Uma fonte na TV Globo conta que desde sexta-feira começou uma caça às bruxas na emissora. Eles querem saber quem foi que vazou para o Rodrigo Vianna o plano de desqualificar o novo ministro da defesa, Celso Amorim. Como era sigiloso e envolveu não mais do que 20 profissionais de três capitais, eles consideram que fazer o mapeamento e achar o "traidor" é questão de tempo. Só que eles ignoram que este tipo de segredo é de polichinelo, não dá para ser guardado numa redação. Por uma razão simples: um editor tem sempre outro editor com quem troca confidências. Repórteres, mesmo que tenham sido poucos e confiáveis os acionados, sempre comentam com os cinegrafistas - afinal têm uma amizade muito longa. E, não raro, há alguém que ouve, um auxiliar, um motorista... Portanto, esqueçam, será impossível descobrir de onde partiu a notícia que caiu como uma bomba no colo dos gestores. Dizem até que o Código de Princípios que estava planejado para ser divulgado depois de um Seminário, com pompa e circunstância foi antecipado. Os principais apresentadores do Jornal Nacional, Wiliam Bonner e Fátima Bernardes teriam sido convocados para trabalhar no fim de semana, fato raríssimo. Tudo para tentar apagar o incêndio de proporções desastrosas. Sinal de que há sim um grupo lá dentro muito insatisfeito com o comando do jornalismo. Na Avenida Chucri Zaidan, por exemplo, onde fica a sede da emissora em São Paulo, o clima é de tensão e medo. O vazamento é tratado como crime e ao traidor está reservada a forca, o esfolamento - como na pintura de Michelângelo na Capela Sistina - com consequente exibição de vísceras em praça pública. Ninguém mandou tratar jornalismo como se fosse mercadoria. Jornalismo é informação, sem viés ideológico, sem interesse econômico e político. Simples assim!
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terça-feira, 9 de agosto de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
JAIR, O INTOLERANTE
Ontem um colega falava sobre religião quando fez a seguinte ressalva: "não sei o que você acha, se você é contra ser evangélico..." "Claro que não", respondi. E emendei: "Não sei se você sabe, mas na raiz de todas as grandes guerras sempre existiu o preconceito religioso." Parece que nós nos esquecemos das coisas simples e importantes que aprendemos na escola, não é mesmo? Não devemos discriminar, julgar e condenar aqueles que são diferente de nós. A consequência natural desse tipo de atitude é a intolerância. A intolerância é inimiga do diálogo. E a falta do diálogo é inimigo da paz. Desconfie quando um sujeito prega a paz, por exemplo, mas seu discurso é sectário, preconceituoso, racista, homofóbico e pior, autoritário. Vejam por exemplo os colunistas dos jornalões brasileiros. Eles desenvolvem um raciocínio com todas as características acima. Têm a soberba e a arrogância de quem se acha iluminado, que tem resposta pronta para todos os dilemas da humanidade, desde que seus privilégios e sua condição de destaque sejam preservados. Mas não me preocupo muito com eles, aliás, perco muito pouco tempo da vida falando a respeito desse tipo de ser humano. Quanto mais forem ignorados, menos relevância terão. Mas alguns gestos exigem reações firmes, sem necessariamete sermos belicosos. Não concordo, por exemplo, com as pessoas que xingaram, insultaram e ofenderam publicamente o deputado Jair Bolsonaro. Claro que fiquei chocado com o que ele disse. Óbvio que fiquei indignado e ofendido. Mas respirei fundo. Quando reagimos com o fígado fazemos aquilo que condenamos nos outros e criamos as condições para a guerra. Acho que a justiça e uma frente parlamentar, por exemplo, são respostas à altura dessas pessoas. Todo o resto é usar as mesmas armas dos nossos advesários. Para isso, não contem comigo.
quinta-feira, 10 de março de 2011
A DITADURA CULTURAL DO SUL
BLOG DOLADODELÁ - Que tem liberdade tem tudo.
Domingo à noite, chego em casa e a Alexandra está no computador. A TV está ligada na transmissão do Carnaval. A Escola acaba de cruzar a avenida. O desfile foi ok, no tempo. Aí começa o giro de repórteres mostrando o destaque, o carro que quase não saiu, aquela coisa toda que se repete todo ano. A animadora, no pequeno auditório, improvisa como pode. Apresenta dados, estatísticas, palavra do telespectador, tudo num telão interativo. Em certo momento decide chamar o repórter Francisco José de Brito, um dos mais consagrados da televisão brasileira. Chico faz parte da história da TV e povoa o imaginário coletivo da nação. É uma espécie de patrimônio da família brasileira. É como se um primo que mora distante trouxesse a notícia. Ele está em pé num praticável no centro do Recife. No palco, o maestro Francisco Amâncio da Silva, o Maestro Forró, organizador e líder da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério (OPBH). Seu mérito é não trabalhar exclusivamente com o Forró. Seu repertório eclético e performático eleva a folia ao status de arte. Só como curiosidade, a Bomba do Hemetério fica no bairro Água Fria, zona norte do Recife. É um sistema manual de retirada de água que seu Hemetério distribuía para a vizinhança.
Bom, voltando à transmissão, lá está o repórter. Ele faz uma abertura de vinte segundos e em seguida dá "a deixa" para a banda tocar. Mal a banda começa, alguém avisa no ponto eletrônico que é para o repórter "devolver". Chico José, obediente, diz: - Voltamos com fulana de tal.
No dia seguinte encontro Marianne Brito, filha de Chico, e digo: - Que feio, chamaram o Chico e quando a banda iria começar a tocar voltaram para o estúdio.
Depois fiquei pensando no episódio, que é um retrato da ditadura cultural que o Sul Maravilha impõe aos outros estados.
Quem disse que Carnaval é só na Marquês de Sapucai?
Com a palavra os brasileiros que já estão de saco cheio dessa exclusão.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
A GLOBO BLEFA II
Por Marco Aurélio Mello, do Blog DoLaDoDeLá "Quem tem liberdade tem tudo"
Nea segunda-feira o Clube dos 13 deve anunciar os critérios para a venda das proximas três temporadas do Brasileirão. Como antecipei aqui, a Rede Globo não ficaria fora da disputa e aumentou a pressão no fim de semana. O presidente do Corinthians, Andres Sanchez, ameaça deixar o Clube dos 13, caso os novos critérios não beneficiem a emissora dos Marinho.
Outra triangulação em prol da TV do Jardim Botânico vem pelas mãos da Traffic. A empresa, que é afiliada da TV Globo no interior de São Paulo tem, entre outros intereses comerciais, o marketing esportivo. Foi a Traffic que, em parceria com o Flamengo, levou Ronaldinho Gaucho para a Gávea, em troca de negociar todos os contratos do uniforme do Mengão. Além de ganhar 20% de tudo o que vier impresso no uniforme, se os patrocinadores aparecem na Globo, a empresa ganha também na outra ponta, a dos anunciantes.
Por isso, o Flamengo também é um aliado importante neste negócio. E, como aliado, já mandou avisar que está com eles. Vamos agora a Ricardo Teixeira. Ele é o cartola número um do futebol do país, certo? Sem ele, a liga dos clubes, tão sonhada pelos 13 grandes, não sai do papel, certo? Pois um passo importante foi dado pela Globo na semana passada e, mais uma vez, com triangulação de intereses. Ronaldo fenômeno abandonou o Corinthians e o futebol. No dia seguinte recebeu uma comenda do governador de São Paulo, o tucano Geraldo Alckmin, e foi convidado a ser o embaixador do estado na Copa.
Na foto (acima) aparecem Ronaldo, Alckmin e quem mais? Ricardo Teixeira. Para quem achava que os dois não se davam, bobagem. O craque deu até declarações dizendo que não tem nada contra Teixeira. Ao que se vê, o novo embaixador está em campo para aproximar a Globo do cartola, cujo relacionamento não tem sido dos melhores. Vale lembrar que foi Ricardo Teixeira quem sustentou Dunga à frente da seleção, e teve que engolir em silêncio a decisão do técnico, que desautorizou as entrevistas que o presidente da CBF tinha tramado nos bastidores com a Globo, entre elas, a de Robinho ao Fantástico, durante a Copa. Portanto, os fiéis da balança na escolha serão: Botafogo, Coritiba, Cruzeiro, Goiás, Santos, Vasco e Vitória. Fazendo força do outro lado da corda estão São Paulo e Atlético-MG, que acreditam que a Globo diminui a importância do futebol brasileiro para não ser obrigada a alterar sua progamação e, assim, limitar o faturamento dos clubes, enquanto engorda suas próprias contas e influência. Na exposição que fez aos clubes na semana passada, a Globo sustentou que o futebol perderá audiência ao concorrer com o "Jornal Nacional" ou a novela das nove. O tricolor e o galo trucaram. Bom, isso é o que corre no baralho que está sobre a mesa. Mas as melhores cartas podem estar sob a manga, ou embaixo da mesa. Vamos aguardar...
terça-feira, 16 de novembro de 2010
O SENADOR E A JORNALISTA VI
- Su, é a Santa.
- Menina, tá viva?
- Sim, estou aqui em Brasília.
- Já faz tempo, heim?
- Oito meses.
- E o trabalho?
- É duro. Começo bem cedo, faço uma entrada ao vivo para o telejornal da manhã, gravo dois flashs para a programação local e faço uma reportagem para o telejornal da hora do almoço. Às vezes passo das duas, quando tenho que deixar alguma coisa gravada. E, uma vez por semana, gravo no estúdio para um programa da TV a cabo.
- Nossa, quanta coisa....
- É uma exploração o que eles fazem com a gente aqui. Você acredita que o meu salário é o piso de jornalista?
- Verdade?
- E se não quiser, tem fila para ficar com a vaga.
- Covardes, não?
- Nem me fale...
- E o bofe?
- Já estou cansada dele, mas liga duas vezes por semana e toda quinta-feira à noite nos encontramos.
- E o que faz nos fins de semana?
- Às vezes saio com uma colega, mas a cidade é muito chata. E você, Su?
- Na mesma. De casa para o trabalho, do trabalho para a casa. Faço meus shows no fim de semana e quando meu negrão quer passo a noite com ele.
- Su, preciso te contar uma coisa.
- É? Diga.
- Acho que estou grávida. (continua)
- Menina, tá viva?
- Sim, estou aqui em Brasília.
- Já faz tempo, heim?
- Oito meses.
- E o trabalho?
- É duro. Começo bem cedo, faço uma entrada ao vivo para o telejornal da manhã, gravo dois flashs para a programação local e faço uma reportagem para o telejornal da hora do almoço. Às vezes passo das duas, quando tenho que deixar alguma coisa gravada. E, uma vez por semana, gravo no estúdio para um programa da TV a cabo.
- Nossa, quanta coisa....
- É uma exploração o que eles fazem com a gente aqui. Você acredita que o meu salário é o piso de jornalista?
- Verdade?
- E se não quiser, tem fila para ficar com a vaga.
- Covardes, não?
- Nem me fale...
- E o bofe?
- Já estou cansada dele, mas liga duas vezes por semana e toda quinta-feira à noite nos encontramos.
- E o que faz nos fins de semana?
- Às vezes saio com uma colega, mas a cidade é muito chata. E você, Su?
- Na mesma. De casa para o trabalho, do trabalho para a casa. Faço meus shows no fim de semana e quando meu negrão quer passo a noite com ele.
- Su, preciso te contar uma coisa.
- É? Diga.
- Acho que estou grávida. (continua)
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
O SENADOR E A JORNALISTA V
Com indicação do Senador a vaga apareceu fácil na emissora. A jovem jornalista era bonita, tinha voz boa e sabia bem como se comportar. Mas tinha muita dificuldade em juntar as partes de uma reportagem de TV. Contou com a ajuda sempre prestativa do chefe de reportagem da tarde que, depois do expediente, ía para a ilha de edição com ela, mostrava os trechos mais importantes das entrevistas e dava idéias de como fazer para amarrar o texto. E, claro, sempre que tinha chance, passava uma cantada na garota. Ela gostava de tudo, inclusive dos galanteios do experiente jornalista, casado e pai de duas lindas filhas já adultas. Numa noite, num bar, achou que podia levar aquela história adiante, só para experimentar. Dali em diante passaram a se curtir de vez em quando.
- Como vai o trabalho? Perguntou o Senador.
- Vai bem, meu amor. Acho que estou evoluindo. O Ícaro, chefe de reportagem, é um sujeito muito legal. Faz tudo o que está ao seu alcance para ajudar.
- Ah, que ótimo, respodeu o Senador, meio desinteressado.
- O que vamos fazer?
- O de sempre, oras.
- Então tá.
Os dois seguiram no carro de vidros escuros até a mansão mobiliada à venda no Lago Norte, onde estavam acostumados a se encontrar. Era sempre a mesma coisa. Ela apanhava um táxi na porta do hotel, seguia para a Asa Norte e, no ponto pré-determinando, esperava discretamente o carro dele chegar. Sempre tinha uma mochila grande com fantasias (enfermeira, coelhinha, can-can...), maquiagem, cremes e uma troca de roupa, para o caso de numa emergência o pessoal da TV chamar. Os encontros duravam algumas horas. Champagne francês nunca faltou e quase sempre os dois recebiam comida de algum restaurante, pizzaria ou lanchonete que mandavam entregar. Depois de tudo, ele sempre a deixava num posto de gasolina onde ela pegava outro táxi para voltar ao hotel. (continua)
- Como vai o trabalho? Perguntou o Senador.
- Vai bem, meu amor. Acho que estou evoluindo. O Ícaro, chefe de reportagem, é um sujeito muito legal. Faz tudo o que está ao seu alcance para ajudar.
- Ah, que ótimo, respodeu o Senador, meio desinteressado.
- O que vamos fazer?
- O de sempre, oras.
- Então tá.
Os dois seguiram no carro de vidros escuros até a mansão mobiliada à venda no Lago Norte, onde estavam acostumados a se encontrar. Era sempre a mesma coisa. Ela apanhava um táxi na porta do hotel, seguia para a Asa Norte e, no ponto pré-determinando, esperava discretamente o carro dele chegar. Sempre tinha uma mochila grande com fantasias (enfermeira, coelhinha, can-can...), maquiagem, cremes e uma troca de roupa, para o caso de numa emergência o pessoal da TV chamar. Os encontros duravam algumas horas. Champagne francês nunca faltou e quase sempre os dois recebiam comida de algum restaurante, pizzaria ou lanchonete que mandavam entregar. Depois de tudo, ele sempre a deixava num posto de gasolina onde ela pegava outro táxi para voltar ao hotel. (continua)
domingo, 14 de novembro de 2010
O SENADOR E A JORNALISTA IV
- Vamos pela orla, respondeu Santa.
Enquanto o carro seguia veloz, a jovem jornalista fazia planos. Faria carreira de repórter de política em Brasília. Se tudo desse certo poderia até se casar. O Senador seria apenas a ponte para um caminho seguro. Rico e maduro, não daria um pingo de trabalho, desde que ela soubesse como levar. Mas teria que ser bastante cuidadosa, para ninguém desconfiar. Em Brasília? Difícil...
- Boa tarde.
- Tenho uma reserva.
- Preencha esta ficha, por favor.
- Claro.
- Aqui estão as chaves. O apartamento é o 1202.
- Obrigada.
O hotel era no Plano Piloto. Da varanda avistava-se a Esplanada dos Ministérios e lá no final o Congresso Nacional. A emissora era próxima. Durante algum tempo era ali que ela iria morar.
- Alô.
- Fez boa viagem, meu bem?
- Oi meu amor, fiz sim. Quando vamos nos ver.
- Na quinta-feira combinamos como fazer.
- E até lá eu faço o quê?
- Alugue um carro, passeie, vá às compras. Aproveite! Você ainda está com aquele cartão de crédito que deixei com você?
- Sim.
- Então agora ele é todo seu, pode gastar.
- É mesmo?
- É mesmo. (continua)
Enquanto o carro seguia veloz, a jovem jornalista fazia planos. Faria carreira de repórter de política em Brasília. Se tudo desse certo poderia até se casar. O Senador seria apenas a ponte para um caminho seguro. Rico e maduro, não daria um pingo de trabalho, desde que ela soubesse como levar. Mas teria que ser bastante cuidadosa, para ninguém desconfiar. Em Brasília? Difícil...
- Boa tarde.
- Tenho uma reserva.
- Preencha esta ficha, por favor.
- Claro.
- Aqui estão as chaves. O apartamento é o 1202.
- Obrigada.
O hotel era no Plano Piloto. Da varanda avistava-se a Esplanada dos Ministérios e lá no final o Congresso Nacional. A emissora era próxima. Durante algum tempo era ali que ela iria morar.
- Alô.
- Fez boa viagem, meu bem?
- Oi meu amor, fiz sim. Quando vamos nos ver.
- Na quinta-feira combinamos como fazer.
- E até lá eu faço o quê?
- Alugue um carro, passeie, vá às compras. Aproveite! Você ainda está com aquele cartão de crédito que deixei com você?
- Sim.
- Então agora ele é todo seu, pode gastar.
- É mesmo?
- É mesmo. (continua)
sábado, 13 de novembro de 2010
O SENADOR E A JORNALISTA III
- Su?
- Sim.
- Estou indo para Brasília.
- É mesmo?
- É. Vou a convite do Senador.
- Juuuuuuuura!
- Ele mandou passagem e disse que vai arrumar um emprego para mim como repórter de TV.
- Cuide-se menina e qualquer coisa que precisar é só ligar.
- Um beijo minha amiga. Você mora no meu coração.
- Você também.
Su desligou o telefone e pôs-se a lembrar. Santa estava na pior quando se conheceram. Sem mais nem menos, o dinheiro que o prefeito mandava minguou. E voltar para o norte de Minas nem pensar. Para pagar faculdade e todas as despesas no Rio, só mesmo "usando o diploma que Deus deu". A boate em Copacabana era ponto de encontro de drag queens e garotas de programa. Santa era uma unanimidade, principalmente entre os fuzileiros navais, que vinham de intercâmbio. Santa também frequentava os books dos principais hotéis da zona Sul. E, sempre que convidavam, figurava num programa de humor.
- À beira-mar ou pelo Túnel Rebouças? Perguntou o taxista. (continua)
- Sim.
- Estou indo para Brasília.
- É mesmo?
- É. Vou a convite do Senador.
- Juuuuuuuura!
- Ele mandou passagem e disse que vai arrumar um emprego para mim como repórter de TV.
- Cuide-se menina e qualquer coisa que precisar é só ligar.
- Um beijo minha amiga. Você mora no meu coração.
- Você também.
Su desligou o telefone e pôs-se a lembrar. Santa estava na pior quando se conheceram. Sem mais nem menos, o dinheiro que o prefeito mandava minguou. E voltar para o norte de Minas nem pensar. Para pagar faculdade e todas as despesas no Rio, só mesmo "usando o diploma que Deus deu". A boate em Copacabana era ponto de encontro de drag queens e garotas de programa. Santa era uma unanimidade, principalmente entre os fuzileiros navais, que vinham de intercâmbio. Santa também frequentava os books dos principais hotéis da zona Sul. E, sempre que convidavam, figurava num programa de humor.
- À beira-mar ou pelo Túnel Rebouças? Perguntou o taxista. (continua)
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Foi à beira do açude que o pai chamou o filho para conversar. Homem de posses, coronel do sertão alagoano, tinha planos para o rapaz.
- Você vai para a capital estudar.
- Sim senhor, meu pai.
- Quero que volte doutor. Não se preocupe com dinheiro. Do que precisar eu posso pagar.
- Obrigado meu pai. Vou te encher de orgulho. Não vais ter do que reclamar.
- Faço fé no seu futuro, meu filho.
E assim foi. Quando voltou advogado, no primeiro pleito virou vereador. Depois prefeito, deputado estadual e por pouco não concorreu a governador. Mas os planos do partido eram outros e ele foi para Brasília, como deputado federal. A carreira foi rápida. Da formatura como advogado à diplomação na Câmara Federal apenas 10 anos se passaram. Habilidoso, logo pegou gosto pelos negócios da política. Aprendeu a mexer no orçamento da União, a fazer favores para deputados do baixo clero e o melhor, a concentrar poder. Não demorou muito virou líder de bancada, depois de partido e de governo. Com a reeleição, duas vezes, o caminho estava aberto para virar Senador. (continua)
- Você vai para a capital estudar.
- Sim senhor, meu pai.
- Quero que volte doutor. Não se preocupe com dinheiro. Do que precisar eu posso pagar.
- Obrigado meu pai. Vou te encher de orgulho. Não vais ter do que reclamar.
- Faço fé no seu futuro, meu filho.
E assim foi. Quando voltou advogado, no primeiro pleito virou vereador. Depois prefeito, deputado estadual e por pouco não concorreu a governador. Mas os planos do partido eram outros e ele foi para Brasília, como deputado federal. A carreira foi rápida. Da formatura como advogado à diplomação na Câmara Federal apenas 10 anos se passaram. Habilidoso, logo pegou gosto pelos negócios da política. Aprendeu a mexer no orçamento da União, a fazer favores para deputados do baixo clero e o melhor, a concentrar poder. Não demorou muito virou líder de bancada, depois de partido e de governo. Com a reeleição, duas vezes, o caminho estava aberto para virar Senador. (continua)
terça-feira, 9 de novembro de 2010
O SENADOR E A JORNALISTA
Foi numa procissão em louvou à padroeira que eles se conheceram. Ela com apenas 14 anos de idade e o missionário, recém chegado da Itália, com 23. Foi um encontro lindo, arrebatador. O padre fora designado para a pequena paróquia do Vale do Jequitinhonha. A garota morava a cerca de 50 km de distância, numa localidade próxima. Não tardou e passaram a manter um romance secreto. A mãe da menina, viúva, beata e ceramista, fazia vistas grossas. Criava a filha caçula e a irmã mais velha, com a ajuda da avó. O marido, caminhoneiro, tinha morrido ao volante, num acidente horroroso. Não passaram muitos meses e a garota engravidou. Assim que a notícia correu, o padre foi transferido para outra diocese bem distante, destino que o bispo se recusava a revelar. A gravidez foi de risco. É como se no ventre a garota fizesse crescer tudo aquilo que quisera ser. No oitavo mês a bolsa estourou. Para não perder o bebê, a menina foi levada até a capital, onde veio a falecer. À pequena sobrevivende, alva e dos olhos bem verdes, deram o nome de Santa. Abençoada, cresceu sob o manto sagrado da igreja. Não havia necessidade da família que o bispo deixasse de atender. Bastava apenas uma solicitação e logo o mensageiro trazia o envelope com o dinheiro do dízimo, desviado para nobres fins. O pacto de silêncio incluia a irmã da morta, a mãe e a avó. Santa cresceu com conforto. Nunca entendeu o papel do bispo, nem nunca teve curiosidade de saber quem era seu pai. A tia virou funcionária pública e durante muitos anos foi confidente fiel e amante do prefeito da localidade. E foi graças a ela que Santa conseguiu prosserguir no Rio os estudos em Comunicação Social. (continua)
terça-feira, 26 de outubro de 2010
JORNALISMO COM INTELIGÊNCIA
Por Marco Aurélio de Mello, do Blog do DoLaDoDeLá.
Esse blogueiro que vos escreve tem 42 anos de vida e posso afirmar sem hesitar que jamais tinha visto na vida, pelo menos até a noite de ontem, um jornal de televisão que praticasse o contraditório, sem blindagens de grupos políticos nem tentativas de desconstrução de adversários, se baseando exclusivamente nos fatos e não em versões que interessem a pauta do ativismo político dos donos da empresa.
A edição do Jornal da Record foi o que mais se aproximou disso. Não poderia afirmar que o jornal é totalmente imparcial, pois abordou os fatos de forma dura em relação aos tucanos, até porque jornalismo totalmente imparcial ainda vai demorar a aparecer, mas o que a Jornal da Record ofereceu ontem aos seus telespectadores foi a possibilidade de entrar em contato com o contraditório, rompendo, na minha opinião de forma definitiva, um sistema de pauta única dos jornais de televisão comandado pela Globo, onde se um dos jornais resolvesse tratar de temas que atingissem seus aliados, era posto na geladeira pelos demais órgãos de imprensa, blindando determinados políticos e partidos.
Eu não posso esquecer que a Record vem melhorando o nível de seus telejornais há um tempo e fazendo um jornalismo cada vez mais independente, principalmente nas reportagens investigativas de Rodrigo Vianna, que merecidamente vem ocupando mais espaço no jornal, mas na última edição do Jornal da Record o jornalismo da emissora se superou a ponto de me proporcionar ver um telejornal como imaginei que jamais fosse possível existir.
Era exatamente isso que faltava nesse país, um canal de TV aberto disposto a incentivar o estabelecimento do contraditório através de seus telejornais, sem opiniões únicas, sem políticos ou partidos blindados, e fazendo jornalismo com respeito a inteligência do seu telespectador como nunca não se viu.
A Record gostou de ser independente e não dá sinais que pode voltar atrás em suas decisões. A Carta Capital já faz jornalismo sério há anos. A Isto é parece que entendeu que dizer a verdade não dói.
Fico feliz de estar vivo e presenciando o começo dessa revolução que vai mudar a forma de fazer comunicação nesse país. A opinião única morreu e se depender de nós nunca vai ressucitar.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
ESPORTE OU BUSINESS
Por Marco Aurélio Mello, DoLaDoDelá.
Quando fui trabalhar naquela que já foi a mais importante emissora de televisão do país, mas que hoje tenta espremer a realidade para contê-la dentro da cabeça de um candidato oco, estávamos diante de um império. A corte do Cosme Velho tinha tentáculos por toda a parte e um de seus órgãos vitais plantado na Avenida São João, centro de São Paulo. Naquela ocasião, anos 90 do século passado, diziam que quem pagava nossos salários era o esporte. O jornalismo da emissora era bancado pelo futebol e a fórmula 1. Isso era até razão de certo mal-estar entre os colegas. Afinal, jornalistas do esporte nunca gostaram de se submeter às idiossincrasias dos editores-chefes dos telejornais, pouco habituados à rotina de treinos, concentrações, rodadas à noite, nos fins de semana, tudo o que faz da editoria do esporte um "universo paralelo".
Mas às vezes as rusgas não terminavam aí. Era comum o jornalismo dar peso excessivo à determinada informação que para o pessoal do esporte não tinha tanta relevância, e vice-versa. Nessas horas, uma figura emblemática sempre lançava mão de um clichê, que ficou bem conhecido nos corredores: esporte não é jornalismo, é business.
Se a receita do negócio esporte continua tendo impacto tão relevante no departamento, não deve ser boa a notícia de que o Cade, O Conselho Administrativo de Defesa Econômica decidiu extinguir a preferência da Rede Globo na negociação dos direitos de TV do Campeonato Brasileiro. O acordo para por fim ao Cartel foi costurado pelo órgão com a emissora e o Clube dos 13 esta semana e vale já para a negociação das edições de 2012 a 2014.
Antes da decisão funcionava assim: a Globo tinha direito de cobrir qualquer proposta concorrente, mesmo que ela viesse em envelope fechado. Agora, a emissora irá concorrer igualmente com suas rivais, mas pode manter a sua exclusividade, caso vença novamente a disputa.
Os direitos de transmissão agora serão separados: TV aberta, TV por assinatura, pay-per-view, internet e celular. No entanto, os contratos não excluem a possibilidade de que uma empresa adquira todos em conjunto. Nem a Globo, nem o Clube dos 13 quiseram falar sobre o assunto.
Minha interpretação é que pode estar em curso o desmonte da preferência da Corte pela exclusividade e, melhor, todos ganham: a concorrência, que terá que se qualificar, caso queira entrar na disputa, o Clube dos 13, que pode aumentar sua receita e importância, os clubes fortes em seus estados mas que não gozam de privilégios de transmissão e o melhor de tudo: futebol às oito da noite. Este é o sonho de 10 em cada 10 torcedores.
Onde tem mais torcedor, maior é o espetáculo, mais cobrança, mais fiscalização e mais disputa. Todo futebol ganha com isso.
POR QUE O MOLINA ?
Por Marco Aurélio Mello, do Blog DoLaDoDeLá
O ex-perito da Unicamp, Ricardo Molina, que foi banido da Universidade de Campinas porque teria usado dinheiro público para comprar uísque e caviar, acusação que ele nega, é um homem muito conhecido da Corte do Cosme Velho. Foi ele quem, por exemplo, fez perícia no apartamento do Guardião da Doutrina da Fé, quanto este brigava com a vizinha por causa do "Maconhal Caseiro", história que eu contei aqui tempos atrás. A certa altura do processo, o apartamento do vizinho de baixo, que fala pausadamente, foi inundado por causa de um dreno aberto no andar de cima (história de sabotagem muito estranha...) Na ocasião, o síndico do prédio, que vem a ser o próprio Guardião, fez fotos e montou um dossiê contra a vizinha, anexando ao processo laudo advinhem de quem? Do Molina, que atestava que não houve montagem das fotos. Molina é polivalente. Apesar de especializado em degravação de áudio, o "professor" também pericia imagens. Depois que perdeu o emprego público, passou a se dedicar exclusivamente ao seu laboratório pericial. Sempre que a emissora precisa de um trabalho técnico recorre a ele. São vários casos... Quando promotores de justiça precisavam de perícias para juntar às denúncias e não tinham como pagar, faziam um bem-bolado com a Corte: davam ao repórter, aquele que sempre aparece nessas horas, a notícia com exclusividade, em troca do laudo e o perito fazia tudo de graça, só para ter a vitrine em horário nobre. São essas práticas que começaram a ruir, depois que a empresa trocou jornalismo de qualidade pela manipulação grosseira e a distorção dos fatos. Estão colhendo aquilo que plantaram nos últimos 7 anos. Lamento, principalmente pelos colegas que, como contou o Rodrigo Vianna hoje, no Escrevinhador, vaiaram na redação a "reporcagem" que foi ao ar na noite passada.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
ELES VÃO FAZER DE TUDO
Por Marco Aurelio de Mello, Blog DoLaDoDeLá
Os últimos acontecimentos da campanha eleitoral nos colocam diante do "best seller" de Sun Tzu, A Arte da Guerra. Apesar de se referir aos séculos V e VI, o livro andou na moda há alguns anos, para treinar executivos em empresas, cujo perfil é de forte voracidade, "predadores". No livro, o autor demonstra a importância da estratégia tática, que divide em: reconhecimento do terreno, observação do inimigo e patrulhamento dos flancos. O objetivo, primeiro, é garantir a segurança, depois o avanço e o, por último, o descanso seguro das tropas. O autor fala ainda da importância de sondagem ao inimigo antes da ação, o que considera essencial. Para Tzu, "o líder planeja antes de agir, avalia riscos e os previne." A guerra só fará sentido se: for feita no menor espaço de tempo possível; com o mínimo de esforços possíveis e com o mínimo de baixas causadas ao inimigo. Durante algum tempo, antes de se lançar candidato à presidencia pelo PSDB, este foi o livro que fez a cabeça do "mais preparado", nas noites de insônia. Extraído dO Globo: Na entrevista ao Jornal Nacional, o candidato do PSDB à Presidência, José Serra, usou a suposta experiência literária de seu vice, o deputado Indio da Costa (DEM-RJ), para defender sua qualificação para exercer o cargo, se eleito. Ao ser perguntado sobre a falta de experiência de Indio pelos entrevistadores William Bonner e Fátima Bernardes, Serra lembrou que ele tem livros publicados sobre administração... No site da Câmara e na página do deputado são listadas três obras de autoria de Indio da Costa. Entre elas, o prefácio do livro "A Harmonia do conflito: a arte da estratégia de Sun Tzu" - um comentário sobre o clássico "A arte da Guerra". Portanto, qualquer semelhança com o que temos visto não é mera coincidência.
"Toda arte de guerra é baseada na decepção. Assim, quando capaz, finja incapacidade; quando ativo, finja inatividade. Quando próximo, faça parecer que você está muito longe; quando longe, que você está muito perto. Ofereça ao inimigo uma isca para atraí-lo; finja desordem e derrube-o. Quando ele se concentrar, prepare contra ele; onde ele for forte, evite. Irrite-o e confunda-o."
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
UM DELITO DE OPINIÃO
Tenho atividade intelectual. Vendo minha força de trabalho, mas minhas convicções políticas não fazem parte da minha relação trabalhista. Por causa disso fui demitido em 2006, depois de quase dez anos de serviços prestados à maior emissora de televisão do país, tendo passado três outros anos numa emissora afiliada do mesmo grupo. Portanto, tive uma carreira de 12 anos interrompida por discordar da maneira como os patrões e seus vassalos manipulavam o noticiário seletivamente à favor do PSDB. Nunca houve nada que desabonasse minha carreira, consagrada com um dos mais importantes postos naquele que já foi o principal telejornal do país. Não me arrependo de nenhuma palavra do que disse e faria tudo outra vez, se preciso fosse. Também não sinto saudades. Era muito infeliz profissionalmente e não tinha consciência do tamanho da minha infelicidade. Em relação aos episódios de 2006 há farto material na imprensa alternativa da época, sobretudo na Revista Carta Capital, para quem quiser conhecer o outro lado que eles escondem da sua história de sucesso. E há também testemunhas oculares importantes sobre um momento obscuro do jornalismo brasileiro, entre eles: Carlos Dorneles, Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna. Há outros que não vou revelar para poupá-los, já que foram preservados nos quadros da empresa sob forte amordaçamento.
Estou dizendo tudo isso porque a memória voltou à tona depois que soube que o jornal O Estado de São Paulo decidiu dispensar uma de suas mais importantes colunistas, a psicanalista Maria Rita Kehl. Foi ela a autora de um artigo demonstrando que a elite desqualifica o voto do mais pobre, como se ele fosse um cidadão de segunda classe em nosso país. Deixo em homenagem a ela um parágrafo do artigo que considero essencial: "Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos." Maria Rita é mais uma voz que se levanta contra os poderosos e é calada sumariamente. É essa gente que defende a liberdade de expressão e de imprensa no Brasil. Que tal?
Estou dizendo tudo isso porque a memória voltou à tona depois que soube que o jornal O Estado de São Paulo decidiu dispensar uma de suas mais importantes colunistas, a psicanalista Maria Rita Kehl. Foi ela a autora de um artigo demonstrando que a elite desqualifica o voto do mais pobre, como se ele fosse um cidadão de segunda classe em nosso país. Deixo em homenagem a ela um parágrafo do artigo que considero essencial: "Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos." Maria Rita é mais uma voz que se levanta contra os poderosos e é calada sumariamente. É essa gente que defende a liberdade de expressão e de imprensa no Brasil. Que tal?
O LIDER DA PALAVRA
Por Maria Rita Kahl, no Blog DoLaDoDeLá.
LULA O IMAGINÁRIO POPULAR
Na noite de 27 de outubro (de 2002, grifo meu), recém eleito presidente do Brasil com a maior votação da nossa história, Luiz Inácio Lula da Silva falou à multidão reunida na avenida Paulista. Fez um discurso emocionado de agradecimento aos eleitores que revelou, mais uma vez, o traço característico da personalidade deste impressionante e improvável líder brasileiro. Desde os tempos das assembléias operárias no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo, Lula sempre foi capaz de fazer pronunciamentos empolgantes, em nome próprio, sem recorrer aos lugares comuns da retórica política, mas também sem falar apenas em primeira pessoa. É isso que diferencia seu carisma pessoal dos vícios do personalismo, tão freqüente entre os líderes políticos mais populares da história brasileira. Nas falas de Lula, o “eu” autoral é um “nós”. Antes de prometer qualquer coisa à multidão em festa, antes de se oferecer aos aplausos e às saudações de seu aniversário, Lula nomeou e agradeceu a todos os seus companheiros de percurso, vivos e mortos. Finalizou citando os colaboradores da atual campanha e nomeando os principais setores sociais que o elegeram: trabalhadores da cidade e do campo, membros da Igreja, professores, sindicalistas, estudantes. No lugar de “eu fiz, eu venci, eu cheguei lá”, Lula consagrou um “nós vencemos” a que o povo brasileiro não está acostumado. Em vez de se apresentar como um indivíduo privilegiado e iluminado, objeto de adoração e inveja das massas em função de sua excepcional trajetória de ascensão social, Lula fez de sua vitória a consagração do "povo unido" que há várias décadas já não acreditava que jamais seria vencido.
LULA O IMAGINÁRIO POPULAR
Na noite de 27 de outubro (de 2002, grifo meu), recém eleito presidente do Brasil com a maior votação da nossa história, Luiz Inácio Lula da Silva falou à multidão reunida na avenida Paulista. Fez um discurso emocionado de agradecimento aos eleitores que revelou, mais uma vez, o traço característico da personalidade deste impressionante e improvável líder brasileiro. Desde os tempos das assembléias operárias no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo, Lula sempre foi capaz de fazer pronunciamentos empolgantes, em nome próprio, sem recorrer aos lugares comuns da retórica política, mas também sem falar apenas em primeira pessoa. É isso que diferencia seu carisma pessoal dos vícios do personalismo, tão freqüente entre os líderes políticos mais populares da história brasileira. Nas falas de Lula, o “eu” autoral é um “nós”. Antes de prometer qualquer coisa à multidão em festa, antes de se oferecer aos aplausos e às saudações de seu aniversário, Lula nomeou e agradeceu a todos os seus companheiros de percurso, vivos e mortos. Finalizou citando os colaboradores da atual campanha e nomeando os principais setores sociais que o elegeram: trabalhadores da cidade e do campo, membros da Igreja, professores, sindicalistas, estudantes. No lugar de “eu fiz, eu venci, eu cheguei lá”, Lula consagrou um “nós vencemos” a que o povo brasileiro não está acostumado. Em vez de se apresentar como um indivíduo privilegiado e iluminado, objeto de adoração e inveja das massas em função de sua excepcional trajetória de ascensão social, Lula fez de sua vitória a consagração do "povo unido" que há várias décadas já não acreditava que jamais seria vencido.
O discurso da Paulista pode ter sido o começo da (re)educação político/sentimental da sociedade brasileira. Nossa tradição política é a do autoritarismo, em suas várias versões. Tivemos a versão hardcore dos militares, que dominaram pela intimidação e pela repressão - o "prendo e arrebento", de famigerada memória. Tivemos também as várias versões soft do paternalismo e do populismo, segundo as quais o político popular sustenta sua autoridade e autoriza seu arbítrio ao se apresentar como uma espécie de pai severo e bondoso, protetor pessoal dos oprimidos, objeto de amor e submissão filiais das massas. O paternalismo infantiliza a sociedade e desmobiliza a participação popular. Faz da relação da massa com seu líder uma relação de gozo, uma "servidão voluntária", na expressão de Étiènne de La Boétie. É a forma mais eficiente de dominação, porque conta com a alegre adesão das massas: uma sociedade habituada ao paternalismo pede paternalismo, ama o paternalismo. Se os oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso representaram algum avanço para a sociedade brasileira, este se deu em conseqüência do traço mais detestável do ex-presidente: seu autoritarismo moderno e globalizado. Fernando Henrique, decididamente, não era paternalista. Muito menos populista. Seu discurso não mascarava os compromissos de classe, nacionais e internacionais, de seu governo. Neste sentido, fez um grande favor à sociedade.
Na via da relação das massas com os governantes, estamos completamente embebidos de cordialidade. Que um governante seja simpático e tenha “boa aparência”, que se ofereça à projeção de figuras familiares, que chore em público, que peça “mais uma chance” a seu eleitorado quando pego em flagrante de corrupção, tudo isto parecem ser condições “naturais” da vida política – como se a política pudesse ser tomada como um evento da natureza – aos olhos de grande parte dos brasileiros. Ao mesmo tempo, a prática da demagogia corrompe a sociedade inteira; corrompe e desnorteia. A demagogia substitui a esperança depositada na relação entre a palavra e a verdade pela receptividade cínica de quem aprende a desesperar, já que a palavra empenhada não tem nenhum valor. “Todo governante eleito pode prometer e não cumprir”, disse Lula à multidão. “Eu não tenho este direito” De fato, a ascensão do líder sindical à presidência da república, depois de três derrotas sucessivas, representa o coroamento de um projeto de toda a esquerda brasileira: um projeto de longo curso, gestado e desenvolvido há mais de vinte anos nos mais diversos setores da sociedade organizada. Lula sabe que deve muito a todos eles. Mais do que gratidão e reconhecimento, trata-se aqui de um compromisso de quem sabe que sua liderança é fruto de um projeto construído a muitas mãos - um processo longo e coletivo.
Ao final de seu discurso o presidente eleito se debruçou do palanque e prometeu prestar contas de seus acertos e erros aos eleitores. Não eram as palavras vazias da demagogia – eram palavras de um compromisso antigo, cuja credibilidade é legitimada pela trajetória pública do sujeito desta enunciação. Quanto ao endereçamento desse discurso, é importante observar a diferença entre o “vocês” da fala de Lula e o “povo brasileiro”, conjunto genérico e vazio que sempre abriu os discursos oficiais dos governantes anteriores. Pois Lula tinha acabado de reconhecer e de qualificar o coletivo que compõe este “vocês”. Embora se apresente – e não poderia fazer de outra forma – como presidente de todos os brasileiros, o “povo” a quem endereça seu discurso tem um perfil diversificado mas definido, cobre um
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
TEORIA DA CONSPIRAÇÃO
DO BLOG DoLaDoDeLá - Marco Aurélio Mello.
Vamos supor que um "software malicioso" inocule no processo de apuração, ou seja, enquanto os dados da urnas eletrônicas são totalizados, no computador central do TSE, a informação que faça o sistema expurgar um de cada dez votos recebidos pela candidata A. Isso quer dizer que, de cada cinquenta votos que ela viesse a receber, perdesse cinco. Com quantos votos ela ficaria? 45, certo? Suponhamos agora que esse mesmo sistema distribuísse esses votos de forma rigorosamente proporcional entre os candidatos B, C, D, E, F, G, H, I, os brancos e nulos. Para a grande maioria dos eleitores a manobra seria absolutamente imperceptível, certo? O candidato B, que tivesse recebido 30 votos ficaria portanto com mais três; a candidata C, que tivesse recebido 18 votos, receberia mais dois e assim sucessivamente. Ao final da apuração teríamos uma situação inquestionável. Se considerarmos que apenas um instituto punha em cheque a decisão em primeiro turno e todos os outros não, incluindo-se aí pesquisas de boca de urna divulgadas minutos antes do início da apuração, a teoria conspiratória acima ganha mais contornos de veracidade. Como não acredito no processo eleitoral brasileiro e desconfio de parte da elite (golpista) e seus prepostos, fico sinceramente em dúvida. Esta talvez seja a razão pela qual há dez anos votar ou não, no meu caso, deixou de ser relevante. Hoje, por exemplo, justifiquei porque estava fora do meu domício eleitoral. Nessas horas me lembro do bom e velho Brizola: - Cadê o papelzinho!!!!
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
CARTA AO PROFESSOR HARIOVALDO
Por Marco Aurélio de Melo.
Caro professor Hariovaldo Almeida Prado,
Considerando que aos três dias de outubro do corrente ano as eleições estarão liquidadas pelos representantes da Novíssima República comuno-sindicalista e que em breve, a disputa política cairá no esquecimento, não poderia me furtar de fazer uma sincera homenagem a quatro importantes famiglias brasileiras, seus jornais e a seus principais colaboradores que, a exemplo da saudosa Tribuna da Imprensa, combateram ao lado da oposição os desmandos dos poderosos de turno. Infelizmente não foram vencedores, mas estou certo de que seguirão adiante denunciando a corrupção, apontando desvios éticos e gritando contra a desmoralização e o esfacelamento da democracia em nosso país. Um dia, no futuro, alguém que queira estudar a força do Quarto Poder poderá encontrar aqui um tributo aos nossos hérois da resistência, cidadãos probos e impolutos, conscientes do seu dever cívico e comprometidos com os direitos fundamentais da pessoa humana, com a justiça social e com o progresso da nação.
Às Organizações Globo, da famiglia Marinho e seus representantes:
Ali Kamel
Arnaldo Jabor
Carlos Alberto Sardemberg
Carlos Henrique Schroeder (por omissão)
Lúcia Hippolito (Ah Lolito...)
Merval Pereira
Miriam Leitão
Ricardo Noblat
À Editora Abril (Revista Veja), da Famiglia Civita e seus representantes:
Augusto Nunes
Eurípedes Alcântara
Diogo Mainardi
Reinaldo Azevedo
Ao Jornal Folha de S. Paulo, da Famiglia Frias e aos seus representantes:
Danusa Leão (ex-mulher do meu arqui-inimigo Samuel Weiner)
Eliane Cantanhêde
Judith Brito (pres. ANJ)
Renata Lo Prete
Suzana Singer
À Famiglia Mesquita: in memorian
Estou certo de que os brasileiros saberemos recompensá-los com generosidade pelo importante capítulo que escreveram em nossa história!
Att.,
Carlos Lacerda
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
ÚLTIMO DEBATE - MARMAMELADA
Dia desses apontei aqui o jogo casado entre o telejornal da maior emissora de televisão do país e o candidato da oposição. Havia a denúncia de que durante o quebra-queixo, as perguntas estavam sendo combinadas entre a assessoria de José Serra e a direção de jornalismo. Quebra-queixo é a entrevista coletiva diária, em pé, de mais ou menos 5 minutos, onde os repórteres se acotovelam para conseguir uma nova declaração. Depois do debate presidencial do último domingo, por exemplo, a repórter daquela emissora fez a seguinte pergunta ao candidato: - E as denúncias de corrupção? Na sua opinião foram esclarecidas pela candidata do governo? Os colegas trocaram olhares de cumplicidade e se perguntaram: - Foi ou não foi uma pergunda dirigida? A cena se repetiu, mas de forma ainda mais escancarada ontem. Num e-mail recebido por Serra às 14h17min, Luiz Gonzalez, coordenador de marketing da campanha informava que o telejornal da hora do jantar ía dar à noite um registro da reunião que acabara de ser realizada, entre o candidato e funcionários públicos. E recomendava: "Pregue valorização do servidor e realização de concursos." Serra, que já tinha encerrado a entrevista, depois de ler o e-mail num iPad, chamou os colegas jornalistas e informou que faria um comentário sobre a palestra. Assim fica fácil para ele, não acham? Outro dia um internauta perguntou se acho possível que o candidato estude com antecedência as perguntas que serão feitas pela emissora no último debate esta noite. Claro que sim! Isso é mais do que obvio, é ululante! Em dois mil e seis, por exemplo, fui testemunha da reação indignada do apresentador Carlos Tramontina, depois de sair do estúdio e dirigir-se à redação. Na ocasião ele foi categórico: - Na última hora recebi na bancada as perguntas que deveria fazer ao candidato do PSDB e não tive escolha." Só que agora nós temos escolha.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
CAIU A FICHA
Por Marco Aurélio Mello.
Existe um momento numa campanha eleitoral em que o candidato cai em si.
Toma consciência de que não há mais chances de reverter o quadro. Isso aconteceu este fim se semana. Debruçado sobre pesquisas internas, Serra concluiu que não dá mais para ele. Seu teto não chega a 28% dos votos, se considerada favoravelmente a margem de erro. Portanto, não há mais possibilidade de virar votos em tempo hábil. A expectativa de levar o pleito para segundo turno também não se sustenta nos números atuais. Por uma razão muito simples: o cenário é de estabilidade há pelo menos uma semana. Só há uma candidatura "virando" votos dos inseguros e indecisos, é a da Marina. Mesmo assim, a possibilidade de crescimento, ainda que a velocidade dobre numa onda verde, não permite mais que ela passe de 25% das intenções de voto, 27%, se considerada favoravelmente a margem de erro. Inclusive por uma questão de tempo de exposição na TV, que no caso dela é irrisório. Como Dilma tem algo em torno de 48% hoje, podendo ir a 50%, se também considerarmos favoravelmente a margem de erro; tudo somado permite especular que, se mantido o quadro, não haverá mesmo segundo turno.
No cenário menos provável, de haver, Serra e Marina passariam a disputar voto a voto o segundo lugar na reta final. Mas as chances são mínimas, porque uma parte dos indecisos vai votar na última hora em quem está em primeiro e isso é demonstrado estatisticamente. Se nada espetacular e imprevisível acontecer, uma onda vermelha varrerá o país no dia 03 de Outubro.
Não quero parecer presunçoso, mas tenho dito isso desde junho.
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