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quinta-feira, 24 de maio de 2012

A PIGARRA TUCANA

Por Saul Leblon, na Carta Maior. 
É  um velho truque do conservadorismo brasileiro reiterado ao longo da história: quando a raiz dos problemas repousa nas entranhas de seu aparelho administrativo ou no descaso histórico com as prioridades da população, desfralde-se a bandeira udenista da sabotagem perpetrada por 'agitadores'. 

A lenga-lenga exala naftalina e remete ao linguajar pré-golpe de 64, mas encontra em São Paulo 71 quilômetros de motivações para ser ressuscitada com regularidade suíça pela pigarra do PSDB. Nessa rede escandalosamente saturada e curta do metrô --inferior a da cidade do México, por exemplo, com 200 kms-- os registros de panes, acidentes e interrupções tem exibido frequência preocupante: só este ano foram 143 ocorrências, média de uma por dia. 
Na 4ª feira, a pigarra conservadora aproveitou a greve salarial dos metroviários para isentar a gestão temerária por trás dos transtornos renitentes. A narrativa é a de um 'jornal da tosse'; gargantas raspando pastilhas Walda emitem denúncias de sabotagem e insinuam 'incêndios do Reichstag' de olho nas eleições municipais. Agitadores conturbam o ambiente da metrópole; não fosse isso, os serviços públicos tucans deslizariam no azeite fino de oliva. 
O 'jornal da tosse' por definição é pouco informativo: faltam-lhe pernas para driblar números adversos. Em 2011, o governador Alckmin investiu R$ 1,2 bi dos R$ 4,5 bilhões previstos para a expansão do metrô e não deixou por menos na ponta ferroviária: as compras de trens caíram à metade.
No conjunto do sistema o recuo do investimento foi da ordem de 20% sobre 2010. A média tucana de expansão dos trilhos tem sido de 2,35 kms/ano. Significa que nas mãos do PSDB a rede precisará de cinco décadas para se equiparar a do México. 
O 'jornal da tosse' passa ao largo dessas minças que fazem do metrô de São Paulo o sistema de transporte mais saturado do mundo, com 11,5 milhões de passageiros/por km. Seu forte é a frase lacerdista. Com a palavra, um virtuose na arte, o comentarista da tosse José Serra, que limpa a garganta, ajeita a gengivite e sapeca: "É muito fácil hoje você paralisar o funcionamento de uma linha qualquer. Uma gravata, uma blusa na porta de uma vagão pode provocar [a paralisação]", disse o ex-governador e pré-candidato do conservadorismo ao comando da capital paulista. "Não digo que todas (as ocorrências) foram sabotagem, mas que algumas delas -- com certeza-- têm a ver com isso".(UOL 23-05).
Depois, com uma tossinha matreira o governador Geraldo Alckmin emenda:  "Ano passado não teve eleição, nem nenhuma greve, este ano tem (eleição e greve). Será que é só coincidência?" (UOL, 23-05). 
O 'jornal da tosse' tem uma visão de mundo que o dispensa de atualizar o noticiário. Em setembro de 2010, em plena eleição presidencial, o metrô de São Paulo registrou uma megapane, seguida de protestos com 17 composições apedrejadas. A pigarra tucana emoldurou então a voz do governador em exercício Alberto Goldman, que não perdoou: 'Puseram uma blusa na porta de um vagão paralisando o sistema;isso cheira a sabotagem'. 
Dias depois, perícia do Instituto de Criminalística comprovou que a pane fora causada pelo colapso técnico do metrô paulistano. 'Mas a blusa estava lá', deu de ombros o pigarrento Goldman. Justiça seja feita, a narrativa tucana tem feito esforços de renovação. Soninha Francine, do PPS, incorporou-se à bancada da tosse desde o episódio de 2010, quando era chefe de campanha de Serra na Internet e comentou assim, pelo twitter, o acidente que deixou 250 mil pessoas a pé: "Metrô de Spaulo tem problemas na proporção direta da proximidade com a eleição. Coincidência? #SABOTAGEM #valetudo #medo”.
Bela pigarreada, Soninha. No engavetamento do último dia 16, quando duas composições colidiram numa pane do comando automático, ela reafirmou a disposição de injetar ar fresco no script udenista e dedilhou toda faceira no twitter: "Metrô caótico, é? Não fosse pela TV e o Twitter, nem saberia. Peguei linha verde e amarela; sussa". Convenhamos, 'sussa', num acidente com 143 feridos é uma pérola. A Soninha achou o tom da coisa: conservadorismo fantasiado de Vila Madalena. Essa pigarra leva jeito.

domingo, 15 de abril de 2012

DILMA PASSA UM SABÃO NO TIO SAM


A participação insípida do presidente dos EUA, Barack Obama, na Cúpula das Américas foi a personificação de um divisor histórico: o império nada tem a dizer ou a propor de relevante aos povos latino-americanos. Em crise, patinando entre a tibiez de uma estratégia econômica que se compraz em mitigar a ortodoxia em casa e uma diplomacia bélica que chafurda na areia movediça de conflitos múltiplos e insolúveis, do Oriente Médio à Coréia, passando pelo embargo à Cuba e querelas com a Venezuela, o poderio ianque naturalmente não está derrotado. Mas é visível a sua exaustão. Obama personifica-a como um Tio Sam cansado da guerra. 
Ainda que seja o melhor que a política norte-americana tem hoje a oferecer, convenhamos, é parcimonioso. Essa percepção de esgotamento extravazou das intervenções do democrata em Cartagena, na Colômbia. A um mosaico de nações que luta contra um legado secular de pobreza, desigualdade e truculênca nas relações com o Big Brother, e ainda assim desponta como um dos horizontes mais dinâmicos da economia mundial, Obama ofereceu a velha e gasta 'cooperação' do mascate viajante. 
Instado a comentar a ascensão da classe média regional e, sobretudo, brasileira, murmurou memorizando as fichas preparadas pelo Departamento de Estado: "Uma classe média próspera e ascendente abre mercado para as nossas empresas. Aparecem novos clientes para comprar ‘Iphones', ‘Ipods, Boeings'..." "Ou Embraer!", atalhou-o a presidenta Dilma Rousseff, num aparte bem-humorado, mas também altivo e ao mesmo tempo revelador da miúda visão política autocentrada do chefe de Estado norte-americano. 
A intervenção brasileira foi ovacionada com risos e palmas pelos demais chefes de Estado presentes. Caberia a Dilma, ainda, contrapor ao caquético catecismo da subordinação comercial o ponto de vista estratégico de uma América Latina cada vez mais encorajada a buscar seu próprio caminho e, mais que isso, definitivamente convencida de que esse caminho de soberania e desenvolvimento não cabe no acostamento estreito destinado historicamente à região pela Casa Branca. Em um improviso mais de uma vez aplaudido, ela despertou o orgulho latino-americano diante de um Obama entre sonolento, ausente e blasé. 
Disse-o com assertiva altivez a Presidenta de todos os brasileiros e, agora também, uma referência aos latino-americanos que já haviam sido cativados por Lula: "As relações assimétricas foram muito negativas para o nosso Continente. Nos últimos 20 anos, tivemos recessão, desemprego e ausência de perspectivas de crescimento. O relacionamento virtuoso é aquele que respeita a soberania dos países e enxerga o crescimento recíproco como essencial. Todos aqui nessa mesa fomos países coloniais, inclusive os Estados Unidos, que pegou em armas para defender sua independência. Todos sabemos que não há diálogo entre desiguais", concluiu Dilma fechando um ciclo da cúpula das Américas.
Ou melhor, anunciando o novo capítulo da luta pelo desenvolvimento continental.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O jornal dos indignados e o ajuste global


O jornal dos indignados e o ajuste global.
A notícia de lançamento do jornal impresso dos indignados espanhóis é o principal sinal de vida do movimento desde a vitória da direita nas eleições de novembro, quando Mariano Rajoy, do PP, obteve 186 cadeiras, de 336, e mais de 44,5% dos votos,contra 28,7% do PSOE. A iniciativa coincide com manifestações de alívio na mídia conservadora diante do que se alardeia como 'sinais' de êxito da estratégia ortodoxa de purgar a crise sem alterar as estruturas que lhe deram origem.
Indicadores de emprego nos EUA (criação de 234 mil vagas em janeiro) sugerem que o pior ficou para trás na maior economia do planeta. Embora o estoque de 12,7 milhões de desempregados norte-americanos possa ter opinião diversa, a 'dinâmica' sancionaria o modelo, diz a narrativa mercadista. A queda dos juros para rolar dívidas públicas encalacradas na zona do euro é outra injeção de oxigênio nessa tese, que abstrai o chão movediço no qual se debatem mais de 16 milhões de desempregados na UE, ademais de famílias falidas e do gargalo do crédito - 'por falta de tomadores solventes', justificou recentemente o presidente do Santander, Emilio Botín.
A coroar esse movimento, da Alemanha chegam notícias de que a popularidade de Angela Merkel , a generala do neoliberalismo de guerra que agora exige um corte adicional de 25% no salário mínimo grego, está em alta. O que essas coisas tem a ver com o jornal dos indignados? Mais do que a leitura seca dos fatos sugere. A dita 'recuperação' decorre menos das virtudes intrínsecas da receita ortodoxa do que de uma acomodação sistêmica, propiciada sobretudo por um fator: a ausência de programa alternativo à esquerda, capaz de unificar e mobilizar forças sociais na sua implementação (um fiapo de luz brilha na candidatura do socialista François Hollande, na França, a conferir-- leia nesta pág).
O fato é que enquanto os executivos do capital não hesitam em cobrar sacrifícios impensáveis em tempos de paz democrática, o que se assiste no campo progressista é um misto de dissipação e recuos. O projeto do jornal impresso dos indignados condensa um pouco das duas coisas. Até onde se sabe, o veículo não terá redação fixa. Grupos rotativos vão se alternar na edição. Militantes de partidos políticos não terão acesso a cargos diretivos.
O conjunto sugere uma rejeição atávica ao poder e aos instrumentos de coordenação indispensáveis a sua conquista. A contradição não é nova; suas consequências são sabidas. Mudar o mundo sem tomar o poder soa lírico. Mas os efeitos da esmagadora receita de ajuste em marcha sugere que a direita não está disposta a patrocinar essa licença poética.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A Grécia funciona como uma espécie de endoscopia em tempo real das consequências sociais e éticas da maior crise capitalista dos últimos 80 anos. A percolação da tragédia na pirâmide social do país escancara os custos humanos de se preservar a riqueza financeira quando o mecanismo que a reproduz já não se sustenta. Esse é o cerne do impasse global que avança para o 4º ano de sacrifícios urbi et orbi.
Mas nada disso parece sensibilizar a mídia demotucana, cuja leitura sugere que o único ponto do planeta que afronta os direitos humanos é uma ilha a 150 quilômetros de sua meca intelectual e política. Por certo não é o que pensam os 26 milhões de desempregados e os 115 milhões de pobres da UE, por exemplo.
Elo mais frágil dessa cadeia, a Grécia emerge como um estuário pedagógico de perdas e danos. No interior do seu metabolismo,um a um, rompem-se os elos mais vulneráveis. A infância em primeiro lugar; dentro dela, as crianças pobres; e a partir daí o essencial, a segurança alimentar. Desde março de 2010, a prioridade de Atenas é adequar o país aos 'programas de ajuste' traduzidos em sucessivos cortes orçamentários.
Os macrodados da agonia gega não sensibilizam mais. Mas há detalhes que ainda desconcertam: o orçamento da educação, por exemplo, sofreu um corte de 60% este ano. Em miúdos: a rede pública de ensino dispõe atualmente de quatro de cada dez euros que recebia em 2010. Não há como preservar o essencial quando 60% do alicerce desaba. Inclua-se no essencial a merenda. Das periferias mais pobres, emergem relatos de desfalecimentos em sala de aula. Mas as agencias de notícias informam que a ministra da Educação, Ana Diamantopulu, apressou-se em desmentir a possibilidade de contemplar todas as famílias carentes com uma bolsa alimentação. Não há verbas.
O desmentido ocorreu simultaneamente ao recuo de Angela Merkel, que pretendia nomear um diretório financeiro para comandar o orçamento grego diretamente de Berlim, de modo a assegurar o pagamento dos credores acima de todas as coisas. "A discussão ficou emocional", justificou-se a premiê que hoje é a voz mais nítida do dinheiro no planeta. O recuo de Merkel não alivia o estômago da infância pobre da Grécia. A próxima cena na tela da endoscopia grega será o efeito do corte previsto no salário mínimo nacional. Com a palavra os paladinos dos direitos humanos em Cuba.

sábado, 21 de janeiro de 2012

O corner conservador em São Paulo.



Em 2004 quando disputou a Prefeitura da cidade, José Serra tinha um índice de rejeição de 11%. Hoje, 35% dos eleitores de São Paulo, segundo o Datafolha, querem vê-lo longe da administração municipal. Há razões para acreditar que o rechaço pode crescer.
Beneficia-se o tucano atualmente do silêncio obsequioso da grande mídia em relação ao seu envolvimento em casos de corrupção fartamente documentados no livro de Amaury Ribeiro Jr, 'A Privataria Tucana'. No horário gratuito, o lacre derrete. Os dados levantados por Amaury colocariam em saia justa não apenas o eventual candidato e a família.
Outros tucanos de alto coturno tem justos motivos para preocupação, razão pela qual muitos fingem apoiar a candidatura Serra, torcendo pela desistência. Em relação a Kassab, o patrimônio eleitoral tampouco encoraja. Em dezembro, segundo o Datafolha, 49% dos eleitores advertiram: não votam em nenhum candidato apoiado pelo alcaide. Outros 40% tinham de sua gestão um veredito taxativo: péssima ou ruim.
As chuvas de verão apenas começaram. O contraste com o cacife de Eduardo Paes, por exemplo --o atual prefeito do Rio é aprovado por 68% dos eleitores, sendo que 46% consideram ótima ou boa sua administração-- deixa no ar a seguinte pergunta: afinal, o que Kassab foi oferecer a Lula, apoio ou encosto?
O corner conservador explica o vale-tudo desordenado para enfrentar o desafio da Cracolândia, agora reforçado pela presença de máquinas e demolições cinematográficas, feitas a toque de caixa. A aposta do conservadorismo parece considerar que uma vitória ali teria visibilidade suficiente para ocultar o seu imenso déficit de nomes, de projeto e de credibilidade na maior cidade do país, vitrine não propriamente confortável de uma irrelevância histórica cada vez mais ostensiva
Parece acreditar também que o eleitor é adestrável, a ponto de aceitar a viseira de uma eleição monotemática do tipo 'nós contra o tráfico e o resto'. A fórmula foi testada antes em equações do tipo 'nós contra o mensalão' e, mais recentemente, no bordão 'nós contra a terrorista herege, a favor de matar criancinhas'. Os resultados falam por si.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

URINANDO SOBRE AS NOSSAS CABEÇAS

Por Saul Leblon, na Carta Maior.
A sensibilidade contemporânea foi em grande parte anestesiada pela naturalização midiática da violência social e política. Imagens e relatos burocratizados descarnam corpos e estatísticas de sua história e humanidade. Intencional ou não, o mecanismo dissolve a fronteira que separa a vítima do algoz. Mesmo o sangue, assim derramado, não deixa espaço para suas causas seminais. Às vezes um ruído cênico sacode a monotonia.
Risos sobre cadáveres, por exemplo. Soldados urinando sobre corpos sem vida. Vozes celebrando a 'chuva dourada' em corpos cinzas. Foi o que fez um vídeo postado no YouTube, na 4ª feira, em que mariners brancos, jovens, alegres aliviam suas bexigas e a humanidade que lhes resta sobre talibãs mortos a seus pés (
http://www.liveleak.com). Um carrinho de pedreiro ao lado dos corpos, despejados com alguma simetria, e a sincronia real ou simulada das bexigas, sugere que a exibição teve o dedo de um cenógrafo cuidadoso.
O virtuosismo amador ganhará seu minuto de glória para sucumbir em seguida no fluxo que já tragou outras cenas de horror. As fotografia vazadas de Abu Ghraib em 2004 e 2006, por exemplo; as fotos reveladas pela Der Spiegel, em março de 2011, em que soldados igualmente jovens, posam sorridentes segurando cabeças de afegães abatidos como se fossem troféus de caça; ou ainda a esquecida humilhação de prisioneiros em uniforme cenoura, encapuzadas e enjaulados de joelhos na base militar dos EUA, em Guantánamo, sem direito a julgamento, sem comprovação de crime, sem prazo para sair do limbo jurídico.
O buraco negro da monotonia ensandecida poderia ser sacudido se o conformismo midiático desse à perversão a sua contrapartida racional. Humanos são feitos de razão e circunstâncias. As circunstâncias desse desfrute de impunidade tem sua origem institucional no arbítrio de um poder que reafirma sistematicamente seu direito imperial de decretar o estado de exceção a um planeta reduzido à condição de fronteira estendida de seus interesses. Foi o que reiterou o simpático Barack Obama na nebulosa dispersão do último dia de 2011.
Horas antes de embarcar de férias ao seu Havaí natal, o democrata eleito com a promessa de fechar Guantánamo, revalidou o Ato de Autorização de Defesa Nacional. Na essência, o mesmo sancionado por Bush, há dez anos, que 'legaliza' a existência do campo de concentração e proíbe o ingresso de seus prisioneiros ao território americano, impedindo-os de desfrutar do direito a habeas corpus, do veto a prisão sem evidencia formal de crime e outros marcos de legalidade que distinguem uma democracia de um estado de exceção.
Dias depois, em cinco de janeiro, o mesmo Obama anunciaria cortes no orçamento da defesa compensados, como advertiu, pela ênfase em operações secretas. Leia-se: atos de sabotagem, guerra cibernética e ataques fulminantes a alvos específicos. A julgar pelos assassinatos em série que já mataram quatro cientistas ligados ao programa nuclear iraniano, vetado pelo Império, a nova doutrina tem eficácia comprovada.
O alívio aterrador de bexigas militares sobre cadáveres talibãs ampara-se em precedente institucional à altura: o jorro contínuo de cinismo institucional despejado pela grande bexiga do norte nas nossas cabeças.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O CORAÇÃO DA CRISE

O mundo está saindo do buraco ou a crise toma fôlego para mergulhar no porão do abismo? Há números e argumentos para cada gosto. Até geograficamente a dualidade se oferece na contraposição entre uma economia americana menos anêmica e uma Europa que se desmancha sob a ação de solventes financeiros e políticos. George Soros adverte: a lixadeira do arrocho fiscal vai corroer o que sobrou em camadas de recessão e deflação de ativos. No Brasil, respeitados economistas já falam em um ciclo internacional de pelo menos dez anos: 'A Grande Depressão'.
Como os governos podem reagir ao infortúnio? Decifrar a dominância financeira que gerou a crise e impede a sua superação é o desafio encarado por um grupo de economistas da Unicamp (Ricardo de Medeiros Carneiro; Pedro Rossi; Marcos Vinicius Chiliatto-Leite; Guilherme Santos Mello). Eles se debruçaram sobre o coração do capitalismo nos dias que correm: o mercado de derivativos. Num paper para debate ('A quarta dimensão: os derivativos em um capitalismo com dominância financeira') o grupo radiografa a singularidade teórica dessa roleta e dimensiona o tamanho da encrenca: US$ 600 trilhões, dez vezes o PIB mundial; 35 vezes a massa de ações negociadas em bolsas.
1. A característica fundamental desse mercado é que ele não se funda na propriedade jurídica dos bens, mas através de uma teia de relações financeiras apropria-se dos direitos sobre o desempenho dos ativos.
2. Tudo se passa, de certo modo, como se as relações de propriedade lhe fossem indiferentes, desde que resguardadas as condições de desregulação das finanças, com a garantia da livre circulação de capitais.
3. Um traço da natureza parasitária e especulativa dessa etapa é a sua capacidade de inserir-se no processo de acumulação sem a necessidade de um investimento inicial no ambiente físico da economia. Salta-se a trindade da acumulação (D-M-D), mas também representa um passo além da financeirização originalmente expressa na forma D-D (valorização via jogo de ações, por exemplo).
4. Na medida em que deslocam seu foco da esfera patrimonial para a do rendimento que os ativos propiciam, os derivativos levam o processo de descolamento da economia real ao ápice.
5. Nos contratos de derivativos fundem-se o dinheiro e o juro intrínseco a cada etapa da operação capitalista, adicionando-se um ganho de velocidade e mobilidade que atende à busca permanente de proteção face às incertezas inerentes à propriedade e valorização da riqueza no mercado capitalista.
6. A fuga da incerteza está presente em toda a história do capital. Mas é somente quando o sistema financeiro se descola dos controles do Estado, graças a uma ordem política que delibera nesse sentido, a engrenagem se emancipa.
7. A partir de então, um véu de opacidade recobre os verdadeiros protagonistas das gigantescas operações de transferência de riqueza que o mercado de derivativos promove em ambientes assépticos, dentro de ternos finos, escritórios de luxo e telas de cristal líquido high tec. A acumulação do capital fictício ganha autonomia extrema, integrando riscos e mercados, reduzindo tudo a commodities, inclusive moedas nacionais flanqueadas a partir da submissão de governos aos mandamentos da desregulação financeira.
8. Um jornalismo especializado, rudimentar, de um modo geral no conteúdo, mas prestativo na abordagem, impermeabiliza tudo com uma camada de verniz naval de legitimidade e eficiência. Ao mesmo tempo desqualifica-se a crítica heterodoxa. Coube a esse jornalismo distinguir Celso Furtado, o maior economista brasileiro, com a alcunha de jurássico. Fecha-se um círculo de dominação e legitimação de um poder que os economistas da Unicamp denominam como a 'quarta dimensão' das relações capitalistas, sendo as anteriores as relações de subsistência; a extração da mais valia e o dinheiro a juros ou financeirização da riqueza patrimonial.
9. O lucro de cassino das operações com derivativos deriva de apostas sobre a variação de desempenho de um ativo que não se possui.
10. Mas os ganhos na roleta condicionam a formação dos preços a vista pelo seu volume descomunal e agressiva capacidade de interligar planetariamente diferentes mercados.
11. Na evolução do processo capitalista, o cálculo econômico é progressivamente condicionado, por exemplo, pelo exercício de direitos financeiros sobre o resultado de uma empresa. A supremacia das exigências de retorno (crescentes) impostas pelos acionistas, fundos e investidores de um modo geral transmite-se em cadeia para o pátio da fábrica e daí para as relações trabalhista, para os valores sociais e também para o meio ambiente. Cortes de custos; intensificação produtiva; maximização de resultados extrapolam quaisquer possibilidade de convívio sustentável entre humanos e entre eles e a natureza.
12. A dinâmica dos derivativos determina e condiciona o custo e a expansão do crédito; maximiza a especulação com títulos de seguro contra calotes de dívidas soberanas; influenciaa formação da taxa de câmbio pelo canal especulativo do carry trade (lucro com diferenciais de juros entre duas economias distintas); distorce as cotações de commodities, exacerbando tendências e volatilidade.
13. Tudo se torna perigosamente pró-cíclico, ao mesmo tempo em que as defesas do Estado recuam e a capacidade política e operacional de reação às crises definha.
14. O mercado de derivativos se sobrepõe aos demais na medida em que consegue se impor como uma esfera de poder e riqueza relativamente desconectada dos fundamentos e, não raro a contrapelo da economia real, que influencia e distorce, sem se dar ao trabalho de pisar no chão firme da fábrica ou assumir diretamente a aspereza da luta de classes. .
Sua hora da verdade fica por conta das crises. A crise põe em xeque a desregulação das finanças, a vulnerabilidade dos Estados, o crédito irresponsável e o endividamento temerário. É portanto uma crise dos próprios fundamentos da lógica hegemônica dos mercados derivativos que todavia subsistem como força política com músculos para disputar o passo seguinte da história. A ver.

domingo, 1 de janeiro de 2012

O REI ESTÁ NU

2011-2012: Foi a pobreza que gerou a crise, não o inverso.



Por Saul Leblon, na Carta Maior.
Estender a jornada de trabalho, sem contrapartida salarial, é a contribuição que Portugal e Espanha oferecem ao mundo no apagar das luzes de 2011. Uma alternativa neoliberal ao colapso do neoliberalismo. Antes de dar a isso o epíteto de uma excrescência conservadora talvez fosse mais justo creditar a Passos Coelho e a Mariano Rajoy o benefício da coerência. Nada mais fazem os dirigentes ibéricos do que radicalizar os fatores que deram origem ao colapso mundial, assentado, entre outros pilares, em três décadas de arrocho sobre o rendimento do trabalho nas principais economias ricas, associado a mimos tributários que promoveram o fastígio dos endinheirados.
Para clarear as coisas: não foi a crise que gerou o arrocho e a pobreza em desfile no planeta, mas sim o arrocho e a desigualdade neoliberal que conduziram ao desfecho explosivo, exacerbado agora por direitistas aplicados, que dobram a aposta no veneno. A ordem dos fatores altera a agenda futuro: a crise não é apenas financeira; controlar as finanças desreguladas é um pedaço do caminho para controlar a redistribuição do excedente econômico, ferozmente concentrado nas últimas décadas na base do morde e assopra --arrocho de um lado, crédito e endividamento suicida do outro, falindo famílias e governos.
Vista desse ângulo a equação contesta, por exemplo, o jogral do conservadorismo nativo que qualifica como 'temerário' o reajuste de 14% (9% reais) para o salário mínimo em 2012, como a sugerir, à moda Rajoy e Passos Coelho, que a 'gastança' (fiscal/salarial) estaria na origem da crise, sendo a hora da verdade sinônimo de hora do arrocho. Ao injetar R$ 47 bi adicionais à demanda interna, o governo brasileiro na verdade reforça as imunidades do país em relação às origens da crise mundial.Em boa parte assentada no definhamento do poder de compra dos assalariados que se encontra hoje comprimido entre os menores da história em muitos países.
O aumento do salário mínimo, ao contrário, coloca o poder de compra de 48 milhões de brasileiros no nível mais alto dos últimos 30 anos. E isso gera encadeamentos produtivos e fiscais virtuosos, de que se ressentem os países ricos nesse momento. A 'gastança' de R$ 19,8 bi com os 20 milhões de aposentados beneficiados pelo reajuste do mínimo, por exemplo, retornará aos cofres públicos na forma de R$ 22,9 bilhões em impostos.Cálculos do Dieese.
O que fizeram os governantes das economias desenvolvidas desde os anos 90 - com os aplausos obsequiosos do dispositivo midiático demotucano - foi lubrificar uma espiral inversa. Desde 2000, a classe média americana dotada de diploma universitário, não tem reajuste salarial. Mais de 46 milhões de norte-americanos vivem hoje na pobreza, constituindo-se na taxa mais elevada dos últimos 17 anos: 15,1% .
Em termos absolutos, o contingente atual de pobres é o maior desde que Census Bureau começou a elaborar as estatísticas americanas, há 52 anos. Síntese do desmonte social acionado pelo neoliberalismo, o número de norte-americanos sem seguro-saúde é da ordem de 50 milhões de pessoas e tudo isso antecede a crise, que agravou o esferalamento do way of life elevando a 46 milhões o total de desempregados, sobre uma base de dissolução pré-existente.
A receita não é privilégio norte-americano. Um quarto de todos os lares da Ingaterra e País de Gales, cerca de 20 milhões de pessoas, vivem em estado de pobreza atualmente, um sólido legado de sucessivos governos neoliberais, desde Tatcher, passando por Blair até chegar no atual 'engomadinho' atual, como diz Luiz Gonzaga Belluzzo. Cameron cuida de jogar a pá de cal naquela que já foi a rede de serviços sociais mais equipada da Europa. Pesquisas indicam que em pleno inverno, um número crescente de famílias inglesas vive o pior quadro de aperto financeiro desde a II Grande Guerra. E um relatório recente da OCDE - não propriamente uma trincheira progressista - sugestivamente intitulado "Divididos estamos: porque aumenta a desigualdade”, indica que “a renda média de 10% das pessoas mais ricas representa nove vezes a renda dos 10% mais pobres” nos países (ricos, em sua maioria) que integram esta organização.
A distância aumenta em dez para um na Grã-Bretanha, Itália e Coreia do Sul; chega a quatorze para um em Israel, Estados Unidos e Turquia, diz o informe. Os dados sobre os Estados Unidos mostram que “a renda por família, após o pagamento de impostos, mais do que dobrou entre 1979 e 2007, entre o 1% mais rico. Na fatia dos 20% mais pobres, caiu de 7% para 5% no mesmo período.
“Quando se fala dos mais ricos entre os ricos estamos dizendo que há espaço para aumentar os impostos”, afirmou Angel Gurria, o secretário geral da organização, numa menção indireta às escandalosas isenções tributárias acumuladas pelos endinheirados desde o governo Reagan, nos anos 80.
Foi sobre essa base de renda e trabalho esfacelados simultaneamente pela transferências de empregos e empresas às 'oficinas asiáticas', que se instalou o colapso neoliberal. A asfixia desse arranjo capitalista só não explodiu antes, graças à válvula de escape do endividamento maciço de governos e famílias, que atingiu patamares de virtuosismo insustentável na bolha imobiliária norte-americana, espoleta da crise mundial de 2008.
Quando as subprimes gritaram --'o rei está nu' todo o criativo edifício de uma supremacia financeira baseada no crédito sem poupança (porque sem empregos, sem renda e sem receita fiscal compatível) veio abaixo.
A tentativa atual de 'limpar o rescaldo' do desabamento removendo apenas seus gargalos financeiros --ou seja, salvando os bancos e arrochando ainda mais os assalariados e os pobres-- é mais uma forma de perpetuar a essência da crise do que de enfrentar as suas causas seminais. O jogo é mais pesado. Controlar as finanças desreguladas é sum pedaço do caminho para controlar a redistribuição do excedente econômico, ferozmente concentrado nas últimas décadas, na base do morde e assopra --arrocho de um lado, crédito do outro. Preservar o modelo com arrocho de crédito, como se tenta, requer uma carnificina econômica e social. A julgar pelas iniciativas dos governantes portugueses e espanhóis, a direita está disposta a movimentar o açougue em 2012. A ver.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Por Saul Leblon, na Carta Maior.
Em 12 meses até novembro, R$ 137,6 bilhões em receitas fiscais foram desviados de projetos prementes na área social e de infraestrutura e canalizados ao pagamento de juros da dívida pública brasileira. O valor equivale a 3,34% do PIB previsto para 2011. Não é tudo; a despesa efetiva com os rentistas é bem maior.
A economia feita pelas três esferas de governo até agora, mais as estatais, cobre apenas uma parte do serviço devido, da ordem de R$ 240 bilhões este ano, sendo o restante incorporado ao saldo principal, elevando-o. Em 2011, essa 'capitalização' (deles) acrescentará R$ 110 bilhões à dívida, totalizando o equivalente a 5,6% do PIB em juros.
A sangria se consuma no orçamento federal que em 2012 destinará 47,2% do total, ou seja, mais de R$ 1 trilhão, ao pagamento de juros e amortizações da dívida pública. Consolida-se assim um caso clássico de captura do Estado pela lógica da servidão rentista na qual quanto mais se paga, mais se deve.
Em dezembro de 2009 a dívida interna pública era de R$ 1,39 trilhão; em dezembro de 2010 havia saltado para R$ 1,6 trilhão; em 2011 deve passar de R$ 1,7 trilhão. De janeiro a novembro ela cresceu R$ 148,67 bilhões. O valor é R$ 53,5 bilhões superior ao total dos investimentos realizados no período pela União e o conjunto das 73 estatais brasileiras, que cairam 3,2% em relação a 2010.
É tristemente forçoso lembrar que enquanto a despesa com os rentistas esfarela 5,6% do PIB em juros, o orçamento federal para a saúde em 2012 será da ordem de R$ 90 bilhões (uns 3,5% do PIB); o SUS terá R$ 80 bilhões para atender 146 milhões de pessoas. E o valor aplicado numa área crucial como a educação gira em torno de 3% (NR: 3% do orçamento federal para 2012; somadas as tres esferas, municipal, estadual e federal, chega a 5% do PIB). Discute-se se há 'margem' fiscal para elevar isso a 7% ou 8% --em uma década. Os movimentos sociais e a UNE defrendem 10% do PIB.
Visto à distancia, o naufrágio europeu permite enxergar melhor o absurdo que consiste em colocar o Estado e a sociedade a serviço das finanças e não o contrário.
Sem uma política corajosa de corte na ração rentista o Brasil cruzará décadas apagando incêndios no combate à pobreza e a miséria que enredam a vida de 27% da população e às deficiências de infraestrutura social e logística. É melhor que a regressividade demotucana. Mas insuficiente para embalar a travessia histórica da injustiça e do subdesenvolvido para uma Nação rica, compartilhada por todo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O DESAMPARO . . .

Como método de dominação.



Por Saul Leblon, na Carta Maior 
As manifestações de pesar dos norte-coreanos pela morte do dirigente Kin Jong-il chocam pelo déficit de democracia implícito em cenas que lembram rituais de seitas obscurantistas, verdadeiras máquinas de expropriação do discernimento humano lubrificadas para subjugar e iludir.
O intercurso entre métodos religiosos e autocráticos não é novo. O que talvez exacerbe a nossa sensibilidade é o contraste entre essas imagens e a natureza predominantemente asséptica e gerencial do poder e da política sob a supremacia das finanças desreguladas. Há barbárie nas duas pontas.
Quem sentiria sincero pesar pelo falecimento de um desses gerentes de aluguel, que se relacionam com o povo e a história com a mesma humanidade que um software cuida do fluxo de peças de um almoxarifado? Política é economia concentrada. Mas com uma pequena diferença: os impulsos autossuficientes e destrutivos que caracterizam o regime de produção de mercadorias tem nela um filtro de carne, osso e discernimento histórico.
Por isso, a política de um modo geral, mas sobretudo aquela encarnada em valores humanistas, incomoda cada vez mais ao dinheiro e aos endinheirados, cumprindo o dispositivo midiático a tarefa de desqualificá-la com estigmas de motivação autoexplicativa, ao mesmo tempo em que louva tecnocratas a serviço dos mercados.
Às vezes, a truculência do jogo desconcerta os próprios protagonistas incumbidos de administrá-lo com a frieza de um azulejo branco de banheiro. O curto-circuito não muda o placar, mas é ilustrativo da massa de sofrimento e arbítrio mobilizada para a preservação de um sistema que, sob a dominância financeira, consolidou-se como uma engrenagem completamente hostil aos valores da vida e da civilização.
Encarregada em recente pacote do tecnocrata Mario Monti, de explicar o arrocho sobre idosos e aposentados na Itália, a ministra do Trabalho, Elsa Fornero, não conseguiu adicionar argumentos à palavra 'sacrifício', que as lagrimas a impediram de pronunciar. Seu choro e as lágrimas vertidas por Kin Jong refletem a mesma orfandade diante de sistemas que massacram a existência humana, oprimindo-a até consumar o desamparo absoluto como método de dominação.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

TAHRIR

A praça política mais eficaz do mundo.

A praça Tahrir, no centro do Cairo, sugere uma dessas rotatórias inóspitas,como tantas outras, destinadas a ordenar o fluxo do trânsito nas grandes metrópoles subdesenvolvidas, pouco ou nada pensadas para o convívio humano. Mas desde fevereiro deste ano, quando foi palco de 18 dias consecutivos de protestos gigantescos que derrubaram o ditador amigo das potências, Hosni Mubarak, a praça Tahrir ingressou definitivamente no panteão dos símbolos libertários do nosso tempo.
Na sua textura inóspita o povo egípcio plantou uma das mais vigorosas sementes da primavera política que sacode o norte africano e todo o Oriente Médio. Desde a última 6ª feira, a semeadura tem sido regada a sangue outra vez (
veja as cenas).
Novos confrontos, a partir de Tahrir, espalham-se por todo o país com um saldo devastador nas últimas 72 horas: 33 mortos pela repressão do Exército; 1.500 feridos e a renúncia do gabinete civil que desde a queda de Mubarak ordena a transição democrática, subordinado à mão dura militar.
A uma semana das eleições parlamentares, a sociedade egípcia está farta da tutela que pretende se sobrepor à nova institucionalidade, esvaziando-a na prática, a exemplo do que os mercados financeiros fazem com as democracias maduras de uma Europa em transe. No Egito, o definhamento opera pelo canal do adiamento das eleições presidenciais; na zona do euro, com a captura do Estado pela lógica financeiro, tornando ornamental a rotatividade do poder.
A principal singularidade egípcia está na eficácia das grandes mobilizações de massa. Armadas de alvos claros, cirúrgicos e avessos às tergiversações conservadoras --mas permeados de intensa capilaridade junto a organizações civis e partidos políticos, ao contrário do mito da 'revolução digital'-- , elas arremetem contra o despotismo de plantão com uma contundência pavorosa para os seus ocupantes. Foi assim que Tahrir derrubou Mubarak em 11 de fevereiro, após 18 dias de protestos que custaram 300 mortos e cinco mil feridos.
É assim que ela se volta agora contra o cabresto militar, unificando partidos e vozes em uma exigência clara, incontornável, de rápida aderência popular: fim da tutela --ou como se ouve em Tahrir, 'deixem-nos respirar; deixem-nos viver'. A articulação e a objetividade das jornadas nascidas na praça política mais eficaz do mundo talvez tenham algo a ensinar aos indignados do resto do planeta, ainda carentes da mesma habilidade para traduzir o descontentamento social em alvos progressivos, práticos, de precisão egípcia.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O RAPTO DA DEMOCRACIA

Por Saul Leblon, na Carta Maior.
 A Europa assiste nesse momento, com anuência catatônica dos partidos e da mídia, à ação desmedida e auto-atribuída dos mercados financeiros de nomear e demitir governos, impondo-lhes metas e políticas que reduzem o Estado, a economia e a sociedade a meros dentes da engrenagem reprodutora do capital a juro.
No Brasil, como demonstra a editora de Política de Carta Maior, Maria Inês Nassif, em análise nesta pág., é a mídia que se arroga, de forma mais ostensiva, o papel desse poder paralelo, avocando-se a prerrogativa de inocentar e condenar ministros de Estado, a ponto de tornar o governo Dilma, perigosamente, refém de seus interesses e interditos.
Na Europa, de forma desconcertante, as causas da crise são omitidas na dissecação de um colapso cuja origem e manutenção remete ao poder desmedido das finanças desreguladas. Sua supremacia monopolizou a tal ponto a agenda política que hoje encara-se como inevitável responder ao colapso neoliberal com doses adicionais de seu veneno.
A mesma lógica auto-propelida alimenta a eterna pauta da corrupção política no Brasil. A ausência de uma presença estatal forte no financiamento das campanhas eleitorais torna partidos, eleitores e eleitos reféns do dinheiro privado. A mesma mídia que usurpa espaços e prerrogativas das instituições democráticas, permite-se, porém, rebaixar a discussão das alternativas a essa distorção para reiterar seu papel auto-atribuído de juiz e jurado das escolhas da sociedade.
Nos dois casos um poder coercitivo ilegítimo submete a cidadania a desígnios sedimentados à margem do discernimento social. Em nome da eficiência, na Europa, e da transparência, no Brasil, comete-se o rapto da democracia para instituir uma chantagem permanente e ardilosa contra a sociedade. A lição européia é clara: todos os governantes que cederam a essa lógica foram engolidos por ela.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Bolsonaro tem sido tratado pela mídia conservadora como uma excrescência. Um ponto fora da curva. Um palavrão deselegante na narrativa garbosa do conservadorismo nativo em nosso tempo. De fato, o deputado professa de forma truculenta um relicário de anticomunismo, racismo, elitismo, defesa da tortura e da pena de morte. Ademais, vocaliza alinhamentos nada exóticos em relação a outros temas, quando recebe menos espaço na mídia, mas cumpre igual papel de perfilar entre os que erguem pontes de atualização do programa e dos interesses que produziram 1964. O artigo é de Saul Leblon.