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domingo, 14 de novembro de 2010

VAQUINHA DA FIEL

JOSÉ GERALDO COUTO
E se o "bando de loucos" se cotizar pelo Brasil afora para financiar o estádio da Copa do Mundo-2014?
ESTAMOS DIANTE de uma situação absurda. A CBF, a Prefeitura de São Paulo e o governo do Estado decidiram que o estádio que abrirá a Copa do Mundo de 2014 será o do Corinthians, o Itaquerão ou Fielzão, que nem começou a ser construído.
Não, não é esse o absurdo. O absurdo é que ninguém sabe de onde virão os R$ 250 milhões que faltam para custear a ampliação do futuro estádio, de 48 mil para 60 mil lugares, de modo a atender a exigência da Fifa. Pelo projeto original, a obra, a ser realizada pela construtora Odebrecht com ajuda do BNDES, custaria R$ 400 milhões.
Ou seja: a CBF, o prefeito de São Paulo e o governador do Estado deram aval a uma aposta no escuro, uma conta que não bate, um rombo a céu aberto, um convite ao desastre. Todos garantem que a verba faltante não sairá dos cofres públicos. Faltou dizer como se produzirá o milagre da multiplicação dos assentos ou dos reais.
Diante desse quadro insólito, dessa leviandade sem tamanho dos nossos dirigentes esportivos e políticos, resolvi sugerir uma solução, digamos, heterodoxa: por que não fazer uma vaquinha entre os torcedores do Corinthians para cobrir essa "pequena" diferença?
A ideia não é original. Pelo menos um antecedente célebre mostra a sua viabilidade.
Em meados dos anos 20, quando o Vasco da Gama era discriminado pelos outros clubes por aceitar atletas negros em seu elenco, inventou-se que o time não podia participar da liga carioca porque não dispunha de estádio próprio.
Mais do que depressa, a diretoria cruzmaltina empreendeu uma enorme campanha de arrecadação de fundos junto à comunidade luso-brasileira. Padeiros, sapateiros, comerciantes, operários, todos deram seu quinhão.
Resultado: em 1927 o Vasco inaugurou em São Januário o então maior estádio do Brasil (condição que só viria a perder em 1940, com a abertura do Pacaembu).
Uma pesquisa feita pelo Ibope para o jornal "Lance!" atestou que a torcida corintiana soma 25,8 milhões de adeptos em todo o país (só perde para a do Flamengo, com 33,2 milhões).
Se cada corintiano doar R$ 10, dará para completar o orçamento do Fielzão e ainda sobrarão uns trocados. "Trocados"? Com esses R$ 8 milhões poderiam ser impressos diplomas para os fiéis doadores. Delírio? Bem, para situações irracionais, respostas delirantes.
Afinal, não é um bando de loucos?

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

VITÓRIA SOFRIDA E BELA

JOSÉ GERALDO COUTO.
O nervosismo quase derrubou o Inter, que podia ter vencido de modo menos dramático.
O BRASIL está bem representado no Mundial de Clubes da Fifa. O Internacional é um time forte, aguerrido e de ótima qualidade técnica. Mas a vitória de ontem sobre o Chivas foi muito mais sofrida do que se esperava. O nervosismo quase pôs a perder o título da Taça Libertadores da América.
Afoito, desembestado, o Colorado nem parecia a mesma equipe que venceu com tanta autoridade a partida de ida, no México. Seus jogadores estiveram tão à vontade em Guadalajara que cheguei a pensar que o que lhes tirava a pressão de cima dos ombros era o fato de já estarem garantidos naquele momento no Mundial (graças a essa aberração que é um time mexicano na Libertadores).
Mas ontem isso tudo parecia esquecido no Beira-Rio. Empurrado pela torcida, o Internacional, no primeiro tempo, não soube controlar os nervos e segurar a bola à espera do melhor momento para agredir o adversário.
O gol mexicano no final da primeira etapa foi uma ducha de água gelada sobre o febril mar vermelho do Beira-Rio. Parecia ter vindo à tona o trauma das seis finais anteriores da Taça Libertadores entre brasileiros e estrangeiros, todas perdidas por nossos clubes e geralmente por puro nervosismo.
No fim, felizmente, prevaleceu a superioridade técnica do time gaúcho. E o treinador Celso Roth parece estar enterrando sua persistente fama de retranqueiro. Seu Inter é um time que joga para a frente.
Ao chegar ao colorado, Roth tirou um dos três zagueiros e acrescentou um volante no meio-campo. Os números do esquema não importam tanto. O importante é que são três volantes -Sandro, Guiñazu e Tinga- que "saem para o jogo", não ficam presos às funções defensivas.
Isso faz a diferença.
O jogo de ontem foi truncado, violento, com um perde-ganha medonho no meio de campo. Poucos foram os lances bonitos, além dos gols (o de Giuliano foi de placa). Poderia ter sido mais bonito e tranquilo, mas talvez não tivesse tanta graça.
O fato é que, no ano em que o futebol de resultados da seleção brasileira resultou em decepção, três times, até agora, resgataram no país o prazer de assistir e jogar bola: o Santos, o Inter e o Fluminense, que está brilhando no Brasileirão.
Os três conseguiram os tais "resultados" sem abrir mão de um futebol aberto, ofensivo, atrevido. Assim como a Espanha na Copa do Mundo, eles provaram que não há contradição entre jogar bonito e vencer.

sábado, 14 de agosto de 2010

ALEGRIA VOLTOU

JOSÉ GERALDO COUTO.
O entusiasmo pela jovem seleção mostrou que estávamos carentes de "jogo bonito".
DIZ MEU amigo baiano João Sampaio, torcedor do Vitória, que só mulheres, crianças e gays gostam de ver jogo da seleção brasileira.
Pode até ser, mas a vitória do Brasil sobre os Estados Unidos provocou no país uma onda de entusiasmo entre homens e mulheres de todas as idades e as preferências sexuais.
Talvez nem o próprio Mano Menezes esperasse um sucesso tão grande e imediato. A garotada foi reunida na última hora e teve pouco tempo para treinar. Ainda assim, fez bonito.
Em contraponto à empolgação geral, algumas vozes ponderadas têm recomendado cautela. Afinal, foi só um primeiro jogo, um amistoso, contra uma força mediana do futebol mundial. Alguém até lembrou que a estreia de Dunga foi num 3 a 0 sobre a Argentina (na verdade, foi seu segundo jogo).
Convém esperar para ver se a "era Mano" será longa e frutífera como se espera. Mas a questão aqui não é tanto a performance da nova seleção, e sim a alegria que ela suscitou.
"Foi uma catarse", resumiu a música e compositora Vange Leonel. (Hoje tirei o dia para citar os amigos.) Exato: depois de um período marcado pela cara amarrada de Dunga e pelo jogo igualmente amarrado de seus comandados, voltou o prazer de jogar e de ver futebol.
Os mais entusiasmados chegaram a afirmar que desde 1982 uma seleção brasileira não lhes dava tanta alegria.
Exageros à parte, o fato é que a gente precisa de pouco para ser feliz.
Para terminar, não resisto a fazer algo que se deve evitar, uma autocitação. Assim terminava a coluna que publiquei no último 3 de julho, um dia depois da eliminação do Brasil pela Holanda na Copa do Mundo da África do Sul:
"Perder é sempre ruim, mas há um consolo. Com a derrota, a concepção bélica, triste e carrancuda de futebol do treinador talvez seja sepultada, ao menos por um tempo. Talvez voltemos a ver o futebol como um espetáculo, uma festa, uma alegria".
Pois bem: a alegria voltou.
MÁQUINA TRICOLOR
Com a chegada de Deco, o Fluminense de Muricy Ramalho tem tudo para formar uma equipe tão memorável quanto a "máquina tricolor" de meados dos anos 70.
Resta saber se Deco e Conca, dois meias de estilos contrastantes, vão se encaixar para que a bola continue rolando redondinha.

sábado, 7 de agosto de 2010

JOSÉ SARNEY.
Uma eleição sem jeito de...
O PMDB tocou no ponto-chave do problema da América Latina e, por consequência, brasileiro: aprofundar a democracia. A Constituição de 88, boa no capítulo dos direitos individuais e sociais, criou barreiras para atingirmos esse objetivo.
Sem a consciência de que a democracia é um modo de vida, crescem poderes autônomos de setores da administração pública, do Judiciário, do Legislativo, criando áreas de privilégios, que, embora não sejam pessoais, têm a força de transformá-los em grupos superiores ao povo.
Não se pode ter democracia aprofundada com as medidas provisórias que acabam com o Legislativo; e sem elas passou a ser impossível governar. Resultado, no Congresso desapareceu o debate, só passam matérias anódinas ou por consenso: as bondades, que não são aquelas que viu Pero Vaz de Caminha, mas as que denunciam os jornais, como trens da alegria, privilégios, prerrogativas de funções e mais e tal.
Estamos presenciando a regressão do que é a democracia. Com o exagero de controles, desapareceram as campanhas, a capilaridade na discussão de problemas e ideias, para restarem blogs, notícias de jornais e a avassaladora dominância da televisão. O eleitor, o povo mesmo, é mero coadjuvante.
Amarraram tanto as regras, impuseram tantos entraves, que o processo político passou a ser sobretudo um processo jurídico. Tenho um amigo candidato que me diz ter mais advogados do que eleitores.
Ora, a democracia é um estado de consciência que se exercita pela educação. Pela prática. Não pode ser concebida como uma sala de aula em que só se faz o que o professor ensina e manda fazer.
É assim que pensam os caudilhos, nada mais, com todas as letras, que o autoritarismo. Não há só ditadura de homens, mas também de instituições. Duverger disse que a ditadura do Congresso era pior do que a do Executivo e que a da Justiça era pior ainda que a dos outros Poderes.
Já se queixam da ditadura do Tribunal de Contas, da Controladoria da União, do Banco Central, da Polícia Federal, da CBF, do Ministério Público, da Beija-Flor, da Vai-Vai, enfim, ditadura do papai, da mamãe -e até estes da ditadura dos filhos.
A verdade é que estamos no período das eleições e não vemos eleições. Elas estão restrita aos tribunais e começaram ontem a dar sinais de vida, com o primeiro debate na TV dos presidenciáveis.
Na cultura da internet, vivemos uma eleição virtual. Ela existe, funciona, mas ninguém vê. No mais, por falar em internet, a grande notícia é que ela matou a Playboy, a grande marca hedonista. Para ver peladas, passe o dia visitando sites.

sábado, 17 de julho de 2010

A HERANÇA ESPANHOLA

JOSÉ GERALDO COUTO.
A moda é imitara seleção campeã, mas esta é uma versão piorada do nosso melhor futebol.
DO PONTO DE VISTA estritamente futebolístico (esquecendo portanto a festa, os negócios, a overdose midiática), o que ficou de herança da Copa do Mundo na África do Sul foi o que podemos chamar de "efeito Espanha".
Só se fala em copiar o modelo espanhol, posse de bola, troca de passes, blá-blá-blá. Ora, para começar, nada disso é novidade. Em seus melhores momentos, os times brasileiros, bem como a seleção nacional, praticaram muito bem esse tipo de jogo.
Além disso, sinto dizer, a Espanha não está com essa bola toda. Sei que soa antipático falar isso de uma seleção que se sagrou campeã mundial com todos os méritos, batendo em campo, de modo limpo e incontestável, oponentes fortes como a Alemanha e a Holanda.
Mas o fato é que, por alguma química insondável, a equipe de Vicente del Bosque não foi na África o time que brilhou dois anos antes, na Eurocopa.
O que faltou? Os pragmáticos dirão que não faltou nada, já que a Espanha foi campeã. Mas não estamos falando de futebol de resultados, e sim de futebol, simplesmente.
Portanto, o que faltou? Diz-se que a seleção espanhola é "o Barcelona sem Messi" e talvez aí esteja uma pista para entender o ponto em que os campeões do mundo deixam em muita gente uma sensação de frustração.
O que faltou à Espanha, a meu ver, foi aquilo que o craque argentino encarna como ninguém (além da imensa destreza técnica): o tesão do gol, a gana de vencer, a ousadia de "partir para cima".
A Espanha tem um belo toque de bola e jogadores do mais alto nível, como Xavi e Iniesta. Mas essa troca constante de passes, essas inversões de jogadas, esse "futebol envolvente", em suma, precisa de momentos agudos de quando em quando para não se tornar monótono.
Em outras palavras, faltou fúria à Fúria, time que fez escassos oito gols em sete jogos. A Alemanha, por contraste, marcou oito em apenas dois, contra dois ex-campeões mundiais (Inglaterra e Argentina) tidos como favoritos na África.
Mas a Espanha venceu não apenas a Alemanha mas também a Copa do Mundo. Isso abafa, de certo modo, a minha voz dissonante. O mundo é dos vencedores.
Encerro com uma fala de Eduardo Knapp, fotógrafo da Folha. "Ah, é futebol de resultados?", pergunta ele. "Então, no dia do jogo vou ao cinema. No dia seguinte, abro o jornal e vejo se meu time ganhou (que bom!) ou se perdeu (que pena!)."

segunda-feira, 12 de julho de 2010

SÓ FALTOU FUTEBOL

JOSÉ GERALDO COUTO
Minha Copa pessoal tem goleadas alemãs, drama de Uruguai x Gana e pouco mais que isso.
PARABÉNS PARA a Espanha, que teve momentos de "jogo bonito" e enfrentou com brio as botinadas holandesas, mas essa final foi a cara da Copa do Mundo da África do Sul: jogo truncado, futebol escasso, arbitragem ruim. A Holanda chegou à final com um dos times mais opacos e sem imaginação que já vestiram a linda camisa laranja. A Espanha, que brilhou na Eurocopa de 2008, jogou para o gasto e mereceu vencer.
Jogo por jogo, a disputa de terceiro lugar, anteontem, entre Alemanha e Uruguai, deu de dez na final. Não só pelo número de gols mas também pela ousadia e gana ofensiva dos dois times.
Numa Copa em que a maioria dos astros decepcionou, foi merecido o prêmio da Fifa ao uruguaio Diego Forlán, que aliou valentia, técnica e atrevimento do primeiro ao último minuto em campo.
O gol de Iniesta, que definiu o campeão em arremate com força e raiva, foi quase negação do que o próprio Iniesta e seus companheiros fizeram na Copa: muito toque de bola, muito preciosismo e pouca contundência. Preliminares sem penetração, como alguém já disse. Tudo somado, foi uma Copa dos excessos: excesso de visibilidade (câmeras em todos os cantos), de mídia, de publicidade, de ruído (malditas vuvuzelas). O que faltou, a bem da verdade, foi futebol. Nenhuma seleção convenceu de cabo a rabo. Poucos jogadores se destacaram individualmente. Raras partidas encantaram os espectadores.
O que fica desse imenso carrossel, desse parque globalizado de diversões?
Cada um levará consigo uma Copa, ou a lembrança dela. A minha Copa pessoal de 2010 tem duas vitórias arrasadoras da Alemanha (sobre a Inglaterra e a Argentina), que tive o privilégio de presenciar ao vivo, mas tem sobretudo dois jogos de dramaticidade ímpar: Uruguai x Gana e Espanha x Paraguai. Os poucos minutos que se sucederam ao pênalti cometido pelo uruguaio Suárez, ao defender com a mão em cima da linha aquele que seria o gol da classificação de Gana, valem por uma tragédia grega, por um romance de queda e redenção humana.
Pois, no fundo de tudo, por trás da saturação de imagens, logotipos, orçamentos megalômanos, multidões em frenesi, está o homem, com sua grandeza e miséria, sua pequenez e sua glória.

sábado, 10 de julho de 2010

O RITUAL DA DERROTA

JOSÉ GERALDO COUTO.
No imaginário do futebol, agimos como civilizações ditas primitivas: estamos sempre no mesmo lugar.
TODAS AS derrotas são iguais, certo? Errado. Há derrotas e derrotas, e é preciso aprender com elas. Tanto com as próprias como com as alheias.
Vamos comparar, por exemplo, os reveses que eliminaram o Brasil, o Paraguai e o Uruguai. Contra a Espanha, num confronto flagrantemente desigual, o Paraguai morreu lutando até o último segundo. Contra a Holanda, na semifinal, o Uruguai idem, ibidem.
E o Brasil? Ora, o Brasil. Ao tomar o gol de empate da Holanda, o time se desmanchou, desmoronou, ruiu. Apagão geral. Por que ocorreu isso? Tenho minha hipótese, que não é original, nem nova.
As culturas arcaicas se baseiam numa concepção cíclica do tempo e da vida. É como se o tempo não avançasse de modo linear, mas retornasse eternamente sobre si mesmo, como as estações do ano e as fases da Lua. Seus rituais atualizam, como se fosse a primeira vez, acontecimentos antigos: a criação do mundo, a descoberta do fogo, a coroação do primeiro rei.
No imaginário que envolve o futebol, agimos como essas civilizações ditas primitivas: estamos sempre no mesmo lugar.
Maracanã, 1950. Ao sofrer o gol de empate do Uruguai, o Brasil, que já se via campeão, cai numa prostração geral, segundo todas as testemunhas.
Stade de France, 1998. O Brasil, que depois da vitória épica sobre a Holanda nas semifinais já se via erguendo a taça, descobre que faltou combinar com um último adversário, a França. Abalado pela crise de seu principal craque, o time sucumbe à apatia.
Da onipotência à impotência, sem escalas. O terceiro ritual de atualização dessa síndrome bipolar, não preciso dizer, aconteceu no último dia 2, em Port Elizabeth, África do Sul. A derrota de 2006 para a França não conta, pois naquele momento já não se esperava mais nada daquela seleção.
Mas na África do Sul, sim, esperava-se tudo. A vitória folgada sobre o Chile nos dava embalo. Vamos que vamos, a taça do mundo é nossa. Mas não era. Eternos favoritos, não demoramos para nos julgar campeões por antecipação. De repente, não mais que de repente, vemos que não estamos sozinhos em campo. O rival, aquele (qualquer um) que insistimos em ignorar, também está empenhado em vencer. E às vezes consegue. Simples assim.

domingo, 4 de julho de 2010

A ALEGRIA HA DE VOLTAR

JOSÉ GERALDO COUTO.
Com a derrota, a concepção triste, carrancuda e bélica de futebol de Dunga talvez seja sepultada.
AH, COMO seria fácil tripudiar agora sobre o arrogante, autoritário e malcriado Dunga, que passou os últimos meses atacando os jornalistas e culpando a imprensa por todo e qualquer problema que aparecia ou pudesse vir a aparecer na seleção.
Seria fácil também culpar pela derrota Felipe Melo, que, como observou o colega Rodrigo Bueno, começou a partida como Gérson e terminou como... Felipe Melo.
Tudo isso seria fácil, mas também injusto. Com todos os seus erros -o principal deles foi o de não convocar os jogadores mais talentosos para o meio-campo da seleção-, Dunga montou uma equipe forte e coesa, que era considerada com todos os méritos uma das fortes candidatas ao título.
Ocorre que no futebol existe o tal imponderável, aquela miríade de pequenos acasos e acidentes que pode mudar os rumos de uma partida.
E existe um adversário -fato óbvio, mas do qual frequentemente nos esquecemos. Quantas vezes você já ouviu a frase, de uma empáfia inigualável, "O Brasil só perde para si mesmo"?
Ora, ontem, antes do bate-cabeça de Júlio César e Felipe Melo que gerou o primeiro gol holandês, até eu achei que o jogo estava ganho.
Aquele golzinho "achado" pelos holandeses, que até então não estavam jogando nada, teve um efeito semelhante ao que imagino ter havido no Maracanã em 1950, quando Schiaffino fez o primeiro gol uruguaio.
De repente ficamos todos -jogadores, imprensa, torcida- conscientes da nossa vulnerabilidade. Principalmente, talvez, porque a falha envolvia o até então inexpugnável Júlio César.
O Brasil poderia ter goleado no primeiro tempo e poderia ter sido goleado no segundo.
Futebol tem dessas coisas. O estado de espírito é quase tudo. Quanto a isso, foi estranho, quando a seleção brasileira ainda estava vencendo, ver Dunga esbravejar, chutar o ar, esmurrar o banco de reservas. Ele deve ter passado esse desequilíbrio para seus atletas.
Perder é sempre ruim, mas há um consolo. Com a derrota, a concepção bélica, triste e carrancuda de futebol do treinador talvez seja sepultada, ao menos por um tempo.
Talvez voltemos a ver o futebol como um espetáculo, uma festa, uma alegria.

sábado, 26 de junho de 2010

LÚCIO É O TERMÔMETRO

JOSÉ GERALDO COUTO
O zagueirão, impaciente com a pasmaceira do Brasil, tentou resolver sozinho a parada ontem.
NUNCA FICARAM tão evidentes quanto no jogo de ontem, sobretudo no segundo tempo, as limitações do elenco que Dunga tem em mãos - por escolha dele mesmo, ora, pois, pois.
Sem Kaká e Robinho, o time não perdeu apenas brilho mas também capacidade de criação e de penetração na defesa adversária.
À exceção de Maicon e de Lúcio, ninguém jogou muito bem. Mesmo os jogadores de quem se espera um pouco mais de criatividade, como Luis Fabiano e Daniel Alves, decepcionaram.
De Gilberto Silva, Felipe Melo e Josué não se pode esperar muita coisa nesse departamento. Quando acertam os passes mais simples, de lado, já estamos no lucro.
É aí que a teimosia de Dunga -transformado um tanto afoitamente em herói de boa parcela dos brasileiros por ter peitado a Rede Globo- começa a mostrar seu efeito nocivo.
Por que não foi chamado ao menos um volante mais desenvolto, habilidoso e com capacidade de improviso, como Hernanes?
Por que não se convocou um meia inventivo (como Ronaldinho ou Ganso) como alternativa a Kaká?
O Brasil, sem Kaká e Robinho, e com um Luis Fabiano mais esquentado do que inspirado, tem pouco poder de fogo. Continua difícil de ser batido, mas tampouco incomoda muito o adversário.
Um bom termômetro da falta de criação do time brasileiro é o número de vezes em que Lúcio se arrisca no ataque. O zagueirão brasileiro, impaciente com a pasmaceira do meio para a frente, sai desembestado para tentar resolver sozinho a parada.
Ontem isso aconteceu muitas vezes no segundo tempo, o que anima momentaneamente a torcida, mas é um mau sinal.
As vaias que se ouviram nos últimos minutos da partida e, principalmente, após o apito final foram muito justas. No segundo tempo, o Brasil não jogou nada. E o preocupante foi ouvir Dunga declarar depois que só o Brasil buscou o jogo e que os portugueses limitaram-se a se defender. Ora, no segundo tempo Portugal criou mais chances agudas de gol do que a seleção brasileira.
Quem gosta de futebol bonito teve de esperar algumas horas e ver os golaços de Villa e Iniesta para a Espanha, contra o Chile.