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sábado, 21 de janeiro de 2012

Tom Jobim dispensa palavras
Ruy Castro, na Folha de São Paulo.
Caso raro no cinema brasileiro, as palavras não têm do que se queixar nos filmes de Nelson Pereira dos Santos. Eles são escritos com capricho, há uma permanente busca de verniz “literário” por trás da dinâmica visual e, não por acaso, ninguém até hoje adaptou tão bem Machado de Assis, Graciliano Ramos e Nelson Rodrigues. Aliás, trata-se de um cineasta com assento na Academia Brasileira de Letras, e perfeitamente à vontade nela.
O paradoxal é que, quando Nelson resolve fazer filmes sem palavras, também atinge pontos altos.
Foi o caso de “Vidas Secas” (1963), em que 90% do filme transcorre em opressor silêncio -e poucas vezes um filme brasileiro “disse” tanto. Agora é “A Música Segundo Tom Jobim”, com imagens de arquivo em que cantores e instrumentistas interpretam Jobim, sem uma única linha de texto.
Não há narração em “off”, nem “talking heads” dizendo platitudes, nem os artistas dialogando banalidades. Não há nem sequer caracteres com os nomes dos intérpretes, títulos das músicas e datas das imagens, exceto no final, quando rolam os créditos. As únicas palavras no filme são as das letras das canções. Foi uma opção de Nelson e de sua codiretora Dora Jobim, neta de Tom -apostaram tudo na força da música.
Apostaram e ganharam. A ordem das canções é cronológica ou quase, mas a alternância de interpretações antigas e modernas provoca surpresa e encantamento durante 86 minutos -são constantes os suspiros e exclamações da plateia. Revela também a eternidade daquela música e de seus intérpretes. Os cortes de cabelo, o estilo das sobrancelhas, a largura das lapelas, tudo pode ter mudado, mas não há ninguém datado ali.
Como pode ficar datada Elizeth Cardoso cantando “Eu Não Existo sem Você”, tendo ao violão um jovem e atento João Gilberto? Ou Sylvinha Telles em “Samba de uma Nota Só”, Nara Leão em “Dindi”, Maysa em “Por Causa de Você”? Ou o pianista Erroll Garner em “Garota de Ipanema”? E qual o melhor “Insensatez”? O de Alayde Costa, na aurora da bossa nova, em 1959, ou o de Judy Garland, perto de sua morte, dez anos depois? Os pontos altos são muitos. O “Águas de Março” de Tom e Elis Regina. Cynara e Cybele cantando “Sabiá” no Maracanãzinho, em 1968. Diana Krall, Jane Monheit e Stacey Kent provando a perene contemporaneidade de Jobim. E o próprio Tom, em muitas sequências, buscando a magia secreta de cada acorde, como se não tivesse sido ele que a produzira.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

AGORA É CINZA

RUY CASTRO
Outro dia, com a queda de mais um ministro no governo Dilma -o quarto em menos de três meses-, a Folha publicou a tradicional foto do ministério original, batida no começo do ano. Lá estão os 38 titulares, airosos e pimpões em seus ternos azuis, faces rosadas e vestidos vermelhos exceto os ministros caídos, rebaixados a um tom cinza que os tornou parecidos com Gasparzinho, o "fantasma camarada", antigo herói de desenho animado.
Ou com os réprobos do planeta Krypton, que eram despachados para uma "zona fantasma" e, no processo, perdiam substância e cor. O cinza da foto simboliza que a saída do governo lhes drenou o sangue que permitia enxergá-los em quatro cores. Não que essa súbita monocromia lhes seja inconveniente -ao contrário. Ex-ministros costumam conservar os bons contatos que mantinham quando no governo e, fora dele, levam a vantagem de não ser tão visíveis.
Os 38 ministros juntos, mesmo com os quatro esfarinhados, compõem uma imagem impressionante. É muita gente nem as superpotências se permitem tantos pingentes de luxo em torno do presidente. E ainda que Dilma aproveitasse para fazer algumas recomposições e extinguisse nove ou dez ministérios, continuaria a ser uma multidão. Mas, naturalmente, os excluídos foram apenas substituídos, e ministério que segue.
A prosseguir a faxina, em breve novos ministros serão evaporados, e a foto terá de ser continuamente retocada para comportar mais gente em cinza. É possível que, para muitos ali, que não têm nada a temer, esse risco seja ínfimo ou nulo. Mas haverá aqueles que, sabendo de si mais do que os outros, ao se verem hoje na foto, já conseguem se enxergar em grisê.
A foto lembra também uma galeria de tiro ao alvo. O leitor é livre para aplicar guache sobre os, a seu ver, próximos candidatos ao abate.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

SAQUEANDO EM LONDRES

RUY CASTRO
Entre os responsáveis pelos incêndios e arrastões em Londres nos últimos dias, há gente de todos os sexos, cores, idades, profissões, escolaridade, renda e preferências clubísticas. Há quem tenha saído de casa para saquear e há quem, casualmente nas proximidades de uma vitrine quebrada, tenha penetrado na loja e levado um estoque de iPhones, TVs de plasma, uísque Logan's ou camisas Lacoste. Ninguém se passou por roubar batata ou macarrão.
Como a causa dos saques e vandalismos não parece ser a crise, o desemprego ou a fome, pergunto-me como eu próprio reagiria se morasse em Londres e me visse de repente em situação de me aproveitar. Resistiria à tentação ou, protegido pelo anonimato, esqueceria os altos princípios e me integraria alegremente à turba?
Depende. Se o saque estivesse acontecendo numa livraria da rede Waterstone e as ofertas fossem joguinhos eletrônicos vagabundos, romances desses novos escritores irlandeses ou discos de Beyoncé, Lady Gaga e Madonna, eu ficaria firme como um bastião da honestidade e ainda faria tsk, tsk para os que estivessem se prevalecendo.
Mas, se os tumultos fossem nas proximidades de South Kensington, clássica região de Londres que foi cenário do "Peter Pan", de James M. Barrie, e onde mora meu amigo Ivan Lessa, as velhas convicções balançariam.
Não sei se resistiria a saquear a coleção de discos de cantores de Ivan, que vai dos LPs completos de Dick Haymes aos raros 45s de Billy Eckstine ou aos 10 polegadas originais de Mabel Mercer. Ou aliviar suas estantes de lindos romances ingleses e americanos em primeira edição, comprados nos últimos 60 anos. Mas bom mesmo seria saquear a cabeça de Ivan, onde ficam milhares de letras de músicas, diálogos de filmes e de peças, e histórias vívidas e vividas da cultura do século 20.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

CONFIANTES PARA 2011

RUY CASTROArtigo da jornalista Gail Scriven, no argentino "La Nación", faz um apanhado de certos episódios de 2011. Parcial, mas suficiente para nos alertar sobre a vulnerabilidade das potestades neste ano. Ninguém está a salvo. Seja um continente, país, ditador, magnata ou rei da cocada preta de repente, todos podem passar de sujeitos a objetos da história. E 2011 ainda está pela metade.
Começa pelo inconcebível, mas possível calote dos EUA, com a crise do euro, que está derrubando as economias europeias e, por seu turno, a, idem, inimaginável ascensão da América Latina como uma ilha de estabilidade, pronta a acolher os ricos náufragos que chegam agarrados a boias e quilhas.
Continua com a Noruega, tradicional paraíso da tolerância onde, nos últimos 60 anos, a pior desgraça foi um tombo de sua patinadora Sonja Henie numa pirueta na pista de gelo, ensanguentada pelos tiros de um boçal neonazista. E com a suspeita de que essa boçalidade seja apenas a ponta de um racismo crescente na Europa.
Segue com o desmascaramento de Rupert Murdoch e de seu império jornalístico, com os apertos por que têm passado o espanhol Zapatero, o francês Sarkozy, o inglês Cameron e o italiano Berlusconi, todos se enforcando na própria corda, e com a desinfecção de Tunísia e Egito, com ditadores postos para correr pelo povo, e profilaxia semelhante, embora ainda incompleta, no Iêmen, na Líbia, na Síria e na Arábia Saudita.
Conclui com a morte de Osama bin Laden, a doença de Hugo Chávez (que, enfim, o calou por algum tempo) e o rebaixamento de Dominique Strauss-Kahn a ex-nº 1 do FMI, por não ter conseguido manter o periquito na gaiola. Enfim, 2011 não está de brincadeira.
Gail escreveu de véspera, donde não viu Santos x Flamengo. Tivesse visto, saberia por que, por aqui, estamos confiantes.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

FRASES DE LENDA

RUY CASTRO.
As agências se dividiram na semana passada. Metade delas deu em manchete, "Há 50 anos Gagarin disse: "A Terra é azul'". E a outra metade contestou: "Gagarin nunca disse "A Terra é azul'". Referiam-se à famosa frase que o astronauta soviético Yuri Gagarin teria dito (ou não) ao ser o primeiro a espiar a Terra de fora, a 12 de abril de 1961.
Para todos os efeitos, Gagarin disse a frase, que, por sinal, encerra uma verdade: a Terra é azul, não se discute. Só que, enquanto no espaço, o áudio de sua comunicação com a Terra foi todo gravado e, dele, não consta a bendita frase. Donde Gagarin não a disse, e ela só apareceu depois, sendo incorporada à lenda.
Mais precavido foi o americano Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua, em 1969. Dias antes de zarpar, a Nasa deu-lhe uma frase prontinha para quando ele começasse o bordejo pelo satélite: "Este é um pequeno passo para um homem, mas um passo gigante para a humanidade". Pois não é que Armstrong tropeçou nas palavras e quase melou o sentido ao dizer "Este é um pequeno passo para o homem", em vez de "um homem"? Pois foi para a lenda assim mesmo.
John Kennedy entrou para a história ao dizer em seu discurso de posse como presidente dos EUA, em 1960: "Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país". A frase não era dele, e sim de seu brilhante redator, Theodore Sorensen. Mas lenda é lenda.
E aqui tivemos Juscelino Kubitschek, que, um dia, se pôs de perfil no palanque e declarou: "Deste planalto central, nesta solidão patati patatá, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã de meu país e antevejo esta alvorada etc. etc.". A frase, cheia de pompa, era de seu ghost-writer, o poeta Augusto Frederico Schmidt. Referia-se à futura Brasília cidade mais propícia a lendas do que à realidade.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

BIOGRAFIAS AUTORIZADAS

Por Luciana Martinez e Mauro Ventura, de O Globo:
Dois projetos de lei apresentados na Câmara dos Deputados na última terça-feira podem permitir que o leitor brasileiro tenha acesso irrestrito a informações biográficas de figuras públicas. Os projetos dos deputados Newton Lima (PT-SP) e Manuela D”Ávila (PC do B-RS) acabam com a proibição às biografias não autorizadas, que causam tantos problemas aos autores.
Ruy Castro, por exemplo, teve o livro “Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha” impedido de circular por 11 anos. Mas Garrincha não é uma estrela solitária. A seleção de notáveis que volta e meia enfrenta problemas para entrar em campo - ou melhor, em livrarias - é grande e inclui Roberto Carlos, Noel Rosa, Manuel Bandeira, Pixinguinha, Guimarães Rosa, Raul Seixas, Di Cavalcanti e Almirante.
Manuela desarquivou o projeto 3.378/08 de Antonio Palocci, atual ministro da Casa Civil, mantendo o texto original. A proposta, que tinha sido encaminhada à Câmara em 2008, teve parecer favorável do relator - o atual ministro da Justiça José Eduardo Cardozo -, mas acabou engavetada. Entre os principais adversários, estava Paulo Maluf (PP-SP). Ela ironiza:
- É claro que alguns deputados foram contra, porque não queriam que sua vida viesse a público.Já Lima se inspirou no projeto de Palocci para fazer o seu. O PL 393/2011, dele, e o 395/2011, de Manuela, propõem a alteração do artigo 20 do Código Civil de 2002, que dá aos biografados e seus herdeiros, mesmo indiretos, o poder de vetar biografias não autorizadas.
- Meu projeto é uma tentativa de tirar esse resquício de censura do Código Civil. Recebi um tweet da Manuela falando que ela tinha escrito algo similar. Fiquei feliz, e vamos conversar - diz Lima.
Roberto Feith, diretor da editora Objetiva, festeja os projetos:
- São vitais não só para escritores e editoras, mas para o país. É um grau de absurdo que beira o surreal os protagonistas da vida brasileira terem direito à proibição. É sem precedentes. Nenhuma outra sociedade democrática tem algo parecido, tanto que acabaram de ser lançadas lá fora as biografias de Obama, Sarkozy e Tony Blair.
Mas ele deixa claro que é para se publicar o que está documentado.
- Se publicar mentira, você responde por isso - diz Feith, para quem “a vida do homem público não pertence só a ele”.
Sérgio Machado, da Record, concorda com seu colega.
- Se você quer ser artista ou político, está abdicando de sua privacidade. Daqui a pouco, não vamos mais poder lançar nem livro de História - diz ele, que já teve que recusar uma publicação “sobre uma personalidade brasileira que tem repercussão no exterior”.
- Não pude publicar, e foi vendido lá fora.
Ele acabou de perder um processo por “Meu nome não é Johnny”.
- Uma pessoa se identificou no livro. Tem um traficante cadeirante na história, e ele se sentiu prejudicado, porque num trecho há um diálogo em que conta a João Estrella como faz para transar. A conversa existiu. O próprio traficante confirmou. E, como o autor não fala quem é, há preservação da imagem.
O historiador e escritor Paulo Cesar de Araújo, que teve a biografia “Roberto Carlos em detalhes” recolhida, diz que, até a promulgação do Código Civil, o direito à privacidade e o direito à liberdade de informação eram regulados pela Constituição:
- O artigo 20 tem um viés altamente retrógrado e conservador. Ele tira o equilíbrio que havia e bota em segundo plano o direito à informação. O projeto do Palocci acaba com esse retrocesso.
Na entrevista coletiva que deu esta semana, Roberto Carlos foi informado pelo GLOBO sobre a possibilidade de mudança na lei.
- Não vou desistir, vou continuar lutando na Justiça contra o livro. Tem coisas equivocadas, com que não concordo - disse, reafirmando que fará uma biografia com o jornalista Okky de Souza.
Feith detalha o artigo 20:
- Quem fez o Código preocupou-se em fortalecer certos direitos individuais, como a privacidade. Só que se esqueceu de diferenciar o cidadão privado da personalidade pública. Um texto criado para proteger o cidadão comum cerceia o acesso à informação sobre personalidades.
Ruy Castro critica o “oportunismo” dos herdeiros:
- São parasitas. Alguns nem gostavam dos biografados e se aproveitam dos parentes ilustres. Tenho várias ideias de livros que não farei, como os de Di Cavalcanti e Guimarães Rosa, porque a dificuldade vai ser tanta que não tenho paciência.
Ele tem razão em ter receios. O curta que Glauber Rocha fez no enterro de Di, “Di-Glauber”, foi proibido pela Justiça a pedido de parentes do pintor. E a biografia de Rosa de Alaor Barbosa foi recolhida.
- O livro (”Sinfonia de Minas Gerais - A vida e a literatura de Guimarães Rosa”) estava nas livrarias havia cerca de cinco meses quando recebemos a notificação - lembra Antonio Carlos Navarro, editor executivo da LGE. - Tivemos apenas 48 horas para retirar todos os exemplares, um prazo impraticável.
Vilma Guimarães Rosa diz que o pai não gostava de biografias.
- Ele sempre falava que achava muito pessoal - justifica ela, que, no entanto, fez uma obra sobre Rosa. - Antes de morrer, eu lhe falei que ia escrever um livro sobre a vida dele, mas meu pai disse para fazer só com os grandes momentos.
Ela defende o pedido de permissão aos parentes.
- A partir da família, é possível conhecer melhor o biografado - diz. - Tem muita gente que gosta de escrever biografia de gente famosa para ganhar dinheiro ou fazer sensacionalismo.
Em artigo recente no GLOBO, o acadêmico Lêdo Ivo criticou os herdeiros de Manuel Bandeira. Ele era amigo do poeta e quer usar em livro fotos que ganhou de Bandeira e que fez dele. “A atual legislação me proíbe de publicar as incontáveis fotos que possuo de Manuel Bandeira. Proíbe-me até mesmo de usar aquelas em que estou a seu lado”, escreve. Ele pede a Dilma que livre a obra de Bandeira “dos herdeiros famélicos, dos fominhas póstumos e a entregue ao nosso povo”.
O livro do escritor e crítico literário Paulo Polzonoff sobre Manuel Bandeira para a coleção Perfis do Rio também não vê a luz do dia. Foi impresso, mas armazenado. O agente literário Alexandre Teixeira, que representa os direitos do poeta, não quis se manifestar. Mas o advogado Antonio Manoel Bandeira Cardoso, sobrinho-neto do escritor, ficou indignado com as frases de Ivo.
- A família não é mercenária. A gente pode até liberar, mas tem que pedir autorização. E direito autoral é um bem - conta ele, que diz que se cobra conforme o nome. - É o preço da fama. Bandeira é, para a literatura, o que Ivo Pitanguy é para a medicina. Um grande expoente.
O pesquisador Carlos Didier teve problemas em dois livros:
- Em “Nássara passado a limpo”, a caricatura do Almirante não entrou porque a filha dele ficava enrolando e não entregava a autorização. E a do Pixinguinha ficou de fora porque a família queria dinheiro, e se você paga para um, tem que pagar para todos. Já na biografia do Noel Rosa (feita com João Máximo), estamos sendo processados (por duas sobrinhas) por danos morais. Mencionamos os suicídios da avó e do pai de Noel. Mas eles já haviam sido publicados. O do pai, em outras biografias. E o da avó, em jornais.
O jornalista Edmundo Oliveira Leite Júnior enfrenta problemas antes mesmo da publicação de sua biografia de Raul Seixas. Uma das ex-mulheres de Raul, Kika Seixas avisou que iria processá-lo se lançasse o livro. À coluna Gente Boa, do GLOBO, ela disse: “Lançar biografia não autorizada no Brasil é suicídio.”
- Foi uma frase muito infeliz - diz Leite Júnior. - Ela foi uma das primeiras pessoas que procurei, tenho longas entrevistas com ela. Mas nunca desisti, pretendo terminar o livro este ano. Mesmo com ameaças, sei de editoras interessadas.
Um dos casos mais emblemáticos envolveu o livro sobre Garrincha: Ruy Castro disse que inicialmente houve uma tentativa de “achaque” por parte de duas filhas, que pediram R$ 1 milhão.
- Se a editora tivesse aceitado, nunca mais haveria biografias no Brasil. Foi um sacrifício, que custou 11 anos de tribunal para a Companhia das Letras, mas foi importante para guardar o direito de liberdade do país - diz ele, contando que enfim houve acordo, com cada filha levando R$ 30 mil.
- Minha frase clássica é: o biografado ideal tem que ser solteirão, filho único, órfão, estéril e broxa”.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

INEXISTENTE ESTATÍSTICO

RUY CASTRO
Ouço pelo rádio do táxi que falta ao IBGE ouvir 20% da população para completar o recenseamento. Ótimo. Como estou nesses 20% que ainda não foram ouvidos ou cheirados pelos recenseadores, talvez ainda tenha uma chance de ser incorporado à dita população, reforçando com isso meu senso de identidade.
O repórter fala de outras façanhas do IBGE: já foram recenseados 17 mil e quebrados de brasileiros com mais de cem anos; viajando de bote, caiaque e piroga, conseguiram levantar a população das mais remotas comunidades indígenas de Roraima; e, agora, já sabem não apenas o número de dentes na boca do brasileiro mas o de sisos sobreviventes.
Parabéns, parabéns. Mas o fato é que, ainda longe dos cem anos e morando no Leblon -que os recenseadores podem alcançar até de helicóptero, asa delta e windsurf-, continuo a ser ignorado pelo IBGE. E como eles têm certeza sobre o número de sisos restantes do brasileiro se ainda não contaram os meus?
Na verdade, já estou habituado. Desde que saí da casa de meus pais, no Flamengo, aos 19 anos, e fui morar sozinho -ou, casado, na condição de impoluto chefe de família-, nunca fui recenseado. Não é que não me lembre. Posso garantir que, nos últimos cinco censos, jamais um recenseador se apresentou a mim e perguntou sobre estado civil, renda familiar, preferência clubística ou número de pessoas em casa, incluindo os gatos.
Pelo menos, o fato de estar vivendo uma longa vida à margem das estatísticas não me tornou mais ectoplásmico ou menos brasileiro. Em 1970, o Brasil tinha 90 milhões em ação, e eu era um deles. A 31 de dezembro de 1999, 3 milhões de pessoas foram saudar em Copacabana a chegada do ano 2000, e eu estava lá. Hoje, sou um dos 3% de brasileiros que não usam celular. À falta do IBGE, tudo isso me leva a crer que eu sou eu.

sábado, 21 de agosto de 2010

O CINEMA DAQUELE ANO

RUY CASTRO 
"Psicose", de Alfred Hitchcock, está fazendo 50 anos e sendo louvado em artigos, ensaios, DVDs e retrospectivas. É justo: a sequência do assassinato de Janet Leigh no chuveiro marcou o começo de um ciclo em Hollywood -nunca um filme saído de um grande estúdio (a Paramount) e dirigido por alguém importante se atrevera a tal crueza.
Mas "Psicose" não foi tudo em 1960. No cinema americano, aquele foi também o ano do eterno "Se Meu Apartamento Falasse", de Billy Wilder; "Spartacus", de Stan- ley Kubrick, melhor filme bíblico de sempre; "Sete Homens e um Destino", de John Sturges, western de que saíram os "spaghesterns" de Sergio Leone; "O Solar Maldito", primeiro da série Poe por Roger Corman; do hoje atualíssimo "O Vento Será Tua Herança", de Stanley Kramer; e de um filme que sobrevive apenas na lembrança de uns poucos, como eu e o Sérgio Augusto: "Uma Vida em Pecado" ("Studs Lonigan"), de Irving Lerner.
Na Itália, covardia: 1960 foi o ano de "A Doce Vida", de Fellini; "A Aventura", de Antonioni; "Rocco e Seus Irmãos", de Visconti; do pungente "O Belo Antonio", de Mauro Bolognini; e do feroz "A Maldição do Demônio", de Mario Bava. Na Inglaterra, cujo cinema andava de crista baixa, foi o ano de "A Tortura do Medo", de Michael Powell. E, na Alemanha, de "Os 1.000 Olhos do Dr. Mabuse", de Fritz Lang.
Na França, bastaria ter sido o ano de "Acossado", de Godard, consagrando a Nouvelle Vague. Mas foi também o de "A Um Passo da Liberdade", de Jacques Becker, e "O Sol por Testemunha", de René Clément. No Japão, de "O Túmulo do Sol", de Nagisa Oshima. E até o cinema brasileiro teve o seu dia de mingau: os pré-Cinema Novo "Cidade Ameaçada", de Roberto Farias, e "A Morte Comanda o Cangaço", de Carlos Coimbra.
Grande ano, 1960, grandes filmes. Mas comparado aos de 1961...

domingo, 15 de agosto de 2010

OBTURADO

RUY CASTRO
Em 1938, Clark Gable, o astro de cinema mais famoso do mundo, às vésperas de "...E o Vento Levou", e William Faulkner, já célebre desde 1929 por seu romance "O Som e a Fúria", foram apresentados em Hollywood. Gable, magnânimo, perguntou: "Em que o senhor trabalha, sr. Faulkner?". E Faulkner, com certo tédio: "Sou escritor. E o senhor, sr. Gable?". Os dois nunca tinham ouvido falar um do outro.
Desinformação semelhante se deu comigo em 1996, quando caiu o avião com o conjunto Mamonas Assassinas. No dia seguinte, comentei com um amigo: "Só ontem, e apenas porque o avião caiu, é que ouvi falar dos Mamonas Assassinas". E ele, ainda mais obturado: "Pois só estou ouvindo falar agora".
Nos últimos 20 anos, em que andei publicando coisas que tiveram certa aceitação, às vezes sou parado na rua por rapazes e moças que se referem a este ou aquele livro com apreço. Quando se despedem, agradeço e lhes pergunto os nomes. E só então me dou conta de que estava conversando com o líder do principal grupo pop do país ou com o jovem galã da novela das oito e mesmo assim porque alguém me informa disso com uma providencial cotovelada nas costelas.
Há poucos dias fiquei sabendo da existência de uma cantora chamada Lady Gaga. Sabendo pelos jornais, claro porque nunca ouvi sua voz, nem a vi em ação. Pelas fotos, parece um derivado de Madonna, de quem também levei alguns anos para tomar conhecimento.
Não é esnobismo ou ser "blasé". Escuto pouco rádio, assisto ainda menos TV e, em matéria de música, esses veículos não tocam nada que me interesse. O fato de até um alienado como eu ter-se dado conta de que existe uma mulher com o improvável nome de Lady Gaga é um atestado da fenomenal popularidade da artista. Um dia, já que é cantora, pretendo ouvir sua voz, se é que ela a usa para cantar.

sábado, 14 de agosto de 2010

PARA EVITAR GAFES

RUY CASTRO.
Os brasileiros nunca chegam na hora, não gostam de perguntas pessoais, vivem aos beijos e abraços entre si e suas mulheres se vestem de maneira provocante e sensual. Essas são algumas informações de um guia que a agência oficial de turismo da Grã-Bretanha lançou esta semana para instruir os ingleses sobre os visitantes estrangeiros na Olimpíada de Londres em 2012.
Boa ideia, e já deveríamos estar fazendo o mesmo para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Pois aí vão algumas informações sobre os ingleses para evitar que cometamos certas gafes ao tratar com eles.
Diz-se que a mulher mais fria do mundo é a inglesa -exceto no banco traseiro do táxi, quando se revela "um furacão". Se, em 2014, você se vir com uma inglesa no banco traseiro do táxi, espere que ela tome a iniciativa -o que, se ela for mesmo um furacão, acontecerá. Idem, se você for uma brasileira provocante e sensual, evite provocar os ingleses. Eles não gostam muito.
Os ingleses são admirados pelo senso de humor, mas não se iluda: só riem do próprio humor. E, mesmo assim, sempre pigarreiam antes de rir. E há assuntos que não se deve discutir na presença deles. Dentes, por exemplo -os ingleses têm, historicamente, péssimos dentes. Talvez pela mania de tomar hectolitros de cerveja morna.
Nunca confunda um inglês com um americano. Ele ficará ofendido, e com razão. Em meados do século 20, a Inglaterra perdeu para os EUA a sua longa supremacia politica e econômica, tornou-se um reboque da sua ex-colônia e é natural que eles se ressintam.
Sobretudo, se tiver que discutir futebol com eles, nunca se jacte dos cinco títulos mundiais do Brasil contra o único deles, em 1966, conquistado em casa e com um gol ilegal. E, por favor, nada de piadas a respeito daqueles chapéus de chifres que os torcedores ingleses gostam de usar.

sábado, 7 de agosto de 2010

REDESCOBERTA DO SAMBISTA

RUY CASTRO.
Você conhece esses sambas. Só não se lembra do autor, certo?
"Você conhece o pedreiro Valdemar? Não conhece? Pois eu vou lhe apresentar..." ("O Pedreiro Valdemar").
"Louco/ Pelas ruas ele andava/ O coitado chorava/ Transformou-se até num vagabundo..." ("Louco").
"Etelvina, minha nega/ Acertei no milhar/ Ganhei 500 contos/ Não vou mais trabalhar..." ("Acertei no Milhar").
"Aquele mundo de zinco que é Mangueira/ Desperta com o apito do trem..." ("Mundo de Zinco").
"Quem trabalha é quem tem razão/ Eu digo e não tenho medo de errar/ O bonde São Januário leva mais um operário/ Sou eu que vou trabalhar..." ("O Bonde São Januário").
"Lá vem a mulher que eu gosto/ De braço com o meu amigo/ Ai, meu Deus/ Até parece castigo..." ("A Mulher Que Eu Gosto").
"Hoje não tem ensaio/ Na escola de samba/ O morro está triste, o pandeiro, calado/ Maria da Penha, a porta-bandeira/ Ateou fogo às vestes/ Por causa do namorado..." ("Mãe Solteira").
"Alô, padeiro/ Bom dia/ De amanhã em diante/ Eu vou suspender o pão..." ("Alô, Padeiro").
"Flamengo joga amanhã, eu vou pra lá/ Vai haver mais um baile no Maracanã..." ("Samba Rubro-negro").
"Meu chapéu de lado/ Tamanco arrastando/ Lenço no pescoço/ Navalha no bolso..." ("Lenço no Pescoço").
"Quero uma mulher/ Que saiba lavar e cozinhar/ E que de manhã cedo/ Me acorde na hora de trabalhar..." ("Emilia").
"Cheguei cansado do trabalho/ Logo a vizinha me chamou/ Oh, seu Oscar/ Tá fazendo meia hora/ Que a sua mulher foi embora..." ("Seu Oscar").
De quem são? De Wilson Batista (1913-1968), com parceiros. Outros 30 sambas poderiam ser citados. O Rio está redescobrindo um de seus maiores sambistas, num show de Rodrigo Alzuguir e Claudia Ventura, dedicado a Wilson Batista, num teatro do Leblon. Já era tempo.

CORTEJO DE PIRILAMPOS

RUY CASTRO
O homenageado da Flip em 2007 foi Nelson Rodrigues. Entre as atrações da festa, havia a exibição de "Vestido de Noiva", o filme baseado em sua peça, que seu filho, o cineasta Joffre Rodrigues, completara havia anos e levara outros tantos para conseguir lançar. Programado pelo exibidor para uma semana ingrata, tipo Carnaval, em 2006, o filme entrara e saíra de cartaz quase em segredo.
Donde poder vê-lo em Paraty seria uma rara oportunidade também para mim, que estava viajando e não o vira quando ele passou como um raio pelo Rio. Sentado numa das cadeiras do cineminha local, pisquei para Joffre quando ele entrou e, debaixo da tela, tentou dizer algumas palavras antes da sessão.
Apenas tentou -porque, emotivo como era, chorou ao descrever os quase 10 anos de vida que o filme lhe custara, a luta para levantar o dinheiro e sua insegurança a respeito das liberdades que tomara ao adaptar a peça quase sagrada de seu pai. E, finalmente, o fato de que tão pouca gente pudera vê-lo.
Finalmente, Joffre enxugou os olhos e o filme começou. Com poucos minutos, convenci-me de que "Vestido de Noiva" estava todo ali, não como um "teatro filmado", como tinham dito os críticos, mas legitimamente transfigurado para o cinema. De repente, por volta do 20º minuto, pifou a energia na cidade. Paraty ficou às escuras.
E, então, aconteceu uma coisa bonita: ninguém arredou pé. Durante uma hora esperamos que a energia voltasse e a sessão se reiniciasse. E, como isso não aconteceu, lentamente fomos embora, todos juntos, dezenas de pessoas, pelas ruas de Paraty. Imaginei que Joffre estaria chorando de novo. As lágrimas o impediriam de ver o céu, absurdamente estrelado, e o cortejo de pirilampos, formado pelos celulares acesos que as pessoas usavam à guisa de lanternas.
Joffre Rodrigues morreu nesta quarta no Rio.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

APRENDENDO VOTAR

RUY CASTRO.
Segundo o Datafolha, Joaquim Roriz lidera com folga as intenções de voto para o governo do Distrito Federal. Tem 40% contra 32% dos adversários somados ou seja, já estaria eleito no primeiro turno. Roriz pode comemorar: valeu a pena ter renunciado ao Senado em 2007 para escapar de um processo de cassação por corrupção. Em troca de pouco mais de dois anos na geladeira, arrisca-se a ser governador de seu arraial pela quinta vez.
Roriz é o único que esquenta o assento no dito governo. Em fins de 2009, seu sucessor José Roberto Arruda teve de largar o cargo por motivo de força maior: foi preso numa operação policial que estourou um esquema de corrupção em Brasília, com vídeos mostrando gente influente, inclusive ele próprio, recebendo dinheiro e alegando que era para comprar panetone.
Seu vice, Paulo Octávio, assumiu, mas teve de sair quase em seguida, também sob suspeita no caso, de usar as meias para fins outros que não o de proteger os pés. E ponha aí outros influentes políticos, donos de empresas de comunicação, juristas e personalidades de Brasília, todos acusados de marmelada com o dinheiro público.
No passado, o Rio ficou proibido de decidir seus destinos pelos quase 300 anos em que foi capital da Colônia, do Império e da República. Supunha-se que a cidade-centro não poderia ter autonomia político-administrativa, donde seus governantes eram nomeados pelo rei, imperador ou presidente. E assim os cariocas só foram eleger seu primeiro governador em 1960 e o primeiro prefeito, em 1987.
Brasília, ao contrário, conquistou a autonomia com apenas 28 aninhos de existência, em 1988. Significa que os brasilienses já votam há 22 anos. Mas é muito pouco tempo. Como votar é um longo aprendizado, isso explica por que eles ainda não conseguem fugir à alternância de rorizes e arrudas.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

TITÃS EXTINTOS

RUY CASTRO


Cortes de terra para obras de infraestrutura em municípios de SP, PR e RS estão revelando redes de tocas que podem ter sido escavadas por tatus gigantes há 400 mil anos. Esses supertatus -gliptodontes, para os cientistas- eram do tamanho de fuscas, e seus cascos os transformavam em verdadeiros tanques. Com toda essa exuberância, extinguiram-se.
Um fóssil de urso achado em La Plata, Argentina, e apresentado há pouco num simpósio de paleontologia no Rio insinua que o bicho, um cidadão de 700 mil anos atrás, tinha 3,5 metros de altura e pesava 1,5 tonelada. Era carnívoro convicto e fazia a festa devorando tenros herbívoros, como antas e preguiças. Mas, com a chegada dos grandes felinos à América do Sul, ele caiu na zona de rebaixamento -encolheu de tamanho e tornou-se também herbívoro.
E, outro dia, cientistas da USP encontraram em MG ovos e crânios de um bicho desconhecido -talvez um crocodilo gigante, mas quem sabe também uma nova espécie ou até um novo gênero. Em todo caso, um feroz predador, de até seis metros de comprimento, e tremendamente antissocial. Por sorte, viveu há 90 milhões de anos.
A descoberta desses bicharocos sempre me emociona. Mostra como mesmo os maiores titãs do passado acabaram se extinguindo, por uma mudança no clima ou por um valente que apareceu no pedaço. E também me admiro quando se determina que o espécime viveu há 700 mil ou 90 milhões de anos.
Eu também viajo ao passado, em busca de personagens como Nelson Rodrigues, Garrincha ou Carmen Miranda, mas ainda não fui tão longe. Os três, por sinal, eram gigantes em seu tempo e ainda o são, em nosso tempo. Já muitos de seus contemporâneos, por mais sólidos que parecessem, só nos deixaram alguns dentes e artelhos que, um dia, com sorte, talvez sejam avaliados pelos paleontólogos.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

PIADA SINISTRA

RUY CASTRO
Os programas de humor da TV estão proibidos de fazer imitações, sátiras e gozações com os candidatos às próximas eleições. Essa piada sinistra (copyright Nelson Rodrigues) atende pelo nome fantasia de resolução 23.191/2009 do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Mas a palavra correta é censura. O texto veta qualquer fala ou cena que "degrade ou ridicularize candidato, partido político ou coligação".
Isso dobra a responsabilidade dos candidatos a presidente, governador, deputado ou senador. Por causa da resolução, caberá exclusivamente a eles a função de degradar a si próprios ou de se ridicularizarem uns aos outros. O que eles já fazem o ano inteiro, certo. Mas, agora, com a mordaça aos humoristas, terão de ser comediantes em tempo integral.
O apoio de Fernando Collor a Dilma Rousseff, por exemplo, cumpre as funções citadas acima e também o inverso delas a aceitação desse apoio, idem. E os apitos emitidos pelo deputado Indio da Costa, vice de Serra, sobre supostas ligações do PT, também dispensam a intervenção de meus amigos do "Casseta & Planeta" os sobressaltos que Indio provoca em Serra já são hilariantes por si.
Na verdade, não ficaremos sem o humor político na TV. O horário gratuito obrigatório preencherá esta lacuna. Pena que, escrito por redatores de quinta e interpretado por canastrões, sua capacidade de fazer graça logo se esgotará. Em poucos dias, ao vê-lo surgir na tela, empatando a programação, o normal será que o telespectador desligue a TV e saia chutando baldes.
Mas nem tudo está perdido. As gozações, sátiras e imitações, assim como graves acusações, com ou sem fundamento, continuarão a circular na internet. E, se conseguirem censurar a internet, sempre restarão as esquinas e os botecos, que é onde o povo exerce o seu irreprimível humor político.

sábado, 24 de julho de 2010

BANHOS

RUY CASTRO
Uma pesquisa feita em dez países por uma empresa internacional de consultoria descobriu que o brasileiro é o povo que mais toma banho no mundo. São 19,8 banhos por semana -2,8 por dia!- contra pífios 8,4 dos russos, 7,9 dos japoneses, 7,7 dos franceses, 7,4 dos americanos, 6,1 dos alemães e dos italianos, 5,6 dos britânicos, 4,9 dos chineses e 3 dos indianos. Com todo o respeito.
Grande coisa. Sem precisar formular questionários, preencher tabelas ou dar um único telefonema sobre a incidência do chuveiro nos hábitos dos brasileiros, cheguei quase a esse mesmo resultado em meu livro "Carnaval no Fogo", de 2003, embora restringindo-o aos cariocas. "Numa estimativa realista", escrevi, "pode-se garantir que um carioca adulto toma mil banhos por ano -performance que, em outros continentes, muitos cidadãos levam a vida para igualar".
"Parece um exagero de banhos, mas não é", eu continuava. "Equivale a 2,73 banhos por dia, média inferior à que os nossos indígenas praticavam em dias úteis". Ou seja, errei por 0,07 -o que é insignificante dentro da famosa margem de erro. E como fiz isto? Apenas observando a mim mesmo e a alguns mais próximos e a outros nem tanto. O carioca toma uma chuveirada de manhã, outra ao voltar do trabalho e, não raro, aplica-se uma terceira antes de dormir.
Uma das razões para essa assiduidade é que, entre a decisão de entrar no banho e o efetivo banho, o carioca tem pouca roupa para tirar. Boa parte do povo aqui passa o dia de sunga ou de bermuda, inclusive eu, sem perda da compostura ou do decoro profissional.
E, com os franceses tão bem na fita, fica sem efeito a história, dada por verídica, de que Jean-Luc Godard, o cineasta da nouvelle vague, tomou um banho após completar "Acossado", em 1959, e só voltou a tomar outro depois de rodar "Pierrot le Fou", em 1965.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

DENUNCIANDO

RUY CASTRO
Não importa a notícia. Tanto pode ser o candidato a vice de Serra, Indio da Costa, acusando o PT de flertar com o narcotráfico quanto o assalto a um banco, outro dia, em Santa Bárbara do Oeste (SP), hilário porque, ao chegar ao caixa com a arma, o assaltante gago não conseguiu desembuchar ambos perderam uma boa oportunidade de afinar melhor o discurso. Mas, ao pé destas ou de qualquer matéria on-line, vêm as opções: "Comente. Imprima. Compartilhe. Envie. Etc.". E a mais intrigante: "Denuncie".
Ao ouvir o verbo denunciar, a imagem que nos vem à mente é a de alguém dando conhecimento a outro do malfeito de um terceiro. E isso pode ser feito legalmente, na forma de uma acusação formal, ou pela infâmia da delação, o crime sem perdão. Nos dicionários de português, do Moraes ao Houaiss, não há outro sentido para denunciar.
Mas, em inglês, língua de onde se origina o internetês porcamente traduzido que usamos, há vários outros. "Denounce" (dináunnss), diz o Vallandro, além de "denunciar, delatar, acusar publicamente", é também "protestar contra, atacar, verberar, estigmatizar, ameaçar, anunciar, profetizar" etc.
Donde, o que eles estão nos propondo quando nos convidam a "interagir", "denunciando" tal ou qual matéria, é que manifestemos nosso desagrado quanto à notícia em si ou quanto à maneira parcial, tendenciosa, mal apurada ou cheia de erros com que ela foi tratada no veículo. Não quer dizer que você deva ir correndo denunciá-la à Associação Brasileira de Imprensa, à Academia Brasileira de Letras ou à delegacia mais próxima.
Da mesma forma, ainda estou tentando entender por que "initialize", em português, tornou-se "inicializar", e não "iniciar". Ou por que você deve "inicializar" o computador quando pretende, ao contrário, desligá-lo. Mas aprenderei, aprenderei.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Cinco polegares em cada mão

RUY CASTRO
Um produtor de Hollywood quer fazer um filme horroroso sobre Carmen Miranda. Chama-se Buddy Bregman, tem 80 anos e, nos anos 50, foi arranjador de cantores importantes. Mas nunca teve a admiração dispensada a seu irmão mais velho, o compositor Jule Styne, autor de canções como "People", "Just in Time", "Diamonds Are a Girl's Best Friend" e do "score" do musical "Gypsy".
É natural que muita gente, inclusive Buddy Bregman, queira filmar a vida de Carmen Miranda. O que não passa pela cabeça de ninguém é filmar a vida de Buddy Bregman. Desde 1960, sobrevive no mais espesso ostracismo.
Mas a vida de Buddy talvez desse um filme. Contaria a história de um garoto corroído por seu recalque, rancor e ressentimento pelo talento e sucesso do irmão. Incapaz de compor melodias como Jule, Buddy tornou-se arranjador de melodias alheias. Só que seus cinco polegares em cada mão destruíam as canções. Os cantores só lhe davam emprego para agradar Jule.
Foi assim, por exemplo, que Buddy assinou os arranjos de, entre outros, "The Cole Porter Songbook", que Ella Fitzgerald gravou em 1956. A cada favor de Jule, o ódio de Buddy aumentava. Até que Jule morreu e a fonte secou. Se já odiava o irmão em vida, passou a odiá-lo mais por ter morrido. E, agora, já às vésperas da própria morte, resolve se meter com Carmen Miranda -uma artista que ele não conhece e (Ilustrada, 15/7), admitidamente, não quer conhecer. "Vou só contar a história dela do meu jeito", disse.
Na verdade, Buddy não é irmão de Jule Styne. O erro foi cometido por Leonard Feather em sua influente "Encyclopaedia of Jazz" e virou fato. Buddy sempre detestou essa confusão. Ou seja, não gosta de ver sua vida distorcida. Mas não quero nem saber. Só contei a história dele do meu jeito. E, se ele não gostar, pode se atirar no mar.

sábado, 17 de julho de 2010

TARDE DEMAIS

RUY CASTRO
Há anos, passando em frente a uma lavanderia da Lapa, algo me chamou a atenção: uma pilha de 50 ou 60 discos de 78 rpm, no chão, na porta do estabelecimento. Velho fuçador de sebos, abaixei-me para examinar. O primeiro da pilha já era espetacular: um disco da gravadora Sinter, apresentando um choro no lado A e um "bop" no lado B. Intérpretes: "Os melhores de 53".
E quem eram "os melhores de 53"? A lista vinha impressa no selo: entre outros, os saxofonistas Zé Bodega e Cipó; o trompetista Julio Barbosa; o trombonista Nelsinho; o clarinetista Severino Araújo; o pianista Radamés Gnatalli; o baterista Luciano Perrone; e outro saxofonista, Paulo Moura. Em 1953, Paulo Moura tinha 20 anos, mas já podia sentar-se entre aqueles mestres. E o fato de o disco conter um choro e um tema puxado ao jazz indicava as duas direções de sua carreira.
Folheei os outros discos e nenhum me interessou. Perguntei ao homem do balcão se estavam à venda. Respondeu que eram de graça -desde que eu levasse todos. Não os jogara fora há mais tempo porque tivera pena, um deles poderia interessar a alguém. Não discuti. Fiz sinal para um táxi, e o motorista me ajudou no carreto das bolachas para o banco traseiro. Já o dos "Melhores de 53" foi a salvo comigo, preso pelas duas mãos.
E até hoje o tenho. Mas, agora, com um travo de remorso. Certa vez, falei desse disco ao próprio Paulo Moura. Ele disse que já não o tinha havia décadas e lamentava que nunca mais voltaria a escutá-lo. Prometi-lhe uma cópia, mas, com as idas e vindas da vida, o disco sumiu de minhas vistas. Estive com Paulo muitas vezes, e ele, elegantíssimo, nunca me cobrou. Eu é que me sentia em dívida.
Pois, esta semana, reencontrei o disco em casa, numa estante. E me comovi ao ler o título do choro -"Agora É Tarde Demais"-, porque Paulo acabara de morrer.