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sábado, 7 de abril de 2012

SOBRE BANDIDOS, POLÍTICOS E GOVERNANTES


Por Carlos Chagas.
A gente fica pensando quantos Carlinhos  Cachoeira andam soltos por aí, apesar de o próprio estar momentaneamente atrás das grades.  Porque virou rotina o relacionamento entre bandidos, políticos e governantes. Virou é modo  de dizer, porque esse conluio vem  de tempos imemoriais.   Apenas ficou mais exposto, agora, por ação da mídia,  da Polícia Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário. Evidência de que, apesar de tudo, o país vai melhorando.
O bicheiro tinha ligações espúrias em Brasília, Goiás, Tocantins e alhures. Deixou-se inebriar pela impressão de ser influente,  manobrista de cordéis que convergiam para suas atividades ilícitas e algumas até lícitas. Talvez tenha ficado  megalômano, já que dava sugestões e até  ordens para seus cúmplices chegassem aos detentores  do poder. Queria, por exemplo, que o senador Demóstenes Torres trocasse o DEM pelo PMDB e se aproximasse até da presidente Dilma. Imaginando, no seu  desvario,  que poderia  valer-se de favores do palácio do Planalto.
Não parece difícil identificar esses personagens, sempre evoluindo em torno de políticos de expressão, tanto faz se falsa ou verdadeira.  Para esses políticos,  a tentação é grande, a ponto de muitos buscarem a simbiose, ou seja, transformarem-se também em bandidos. Como no terceiro ângulo do triângulo, dos governantes,  encontramos da mesma forma indivíduos propensos a lambanças, completa-se a trindade que nada tem de santíssima: três pessoas numa só unidade e com um único objetivo, no caso, de enriquecer fraudulentamente.
Em  maioria, os governantes são  honestos.  Os políticos, também. Os bandidos é que atravessam o samba, alguns  empenhados em acabar com os intermediários,  tornando-se  políticos e governantes. Essa geléia só se desfará pela ação da  Polícia Federal, do  Ministério Público, do Judiciário  e da  mídia. Só que essas instituições também podem ser contaminadas pelos bandidos...
EXEMPLO A SER SEGUIDO.
Vai uma historinha capaz de demonstrar que ainda honestidade e malícia às vezes de acoplam.
Nos primórdios do governo Castello Branco, convidada para primeira presidente do hoje  extinto Banco Nacional de Habitação,  a deputada Sandra Cavalcanti cumpria à risca as finalidades do novo órgão. O BNH foi criado para gerir os imensos recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, mecanismo que substituiu a proibição de ser demitido todo trabalhador que completasse dez anos na mesma empresa. O objetivo era usar aquela fábula de dinheiro para a construção de casas populares,  para operários.
Logo o todo-poderoso Roberto Campos, ministro do Planejamento, implicou com dona Sandra, sustentando que o  FGTS também deveria ser usado para financiar residências para todo mundo, da classe média aos milionários. E começou a sabotar o Banco Nacional de Habitação.
Sandra percebeu onde mr. Bob Fields queria chegar, precursor do neoliberalismo exacerbado, e pediu uma reunião com o presidente Castello Branco e seu ministro. Contava com muita graça que esmerou-se no visual. Naquele tempo as mulheres usavam luvas e chapéus. No palácio das Laranjeiras, teve a palavra e começou a discorrer sobre o sentido social do BNH e até citou os livros de um economista alemão, von Brauskki,  que defendia  investimentos maciços para residências do menos favorecidos. Naquele momento foi interrompida pelo sarcasmo de Roberto Campos, que disse ao presidente estar ultrapassada aquela corrente econômica voltada para o social, em nome da livre concorrência. E acrescentou já haver lido toda a obra do  economista alemão, superado pela escola americana.
Diante de um Castello Branco sempre deslumbrado pela cultura e a inteligência de Campos, Sandra levantou-se, calçou as luvas e pediu  demissão irrevogável da presidência do BNH. O presidente, surpreendido, quis saber porque, e  a deputada respondeu que aquele economista  alemão não existia, que ela o tinha inventado na hora, mas o ministro do Planejamento já tinha lido toda a sua obra...

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

FGTS

O Tesouro Nacional vem usando, indevidamente, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para fazer superavit primário, a denominada economia para o pagamento de juros da dívida pública. Em vez de destinar recursos do Orçamento da União para bancar o subsídio nas taxas de juros cobradas das famílias de baixa renda beneficiadas pelo programa Minha Casa, Minha Vida, como sempre foi regra, transferiu a maior parte da fatura para o patrimônio dos trabalhadores.
No ano passado, R$ 4,5 bilhões saíram do FGTS a fundo perdido, ou seja, sem qualquer possibilidade de retorno.
Neste ano, serão mais R$ 5,5 bilhões e, em 2012, outros R$ 4,4 bilhões.
Texto do Correio Braziliense de 25/11/2011.
A política de socializar a miséria continua, resta saber quanto estão cobrando por mais este roubo ao cidadão trabalhador para subsidiar seus currais eleitorais. Cobram muito e fazem tão pouco e o brasileiro sem cidadania acredita, isto é muito triste. Sanguessugas da ignorância.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

FACES DA CRISE

GOVERNO ATUA EM MODO DE ESPERA E O INSTITUTO FHC VIRA SUCURSAL DO TEA PARTY - Nem a elevação do superávit fiscal anunciada ontem pelo governo, nem a interrupção da escalada dos juros, aguardada para amanhã,no Copom, mudam a dinâmica do país nesse momento. O que o governo fez nesta 2ª feira, grosseiramente, foi trocar  seis por meia dúzia. Agregou mais R$ 10 bilhões do excesso de arrecadação de impostos até julho (crescimento recorde de 14% em termos reais) ao superávit primário , elevando-o de 3% para 3,30% do PIB. Em troca, o BC deve interromper a trajetória de alta da Selic na reunião desta semana. O patamar de 12,5% do juro básico brasileiro é um despropósito planetário comparado à taxa média de 1,5% praticada  na zona do euro e ao patamar de 0,25% tabelado pelo Fed, para os próximos dois anos, nos EUA. Foi graças à ortodoxia do BC que o país ingressou na crise de 2008 com esse trofeu anômalo. Reduções significativas, que façam diferença macroeconômica, exigem agora cortes drásticos num dos principais preços da economia. O ambiente de incerteza mundial  afasta essa opção da mesa dos governantes. A Presidenta Dilma dança o minueto da espera, com a respiração fiscal em suspenso. Não tomará qualquer medida graúda sem ter uma avaliação efetiva do estrago que a sarabanda da crise ainda fará no salão internacional. Imobilizados no redil ideológico do neoliberalismo, que subtraiu legitimidade à taxação efetiva da riqueza, do patrimônio e das grandes transações financeiras  -vide o golpe do Tea Party contra Obama, nos EUA, e a extinção da CPMF no Brasil, subtraindo R$ 40 bi à saúde pública, em 2007- os governos de fato perderam espaço de ação fiscal nas últimas décadas. Restou-lhes o abismo do endividamento público que no Brasil custa  6% do PIB em juros ao ano. A crise, os gastos extras que ela impôs e o comportamento arisco dos capitais em todo o mundo fechou agora esse ponto de fuga. Mudanças efetivas no investimento público em educação, saúde, infraestrutura, pesquisa etc dependem de uma mobilização política para romper essa camisa-de-força. Não é uma agenda para o conservadorismo nativo. Esse parece disposto a dobrar a aposta na eutanásia do Estado. Reunidos semana passada, em São Paulo, sábios de bico longo, por exemplo,  transformaram o Instituto Fernando Henrique Cardoso numa franchising do Tea Party. O ‘tucano party' deixaria Sarah Palin e o presidenciável Rick  Perry orgulhosos dos mascotes locais. Arida, Bacha & Cia advogaram a privatização de todos os fundos públicos (FGTS e PAT, por exemplo), ressuscitaram a bandeira do déficit fiscal zero e mandaram às favas responsabilidades republicanas com educação, saneamento etc. Seria importante conhecer a avaliação do PT sobre a plataforma do ‘tucano party'. O partido, porém, dificilmente teria algo de significativo a contrapor sem incluir uma ruptura com a doutrina fiscal do neoliberalismo. O Congresso do PT neste fim de semana pode ser uma boa oportunidade para essa demarcação de visões.  (Carta Maior; 3º feira, 30/08/ 2011)