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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

APERTEM OS CINTOS

O 171 sumiu com a grana!
Por Lucio de Castro
A história não chega a ser nova, nem o golpe. Mudaram os personagens e as vítimas. Dessa vez, atletas de ponta do esporte brasileiro. Cabeças coroadas das quadras, campos, arenas e estádios... Gente que perdeu muita grana com um Madoff tupiniquim. A operação é simples: o atleta ganha uma premiação ou tem rendimento obtido no exterior. Para fugir das altas taxações do leão brazuca, confia em doleiro para trazer o dinheiro, ou deixa essa prata lá fora, sob os cuidados desse sujeito. Durante anos alguns atletas confiaram no sujeito. E recentemente viram o mundo desabar diante do aviso do 171: “não existe mais dinheiro lá fora”.
Segundo o sujeito, um sócio gringo dele sumiu com o dinheiro. Para muitos, o 171 tupiniquim pegava o dinheiro da turma daqui e ficava aplicando. Perdeu alguma grana, embolsou outra, e simplesmente avisou que já era: o dinheiro já não existia mais. Babou, dançou, foi oló, bateu caçuleta, tomou doril, escafedeu-se. Como queira, mas o fato é que o faz me rir bateu asas da conta de alguns...!
O aviso vem acompanhado do cínico lembrete: “não adianta correr atrás. Pode ir na delegacia, na Receita, na PF se quiser. Não vai adiantar nada... ”. E tem razão nesse aspecto. Esse dinheiro não tem comprovação de entrada ou saída. E acima de tudo, quem se valeu dos serviços do gente boa sabe que incorreu em crime fiscal, portanto não irá se denunciar.
Recentemente contei na Revista da ESPN a história do buona gente que sumiu com o dinheiro (muita grana...) de cabeça coroada e cartolada do esporte. Na verdade, a história aqui é diferente. Na reportagem da revista, o dinheiro tomado fora obtido de forma ilícita, (título da matéria: “Cem Anos de Perdão”). No caso atual em questão, o dinheiro foi obtido licitamente, com suor, esforço e trabalho. O erro dos atletas foi no envio ou retirada da grana através do sujeito, sem passar pelas instituições brasileiras e consequentemente, sem tributação. O tal gente boa fazia essa operação há mais de 10 anos para vários do esporte e por isso tinha a confiança de muitos atletas.
O caso ficará por isso mesmo. Nenhum atleta aceita falar em on, claro, e nem irá falar ou denunciar o tal 171. E cada um dos atletas lesados vai contabilizar seus prejuízos. Por isso é um crime quase perfeito: não irá vazar porque quem está errado não pode denunciar na imprensa ou na polícia. E também não existe prova.
No caso de atletas em começo de carreira, é menos cruel porque sempre existe a chance de refazer a vida, ganhar mais pela frente. Mas no caso de alguns que estão deixando a carreira ou deixaram há pouco, o buraco é mais embaixo e muito mais dramático. Moral da história: nunca se confia num 171.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Por Lucio de Castro.
Ecos de uma epopeia e o futebol

Solidários, dramáticos, exagerados, viscerais... Para o bem ou para o mal, somos assim. Para o bem ou para mal, somos latino-americanos. “Com muito orgulho”, parafraseando a chata canção-chiclete.
Darcy Ribeiro dizia que “somos a nova Roma”, mas muito melhores, tamanha a potencialidade da região. Pensava acima de tudo no capital humano da América Latina.
A semana que passou deixou isso tudo mais latente. Dias daqueles que mudam a história.
Não há como ter dúvidas: o episódio dos mineiros chilenos é um daqueles marcos que seguirão por muito tempo. Uma epopeia. Uma aventura ao desconhecido, quase a nossa Lusíadas. E como qualquer coisa que diz respeito aos do lado de baixo do Equador, cercado de categorias religiosas, fé e muito futebol, que esteve presente a cada dia, momento e personagem dessa epopeia.
Que ninguém menospreze quando se fala no episódio como algo capaz de remexer a história. Medicina, psicologia, tecnologia, gestão de risco, jornalismo, televisão, todas essas vertentes irão lançar olhares minuciosos sobre os 33 mineiros do Atacama e suas espetaculares histórias para nortear o que virá.
Mais uma vez lembrei de Saint-Exupery. No seu “Terra dos Homens”, ao descrever o sobrevivente de um acidente de avião depois de dias na neve, lutando pela vida nas piores condições, escreveu uma frase definitiva sobre o ser humano: "Nenhum bicho conseguiria, só um homem sobreviveria...". Torço para que o tempo e que vem por aí não destrua a nobreza daqueles homens e a solidariedade existente entre eles. Sabemos que é difícil. “A força da grana que ergue e destroi coisas belas” diria Caetano.
Em muito breve, a história dos mineiros estará nas convenções de empresas, nas telas e...nos vestiários de futebol, nas palestras motivacionais...
Muito já se falou a essa altura sobre o épico do episódio. Por isso, vou escolher e forçar um pouco do nosso viés, puxar um pouco essa sardinha pro futebol. Pois quando essa história for recontada, e não faltarão plataformas para tal, o futebol vai estar em algum compartimento muito especial.
Como não poderia deixar de ser, sendo uma história latino-americana, como dizíamos, o futebol foi parte fundamental de tudo. Esteve presente como bálsamo e ópio dos 33 para sobreviverem e enfrentarem as provações. Resultados de futebol eram repassados para passarem o tempo. Camisas do Universidad estavam entre os mineiros na hora da volta ao mundo, assim como do Colo Colo. Um dos únicos motivos de briga não foi a escassa porção de atum de uma colherada para cada 48 horas nos 17 primeiros dias mas sim as duas camisas do Real Madrid entregues. Como dividir? Depois vieram mais para acalmar as almas!
Um dos mineiros era um ex-jogador, Franklin Lobo, ex-parceiro de Zamorano. Saiu fazendo embaixadas. E uma das histórias mais impressionantes foi o mágico reencontro entre o mineiro e o resgatista Manuel González. Três décadas depois de se enfrentarem em um campo de futebol, (o resgatista pelo O'Higgins e o mineiro pelo Cobresal, no dia 21 de julho de 1985, no estádio El Teniente de Rancágua), estavam ali, frente a frente, desta vez pelo mesmo time.
Uma das primeiras coisas ditas pelo presidente foi o convite para uma partida de futebol. E até aqui o convite que parece ter encantado ao time dos mineiros foi o do Real Madrid para que assistam a um jogo no Bernabeu.
Somos assim. Solidários, dramáticos, exagerados, viscerais...E com o futebol como uma das partes mais marcantes de nossas vidas, capaz de explicar o mundo e traço definitivo de cultura. Que os 33 sobrevivam ao moedor de almas e vidas de nossos dias. Por fim, uma dica de algo não menos épico sobre uma epopeia semelhante: o documentário “Venho de um avião que caiu nas montanhas”, sobre o desastre de 1972, nos Andes. Espetacular

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

MI BUENOS GAYRES QUERIDOS

O fim do JB e nosso Buena Vista, Fredgol e os "Manjas".
Por Lúcio de Castro.
O jornalismo também tem seus momentos “Tropa de Elite”. Se missão dada é missão cumprida, pauta recebida é pauta feita. É do jogo. Mas tenho a velha mania de preferir fazer as coisas por e com prazer. Então algumas pautas na profissão são estiva pesada, suor puro. Outras são como uma benção, presente que inunda seu cotidiano. Nos últimos dias cai com uma dessas. Movido pela tragédia que é o fim do Jornal do Brasil em sua versão impressa (ou seja, o seu fim), acabei diante de um presente. Contar um pouco dessa história, ouvir os personagens daquele grande JB, que, se me permite o poeta, é agora apenas uma foto na parede.
Cada entrevista é uma aula. No olhar de cada entrevistado, a certeza de que combateram o bom combate, com dignidade. Apesar de todos os pesares, de todos e tantos que ficaram no caminho, de todos os tropeços, de todos os preços que pagaram na vida para deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz. Olham para trás e podem se orgulhar do que fizeram: história. Tenho tido dias intensos por isso, um turbilhão de sentimentos, emoções e saudades de um tempo que não vivi. Quer dizer, pelo menos em plenitude...Invariavelmente, os depoimentos tem sido marcados por grande emoção. Em alguns momentos me lembrei do Buena Vista, aqueles guardiões da história perpetuando suas memórias. Pretensiosamente, em alguns momentos chego a achar que estou fazendo algo pra ser guardado. Não por mim, claro, mas por tudo que está sendo gravado. Alguns depoimentos colhidos, histórias ouvidas, e me lembro também de Roberto Retamar, historiador cubano, contemporâneo do Che. Assim definiu o companheiro: Pois é exatamente assim que tenho saído de cada gravação. Quando penso em tantas coisas desse ofício nos dias de hoje, a banalidade, a leviandade, a falta de caráter, e escuto aquelas histórias de resistência, de coragem, nada mais me ocorre além de Roberto Retamar, que tive a honra de conhecer um dia.
“...É o nosso orgulho e nossa vergonha-porque nos lembra a todo instante o que pode ser um homem e o que somos os homens”.
É claro que existem as exceções de sempre e as coisas boas sendo produzidas por aí. Mas é impossível não pensar em Retamar quando escuto aquelas histórias e penso na leviandade de nossos dias que vai se transformando em regra por aí. Aquilo que um dia chamei aqui de “Jornalismo-Manja”. Daqueles se