o último ano do levantamento (2008), os recursos perdidos para corrupção equivalem a quase 20% dos investimentos do governo federal (R$ 28,2 bilhões).
Para o setor privado, que enfrenta dificuldades com os gargalos de infraestrutura, o prejuízo é evidente. No dia a dia das empresas, isso significa redução de competitividade em relação a concorrentes estrangeiros.
"Se as estradas não ficaram prontas ou estão em péssimo estado, fazendo com que os caminhões quebrem com frequência, é mais difícil entregar o produto", diz Marina Araújo, pesquisadora da Fundação Dom Cabral.
"Se não há escolas de qualidade, não há mão de obra pronta para trabalhar."
A fundação é a avaliadora do Brasil em duas pesquisas internacionais, do Fórum Econômico Mundial e do IMD (International Institute for Management Development), com sede na Suíça.
A opinião corrente dos cerca de 200 executivos brasileiros entrevistados, segundo Araújo, é que os políticos não merecem confiança, que há desperdício do dinheiro público e que a corrupção é fonte de dispersão de recursos.
Entre 139 países, o Brasil conseguiu apenas a 127ª posição no quesito confiança nos políticos.
Em 2010, a nota brasileira para esse item foi 1,8, sendo que a avaliação mais baixa é 1, e a mais alta, 7.
Com essa pontuação, o Brasil ficou atrás de um país como o Sri Lanka no quesito.
"Considerando a estabilidade econômica e política que temos no Brasil e a visibilidade do país, o resultado é muito ruim", diz Araújo.

O CUSTO DA CORRUPÇÃO

Em sete anos, o Brasil perdeu pelo menos R$ 40 bilhões em recursos desviados dos cofres federais.
O valor, equivalente ao PIB da Bolívia, inclui os repasses às unidades federativas, mas não os desvios em Estados e municípios, que têm orçamentos próprios.
Com esse montante seria possível reduzir à metade o deficit de 25 milhões de moradia sem saneamento no país.
O CUSTO DA CORRUPÇÃO.
Se colocados na ponta do lápis, os escândalos que habitam o noticiário político representam muito pouco do que o país perde cotidianamente para a corrupção. Na última década, estima-se que ao menos R$ 6 bilhões desapareceram por ano no caminho que leva os recursos federais de Brasília para os municípios, onde deveriam resultar em ações sociais e de infraestrutura.
Neste caderno especial, a Folha revela de que forma o dinheiro é desviado, o que poderia ser feito com esses recursos e como as fraudes podem afetar a vida das pessoas. Mostra que, apesar do avanço dos órgãos de controle, ainda é tímido o esforço feito pelo país se comparado ao cenário internacional. E constata que os casos mais rumorosos da história recente ainda estão longe de seu desfecho.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

ENTENDENDO O PIB

Entenda o que é PIB e como é feito seu cálculo
O PIB (Produto Interno Bruto) é um dos principais indicadores de uma economia. Ele revela o valor de toda a riqueza gerada no país.
O cálculo do PIB, no entanto, não é tão simples. Imagine que o IBGE queira calcular a riqueza gerada por um artesão. Ele cobra, por uma escultura, de madeira, R$ 30. No entanto, não é esta a contribuição dele para o PIB.
Para fazer a escultura, ele usou madeira e tinta. Não é o artesão, no entanto, que produz esses produtos --ele teve que adquiri-los da indústria. O preço de R$ 30 traz embutido os custos para adquirir as matérias-primas para seu trabalho.
Assim, se a madeira e a tinta custaram R$ 20, a contribuição do artesão para o PIB foi de R$ 10, não de R$ 30. Os R$ 10 foram a riqueza gerada por ele ao transformar um pedaço de madeira e um pouco de tinta em uma escultura.
O IBGE precisa fazer esses cálculos para toda a cadeia produtiva brasileira. Ou seja, ele precisa excluir da produção total de cada setor as matérias-primas que ele adquiriu de outros setores.
Depois de fazer esses cálculos, o instituto soma a riqueza gerada por cada setor, chegando à contribuição de cada um para a geração de riqueza e, portanto, para o crescimento econômico.
Se por acaso a riqueza gerada é menor que a registrada anteriormente, fala-se em contração da economia. Dois trimestres seguidos de retração indicam a chamada recessão técnica.
Uma revolta dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) levou o governo a reavaliar o Orçamento de 2012. O Judiciário reivindica reajuste de 14,7%, e Dilma havia concordado em apoiar 5%. A proposta enviada, porém, nada previa. O governo também ignorou a previsão de 56% de reajuste dos demais servidores do Judiciário.