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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

SÓCRATES

Clóvis Rossi, da coluna janela pro mundo
Sócrates, os perdedores e a crise.
A notícia da morte de Sócrates me chegou, no domingo, via "Le Monde", antes mesmo que eu tivesse tempo para ligar meu iPad e começar a me informar sobre o que acontecia no mundo.
Foi uma surpresa: jornais estrangeiros só ligam para jogadores brasileiros, mesmo em atividade, quando eles se transferem para a Europa. Ex-jogadores, então, só se tiverem sido campeões do mundo ou brilhado na Europa. Sócrates não preenchia nenhuma das duas condições.
Que tenha sido incensado no Brasil, foi não só justo como fácil de explicar. Primeiro, brasileiro adora beatificar os mortos, mesmo os que não foram nada santos em vida. Sócrates não foi santo, mas tinha características admiráveis, não só como jogador. Para o meu gosto, aliás, a característica mais admirável era a de transgressor.
Transgressor dentro de campo com seus passes de calcanhar, que, em qualquer outro, seriam firula condenável. Transgressor fora de campo, ao erguer a bandeira da democracia em um país sob ditadura e em um esporte cujo comando se parece às dinastias autoritárias do mundo árabe.
Transgressor, no Brasil, merece mesmo a beatificação. Um país com tantas carências e tão acomodado precisa de alguém que o chacoalhe --precisa de muitos, aliás.
Agora que ele tenha merecido idêntica beatificação no exterior não deixa de ser surpreendente. Afinal, fez parte de uma geração de notáveis jogadores que, não obstante, foi perdedora --de Sócrates a Zico, de Falcão a Júnior, passando pelo técnico Telê Santana. Perderam duas Copas e, no caso de Sócrates, só conseguiu um título, o de campeão paulista, torneio a que a mídia estrangeira não dá a menor importância.
Minha surpresa só se desfez quando li o necrológio de Sócrates escrito por um craque do jornalismo esportivo espanhol, Cayetano Ros, de "El País":
"[Sócrates] foi o capitão de uma equipe inesquecível, Brasil na Espanha-82, uma das três seleções que, junto a Hungria em 1954 e Holanda em 1974, apaixonaram o mundo sem ter ganho nada".
Bingo. Fico particularmente feliz de ver que, ao menos no futebol e uma vez na vida, os perdedores escrevem a história. É bom que seja assim não só por uma questão de justiça mas também porque, de repente, os "maus" podem sair ganhadores e a história que eles escreverão não será a correta. É o que está acontecendo, por exemplo, na crise do capitalismo contemporâneo, cuja história está sendo escrita pelos tais mercados. E não há um Sócrates para quebrar o molde e produzir uma narrativa alternativa.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

JANELA PARA O MUNDO

Por Clovis Rossi, na Folha de São Paulo.
Há os indignados e há os bananas.
O Brasil e a Índia têm nota igualmente baixa, aliás próximas uma da outra, no IPC, o Índice de Percepção de Corrupção da Transparência Internacional, respeitada ONG que mede não a corrupção propriamente dita, porque é "imedível", mas como ela é percebida em cada país.
A nota do Brasil, no IPC mais recente, foi 3,7; a da Índia, 3,3. Ambos os países a anos-luz da Dinamarca e seus 9,3, a primeira colocada em limpeza.
Se a percepção é parecida no Brasil e na Índia, então a reação em cada país também é parecida, certo? Errado, completamente errado. Na Índia, Anna Hazare, militante anti-corrupção, está iniciando nesta sexta-feira uma greve de fome em um parque público, acompanhado por milhares de seguidores.
No Brasil, o pessoal manda cartas indignadas para os jornais, mas não tira o traseiro da cadeira para se manifestar.
A repercussão das diferentes atitudes é inexoravelmente diferente: o movimento de Hazare está em todos os meios de comunicação de respeito no mundo todo, Brasil inclusive. Já a passividade do brasileiro ganhou uma perplexa coluna de Juan Arias, notável jornalista espanhol (um respeitado "vaticanólogo", aliás), hoje correspondente de "El País" no Brasil.
Arias se perguntava porquê não havia no Brasil nada nem remotamente parecido com o movimento dos "indignados" que não sai das ruas da sua Espanha (sólido crítico do Vaticano, aposto que Arias, se estivesse em Madri, estaria nas ruas agora, ao lado dos que protestam contra o que consideram gastos excessivos para receber o papa Bento 16, em um momento de aperto orçamentário generalizado).
O que chama a atenção, na comparação Brasil x Índia, é o fato de que os escândalos mais recentes no gigante asiático têm pontos de contato com o noticiário brasileiroHá, por exemplo, fundadas suspeitas de gastos abusivos para organizar os Jogos da Commonwealth, a comunidade de países que foram colônias britânicas. No Brasil, a organização da Copa do Mundo-2014 está cercada de temores, mas ninguém, até agora, fez qualquer protesto público parecido com o da Índia.
Nesta, há também suspeitas sobre negociatas no setor de telecomunicações. No Brasil, uma empresa do ramo comprou outra, o que era proibido por lei. A empresa foi punida? Não, a lei foi modificada (no governo Lula), para permitir o negócio. Você ouviu falar de alguma manifestação a respeito?
Se você preferir outra comparação, mudemos de continente e fiquemos aqui nas imediações: os estudantes chilenos, como os indignados espanhóis, não saem das ruas, exigindo educação pública e de qualidade. Preciso dizer que, em todas as avaliações internacionais comparativas, o Brasil fica sempre nos últimos lugares? Os estudantes brasileiros se mobilizam? Sim, para exigir meia entrada nos cinemas, atitude positivamente revolucionária.
Difícil escapar à constatação de que não somos indignados e, sim, bananas.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

OBAMA, ÍNDIOS E O ORIENTE MÉDIO

CLÓVIS ROSSI

Visita do presidente americano à América Latina em março é a chance de retomar o engajamento

NO SEU até agora único movimento em direção à América Latina, o presidente Barack Obama foi recebido como pop star até pelos seus companheiros de governo durante a Cúpula das Américas de Trinidad e Tobago, em 2009.
O outro pop star presente, Luiz Inácio Lula da Silva, manifestou a Obama o enorme significado que o subcontinente atribuía ao fato de um negro ter sido eleito presidente da maior potência da Terra. Mas não deixou de acrescentar, apontando para Evo Morales: "A eleição deste índio na Bolívia teve significado equivalente".
Puxou para a conversa o nome de Hugo Chávez, apresentando-o como "bom moço" e sugerindo que Obama conversasse com o líder venezuelano, o grande inimigo dos Estados Unidos na região.
Chávez também estava impregnado desse espírito de congraçamento, tanto que fez questão de dar de presente a Obama o livro "Veias Abertas da América Latina", um clássico do uruguaio Eduardo Galeano.
Nos 20 meses seguintes, o espírito murchou. Em grande medida por motivos positivos para a América Latina. Não é uma região que tenha terrorismo, disputas territoriais ou outros problemas que chamem a atenção do mundo. Tem zilhões de problemas internos, mas quem liga para eles, no mundo rico?
No mês que vem, Obama faz o seu segundo movimento, com a visita a Brasil, Chile e El Salvador.
À margem dos acordos a serem assinados ou anunciados, o grande significado da visita, ao menos do ponto de vista do governo brasileiro, é o de "ressetar" o espírito de Trinidad e Tobago, para usar um neologismo que Hillary Clinton utilizou para se referir às relações entre EUA e Rússia.
No Palácio do Planalto, a expectativa é a de que os Estados Unidos retomem o engajamento com a América Latina, claro que tendo o Brasil como eixo, pelo peso que o país tem no subcontinente e que vai ganhando também fora dele.
A América Latina é, além de uma enorme reserva de energia e alimentos, "uma reserva de democracia", diz, por exemplo, Marco Aurélio Garcia, assessor diplomático tanto de Lula como de Dilma Rousseff e frequente interlocutor de Washington. De fato, ao contrário de África, Ásia e Oriente Médio, a América Latina é 99,9% democrática (a exceção é Cuba).
Aí é que entra o fato novo que se intrometeu entre o anúncio da viagem de Obama e a sua efetiva realização: as revoluções pela democracia no Oriente Médio, que ao mesmo tempo excitam e tiram o sono do planeta.
Se de redemocratizar se trata, o Brasil, diz Marco Aurélio, "tem credibilidade para se oferecer para participar de um processo multilateral para a região".
Para alguns setores internos, trata-se de pretensão descabida, mas o fato é que a crise no Oriente Médio mostrou que, exceto os Estados Unidos, nenhum outro país ou região mexeu-se o suficiente para exercer de fato influência.
Se é assim e se os Estados Unidos, sozinhos, não podem atuar como bombeiro, polícia ou banco para uma região em efervescência, torna-se razoável a ideia de engajar o Brasil, tanto para a relação com a América Latina como para voos mais altos.