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domingo, 24 de outubro de 2010

UMA QUESTÃO DE VIDA

EMÍLIO ODEBRECHT.
A melhor medida da mudança da consciência nacional quanto ao saneamento básico é a posição de destaque que o tema ocupa nos planos de governo dos dois candidatos que concorrem à Presidência da República.
A disposição que ambos revelaram de enfrentar o quadro calamitoso que o censo do IBGE vem confirmando indica o tratamento prioritário que lhe será dado no próximo governo, não importa quem seja o vitorioso na eleição.
Saneamento é o investimento preventivo de melhor custo-benefício para a saúde pública, razão pela qual deveria fazer parte do orçamento do Ministério da Saúde.
Tanto quanto educação, tecnologia e algumas outras áreas que são bases imperativas para a real transformação qualitativa do país, investir em saneamento, com determinação política, é um fator de desenvolvimento e de crescimento sustentável.
Para que se assegure em 15 anos o acesso de todos os brasileiros a água tratada e coleta de esgotos são necessários investimentos da ordem de R$ 13,5 bilhões/ano.
A cifra corresponde a cerca de 0,5% do PIB. Logo, é uma meta viável, principalmente depois que a Lei do Saneamento (Lei 11.445, de 2007) estabeleceu as diretrizes nacionais para o setor.
O Brasil passou pelo processo de concessões federais nas áreas de telecomunicações, transporte e energia e as empresas contribuíram decisivamente para a melhoria dos serviços. Os governadores seguiram o percurso desbravado e o capital privado tem complementado os recursos na esfera estadual, mediante uma gama de modelos de cooperação, concessões e parcerias.
No que se refere ao saneamento, o poder público municipal também é determinante e, hoje, as prefeituras e a iniciativa privada, associadas, têm a chance de fazer uso de diferentes mecanismos para a universalização do atendimento à população.
Do acesso ao orçamento público destinado ao PAC a uma grande variedade de modalidades contratuais, como concessões plenas e parciais, PPPs, subconcessões, locações de ativo e outras alternativas com marcos regulatórios definidos e testados, as diversas formas de aliança para a realização dos investimentos são meios que servem para promover o resgate de um passivo social que ainda persiste entre nós e para o restabelecimento, pela demonstração de respeito, da dignidade de cada cidadão.
Cabe, portanto, aos municípios, cada qual à sua maneira e dentro de sua realidade local, a tarefa de conjugar o ambiente jurídico institucional favorável, a prioridade do próximo presidente e o interesse da iniciativa privada para que o Brasil avance.
Porque saneamento básico é uma questão de vida.

domingo, 1 de agosto de 2010

LIÇÕES PARA NÃO ESQUECER

EMÍLIO ODEBRECHT.
Em uma noite de semanas atrás, surpreso com a avalanche de notícias sobre dois casos policiais (o assassinato de uma jovem advogada em São Paulo e o suposto envolvimento do goleiro Bruno do Flamengo em episódio ainda não esclarecido pela polícia), decidi cronometrar o espaço que lhes seria dedicado nos jornais de TVs abertas e a cabo: foi nada menos do que 57% do tempo daqueles que pude assistir.
Mas o que me chamou a atenção não foi apenas a quantidade de tempo usada com os dois assuntos durante vários dias, mas principalmente a abordagem da cobertura jornalística, marcada aparentemente pelo compromisso exclusivo com os índices de audiência.
Não tenho dúvidas de que são acontecimentos que mexem com a opinião pública e que cabe à imprensa selecionar e noticiar os fatos que impactam nosso dia-a-dia. Porém, o papel adicional que a televisão pode exercer de contribuir para a formação das pessoas em momentos como este não pode ser esquecido.
Fiquei com a sensação de que, refém dos índices de audiência, a televisão acaba se deixando dominar por notícias dessa natureza. Em quase sua totalidade, o noticiário concentrou-se na exibição e no relato de detalhes que atraem uma certa curiosidade mórbida dos espectadores, sem buscar no bojo das tragédias as profundas lições que deixam e que servem para educar para a vida as novas gerações. Na cobertura jornalística dos dois fatos o tratamento tem sido semelhante ao que é dado aos espetáculos, quando, em minha opinião, deveria ser aproveitada a oportunidade para reflexão, análise e investigação serena e cuidadosa das causas que resultam em episódios tão dramáticos.
No caso do goleiro Bruno, por exemplo, muitos aspectos poderiam ser aprofundados pelas reportagens das TVs. No Brasil, olhamos com um certo descompromisso para jovens como ele, que, de repente, sem o menor preparo pessoal ou social, se deparam com o sucesso e a riqueza. Transformam-se em ídolos, fazem opinião, são imitados, mas perdem a noção dos limites e acabam vítimas trágicas das próprias escolhas
porque não receberam na hora certa amparo e orientação.
É desejável, portanto, que a televisão mude o enfoque ao contar essas histórias, de modo a retirar de cada uma delas lições que sirvam à construção de uma sociedade melhor. Ter a audiência como a única referência da quantidade e da qualidade da abordagem é visão de curto prazo porque, dessa forma, as emissoras não criarão telespectadores mais críticos e mais preparados para assistir programas melhores no futuro. Perdem elas próprias, perde a sociedade, perde o Brasil.

domingo, 18 de julho de 2010

A SUCESSÃO NAS EMPRESAS

EMÍLIO ODEBRECHT.
O êxito de uma empresa resulta do acerto das opções estratégicas feitas por seus dirigentes, baseadas nos princípios, valores e crenças fundamentais da cultura e da governança dos negócios, somado ao trabalho sinérgico de todos que a integram.
Um momento crucial na trajetória de todas é o da sucessão de gerações e de liderança. Ao longo da vida profissional, nos preparamos para suceder o que é relativamente fácil. Mas poucos se preparam para serem sucedidos o que é extremamente mais difícil, até porque o ato de transferir o poder exige disciplina e desprendimento.
Um fenômeno que acontece com frequência, em especial nas empresas de controle familiar, é a vinculação do poder de fato não à posição ou ao cargo, mas ao nome ou ao sobrenome do executivo que o exerce, se ele pertence à família controladora. Quando deixa a presidência e vai, digamos, para o conselho de administração, precisa ter muito cuidado para não se tornar um peso para seu sucessor.
Um novo líder intimidado pela sombra do antigo não consegue tomar as decisões com a qualidade necessária, no tempo certo. Pior. Não aperfeiçoa o senso crítico e pode, em algum momento, esticar a corda além do limite, escudado na existência de uma "instância superior" disponível para ser acionada em caso de necessidade. Isso nunca acaba bem.
Aliás, a impressão da existência -embora informal- de uma instância decisória superior -o antigo líder- pode pôr em risco a coesão interna de qualquer organização. A continuidade de contato do sucedido com interlocutores externos que insistem em procurá-lo também deve ser evitada.
Por respeito aos compromissos com clientes e acionistas e com o futuro da organização, o ex-líder deve sair de cena, retirando-se para o conselho pelo tempo necessário para que o processo sucessório se consolide.
Na condição de conselheiro, a postura, mais do nunca, deve ser a de servir e educar transferindo sabedoria e dedicando o tempo livre a atividades fora da empresa. Depois, até mesmo do conselho ele pode deixar de fazer parte.
É imperativo que o sucedido deixe bem claro que, no momento em que transferiu a liderança executiva dos negócios, partiu para outros desafios na vida e permanece à disposição da nova geração no exercício de um único papel: o de acionista.
Quando essa troca de gerações e das respectivas responsabilidades se dá com a transparência que descrevo, quase sempre o novo líder atende às altas expectativas que possa ter gerado. E a organização colhe os frutos de uma transição de poder bem realizada.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

AS NOVELAS E A EDUCAÇÃO

EMÍLIO ODEBRECHT.
Provavelmente não há outro país onde as novelas, esta atração televisiva de presença mundial, tenham caído tanto no gosto popular como no Brasil.
Do ponto de vista da influência nos costumes, ouso dizer que esse tipo de programa foi, entre nós, mais benéfico que maléfico. Se analisarmos os efeitos sobre a visão de mundo do brasileiro médio que as novelas já exerceram, concluiremos que hoje somos (até certo ponto, ao menos) um país melhor também graças a elas.
Ideias como a da emancipação feminina se disseminaram no Brasil com a ajuda das novelas. Em anos recentes, abordaram outras questões importantes, como o combate ao racismo e o respeito aos deficientes físicos. E até a demografia do país parece ter sofrido alguma influência. As famílias nas novelas são, quase sempre, pequenas e foi por meio delas que muita gente teve, pela primeira vez, contato com noções de planejamento familiar.
Mas é inescapável reconhecer que também há os efeitos nocivos, em especial sobre os jovens. A contínua irradiação de modismos tolos e a tendência (talvez inerente ao gênero) de exploração nos enredos de algumas das piores fraquezas humanas, como a traição e a ganância, conferem certa razão àqueles que as apontam como algo pouco educativo.
O fato é que, com o potencial de influência que têm, as novelas podem ser mais do que mero entretenimento e se tornar instrumentos eficazes de apoio à formação das pessoas.
Ao falar em formação, penso no incentivo à agregação familiar, na disseminação de valores, enriquecimento cultural e motivação aos jovens para que estudem, se desenvolvam e empreendam.
Nossos autores, tão talentosos, poderiam usar o meio para inserir (ou reforçar) no ideário do país a crença no trabalho duro e honesto como forma de ascensão social e nos benefícios que isso representa para o indivíduo e para a coletividade.
Tais programas também poderiam servir para orientar a escolha profissional de rapazes e moças. Para tanto, bastaria que mostrassem, de modo consistente, a realidade das várias ocupações do mundo do trabalho o que seria de enorme valia para muitos jovens brasileiros.
O incentivo a comportamentos éticos e os conteúdos que formam a cultura dos indivíduos não devem ficar restritos aos canais educativos, às escolas ou às famílias.
As novelas, forma de arte na qual somos mestres, podem contribuir e muito para elevar os brasileiros a mais altos padrões de princípios morais e cívicos, conhecimento e desenvolvimento pessoal.