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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

JULGAMENTO DO MENSALÃO


DO BLOG DO NOBLAT.
O melhor bate-boca até agora.
Aconteceu ontem, entre os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, a propósito do desmenbramento ou não do processo. A proposta de desmembrar encampada por Lewandowski foi derrotada por 9 x 2. Se tivesse sido aprovada, o processo contra 35 dos 38 réus seria remetido para a primeira instância da Justiça. Ali se arrastaria, beneficiando os réus.
JOAQUIM BARBOSA. “Vossa Excelência é revisor desse processo. Dialogamos ao longo desses dois anos e meio em que Vossa Excelência é revisor. Causa-me espécie se pronunciar agora pelo desmembramento do processo, quando poderia tê-lo feito há seis, oito meses. Vossa Excelência poderia ter pedido, eu traria em questão de ordem”.
RICARDO LEWANDOWSKI. “Eu, como revisor, ao longo deste julgamento, farei valer o meu direito de me manifestar sempre que entender que isso seja necessário”.
BARBOSA. “É deslealdade!”
LEWANDOWSKI. “Eu acho que é um termo um pouco forte que Vossa Excelência está usando, e já está prenunciando que este julgamento será muito tumultuado”.
BARBOSA. “Vossa Excelência é revisor deste processo. Vossa Excelência não concorda com o julgamento do processo pelo tribunal?”
LEWANDOWSKI. “A questão de ordem foi levantada por um dos mais ilustres advogados deste país, um dos maiores especialistas em direito penal, ex-ministro da Justiça deste país, que muito honrou o cargo. Temos que levar a sério e não podemos deixar de lado uma questão de ordem arguida com a maior seriedade”.
(...)
BARBOSA. “Eu fiquei vencido, ministro. Para mim, tenho sempre em mente o princípio da colegialidade. Eu propus o desmembramento há seis anos. Mas fiquei vencido, acabou, eu toquei a ação até o final”.
LEWANDOWSKI. “Também fiquei vencido. Agora pretendo mostrar que a matéria foi ventilada sob outro enfoque”.
(...)
BARBOSA. “O ministro Lewandowski, no final da sua fala, de uma certa forma colocou em questão a legitimidade desta Corte para julgar esta ação penal. Ele disse claramente que os réus estariam em risco, por serem submetidos a um órgão jurisdicional que não é competente para julgá-los.”
LEWANDOWSKI. “Estou defendendo apenas o duplo grau de jurisdição, apenas isso. Jamais faltarei com respeito à Corte que com muita honra integro.”
BARBOSA. “Nós temos tudo gravado. Vossa Excelência disse isso. Agora, eu pergunto: Sua Excelência é revisor dessa ação há exatos dois anos. Por que não trouxe essa questão nesses dois anos? Por que exatamente no dia marcado para o julgamento?”
LEWANDOWSKI. “Estou sendo atacado pessoalmente. Vossa Excelência se atenha aos fatos, e não à minha pessoa.”
BARBOSA. “Eu acho que o que está em jogo é a credibilidade deste tribunal. O Código de Processo Civil diz que uma questão não será julgada três, quatro, cinco vezes. E essa questão já foi debatida aqui três vezes. Esta é a quarta! Esta é a quarta! Por que isso? (...) O ministro Lewandowski me acompanhou em todas as discussões pelo indeferimento dessas questões. No dia do julgamento, coloca em jogo a legitimidade desse processo, que já nos deu tanto trabalho!”

sábado, 16 de junho de 2012

RIO + 20

A “Rio+20” começa sob o risco de ser apenas um evento comemorativo da Eco-92, e com a chance de ser um marco para o “Mundo+50”.
Para o Rio de Janeiro ser uma cidade marcante, um divisor de águas na história mundial, como Bretton Woods, será necessário que a “Rio+20” seja, não apenas um evento comemorativo do passado, mas uma reunião que traga propostas alternativas capazes de reorientar os destinos da humanidade e construir um futuro diferente da continuação do passado.
Será preciso que os Chefes de Estado e de Governo afirmem que a civilização está doente, mostrem os riscos que enfrentamos e proponham caminhos para os próximos 50 anos, com a reorientação do atual modelo de desenvolvimento.
Devem deixar claro que a sinergia histórica entre a Democracia Política, o Crescimento Econômico, a Inovação Técnica e o Bem-Estar Social foi quebrada.
O progresso baseado no crescimento econômico está esgotado devido ao surgimento de alguns novos fatores na realidade sócio-político-econômica: os limites ecológicos, apresentando custos e riscos ao aumento da produção; a independência como o sistema financeiro funciona sem vínculos com o setor produtivo e sem controle de fronteiras; a mega-concentração de renda e de patrimônio em mãos de poucas pessoas do mundo; a revolução científica e tecnológica que começa a fazer desnecessário o emprego; o esgotamento da capacidade de financiamento público para o sistema de bem-estar social; o endividamento dos governos, mesmo em países desenvolvidos.
Soma-se a isso a legítima, mas impossível, exigência de grandes contingentes populacionais à voracidade do consumo.
Na definição de novos rumos para o mundo global em marcha, Chefes de Estado e de Governo devem levar em conta esses fatores que limitam o crescimento e oferecer alternativas socio-político-econômicas diferentes do progresso.

sábado, 26 de maio de 2012

A MISSÃO DE THOMAZ BASTOS


Por Ruy Fabiano, do Blog do Noblat.
Um dos fatos mais intrigantes em torno da CPI do Cachoeira é o de estar na sua defesa um personagem da estatura política do advogado Márcio Thomaz Bastos.
Não é um advogado qualquer, nem pode ser visto como tal. Ex-ministro da Justiça de Lula e um de seus conselheiros políticos mais notórios, assume a defesa de alguém cuja CPI foi idealizada pelo próprio Lula. É intrigante mesmo.
Lula figura, pois, na defesa – ao ter seu ex-ministro e conselheiro aconselhando o contraventor – e no ataque, ao idealizar a CPI. Sabe-se que Cachoeira é um homem-bomba, como o foi Roberto Jefferson, no episódio do Mensalão.
Jefferson integrava a base parlamentar do governo como um de seus mais fiéis defensores. O Mensalão não o incomodava. Ao contrário, foi confessadamente beneficiário de RS 4 milhões, doados pelo esquema do PT ao seu partido, o PTB, que, segundo se noticiou na época, não chegou a ver a cor do dinheiro.
Eis, porém, que, numa guerra de partilha, Jefferson começou a ter seus aliados expostos em escândalos, pela imprensa. Atribuiu o vazamento deliberado a José Dirceu e, perdido por um, perdido por mil, decidiu, como um Sansão profano, derrubar as colunas do templo. Morreria, mas levaria todos com ele. E assim foi.
Poupou, inicialmente, apenas Lula. Mas só inicialmente. Quem se der ao trabalho de ler o discurso com que encaminhou a votação de sua cassação – e depois o que escreveu no livro “Nervos de Aço” -, verá que tentou incluir o então presidente no rol do Mensalão, mas já sem força política para fazê-lo.
O exemplo de Jefferson traumatizou o PT. Pelo que já se sabe de Cachoeira, é um homem-bomba das proporções de Jefferson.
Ou ainda pior, já que aquele era um parlamentar, detentor de um mandato popular e não havia, em princípio, desdouro algum em tê-lo como aliado.
Já Cachoeira é um velho contraventor, neste momento preso, à espera de conclusão do inquérito e julgamento. Não é tão fácil explicar a intimidade de que gozava no meio político, suas relações íntimas com uma empresa, a Delta, uma das maiores fornecedoras do governo federal –  da qual se suspeita seja um sócio oculto. Nada menos.
Qual a missão de Márcio Thomaz, conselheiro de Lula, em tal circunstância? Pelo que se viu na CPI, cabe-lhe guardar o silêncio do cliente, evitar que acione o gatilho da bomba-relógio. “Ele pode não falar nunca”, garantiu.
A CPI foi um equívoco de Lula. Um tiro no pé. Supunha que, com ela, feriria de morte a oposição, acertando simultaneamente dois pesos-pesados, o senador Demóstenes Torres, então no DEM, e o seu desafeto pessoal, o governador tucano Marcone Perillo, ambos de Goiás, terra de Cachoeira. De quebra, provocaria uma cortina de fumaça no Mensalão.
Ocorre que Cachoeira não atua apenas em Goiás. Basta lembrar que seu advento na política nacional – sua primeira exposição pública - deu-se no Rio de Janeiro, quando negociou com Waldomiro Diniz, assessor de José Dirceu, contribuição para a campanha da senadora Benedita da Silva, do PT.
A divulgação do vídeo, em que Waldomiro pedia a propina de 1% sobre a contribuição, foi o primeiro dos escândalos do governo Lula, um mês após a posse, em 2003.
Waldomiro teve que ser demitido, mas o episódio resvalou em José Dirceu, a quem assessorava desde a Câmara dos Deputados.
Cachoeira, pois, fez seu début no PT. Só por aí já seria desaconselhável levá-lo a um tribunal político como a CPI.
Aí volta a fazer sentido a figura de Thomaz Bastos. Ele teria a missão de tornar seletivas as acusações de Cachoeira, direcionando-as aos alvos escolhidos: Demóstenes e Perillo.
Só que a sequência de denúncias, amplamente publicadas na imprensa, expôs pesos-pesados do governismo, envolvidos na mesma malha: os governadores Sérgio Cabral (RJ) e Agnelo Queiroz (DF) e o empresário Fernando Cavendish, dono da Delta.
Não é mais possível separar o joio do joio, numa plantação em que não há trigo. Resta apenas o silêncio e o esvaziamento da CPI, promovido pela maioria governista.
 Transformar a CPI do Cachoeira numa cascata. É o que está em pauta.

sábado, 28 de abril de 2012

BOLSA ESTIAGEM

Em ano de eleição, Dilma descobriu a seca.
Por Vitor Hugo Soares, do Blog de Ricardo Noblat em O GLOBO.
Nestes dias, de geléia geral brasileira, nada poderia ter sido mais expressivo – como ato político e fato jornalístico - que a primeira visita do ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, à Brasília, depois do tratamento de câncer na laringe a que se submeteu.
A ambientação, preliminares e repercussões da conversa de Lula com a sua sucessora “foi o que há”, expressão que uma sobrinha em Salvador (profissional da publicidade arguta e antenada com os signos do poder e do marketing político) costuma utilizar para definir acontecimentos de grande impacto. Ou que são produzidos com esse objetivo.
Tapetes vermelhos (real ou simbolicamente) esparramados no Palácio da Alvorada; sessão especial de cinema, para exibir documentário sobre a posse de Dilma Rousseff; trocas de juras de amor indissolúvel e de fidelidade eterna; risos escancarados, quando em volta tudo (ou quase) gira em ritmo de alta tensão.
“Salamaleques!”, resumiria, provavelmente, se vivo estivesse e observasse essas coisas, o escritor alagoano Graciliano Ramos, sábio no pensamento e sempre econômico nas definições.
Tudo, coincidentemente (ou não?), no primeiro dia de funcionamento, no Congresso, da chamada CPI Mista do Cachoeira.
Portanto, um foco a mais para ser bem observado na capital do Brasil, sobressaltada pelos vivos e os esqueletos que se cruzam, ultimamente a cada instante, na inquieta cidade do planalto central.
Denúncias pipocam de todo lado, acompanhadas de “ruídos” e boatos que mais confundem que ajudam a esclarecer sobre “um escândalo que promete abalar Paris”, como se diz em Irecê, no nordeste baiano, assolado, junto com mais de 200 municípios, por mais uma “seca sem precedentes”.
A estiagem - assim como a praga corrupta e corruptora de Cachoeira, que contamina a política, governos, imprensa, empresas públicas e privadas - rola solta há mais três anos na Bahia e em outros tantos municípios da região Nordeste.
Neste ano de eleições para as prefeituras, coincidentemente (ou não?) a seca ganhou dramáticas cores de tragédia de umas semanas para cá, em meio ao alvoroço da CPI no Congresso.
Principalmente depois de outro encontro que merecia ser olhado (e analisado) com mais atenção.
Este, ocorrido em Aracaju, nordestina capital sergipana, no começo da semana, entre a presidente Dilma e os governadores da região.
Do encontro, além de imagens expressivas no palácio do governo, que lembram pompas de tempos imperiais e de fartura (e não as agruras da seca) resultou o anúncio, com pompa e circunstância, da polêmica “Bolsa Estiagem”, que concederá auxílio de R$ 80, por cinco meses, às famílias residentes nos municípios nordestinos atingidos pela seca”.
“Amaldiçoado quem pensar mal dessas coisas”, diriam os franceses. Mas vale lembrar que Luiz Gonzaga e Zé Dantas já alertavam, em “Vozes da Seca”, sobre o tratamento assistencialista (e eleitoreiro) dispensado, pelo governo, nas estiagens dos anos 50, no século passado: “Seu doutor uma esmola, a um homem que é são, ou lhe mata de vergonha, ou vicia o cidadão”.
Mas, antes do ponto final, é preciso retornar ao ponto de partida e crucial das linhas deste artigo: o encontro de Dilma com Lula, no retorno do ex-presidente ao Planalto, onde se multiplicam gestos e sinais de harmonia entre os dois, em meio a um território convulsionado.
"Nosso relógio é suíço. Jamais ele vai ter de atrasar ou adiantar. Nunca temos de acertar os ponteiros", disse Lula – sem desmentidos ou mesmo um muxoxo de contestação da presidente - em uma das tiradas, bem ao seu estilo, reveladoras de que Lula parece recuperar a velha forma de fazer política e o humor de antes da dolorosa passagem pelo Hospital Sírio Libanês, em São Paulo.
A segunda “tirada de Lula” em Brasília, esta semana, também demonstra a recuperação do velho estilo pernambucano-sindicalista (e petista) de procurar briga. Foi quando ele falou da CPI Mista do Cachoeira, iniciada no dia de seu retorno à capital federal:
“Vocês vão se surpreender com o que essa CPI vai revelar”, disse o ex-ocupante da cadeira de Dilma, sem no entanto esclarecer direito quem ele imagina (ou sabe de fato) serão os surpreendidos.
Pelo tom, arrisco, parecia decidido a retomar seus antigos embates com a imprensa e com jornalistas.
A conferir...

quinta-feira, 28 de julho de 2011

NOSSAS PEQUENAS LIBERDADES

Murillo de Aragão é cientista político, Via Blog do Noblat.
A caminho da alta modernidade, a liberdade deixa de ser algo amplo e um ideal a perseguir para se transformar na luta pela manutenção de pequenas liberdades.
Nossas grandes liberdades se foram, na esteira das limitações impostas pelos tempos modernos de violência, de terrorismo, de variadas proibições. Como as limitações aos hábitos/vícios de fumar e de beber.
Até mesmo de se expressar, já que qualquer opinião mais aguda pode ser interpretada como homofobia, xenofobia, racismo ou outro sucedâneo qualquer.
Não temos mais liberdade de transgredir coletivamente sem correr sérios riscos. E as liberdades menos comunitárias, digamos assim, ficaram perigosas e escassas nos dias de hoje, só podendo ser desfrutadas em ambientes privados.
Paradoxalmente, na emergência dos direitos humanos, que poderiam nos trazer ambientes mais livres e mais igualitários, o que vemos é o crescente deslocamento de nossas liberdades da esfera pública para a esfera íntima. Como uma forma de defesa da individualidade.
Na coletividade, devemos ser pasteurizados para não corrermos riscos nem

sexta-feira, 15 de julho de 2011

CHAPEUZINHO VERMELHO

Ilustração de Gustave Doré (1832-1883) para o livro “Contes de Perrault”, edições Stahl-Hetzel, 1862.
A história de Chapeuzinho Vermelho a que nos habituamos, não é a versão de Charles Perrault.
A lenda da menina que se depara com o lobo na floresta, e que circulava oralmente por toda a Europa havia muitos e muitos anos, recebeu de Perrault não só tratamento literário, como um fundo moral acentuado: em quem e como confiamos, é o que irá determinar as consequências que sofreremos.
Gustave Doré, o grande ilustrador francês do século XIX, autor de algumas das mais famosas gravuras de todos os tempos, captou perfeitamente bem o espírito da trágica história de Chapeuzinho Vermelho, na versão de Perrault.
O olhar curioso e meio assustado da menina, o lobo mal disfarçado de avó, os contrastes e matizes da gravura, a dramatização rebuscada, fazem dessa lâmina um dos mais característicos exemplos do talento de Doré.
O lobo é um predador natural na floresta e por ser mais real do que bruxas ou ogres, assusta mais.
É quase sempre uma metáfora para o homem sexualmente predador.
A maioria das versões posteriores procura omitir a conotação sexual do convite do lobo disfarçado de avó: “Venha deitar-se ao meu lado”.
Como nos mostra Doré, Charles Perrault conta a história de modo realista, confirmando seu conselho de que não se deve falar com estranhos: não aparece caçador algum, e o lobo acaba por devorar a menina.

terça-feira, 31 de maio de 2011

JOALHERIA: A GALINHA - 1885

BLOG DO NOBLAT.
Os ovos sempre foram símbolos da criação e de uma nova vida. Na Páscoa de muitos países, até hoje, é uma tradição a troca de ovos de Páscoa entre parentes e amigos.
Na Rússia, onde a Páscoa é a mais alegre celebração religiosa do ano, não era diferente, e assim como outros povos da Europa Oriental, ao regressar das cerimônias religiosas às quais não faltavam, fossem ricos ou pobres, trocavam delicados ovos de galinha pintados à mão.
Essa tradição não se perdeu de todo e temos também aqui no Brasil comunidades de origem eslava que continuam a fazer como seus avós. E pintam peças lindas.
Os nobres, no entanto, foram sofisticando cada vez mais o presente e criando ovos de madeira, papier machê, porcelana, cristal.
Mas os Romanov sendo os Romanov, e tendo a ventura de contar com um brilhante artesão joalheiro trabalhando para a corte, surgiu, em 1885, o primeiro Ovo de Páscoa que é uma joia.
Peter Carl Fabergé era seu nome. Entre 1885 e 1917, ele e seus assistentes criaram 105 objetos luxuosíssimos, em forma de Ovos de Páscoa. O termo Oeuf Fabergé tornou-se sinônimo de requinte e beleza e essas peças são cobiçadas por museus do mundo inteiro, como as obras-primas que são.
Tudo começou quando o czar Alexandre III encomendou ao ourives Fabergé um ovo para dar de presente à sua mulher, Maria Fyodorovna. De dentro de uma caixa toda forrada em camurça, a czarina retirou um ovo esmaltado em branco, de 6.5 cm de altura.
Acompanhava um cartão ensinando a apertar um minúsculo botãozinho que faz o ovo se abrir em dois: dentro dele uma gema de ouro polido que também se abre. E lá dentro a pequenina galinha em ouro de quatro cores, com olhos de rubi.
Vendido pelos soviéticos na década de 20 do século XX, passou por muitos leilões e coleções, até ser comprado por um colecionador russo. Está de volta à Mãe Rússia.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Os explicadores de tragédia e consertadores das portas arrombadas viveram intensos momentos de glória nas TVs, nas rádios, nos jornais e na internet depois da tragédia da escola em Realengo.
Os gritos desesperados das mães e pais na frente da escola onde aconteceu a tragédia foram a única e mais genuína manifestação de emoção num evento que os “explicadores” tentaram enquadrar dentro do seu quadro referencial de certezas, preconceitos, de suas subjetividades, dos GPSs ideológicos que os guiam, com os quais pretendem racionalizar e explicar o inexplicável.
Saiu da boca de um policial e ganhou trânsito em parte da imprensa a primeira e vaga informação de que o assassino e suicida teria algumas suspeitas ligações com o islamismo, como se a religião muçulmana, em si, fosse um atestado de alta periculosidade.
Talvez o estereótipo de “sujeito estranho, de barba grande, que navegava o dia inteiro na internet, por sites muçulmanos”, como testemunhou com certa leviandade sua irmã de criação, tenha ajudado a compor esse primeiro “insight” falso, ainda no calor da tragédia. Mas a carta do atirador suicida falava em Jesus, e muçulmanos não falam em Jesus.
Afastada a suspeita islâmica, para alívio dos que confundem a “jihad” com a heróica luta de povos oprimidos contra o imperialismo, procuraram-se outros alvos:
1 - A inoperância do Estado, que não consegue sequer dar segurança a uma escola e que permite a entrada de homens armados, como se o Estado fosse também vigia e porteiro de todos os prédios do país.
2 - A incompetência do Estado (sempre ele!) em cuidar dos cidadãos atingidos por distúrbios mentais, como se eles andassem pelas ruas portando um cartaz, “internem-me que sou louco”. 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

OUTRAS MANCHETES

DO BLOG DO NOBLAT.
O que aconteceria se um avião das Forças Armadas da Argentina tentasse entrar nos Estados Unidos com elementos sem declarar como armas, drogas, medicamentos vencidos e equipamentos sofisticados de interceptação de comunicações? Logicamente seria barrado.
Foi exatamente isso o que aconteceu em Buenos Aires no último dia 10 de fevereiro. Um avião das Forças Armadas dos Estados Unidos foi revistado ao pousar em Ezeiza e teve parte de seu carregamento apreendido.
Segundo o governo argentino, a aeronave levava membros do Departamento de Defesa americano que dariam um curso de formação para situações de crise à Polícia Federal, mas o material que tinham a bordo não era exatamente o que havia sido acordado entre os dois países.
O chanceler Héctor Timerman afirma que o equivalente a 1/3 da carga - ou 28 metros cúbicos de material - não estavam na lista declarada, como metralhadoras e equipamentos de escuta.
E acrescenta que os militares traziam ainda uma mala verde, que durante seis horas os americanos se negaram a abrir. Após muita negociação, concordaram em mostrar seu conteúdo. No interior, aparatos com códigos secretos e drogas como morfina, ketamina (alucinógeno) e nalbuphina (opiácido altamente aditivo).
A ação do governo argentino, que pediu uma "explicação satisfatória" sobre a presença de material "não declarado", gerou atrito com a diplomacia norte-americana que, por sua vez, reconheceu que houve “discrepâncias” entre a carga declarada e a oficial.
As autoridades representantes do governo daquele país se dizem “perplexos” com a repercussão do caso.
Timerman informou que é a segunda vez que militares norte-americanos tentam entrar na Argentina com material não declarado. A primeira foi em agosto de 2010 e o carregamento incluía fuzis, pistolas, lança-granadas.
Não pretendia abordar esse assunto aqui na coluna, mas resolvi me manifestar porque os principais jornais da Argentina, Clarín e La Nación, saíram com posturas absolutamente pró-americanas e muita gente no Brasil os tem como fonte de referencia aqui.
Ambos publicaram manchetes como “Estados Unidos perplexo e preocupado”, “Estados Unidos pedem que devolvam as armas”, “Washington insiste: É um conflito sério e sem precedentes”.
Os jornais locais dizem que a presidente Cristina Kirchner estaria enciumada com a possível não vinda de Barak Obama á Argentina em sua próxima passagem pela América Latina; que o governo exagerou e que o chanceler está com os dias contados. Pode até ser.
Mas há outras manchetes que não estas.
Basta ler outros jornais. Basta saber um pouco de história. Basta olhar para trás.
Segue o link da entrevista do chanceler, para os interessados. 
Gisele Teixeira é jornalista. Trabalhou em Porto Alegre, Recife e Brasília. Recentemente, mudou-se de mala, cuia e coração para Buenos Aires, de onde mantém o blog Aquí me quedo, com impressões e descobrimentos sobre a capital portenha

domingo, 9 de janeiro de 2011

O ESPÍRITO PÚBLICO DOS PARLAMENTARES


Por Ruth de Aquino, do blog do Noblat.
É emocionante. O espírito público do Congresso ressurgiu com a força das tempestades de verão. O PMDB, muy amigo de Dilma e do povo brasileiro, pressiona por um salário mínimo maior e se lixa para a ameaça de veto do ministro Mantega. O PMDB também se mostra especialmente sensível às necessidades da saúde pública e só por isso disputa com o PT os cargos no Ministério da Saúde, que tem um orçamento de R$ 77,3 bilhões.
Além dessa preocupação legítima com o trabalhador, os parlamentares vão trabalhar no verão! Bem, na verdade os titulares gozarão de férias, porque deu muito trabalho votar pelo autossubsídio de R$ 26.500. Não é mole reunir em Brasília os congressistas para decidir alguma coisa em dezembro. Com o recesso em janeiro, a Câmara dos Deputados deverá dar posse a 45 suplentes para exercer mandato tampão. O nome é feio, mas a atitude é louvável.
O que seria do Brasil se não tivéssemos esses suplentes em janeiro na Capital ganhando, cada um, R$ 107 mil em subsídios e benefícios? Já que sobra dinheiro no caixa de Dilma e Mantega, e não há risco de inflação, você e eu pagaremos a esses suplentes R$ 4,8 milhões pelo sacrifício de labutar em janeiro.
Tutti buona gente, à exceção, claro, de quatro políticos que são réus na Justiça, acusados de participar da máfia dos sanguessugas e do escândalo do mensalão. Coisas do passado, “fatos históricos” como os desaparecidos na ditadura. Quem perde o sono com Ficha Limpa, se nem o Supremo Tribunal Federal conseguiu bater o martelo até hoje?
Ah, temos ainda os senadores de verão, que custarão cerca de R$ 400 mil aos cofres públicos. São suplentes dos que se tornaram ministros e secretários nos Estados. E, como se viaja bastante a trabalho no mês de janeiro, cada senador suplente receberá passagens no valor de até R$ 23 mil, além do salário, auxílio-moradia e verba indenizatória.
Você não se sente culpado de ir para a pousada na praia com a família enquanto esse pessoal dá duro no tampão?
Diante de tudo isso, é injusto que apenas uma parcela ínfima dos brasileiros aprove o empenho dos congressistas. Mas, quem sabe, Collor de Mello possa dar aos companheiros o endereço de seu médico especialista em laser que rejuvenesce e apaga todas as manchas do rosto e, se possível, do currículo.
O que seria do Brasil se não tivéssemos esses suplentes em janeiro na Capital, cada um ganhando R$ 107 mil?
Leitura essencial é o artigo do expoente-mor do Congresso, José Sarney, em importante jornal nacional. Eis um trecho: “Pode parecer um paradoxo, mas a igualdade que a liberdade traz – com o fundamento de que todos somos iguais perante a lei, detentores dos mesmos direitos – (...) leva à solução dos conflitos e ao caminho do progresso e do desenvolvimento”.
O sábio maranhense admite: “Nem tudo são flores”. Atribui-se a Sarney a autoria da ideia de pressionar pelo mínimo de R$ 560 ou R$ 580. Seria uma manobra para minimizar a repercussão do aumento de 62% dos congressistas. Dando certo, os louros irão todos para o PMDB.
Mas o eleitor lúcido é cético. Nem a bela loura, com sua delicada tatuagem – “Michel” – na nuca, revelada pela trança de Rapunzel, turvou a vista de quem lê as notícias. O marido de Marcela, hoje vice-presidente, pode mandar na jovem primeira-dama do PMDB, mãe de seu filho e discretíssima musa do Jaburu, mas enfrenta clara dificuldade em disciplinar seus correligionários.
“Não tem sentido o PT expulsar o PMDB da Saúde”, disse o líder peemedebista Henrique Eduardo Alves, como se estivesse sendo expulso do paraíso. Investido de mediador, Temer já afirmou que o PMDB não fará chantagem com o mínimo nem votará contra o governo. O silêncio de Dilma revela a saia justa, mas, se a presidenta já enquadrou um general, bem que poderia dar logo um basta a essa quartelada partidária.
Como um dia disse Lula, lidamos com homens não comuns. Homens cujos filhos marmanjos, de 25 e 39 anos, ganham passaporte diplomático irregularmente. Os passaportes para os Lulinhas foram concedidos pelo Itamaraty “em função de interesse do país” e “em caráter excepcional”. São miudezas irrelevantes.

AOS TROCOS E BARRANCOS

Por Vitor Soares, do Blog do Noblat.
O ex-presidente da República na base militar próxima da bela praia paulista de Guarujá - em silêncio, mas provocado praticamente todos os dias por antigos e novos críticos, cada vez mais numerosos, apressados e inclementes nas cobranças. Nada escapa dos olhares curiosos e dos pedidos veementes de "investigação rigorosa", nem as tralhas da mudança da família Lula da Silva.
Enquanto isso, a presidenta Dilma Rousseff vai instalando "aos trancos e barrancos" - como na velha canção popular - o novo-velho circo do poder em Brasília. Em geral, bafejada por opiniões positivas, acenos compreensivos e palavras carinhosas dos mais duros e impiedosos analistas e adversários políticos até a oficialização dos resultados do pleito presidencial de outubro de 2010.
"O poder é isso, sempre foi e sempre será assim", repetem gregos, mineiros e baianos há muito tempo. Ou como sintetizou a nova presidente na sua primeira fala à Nação depois de empossada no Congresso, direto do Parlatório do Palácio do Planalto, depois do temporal no normalmente seco planalto central do país. Em raro momento de brilho misturado com emoção genuína, a mineira e ex-combatente guerrilheira nas lutas contra a ditadura militar, que alcançou pelo voto democrático o posto de mando mais elevado do País, surpreendeu de fato.
No discurso, depois de passar em revista as formações militares sob seu comando, Dilma Rousseff recorreu "a um poeta da minha terra", na verdade o escritor e ex-diplomata Guimarães Rosa, em citação retirada de capítulo notável do romance "Grande Sertão: Veredas".
"O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem", disse a ex-presa política duramente torturada em sua passagem pelo cárcere político.
Belas e bem escolhidas palavras, pronunciadas com voz embargada, sob os olhares atentos e testemunhais de meia centena de líderes políticos estrangeiros - de Hugo Chavez a Hillary Clinton - e aplausos da multidão presente na festa da Esplanada, sem falar nos milhões de brasileiros de olhos e ouvidos ligados nas transmissões das redes de rádio e televisão Brasil afora. Resta saber como a nova presidente honrará de fato durante seu mandato as citações de seu discurso de posse, ou se as deixará à deriva do tempo e do vento.
É cedo ainda para ter respostas, mas é sempre recomendável - principalmente para quem pensa e faz jornalismo -, ficar atento ao movimento dos ventos e das velas. Por exemplo: a volta repentina dos gestos significantemente expressivos da ex-ministra Erenice Guerra, em seus passos aparentemente seguros sobre os tapetes macios e silenciosos do Palácio do Planalto.
Não custa lembrar: depois de pintar e bordar no pedaço - até dedo na cara de ministro ela botou no governo Lula -, Erenice foi afastada do comando da Casa Civil no bojo do maior escândalo da recente disputa presidencial, que abalou severamente os principais pilares em que se sustentava a campanha de Dilma, como reconheceu em entrevista recente à Folha de S. Paulo o publicitário baiano João Santana.
Vale ficar atento igualmente ao conteúdo das entrevistas e discursos notoriamente divergentes quanto a intenções e rumos pretendidos, de antigos e novos integrantes do núcleo mais fechado do poder que se instala em Brasília.
Novo comandante do Gabinete de Segurança Institucional do governo petista - antigo passageiro das hostes do governo tucano do presidente Fernando Henrique Cardoso -, o general José Elito Carvalho Siqueira disse ao tomar posse do cargo que não se deve "ficar vendo situações do passado", ao falar sobre sobre a possibilidade de criação da Comissão da Verdade para investigar a violação de direitos humanos ocorrida durante o período da ditadura militar (1964-1985).
Na manhã do dia seguinte, ao assumir seu posto no governo Dilma, a nova ministra da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Maria do Rosário, defendeu a criação da Comissão da Verdade o mais rápido possível. E foi incisiva na argumentação: "É mais do que chegada a hora do Estado brasileiro prestar esclarecimentos".
Tem mais, muito mais, e como alertava o personagem vivido por Jô Soares na antiga chanchada do cinema nacional do começo dos anos 60: "Vai dar bode!". Por enquanto, porém, fiquemos por aqui neste complicado começo de ano e de governo.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

É ASSIM O PIG AGE.

O comportamento exemplar do Bule Voador
O Bule Voador é um blog oficial de ateus, de bom nível, discute filosofia e outros assuntos elevados.
Mas foi o que promoveu um dos maiores salseiros na internet contra o ex-govrnador José Serra ao saber que ele dissera que fumantes eram pessoas "sem Deus".
A notícia foi publicada no portal do jornal Diário de Santa Catarina, distribuída pela agência RBS e reproduzida por vários jornais, sites e blogs - este, inclusive.
O Bule Voador chegou a traduzir a notícia para o inglês, repassando-a para sites e blogs afins.
Tão logo se convenceu de que Serra não dissera nada daquilo, pediu desculpas, ofereceu espaço para que ele exercesse o direito de resposta e, por fim, procurou o responsável pelo erro.
Segue a correspondência trocada pelo Bule e o autor da notícia:
De: Bule Voador [mailto:bulevoador@gmail.com]
Enviada: seg 3/5/2010 20:57
Para: rafaellprado@xxxxxxxxxxxxxxxxx
Assunto: Desmentido do Serra
Olá Raffael.
Meu nome é Marcelo Druyan e sou um dos editores do blog Bule Voador (www.bulevoador.com.br). Nosso blog fez sérias críticas ao Serra, baseadas na informação veiculada pela RBS no dia 1º de maio. Ontem, após a correção efetuada na parte da tarde, ficamos curiosos …
Poderia nos explicar como a declaração do Serra – comparando ateus a fumantes – foi parar em seu texto? Trata-se de uma transcrição literal, guardada por aspas, da fala do candidato tucano.
Foi um engano, como aconteceu? O que houve realmente?
Esperamos que você consiga retirar nossas dúvidas para que possamos entender e analisar melhor o que realmente aconteceu.
Cordiais saudações.
—- Original Message —–
From: Raffael Prado
To: Bule Voador
Sent: Tuesday, May 04, 2010 8:31 AM
Subject: RES: Desmentido do Serra
Olá, Marcelo.
É lógico que não há justificativa para tamanho estrago. A frase publicada em minha reportagem em nada se parece com a verdadeira fala do pré-candidato.
Não vi o discurso do Serra ao público de 10 mil pessoas. Somente parte de minha equipe, formada por um cinegrafista e um fotógrafo.
Cai na bobeira de perguntar a eles o que o Serra havia dito de interessante. Com base no que me foi dito por eles, construí aquela citação vergonhosa e que manchou a imagem do jornal e acabou com a reputação do meu nome. Quem trabalha comigo sabe que eu não sou leviano e nem mentiroso, muito menos partidário político.
Felizmente, o jornal destinou o mesmo espaço para corrigir o meu erro. Ficou a lição e a lembrança de que jamais poderei confiar na apuração de ninguém. Somente na minha.
Raffael do Prado
Repórter
Grupo RBS – Sucursal de Itajaí