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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

NEOPELEGUISMO E MODERAÇÃO

Por Sérgio Malbergier, da Folha de São Paulo.
A cena mais impactante da aprovação do novo salário mínimo na Câmara dos Deputados foi a vaia dos sindicalistas presentes a um ícone do movimento, o petista Vicentinho, relator do projeto aprovado e ex-presidente da CUT, a maior central sindical do país.
Pode-se falar em neopeleguismo, claro. Mas, sob pressão até do ex-presidente Lula, o enquadramento de Vicentinho e da CUT nessa questão revela como em alguma medida a difamada "República sindicalista" traz ao menos um ganho importante ao país: moderação.
A classe operária (ou as elites sindicais) foi ao paraíso no reino de Lula. Segundo cálculos da cientista política Maria Celina D'Araújo, da PUC-RJ, sindicalistas ocuparam quase a metade dos 22 mil postos de confiança mais cobiçados do governo passado, com salários altos e sem concurso público.
Sindicalistas ligados ao governo comandam ainda algumas das maiores empresas do país, sentam-se nos conselhos de administração de muitas outras e dirigem os maiores fundos de investimentos brasileiros (Previ, Funcef e Petros).
Empresários são mais eficazes na gestão de empresas do que sindicalistas, mas todo esse acesso, político e econômico, no mínimo serviu para moderá-los e incluí-los no consenso seminal consolidado no governo Lula em torno da economia de mercado.
Vicentinho e companheiros, que sempre lutaram pela valorização do salário mínimo (fundamental para expandir o mercado interno e distribuir renda, como vimos no governo Lula), aderiram ao anunciado aperto fiscal ortodoxo do Palácio do Planalto.
O argumento usado pelo neo-ortodoxo ministro da Fazenda, Guido Mantega, para segurar o salário mínimo foi a incapacidade de o Estado arcar com o custo do aumento num momento de prometida austeridade fiscal.
Já a combalida oposição lembrou o antigo PT na oposição e apresentou projeto irracional que levava o mínimo a R$ 600 mesmo diante do perigoso repique inflacionário e das restrições orçamentárias.
A vitória dos estrategistas do Palácio do Planalto, que seguraram nomeações importantes no segundo escalão do governo até a votação da matéria no Congresso, pode animar os mercados hoje, pois sinaliza compromisso do governo com a austeridade.
É também prova de habilidade política de Dilma e seu time nesse começo de mandato.
A gestora, sem falar muito, pode dizer que entregou resultado.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

OS 13 DIAS DE DILMA ROUSSEFF

Por Sérgio Malbergier, da Folha de São Paulo. 
Olhando daqui de Trancoso, o início do governo Dilma traz um grande alívio: governo quem?
A discrição inicial da nova presidente (como é bom usar este feminino pela primeira vez na história do país) não podia contrastar mais positivamente com a necessidade de adulação e reconhecimento de seu antecessor e mentor.
Em meio a tanto continuísmo, o perfil discreto até aqui da presidente é até aqui a maior qualidade de seu governo infante.
O lulismo eleitoreiramente mitômano queria (quer) acorrentar o país todo às barbas de Lula, pai dos pobres, mãe dos ricos, dono da maior aprovação da história, sua trajetória, o verdadeiro milagre brasileiro.
Lula, de fato, é (foi) um milagre. Sua soberba e auto-adulação foram um preço pequeno a pagar pelo consenso seminal que ele estabeleceu ao abraçar a economia de mercado e anular o lado B (de burra) da esquerda brasileira. No processo, colocou os pobres no centro da ação pública do país. E desabrochamos com essa jabuticaba: o sucesso do capitalismo turbinando partidos de discurso anticapitalista.
Vai entender esse país.
Daqui do sul da Bahia, vendo a miséria persistente num cenário luxuriante, salários mínimos servindo salários máximos, é fácil sentir o quanto andamos e o quanto temos de andar.
O verão brasileiro é propício ao ócio, mas eu tenho de voltar amanhã a São Paulo. A tristeza de deixar a praia, o mangue e o Quadrado neste verão opulento só se dissipa porque no cenário paulistano, cosmopolita, dinâmico, nervoso epicentro do boom de vida no Brasil de hoje, não há quem não tenha planos e oportunidades para engajar-se e engajar-lhe.
Que o governo Dilma nos ajude e não nos atrapalhe. Ela começa bem menos interessada do que Lula em nossos corações e mentes e mais interessada em planilhas e resultados.
Ufa!
O Brasil não é um país normal. Assim como os Estados Unidos, temos direito a reivindicar excepcionalidade. Mais do que isso, temos o dever de desenvolvê-la.
O Brasil não é um país normal, mas normalidades (e banalidades) têm enorme utilidade por aqui. Nosso milagre econômico, tão parecido com os de outros emergentes, deve tudo à normalidade (e a banalidade) econômica consolidada nesses 16 anos da dualidade FHC-Lula.
O fim da era Lula foi o fim do recomeço, da retomada. Dilma inaugura, se tudo der certo, um Brasil maior que qualquer governo ou liderança, cujos méritos (e deméritos) serão antes de tudo dos brasileiros.
O bom-sensismo discreto de Dilma e Palocci pode ser o moderador ideal para o novo Brasil. O esfriamento das relações com o regime iraniano já é um alvissareiro começo.
Todo mundo já sabe o que falta fazer no país, o que se pode fazer e o que não se deve fazer. A nova velha tragédia das chuvas no Rio que o diga.
Mais do que nunca, precisamos de bom senso.
Dilma pode ser a cara. Palocci, a barba.
Sucesso para eles.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

FELIZ BRASIL NOVO

Incluo-me entre os céticos com as celebrações dezembrinas, principalmente o Natal, esse simulacro nórdico, um sincretismo importado e deslocado que esteriliza nossas originalidades.
Se ainda fosse o Saci-pererê a distribuir presentes montado na mula sem cabeça, ou aquele outro velhinho barbudo sorridente, o Papai Lula, atrás de nova função que lhe permita dar alegria a milhões de brasileiros.
O que gosto nesta ditadura do calendário é que ela nos força à reflexão: qual o saldo do ano que passou e quais as metas do vindouro.
Atolados no presente da agenda intensa, parar alguns dias para fazer esse balanço e pular ondinhas pode trazer entendimentos e planejamentos inusitados, um exercício a ser sorvido com a calma do feriado prolongado ou no luxo de férias de verão.
Daqui da praia, com essa brisa atlântica que refresca a cara do país, sinto o clima de felicidade e confiança nunca sentido nas décadas que tenho de Brasil. Você conhece algum brasileiro que piorou de vida neste ano?
2010 marca o fim do ciclo FHC-Lula, que empoderou na sequência dois líderes de extrema capacidade e inteligência, luminares de seus grupos políticos (que deveriam agora, pós-tudo, tentar aproximá-los).
Foi uma era complementar de 16 anos que acaba em pleno emprego, moeda forte, mercado interno robusto, recorde de exportações, crédito crescente, investimentos crescentes, projeção global, democracia consolidada, estabilidade consensual, confiança, explosão imobiliária. Escolha o índice.
Não vou aqui ser completamente Poliana (só um pouquinho, que é gostoso e inédito).
Temos problemas enormes: corrupção desembestada, lacunas estruturais, carga tributária terrível, insegurança pública, insuficiência educacional, fragilidade jurídica etc. Mas também não vamos fazer como alguns balanços de fim de governo que se viu por aí, destacando esses problemas e tratando quase como apêndice o fato de que dezenas de milhões de brasileiros melhoraram de vida, descobriram sentido e orgulho na brasilidade.
O personalismo e a soberba de Lula (essa de batizar o maior campo do pré-sal com o seu nome foi demais), aliados à ganância despudorada e ilegal que mancha a política nacional, dificultam a justa apreciação deste governo de mais poucos dias. Mas fico feliz ao ler que outros não-petistas chegam à mesma conclusão que eu, manifesta aqui há mais de ano, de que Lula é até agora o maior presidente que o país já teve.
O Brasil estava destinado à grandeza desde o berço, diz o hino, mas burrice e imaturidade incrementais impediram a realização mínima desse potencial.
16 anos de estabilidade político-econômica e consenso em torno das regras básicas do capitalismo mudaram a cara e o espírito do país. A democracia brasileira vingou com a inteligência erudita de FHC e a inteligência intuitiva de Lula.
FHC trouxe ordem e estrutura ao caos. Lula mostrou o caminho dentro dessa ordem. E o caminho do Brasil sempre foi óbvio: envolver e incluir na prosperidade a enorme massa excluída desde a colônia. Nunca teríamos começado a realizar nosso potencial se a maioria de nós seguisse vivendo às margens da produção e do consumo.
Isso é tão lógico quanto óbvio, mas precisamos de um retirante miserável no poder para dar urgência e prioridade ao ululante. Lula sabia como nenhum outro dirigente brasileiro das necessidades dessa massa e como era indispensável envolvê-la no desenvolvimento. Suas políticas sociais, sua valorização do salário mínimo e do emprego, seu controle da inflação abriram as portas do mercado a dezenas de milhões de novos cidadãos, e cidadania, hoje, é consumo.
Na campanha eleitoral deste ano vimos como é profundo o entendimento de que o consenso é forte, popular, seminal. Nenhum candidato relevante ameaçou o modelo atual, muito pelo contrário.
Ao governo que entra todo o apoio para que melhore ainda mais as condições econômicas e sociais do país. O incremental está dado. Nossas deficiências expostas são o mapa do caminho. O desenvolvimento virá do enfrentamento de questões mapeadas.
Sérgio Lima/Folhapress
Ensaio da cerimônia de posse da presidente Dilma Rousseff
Ensaio da cerimônia de posse da presidente Dilma Rousseff
E depois do primeiro presidente pobre, a primeira presidente mulher pode também surpreender. (Já foi emocionante ver o ensaio da posse, com aquela dublê de presidente solitária de pé no conversível escoltada por seguranças mulheres correndo. O país de chuteiras virará o país de saias?)
O ciclo FHC-Lula acaba com o Brasil confiante como nunca.
2010 foi um ano memorável que encerrou uma década transformadora.
2011 tem tudo para iniciar uma década ainda melhor. 2014 tem Copa, 2016, Olimpíadas.
Feliz Brasil Novo para você.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

DEIXEM O PALHAÇO LEGISLAR

Sérgio Malbergier.
Tiririca é o novo herói nacional. A expressão mais raivosa e consistente do voto de protesto contra o corpo político brasileiro. Que a Justiça esteja já acionada para cassá-lo por suposto analfabetismo revela como o palhaço/deputado federal mais votado do país ameaça o sistema. O deboche e o humor são armas poderosas.
E que boa piada: uma Justiça sem dentes para barrar os eternos abutres da política afia suas garras diante do palhaço nordestino que, como nosso consagrado presidente, veio de muito baixo na pirâmide social para afirmar-se de forma retumbante em São Paulo.
Quem conhece e representa melhor o Brasil profundo do que o palhaço Tiririca hoje na política? Só Lula. Que elitismo suspeito esse preconceito contra o suposto analfabetismo do palhaço. Quem melhor que um analfabeto ou semi-analfabeto para representar os milhões de mal educados do país? Analfabeto não é incapaz nem criminoso para ter direitos políticos limitados. Muito pelo contrário, é vítima da má gestão desta obrigação pública mais básica que é a educação.
Se a Wikipédia está certa, o palhaço Tiririca começou a vida no circo aos 8 anos, em Itapipoca, no Ceará, e estourou regionalmente com a música "Florentina", que a Sony Music tornou megahit nacional em 1996.
Ele já teve problemas com a lei naquela época por causa da música "Veja os Cabelos Dela", que lhe rendeu uma acusação de racismo, da qual foi inocentado. A letra, puro Tiririca, dizia: "Veja, veja, veja, veja, veja os cabelos dela/Parece bombril, de ariá panela/Parece bombril, de ariá panela/Quando ela passa, me chama atenção/Mas os seus cabelos, não tem jeito não/A sua caatinga quase me desmaiou/Olha eu não aguento, é grande o seu fedor".
Uau!
A singeleza sempre foi seu atributo. Os jingles e os spots de sua campanha, feitos de forma despretensiosa por amigos humoristas, devem ser estudados pelos caríssimos marqueteiros de plantão. São a maior lição de marketing político desta campanha.
Dançando daquele jeito nordestino, o palhaço canta meio preguiçoso: "O que é que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto", ou "Pior do que tá não fica, vote Tiririca". Bingo!
Os mais de 1,3 milhão de votos que Tiririca teve em São Paulo não podem ser desclassificados por essa Justiça incapaz de julgar os que deveriam ser julgados e que ainda por cima pode barrar a melhor notícia desta eleição: a lei da ficha limpa.
Deixem Tiririca legislar. Queremos vê-lo dançando no tapete do Congresso e discursando daquele jeito engraçado no microfone do plenário. Estará, legitimamente, representando muita gente. Dos que enfrentam as mesmas dificuldades e preconceitos que ele enfrentou e enfrenta aos que acham que a política brasileira é uma grande piada.