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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

CONLUIO DOS GRANDES PARTIDOS

Por Carlos Chagas.
A importância do julgamento do mensalão ofuscou, esta semana,  escândalo de razoáveis proporções, denunciado da tribuna do Senado por Pedro Simon: PMDB, PSDB e PT entraram em conluio na CPI do Cachoeira para proibir que deputados e senadores, fazendo perguntas a Fernando Cavendish, aproveitassem para expor a participação do empreiteiro nas lambanças de Carlinhos Cachoeira.
Cavendish estava amparado por habeas-corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal para ficar calado durante o depoimento, mas as indagações que receberia serviriam, mesmo sem respostas, para mostrar seus malfeitos. O que fizeram o presidente e o relator da CPI?
Simplesmente proibiram as perguntas. Mais ainda, liberaram o depoente dois minutos depois de ter ele exibido a autorização da mais alta corte nacional de justiça para permanecer em silêncio.
Mas teve pior, disse Pedro Simon: PT,  PSDB e PMDB,  mancomunados, esvaziaram a sessão, não enviando seus líderes e, mesmo, seus representantes.
Um acordo havia sido  celebrado entre eles para tornar completamente inócua a presença de Cavendish, que nem ao menos ouviu os questionamentos capazes de expor sua participação nas tramóias em exame.
Felizmente ainda existem senadores como o representante gaúcho, capaz de denunciar a nudez do rei, mesmo sendo seu súdito. Se o empreiteiro tinha o direito de não depor contra ele mesmo, em que
lei estava escrito que os parlamentares não poderiam fazer suas perguntas, esmiuçando o escândalo?
MISÉRIA SEM FIM
Anuncia o governo que a partir do ano que vem o salário-mínimo será elevado de 622 para 670 reais. Houve até celebração no palácio do Planalto, pelo reajuste que ultrapassará a inflação.
Um presente para o trabalhador...
Estão brincando com a miséria alheia. Como poderá um infeliz operário viver e sustentar sua família com essas migalhas? Nunca é demais repetir que a Constituição assegura para quem recebe o
salário-mínimo, e sua família, condições para prover habitação, alimentação, vestuário, educação, saúde e até lazer.
Seria uma bela experiência obrigar esses tecnocratas, mais os ministros e, com todo o respeito, a própria presidente da República,  a passarem um mês que fosse sobrevivendo com essa porcaria. Quando criado por Getúlio Vargas, o salário-mínimo bastava para as despesas referidas. Quando João Goulart, ministro do Trabalho, dobrou a importância congelada durante todo o governo anterior de Eurico Dutra, não apenas ele caiu. Getúlio também, logo depois. Vem agora o governo do trabalhador, perdão, apenas do  partido do próprio, e dez anos depois de instalado no poder continua humilhando metade da população do país.
Porque apesar de toda a propaganda sobre a criação na nova classe média, 80 milhões de brasileiros recebem apenas o salário-mínimo...
INSPIRAÇÕES BANDIDAS
A gente não sabe direito o que faz a Abin, sempre trabalhando em silêncio, mas seria bom se estivesse investigando quem anda inspirando as manifestações de tribos indígenas,  recrudescidas esta semana. Ainda ontem peitaram o senador José Sarney, presidente do Senado, depois de haverem,
na véspera, desfilado com tacapes e bordunas pela Praça dos Três Poderes. Querem a revogação da portaria 303 da Advocacia Geral da União, que garante a entrada das forças armadas nas reservas indígenas. Mais ainda, pressionam o Congresso para tornar efetiva a Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas,  das Nações Unidas, que o Brasil assinou  nos tempos do governo do sociólogo. 
Esse documento garante autonomia política, administrativa e econômica nas  reservas indígenas, que hoje são 206 em todo o país. Quer dizer, logo um cacique com PHD em alguma universidade européia fechará o território onde vivem seus parentes, declarando ser nação independente, elegendo-se presidente da República, rei ou imperador, desligado  da União que a Constituição diz ser indissolúvel. É claro que quinze minutos depois assinará acordo de mútua proteção econômica e militar com algum governo do Velho Mundo.  Ou, mais fácil ainda, com os Estados Unidos, tendo em vista  a nova nação situar-se na Amazônia.
A denúncia dessa lambança foi feita esta semana pelo repórter Carlos Newton, no blog da Tribuna da Imprensa, mas não se registrou um único comentário por parte dos jornalões. Claro que por motivos óbvios...
NÃO TEM OUTRA FORMA
Especula-se que o ministro Joaquim Barbosa, depois de assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal, poderá  procurar a presidente Dilma Rousseff e os presidentes do Senado e da Câmara para propor a discussão sobre nova forma da nomeação de   ministros da mais alta corte nacional de justiça. Muita gente questiona a mecânica atual,  de o chefe do  Executivo escolher quem quiser, desde que com alto saber jurídico e reputação ilibada, indicando seu nome ao Senado para aprovação até agora automática
Realmente, na teoria, trata-se de influência excessiva de um Poder sobre outro, mas fica no ar a pergunta: que outra hipótese de indicação dos ministros do Supremo seria superior a essa?
Eleição direta, com campanha eleitoral?

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

FESTIVAL DE BOBAGENS

Por Carlos Chagas.
Os organizadores estimam 7 mil pessoas,  hoje, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, protestando contra a política de reforma agrária da presidente Dilma. Pode ser um pouco menos, mas o MST e a Contag costumam ser eficientes em suas manifestações. Ainda que sem relação de causa e efeito, engrossarão o coro dos grevistas que há dias promovem passeatas contra o governo  pela Esplanada dos  Ministérios. Nenhuma relação parecem ter com o julgamento do mensalão, ali do lado, mas...
Mas o clima ficará explosivo  se algum sem-terra gritar “absolvam José Dirceu!” no meio da multidão. Essas coisas costumam pegar como o  sarampo pegava em décadas anteriores.
É da democracia o povo sair para as ruas, mesmo dividido em categorias. Só que não deixa de ser estranho assistir tanta movimentação  inusitada como neste mês de agosto, ironicamente quando a presidente da República atinge patamares de popularidade raríssimamente registrados antes.
Um sociólogo e um cientista político se arriscariam a explicar aquilo  que para a maioria dos cidadãos parece inexplicável. Qual a razão  desses protestos quando a opinião pública nacional  afirma confiança e julga a administração federal ótima ou boa? Como repetimos de vez em quando, tem azeitona  nessa empada.    
Não dá para supor que tudo acontece por estarmos sendo governados por uma mulher. O machismo caiu de moda  faz tempo. Também fica difícil aceitar o raciocínio de estarem as massas e a classe média sendo  mais penalizadas do que de costume. Imaginar influência das manchas solares ou das fases da lua parece ridículo nos tempos atuais.
Por que diabo, então, esse surto de exigências salariais e  sociais ?
Não erra quem supuser uma orquestração. Paranóias à parte, conspira-se contra o governo de Dilma Rousseff.           
Em termos políticos, jamais as oposições. Quem sabe os aliados, aqueles que imaginaram tomar o governo de assalto e   estabelecer um condomínio no poder? Com o PT à frente e o PMDB também reclamando por mais ministérios e diretorias de empresas estatais, aí estão penduricalhos como o PR, o PP, o PSB, o PTB, o PDT e outros. Boa parte de seus líderes reagem por  ter sido alijados no primeiro ano do atual governo. Mobilizam, assim,  centrais sindicais e sucedâneos para deixar o palácio do Planalto na defensiva. Quem sabe conseguirão realizar o objetivo  oculto?        
Ameaçam com 2014, ou seja, de não apoiar a reeleição da presidente. Lançam até, sem a concordância do próprio, o movimento “volta, Lula”.
FESTIVAL DE BOBAGENS.
Começou ontem e vai  até 4 de outubro mais um festival de bobagens. Com as exceções de sempre, candidatos a prefeito e a vereador agredirão nossa paciência duas vezes por dia no rádio e outras tantas na televisão, pela  propaganda  eleitoral  obrigatória. Houve tempo em que esse tipo de programação abriu as portas para a queda da ditadura. Dezesseis candidatos a senador pelo MDB elegeram-se nos então vinte estados existentes, na única eleição majoritária que restou no plano federal. Pregavam a volta à democracia. A surpresa obrigou os detentores do poder a baixar mais medidas de exceção, como a lei Falcão, que  permitia apenas a exposição de fotografias dos candidatos, e  o senador biônico,  não  votado mas indicado pelo partido do governo.
O mundo andou para a frente, restabeleceu-se a normalidade democrática  e a propaganda eleitoral. Só que não havia mais ditadura para criticar. Os candidatos entraram nos vídeos e ocuparam os microfones  prometendo o que jamais poderiam realizar: até milagres.  Outra vez, com as exceções de sempre.  O resultado foi, em especial nas eleições de prefeito e vereador, um suceder de fantasias apresentadas por nulidades. Sem esquecer os vigaristas. É mais ou menos o que começou ontem, com as devidas desculpas... 

domingo, 19 de agosto de 2012

PARCERIA, CONCESSÃO, PRIVATIZAÇÃO OU DOAÇÃO?


Por Carlos Chagas.
Como sempre, dividiram-se as opiniões. A presidente Dilma sustenta haver anunciado um programa de parceria entre  o governo e a iniciativa privada, no máximo uma concessão, jamais privatização, como ironicamente julgam os tucanos, ou doação, conforme afirmam setores ideológicos apartados do PT.
Cada um que escolha a definição que melhor se adapte aos seus interesses e convicções, porque rótulos distintos  sempre  servem  para abrigar conteúdos iguais.
A indagação  maior é  saber de onde sairão os 80 bilhões de investimentos previstos para os próximos cinco anos. Nesse particular o governo foi omisso. Se é verdade que a iniciativa privada entrará com no máximo 25% do total, o programa apresentado quarta-feira terá sido uma doação, sabendo-se que as concessões vão durar 40 anos. Mesmo assim, no empresariado, os mais conservadores queixam-se da falta de garantias.
Apesar da falta de memória dos brasileiros, será importante guardar os jornais desta semana para daqui a cinco anos,  mesmo amarelados, conferirmos se foram mesmo implantados 7 mil e 500 quilômetros de novas rodovias e 10 mil quilômetros de ferrovias. Neste particular, será bom não esquecer que boa parte da nova rede anunciada pelo ministro dos Transportes já existiu, no passado, sendo destruída ou erradicada sob o abjeto raciocínio de tratar-se de ramais anti-econômicos. Em vez de tentar torná-los econômicos, chegaram a arrancar trilhos e dormentes.  Ainda em matéria de trens, o susto continua: a presidente prometeu implantar o trem-bala, obra faraônica de 20 bilhões, quando mais lógico seria restabelecer o tráfego ferroviário normal entre as duas capitais e suas regiões. Resta saber se porventura concretizado o sonho, a ele também se aplicará o princípio de o governo arcar com o custo dos vagões vazios, caso não surjam carga e passageiros para ocupá-los. Esse será o verdadeiro negócio da China,  em especial de viermos a adotar a tecnologia chinesa.
De qualquer forma, haverá que aguardar os primeiros procedimentos dessa nova iniciativa tão a gosto do  PSDB. Em revoada, os tucanos celebram a troca dos patronos do governo dos companheiros: sai Lula, entra Fernando Henrique...
RÁPIDO, OS TRADUTORES
Terá endoidado quem, por obrigação ou curiosidade, dedicou as últimas semanas a assistir as sessões do Supremo Tribunal Federal, no julgamento dos réus do mensalão. Os doutos ministros dedicam-se ao cultivo de uma língua ininteligível para a imensa maioria da população, o “juridiquês”.  Explica-se, mais uma vez, porque o país prefere as novelas. Parece estarmos diante de alienígenas recém-chegados de outra galáxia. Podendo ser simples, Suas Excelências complicam qualquer intervenção. Lembram a história daquele célebre professor de Direito que para desconsiderar determinado tema,  comentava com seus alunos: “pouco se me dá  que o corcel  claudique, apraz-me acicatá-lo”. Traduzindo: “não  importa que a mula manque, eu quero é rosetar”...
Seria útil que a mais alta corte nacional de justiça contratasse uma equipe de tradutores para levar ao cidadão comum o significado das sucessivas participações.
VITÓRIA PELA EXAUSTÃO?
Insistem as lideranças sindicais e corporativas que a greve no funcionalismo público vem sendo um sucesso. Anunciam, mas não provam, que perto de 300 mil servidores federais encontram-se parados. Pode até ser, mas surgem sinais de o movimento estar se esgotando. A estratégia da presidente Dilma, sem rejeitar a  negociação, é de vencer os grevistas pela exaustão. Pode ser que consiga.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A INFLUÊNCIA DO VOTO DE JOAQUIM BARBOSA


Por Carlos Chagas.
No final de março de 1945 o Terceiro Exército do general Patton, em meteórica progressão, cruzou o rio Reno e estabeleceu uma cabeça de ponte na margem oriental. Seus tanques tomavam o rumo de Frankurt quando o irrequieto comandante recebeu  um telefonema do general Eisenhower, comandante em chefe, irritadíssimo porque suas ordens haviam sido descumpridas. As tropas americanas deveriam ter parado do lado de cá do Reno, para reajuste de dispositivo. Patton, que tinha senso de humor, retrucou: “Tudo bem, então vou chamar os alemães de volta e retornar com  minha tropa para a margem ocidental...” Coisa que evidentemente não fez, continuando a avançar.
A historinha se conta a propósito do  mensalão. O nosso Patton caboclo, ministro Joaquim Barbosa, na síntese de seu relatório,  feita no início do julgamento, avançou sinais  de que em seu voto  pedirá a condenação  de todos os  mensaleiros. Segue atropelando os generais alemães, perdão, os advogados dos réus, esperando dar a tônica do fim da guerra com a derrota dos nazistas. Não há como recuar, apesar da estratégia do ministro Ayres  Britto, para quem cada batalha deve ferir-se no seu dia, nunca antes.
O voto de Joaquim Barbosa, esperado para quinta-feira, fatalmente influenciará alguns de seus companheiros, como a corrida de Patton,  Alemanha a dentro,  levou outros generais aliados a aumentar o ritmo de seu avanço. Azar dos nazistas...
O DINHEIRO CHINÊS E AMERICANO.
O prejuízo acusado pela Petrobrás surpreendeu muita gente, ainda que se saiba serem olímpicas as despesas com a exploração  do pré-sal. O problema é que desde o anúncio e a confirmação dessa  riqueza recebemos  aportes de dezenas de  milhões de dólares oferecidos pela China e, logo depois, pelos Estados Unidos, sob o compromisso de reservarmos para eles  parte do petróleo a ser extraído comercialmente dentro de alguns anos. Jogaram no futuro, esses dois países.  A Petrobrás guarda segredo sobre o montante dos recursos que já vimos recebendo desde 2005, mas pouca coisa não é. Seria o caso de ampliarmos ainda mais  a oferta, abrindo o leque?
O PREÇO DO RECUO.
Impressionou a prévia adesão do  PT à candidatura de Henrique Eduardo Alves, do PMDB, à presidência da Câmara. Tratou-se de um acordo entre os dois partidos, patrocinado por Dilma Rousseff. Os companheiros sacrificam a regra básica de que a maior bancada sempre elege o presidente, porque são  majoritários.
E não se fala da  recíproca, que seria o PT ocupar a presidência do Senado, onde o PMDB tem mais senadores.
É demais imaginar que esse acordo tenha sido feito com vistas a 2014, ou seja,  para  garantir o apoio do PMDB à candidatura de Dilma à reeleição. Esse  lance seria óbvio mesmo sem o compromisso na Câmara,  pelo simples motivo  de que o PMDB não tem nomes fortes par disputar o palácio do Planalto, em 2014.
A menos que... A menos que a presidente e o PT tenham ficado com medo de seus maiores aliados  bandearem-se  para a candidatura do governador  Eduardo Campos, do Partido Socialista e, desde já, estarem sedimentando  Michel Temer outra vez  como candidato à vice-presidência.

UM FESTIVAL DE MENTIRAS


Por Carlos Chagas.
Tem um problema ético solto por aí. Aliás, presente  desde que o mundo é mundo, mas agora  à vista de todos.  A obrigação do  advogado é defender o  cliente. Jamais negar ajuda aos aflitos que o procuram.  Mas pode mentir? Enganar a sociedade, e enganar-se, por conta do  princípio fundamental que rege a profissão?
Fala-se do  julgamento do mensalão.
O país assiste a maior sucessão explícita de mentiras de que temos notícia desde a proclamação da República. “Foi tudo caixa dois de campanhas eleitorais.” “Não houve dinheiro público na operação.” “O Lula não sabia de nada.”    “José Dirceu jamais cuidou do PT, depois de empossado na Casa Civil.” “Delúbio Soares não distribuía recursos a deputados em troca de apoio ao governo.” “Marcos Valério nada tinha a ver com o Banco Rural.”  E quantas outras barbaridades tem sido perpetradas no plenário da mais alta corte nacional de justiça?
Calcula-se que 150 advogados empenham-se na defesa dos mensaleiros, com 38 mais expostos porque  comparecem à tribuna do Supremo Tribunal Federal. Haverá um só deles capaz de acreditar nos argumentos  que sustentam? Em sã consciência, conseguem olhar-se no espelho, mesmo embaçado pelos vultosos honorários recebidos?  Encena-se  um dos maiores festivais de mentira verificados no país.
ME ENGANA QUE EU GOSTO...
Melhor esperar a confirmação, porque um fio de esperança sempre haverá. Tudo indica, porém, que quarta-feira a presidente Dilma anunciará nova rodada de privatizações. Mais rodovias, ferrovias, hidrelétricas, portos e aeroportos, dos que sobraram em poder do Estado,  passarão às mãos da iniciativa privada.  Não que os cofres públicos venham a receber um centavo sequer pela doação. Apenas, vão livrar-se do encargo de gerir patrimônio público. As empresas aquinhoadas é que aumentarão seu faturamento através de pedágios e similares, felizes também porque se forem investir na melhoria dos serviços, saberão buscar o investimento no BNDES, nos  bancos oficiais, na isenção de impostos e em outros benefícios fiscais.
É o governo do PT em marcha,  seguindo  os passos do sociólogo, que o torneiro-mecânico copiou.  Como a crise econômica se amplia, logo surgirão propostas para novas privatizações. A Petrobrás dá prejuízo? Que se entregue a metade que sobrou da alienação promovida por Fernando Henrique.  Por que não privatizar  o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e os Correios? Mesmo assim, não vai dar. Mas existirão  o sistema penitenciário, a segurança pública,  as polícias, o Poder Judiciário e, enfim, as Forças Armadas. Ou elas também  não dão prejuízo?
QUANDO CHEGAR A NOSSA VEZ.
Cresce a onda de greves, sem sinal de interromper-se. Seus efeitos já se fazem sentir.  Rodovias engarrafadas, aeroportos paralisados, portos sem funcionar,  segurança pública exangue e abastecimento precário.
Se os horizontes são esses, por que diabo o cidadão comum não reage? Adianta pouco esperar o poder público, já que ele  mesmo vem dando o exemplo.
Qualquer dia surgirá um tresloucado pregando a nossa vez. Que tal parar de pagar impostos?
ODE AO VAZIO.
Crises e impasses não faltam. Julgamento do mensalão, CPI do Cachoeira, greves, paralisação do serviço público, aumento da gasolina, derrota da seleção olímpica de futebol e quanta coisa a mais?
No meio do temporal, no entanto, nota-se um vazio para ninguém botar defeito: onde anda a oposição? Em que céu voam os tucanos, que ninguém vê? Nem soluções, nem projetos, sequer críticas e  protestos. Pelo jeito, o Brasil não é com eles. Nem voltará a ser deles. 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

AGORA, A PASMACEIRA


Por Carlos Chagas.
Mais do que para a rotina, caminha para a pasmaceira a  seqüência de intervenções dos advogados dos mensaleiros, depois da segunda-feira já conhecida como Dia da Fantasia, quando os principais réus foram apresentados como  anjinhos. Ontem mesmo,  ninguém  agüentava mais  ouvir a defesa de outros cinco, senão de menor  culpabilidade, ao menos de menor importância. Imagine-se  então o tédio que por três  semanas  tomará conta dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal, obrigados a ficar cinco horas por dia  escutando discurseiras sem fim. Talvez a exceção em termos de atenção venha a ser a última intervenção, do patrono de Duda Mendonça, certamente mostrado como outro querubim  que nem sabia dos milhões depositados pelo PT em  suas contas no exterior.
A dúvida continua a mesma que vem desde 2005: irão ou não parar  na cadeia os responsáveis pelo maior escândalo político da República? Conseguirão safar-se pela prescrição da lei ou  a benevolência dos julgadores?
A fase atual é de indigestão de julgamento, pois a partir de amanhã a  própria mídia arrefecerá em espaço e tempo dedicados aos trabalhos na mais alta corte nacional de justiça. A menos, é claro, que sobrevenham fatos inusitados, daqueles impossíveis de prever.
Ficam alguns sinais da performance dos advogados de Dirceu, Genoíno, Delúbio e  Valério: se o  primeiro “desligou-se do PT assim que assumiu a Casa Civil”, como esquecer que durante quase um ano enfeixou a coordenação política  do governo Lula,   da qual só abriu mão forçado  pelo acúmulo com as  funções administrativas? Se Genoíno não cuidava das finanças do partido, por que assinou e endossou todos os pedidos de empréstimo junto ao Banco Rural e penduricalhos? Quanto a Delúbio, se não mantinha contacto com Dirceu, por que dispunha de gabinete no quarto andar do palácio do Planalto? De Valério, como passou de publicitário vitorioso a operador que autorizava a remessa de  dezenas de milhões em malas entregues a pombos-correio dos partidos da base do governo, que nenhuma relação tinham com campanhas publicitárias  junto à mídia?
Enfim, cada ministro que vá formando suas convicções e retocando seus votos, a maioria dos quais já esboçada.  A gente só não sabe de seu conteúdo...
O CANSAÇO ÀS VEZES NÃO VENCE.
Tem-se a impressão de que a tática da presidente Dilma para  enfrentar o atual surto de  greves é vence-las pelo cansaço. Pode não ser bem assim, já que novas categorias do serviço público vem aderindo ao  movimento, sem que as anteriores tenham desistido. A ameaça de cortar o ponto dos grevistas parece não se ter concretizado e as negociações do governo com eles dão a impressão de não  andar. O perigo está na desmoralização do poder público, além dos óbvios prejuízos para a população. Dos países do BRICS, somos o único a enfrentar paralisações desse vulto: mais de 150 mil servidores públicos de braços cruzados.
As greves terão sido um dos temas da demorada conversa entre Dilma e Lula, segunda-feira, em São Paulo, ignorando-se, porém, qual o conselho dado pelo ex-presidente.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Por Nizan Guanaes, da Folha

Nosso lugar no pódio. . .
Escrevo emocionado do estádio de Wembley, uma das grandes catedrais do mundo, como a de Notre-Dame ou a de São Pedro. Até uma anta futebolística como eu sente o peso do lugar, que, mesmo reformado como o Maracanã, será sempre o histórico Wembley.
Tudo numa Olimpíada é carregado de significado. A glória e a derrota: entramos na historia e saímos dela em frações de segundos.
Ver Michael Phelps conquistar a 18ª medalha de ouro é estar num momento do século que não passará. E há muito de shakespeariano no choro de Rebecca Adligton, de quem a Inglaterra esperava mais ouro neste ano e que terá de remoer seus bronzes pela vida inteira. A trama era digna de Glória Perez: a feia e simpática inglesa disputando com uma italiana sensual que posou nua para a "Vogue". Só que Lady Gold virou as costas para as duas favoritas, num enredo superado apenas por Carminha e Nina.
Esporte é novela, teledramaturgia pura, reality show de alto nível.
Rezo apenas para que o Brasil --nosso povo, nossos governantes em todos os níveis, nossos empresários grandes, médios e pequenos-- entenda que agora é a nossa hora.
A mais difícil e a mais bela. Como diria Churchill, "our finest hour".
Terei 56 anos na nossa Copa e 58 na Olimpíada. Os dois eventos formam oportunidade única de o Brasil assumir o lugar que já é dele. A questão desses tempos é ser e não ser. Não basta ser, você tem de ser percebido.
O Brasil melhorou muito nos últimos três governos. Mas nossa história não pode ser contada pelos mercados e por seus interesses. Ela tem de ser contada por nós, "we, the people", como lindamente escreve a Carta americana.
Temos de cuidar de nossos interesses e de como nossos filhos, nossas empresas, nossos produtos, nossos livros e nossa arte são percebidos no mundo neste século. E este século pode ser nosso.
Digo isso não por megalomania. Não precisamos dominar o mundo, mas podemos encantá-lo. O Brasil tem tudo para ser a "soft" potência do século. O que não pode acontecer agora é a montanha parir um rato. Nestes próximos quatro anos, todos os olhos do mundo estarão voltados para nós. Não é hora de "forfait". É hora de brio, de amor próprio, de sangue nos olhos.
É preciso ter senso de história. A velhinha inglesa que se despede de nós depois de um dia de sol e de um anoitecer gelado tem isso no seu dedicado sorriso de voluntária da Olimpíada. A Inglaterra, que de história entende bem, até escalou sua rainha de 86 anos para brilhar como "Bond girl" neste mundo midiático.
A discussão sobre ser o dinheiro da Copa ou da Olimpíada mais bem usado na saúde ou na educação é uma discussão mal posta. Dinheiro mal usado é mal usado em qualquer lugar. Se usarmos esse dinheiro apenas para sediar dois eventos, sem dúvida o custo será maior que o benefício. Mas o Rio de Janeiro, o Estado e a cidade, já está usando a Olimpíada para se posicionar como marca, lugar de negócios, sociedade e destino.
Estou em Londres a convite de um dos patrocinadores da Olimpíada, a revista "Fortune", que realizou um dos muitos eventos empresariais paralelos. Tudo foi bancado com o dinheiro chinês da municipalidade de Changdun, onde ocorrerá o próximo fórum global da revista, com a presença do líder chinês e dos maiores empresários do mundo, ou seja, enquanto a bola ou o cronômetro correm, a grana corre também.
É um jogo grande, e o Brasil entrou nele por conta própria. Volto feliz do evento sob a lua cheia de Londres, e o "dean" da Harvard Business School, que participou do fórum da "Fortune", com sorriso maroto e cabeça brilhante, me diz: "It's you, guys, in four years", e todos os olhos do ônibus se dirigem a mim.
Meus amigos e inimigos, ninguém mais é uma pessoa. Agora somos todos um país. Se um de nós em Santa Catarina ou na Bahia atropelar um ciclista francês, o Brasil terá atropelado um ciclista francês. Os olhos do mundo estarão postos em nós. Cheios de curiosidade, de preconceito e de inveja.
Não é hora de amarelar nem de ser soberbo. Nem de vir com burrice, achando que se trata de jogo de futebol ou de vôlei. O que está em jogo é a evolução do país das commodities para o do valor agregado.

domingo, 5 de agosto de 2012

SE DEPENDER DE JOAQUIM BARBOSA, VAI TODO MUNDO PARA A CADEIA


Por Carlos Chagas
Foi implacável a síntese do relatório do ministro Joaquim Barbosa, lida no primeiro instante do julgamento do mensalão.  O texto serve de prévia para o que será a íntegra de seu voto, na próxima semana. No que depender do relator, vai todo mundo para a cadeia, ou melhor, todo  mundo  menos dois: Barbosa isentou de culpa Luis Gushiken e Antônio Lamas, por falta de provas. Dos outros, passando por José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares,  Marcos Valério e o restante da quadrilha, não sobra ninguém.
Parece óbvio não haver unanimidade na decisão dos demais ministros do Supremo Tribunal Federal. Muitos  mensaleiros poderão escapar. A dúvida é saber quantos, tendo em vista a máxima de que em cada cabeça haverá uma sentença. Mesmo assim, em termos de consonância com a voz rouca das ruas, o julgamento começou bem. Como se estenderá até o voto de mais dez ministros, lá para meados de setembro, o remédio é esperar.
MAIS UMA VEZ, A DERROTA DA DEFESA.
O presidente do Supremo, Ayres Britto, indeferiu liminarmente novo requerimento dos advogados de defesa dos mensaleiros, para o desdobramento do processo. Essa decisão já havia sido adotada pelo ministro Joaquim Barbosa, com o apoio da totalidade de seus pares. Desdobrar seria enviar para a justiça de primeira instância os processos dos réus que não detém mandato parlamentar, ou seja, todos menos dois. Começaria tudo de novo, com as acusações submetidas a três patamares do Judiciário, dos juízes singulares aos desembargadores dos Tribunais de Justiça e aos ministros dos tribunais superiores. Poderiam os processos,  inclusive,  acabar no próprio Supremo.  Só que  depois de pelo menos vinte anos, quando tudo terá sido prescrito e  sepultado,  inclusive boa parte dos réus. Foi coerente a decisão, apoiada pelos demais ministros.
SEM PERDER A ESPERANÇA.
Para José Dirceu, conforme tem alertado sua família, tudo pode acontecer no julgamento ontem iniciado.  Ele espera ser absolvido, mas está preparado para condenações maiores ou menores. Raciocinando com otimismo,  preparou os próximos passos para depois de uma suposta absolvição: solicitará da Câmara dos Deputados a votação de um projeto capaz de anistiá-lo. Não há hipótese da devolução de seu mandato, cassado na Legislatura anterior, já concluída. Mas recuperaria seus direitos políticos, podendo então concorrer às eleições de 2014, impedido que hoje  está de disputá-las, mesmo no caso de absolvido no processo do mensalão.  No mínimo, seria candidato a deputado federal por São  Paulo.
LUA DE MEL PORNOGRÁFICA.
As oposições deitam e rolam neste início de agosto, não apenas pelos efeitos macabros que o julgamento do mensalão poderá gerar no PT, mas, também, porque do palácio do Planalto surgem sinais de que a presidente Dilma prepara um pacote de monumentais privatizações. Seriam transferidas para a iniciativa privada rodovias e ferrovias ainda controladas pelo poder público. Sem esquecer aeroportos, portos e demais valores de nossa infra-estrutura.
A ser verdadeira a informação, estaria o país assistindo à rendição completa do segundo governo do PT ao neoliberalismo explícito, coisa que já sucedeu no primeiro governo, do Lula. Já começa a circular no ninho dos tucanos um slogan não propriamente revolucionário, mas oportuno: “chega de intermediários, Fernando Henrique para presidente!”
Duvidas inexistem de que o PSDB encontra-se em lua-de-mel com o futuro...

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Por Carlos Chagas.
Começa amanhã. Com todo o respeito, jamais um julgamento igual aos outros, como disse o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ayres Britto. Porque o processo dos mensaleiros  poderá exprimir  um divisor de águas. Uma encruzilhada onde, seguindo por um lado, a mais alta corte nacional de justiça estará decretando o começo do fim da impunidade. Optando pelo caminho oposto, comprovará sermos mesmo uma nação corrompida, realidade da qual não tem escapado nem  escaparão nossas instituições maiores.
Não se trata de condenar todos os 38 réus. Nem de absolvê-los por inteiro. Haverá gradações de culpabilidade ou até de inocência. O importante será o Supremo reconhecer que  crimes individuais praticados em conjunto  transformam o Estado em instrumento a serviço da corrupção.
Se alguém é flagrado roubando, seqüestrando ou assassinando, assistimos a um espetáculo de degradação do ser humano, claro que exposto à punição. Mas se o crime acontece envolvendo governo, partidos políticos, funcionários públicos,  parlamentares e banqueiros, a situação muda de figura. Caracteriza a erosão dos valores  que deveriam sustentar a sociedade. Demonstra a podridão do coletivo, sob o manto da impunidade.
O fundamental no julgamento a se iniciar amanhã será o reconhecimento, ou não, de ter havido mais uma quebra, talvez a definitiva, dos valores que deveriam pautar as relações humanas. A prova de nos constituirmos num país em decomposição.
A decisão, assim, repousa nos onze ministros encarregados de definir o mensalão: apenas um processo a mais para punir ou livrar bandidos ávidos de enriquecer, governantes sem escrúpulo, partidos políticos sequiosos de manter o poder a qualquer custo, banqueiros interessados em receber favores e representantes do povo que nada representam?
Se o Supremo julgar individualmente os réus, condenando ou absolvendo cada um, terá realmente promovido um julgamento igual aos outros, onde cidadãos serão acusados de  cumprir ordens superiores ou   manipular  recursos para o caixa dois de anteriores campanhas eleitorais. Ficará tudo como está  em matéria de futuro, quer dizer, permanecerá  aberta a larga avenida  para a repetição  de tramas iguais às do mensalão. Com outros personagens ou até com alguns dos atualmente julgados.
No reverso da medalha, se os doutos integrantes do tribunal, acima e além da imprescindível apreciação de cada caso,  conseguirem identificar,  denunciar e punir  algo muito mais grave  na ação do  conjunto, grande passo estará sendo dado na luta contra a impunidade. Precisam entoar  um  grito de “basta!”  Numa palavra, importa  reconhecerem  a participação de todos os atuais  réus  numa prática tornada rotina entre nós, no caso,  o estupro da lei, da ética e dos  costumes que deveriam reger uma sociedade sadia.  Está o futuro nas mãos do Supremo.
OS BICÕES.
Anuncia-se para hoje  greve dos servidores do Judiciário. Não há coincidência alguma. É proposital o aproveitamento da oportunidade justo no  início do julgamento do mensalão, amanhã.  Nem se discute que os funcionários dos tribunais e juízos de primeira instância ganham pouco e são submetidos a condições muitas vezes degradantes. Tem todo o direito de protestar. Só que o protesto transformado em greve, nessa hora,  visa  conturbar  evento muito superior a qualquer manifestação de corporativismo.   
Com isso, não é possível concordar.
As informações são de que a paralisação não irá interferir nos trabalhos do Supremo Tribunal Federal.     
Tomara que não. A menos que alguns radicais decidam fazer piquetes nas portas da  mais alta corte nacional de justiça.          
Nesse caso, com todo o respeito, pau neles!
SALTANDO DE BANDA.
Numa de suas múltiplas intervenções nos últimos dias, saiu-se o presidente do PT, Rui Falcão, com comentário que seria cômico se não fosse trágico. Disse que o seu partido não estará sendo julgado junto com o mensalão. Desfaçatez igual raramente se vê. Não estão implicados dois de seus  ex-antecessores, José Dirceu e José Genoíno? Não é  réu o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares?     
Quem fazia a distribuição de dinheiro podre, público e privado, para deputados de outros partidos, sem esquecer alguns de sua própria bancada?
Em certas ocasiões, é melhor ficar calado, mas já estamos acostumados à intervenções esdrúxulas de Rui Falcão...
DESMEMORIADO.
Por falar nas virtudes do silêncio, como explicar o pronunciamento do ex-presidente Fernando Henrique      a respeito do mensalão, pontificando com lições de que compra de votos é crime  e deve ser punido? Esqueceu o sociólogo da operação conduzida  pelo Serjão, que distribuiu dinheiro aos montes  para o Congresso aprovar a emenda constitucional da reeleição?         
Comprar a favor, pode,  mas contra, jamais.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

ESGOTO


A pior lista de todos os tempos.
Por MAURICIO STYCER, da Folha de São Paulo.
Michel Teló é maior que Chico Buarque. Dedé, zagueiro do Vasco, é maior que Garrincha. Tiririca é maior que Drummond. Gugu Liberato é maior que Monteiro Lobato.
Eis alguns resultados, citados de forma aleatória, de uma enquete promovida pelo SBT. A lista contém cem nomes e está sendo apresentada num programa chamado "O Maior Brasileiro de Todos os Tempos".
Trata-se de uma dessas ideias que, à primeira vista, parecem ótimas, mas cuja realização e resultado mostram o tamanho do buraco em que a televisão brasileira está enfiada.
O SBT se inspirou e, algo notável, deu crédito a uma ideia da BBC, o programa "Great Britons", exibido em 2002. Eis a primeira lição: o selo de qualidade da emissora britânica não é garantia de nada.
Durante meses, uma enquete ficou disponível no site do SBT. O eleitor podia indicar o nome de sua preferência, desde que não fosse de alguém do elenco da própria emissora ou personagem de ficção.
Por estas duas restrições, já dá para sentir o tamanho do problema. Silvio Santos não apenas temia ser eleito "O Maior Brasileiro" como receava os milhares de votos que o Bozo poderia receber.
A emissora informa que recebeu cerca de 1,3 milhão de votos. Quase mil nomes foram indicados para chegar numa lista dos cem mais.
Segunda lição: enquete de internet não tem valor científico e não deve ser levada muito a sério. Alheio a isto, o SBT não teve vergonha de exibir, com toda pompa, o resultado da sua pesquisa.
Nos primeiros três programas da série, o jornalista Carlos Nascimento apresentou o bizarro Top 100, que exibe nomes como os de Roberto Justus (96º lugar), Lua Blanco (71º), Reynaldo Gianecchini (65º), Xuxa (40º), Rodrigo Faro (39º) e Luciano Huck (35º).
Sujeita à influência dos mais variados grupos de interesse, a lista apresenta 15 líderes ou ícones religiosos. Dois deles, Chico Xavier e Irmã Dulce, estão entre os 12 finalistas do ranking.
Entre outros, também aparecem Edir Macedo (13º), Silas Malafaia (26º), Valdemiro Santiago (36º), R.R. Soares (54º) e Marcelo Rossi (60º), figuras conhecidas por seus negócios e programas de televisão.
Convencido da seriedade de sua missão, Carlos Nascimento apresentou os cem nomes distribuindo adjetivos edificantes e aulas de história, além de uma ou outra explicação metodológica: "O povo votou em quem admira", advertiu.
Terceira lição: jornalistas emprestam credibilidade a programas de entretenimento sob o preço de, em troca, eventualmente se expor ao ridículo. Que o digam, entre outros, Fátima Bernardes, Pedro Bial e Britto Jr.
Depois de três episódios, "O Maior Brasileiro de Todos os Tempos" entra agora numa fase, definida por sorteio, que os esportistas chamam de "mata-mata": Chico Xavier x Irmã Dulce; Lula x Ayrton Senna; Tiradentes x Santos Dumont; JK x Pelé; princesa Isabel x FHC; Niemeyer x Getúlio Vargas. As disputas serão resolvidas pelo voto do público, em estilo "você decide".
Quarta e última lição sobre "O Maior Brasileiro de Todos os Tempos": quando uma ideia soa boa demais, convém avaliá-la com atenção redobrada.

domingo, 29 de julho de 2012

O AMARGO DEVER DOS ADVOGADOS


Por Carlos Chagas.
Agora, faltando três dias para o início do julgamento,  prepara-se o país para assistir a maior concentração de grandes advogados por metro quadrado, no plenário do Supremo Tribunal Federal, a partir de quinta-feira.  Defenderão os 38 réus do mensalão utilizando o brilho de suas longas e profícuas  trajetórias dedicadas ao Direito. Parece impossível supô-los todos  derrotados na inglória tarefa de patrocinar  bandidos, estabelecendo-se entre eles amarga tertúlia, já que a absolvição de  uns redundará na condenação  de outros. Se um dia esses causídicos de excepcional renome pensaram atuar juntos, faz tempo que abandonaram o sonho. Do dia 2 em diante,  será cada um por si, sob os holofotes da mais alta corte nacional de justiça. Equivale a dizer, sem possibilidade de recorrerem ao artifício de recursos, protelações e filigranas jurídicos, já que as sentenças do Supremo são irrecorríveis e definitivas.
Depois das cinco horas de acusação a cargo do Procurador Geral da República, nos dias subseqüentes cada advogado dos 38 réus disporá de uma hora para a defesa. Nenhum deles parece inclinado ao improviso, todos estarão passando o fim de semana  debruçados em seus arrazoados e até diante do espelho.  Ainda que venham a falar sem recorrer a textos  lidos, saberão exatamente o momento de promover cada um dos gestos de efeito. Conhecem o lugar das vírgulas e o momento da  meteórica e emocional interrupção em  suas intervenções.
Para os advogados estarão voltadas as atenções do país inteiro,  uma excelente oportunidade para se ilustrarem os estudantes de Direito. O último canto daqueles que não conseguirem a absolvição de seus clientes será acompanhá-los do plenário  até a cadeia da Polícia Federal.  Pelo rito tradicional, mesmo não devendo  comparecer  ao julgamento,  os mensaleiros  que forem condenados precisarão estar presentes  no plenário  para ouvir de viva voz  a extensão de suas penas. A menos que alguns já se encontrem fora do Brasil ou em vias de escafeder-se.
NÃO HÁ COMO QUEBRAR O SILÊNCIO.
Quanto à CPI do Cachoeira, retomará seus trabalhos esta semana sem ter ainda resolvido o grande enigma: como fazer falar os depoentes que  venham a alegar o direito constitucional de ficar calados? Nem Carlinhos Cachoeira e Marconi Perillo,  se forem  convocados outra vez, nem Fernando Cavendish nem quantos pretendam valer-se da prerrogativa de não produzir provas contra eles mesmos.
Parece sombrio o futuro da CPI, caso suas atividades  limitem-se ao exame das  degravações de telefonemas  que a Polícia Federal promoveu. Sempre poderão realizar-se diligências, investigações  e coleta de provas documentais contra a quadrilha, mas deputados e senadores não são delegados de polícia, carecendo de qualidades para obter material corriqueiro nas delegacias. 
A solução para não ver libertados   e felizes os responsáveis pelos escândalos chefiados pelo bicheiro está em mãos da Justiça Federal, à qual caberá condenar  os culpados, desde que encontradas provas de seus crimes.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

LONDRES

Por JOÃO BATISTA FREIRE, do Blog do Juca Kfouri.
Para saudar a abertura da Olimpíada de Londres.
“Não é nada pessoal, são apenas negócios”, diriam os mercadores do mundo dos esportes, entre eles dirigentes, empresários e agentes de variados naipes, ao ouvirem os apaixonados torcedores clamando por um pouco de garra e arte, e reclamando do excesso de “luzes” e “ribalta” que recobre com uma fina camada os “espetáculos” esportivos.
No Brasil, mais particularmente no futebol, gerações de craques acostumaram esses torcedores ao requinte artístico da bola bem tocada, do chute sutil, da finta desconcertante.
Os olhos brasileiros fartaram-se com o talento de Heleno, Leônidas, Pelé, Garrincha e Didi, e, mais recentemente, Sócrates, Rivelino, Tostão, Zico e Romário.
Já os torcedores do MMA, o novo fenômeno esportivo de massa, são ainda noviços, e deliram mesmo que nada lhes reste além da gesticulação primitiva e grotesca de seus gladiadores, que nem de longe dão pistas de revelar sementes de algum Spartacus revisitado.
Aquele que pretende, em breve, tornar-se o esporte mais popular do planeta, não passa de arremedo mal costurado de gestos emprestados ao boxe, ao karatê, ao jiu-jitsu e outras lutas, num arranjo tosco, que antes lembra um Frankenstein de octógonos que um Muhammad Ali de ringues.
Aos aficcionados dos demais esportes sobram migalhas, exceções sazonais feitas, no Brasil, ao voleibol e ao basquetebol, porque, afinal meus caros, não é nada pessoal, e, se o que importa é o lucro, desculpem, mas é mais fácil vender escândalos e chiliques de craques de futebol ou o sangue derramado pelos gladiadores do UFC que os gestos sutis dos saltadores de vara ou as piruetas delicadas de ginastas artísticas.
“Nada temos contra a beleza do esporte”, diriam os mercadores, “nós as venderíamos caso nos rendesse alguns trocados, porém, vendemos o que a educação do público compra, e quem oferece essa educação não somos nós, mas seus políticos medíocres com suas promessas risíveis.”
No mês de junho, num ato quase de redenção, um punhado de esforçados jogadores corintianos, mesmo sem o requinte dos craques do passado, ofereceu-nos alguma coisa parecida com espetáculo futebolístico, mesmo que tenha sido apenas um espetáculo de garra e amor ao clube.
Um pouco de futebol, finalmente, numa memorável noite em que os negócios, embora presentes, foram sobrepujados pela paixão.
Sem craques milionários ou o brilho ofuscante de um Sócrates, a taça é corintiana.
E o povo, finalmente, pôde passar noventa minutos acreditando que seu futebol ainda existe.
E sem que o sangue precisasse tingir a arena.

MENSALÃO E O JULGAMENTO DE GILMAR

DESATEMOS O NÓ.
CartaCapital sempre entendeu que o “mensalão”, com o significado de mesada do suborno, nunca foi provado.
Por Mino Carta, da Carta Capital.
Wálter Fanganiello Maierovitch critica a ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça, por ter dito que com o processo do chamado “mensalão” a Nação julgará o próprio Supremo. Segundo o nosso colunista, quem será julgado é o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que denunciou os acusados de participar do esquema criminoso. Procedente ou não a denúncia? Eis a questão.
O fato de que Gurgel mereça a precedência no julgamento da opinião pública não invalida a ideia da senhora Calmon, na qual sinto a constatação em lugar da pressão. Não é que o STF faça jus à confiança coral do povo brasileiro. Nem sempre foi impecável na atuação, pelo contrário. Sem contar os passos em falso dados por este ou aquele ministro. Primeiro entre eles, dentro das composições mais recentes, Gilmar Mendes.
Autoritário até a truculência, Mendes é aquele que chamou às falas o presidente Lula. E denunciou ser vítima do grampo, executado pelos agentes da Abin, de suas conversas com o amigão Demóstenes Torres, escuta que nunca houve e, mesmo assim, resultou no desterro para Portugal do chefe da agência, o honrado delegado Paulo Lacerda, melhor diretor da Polícia Federal das últimas décadas.
Mendes é sócio de um instituto de ensino, a contrariar a Lei Orgânica da Magistratura, que exige dedicação exclusiva, e não hesitou em convocar, na qualidade de professores, colegas do Supremo. Por exemplo, Eros Grau quando ministro. Tertúlias de felizes e pontuais consumidores de pizza, convictos de sua impunidade. Mendes é também acusador de Lula ex-presidente, apontado, um mês depois dos eventos alegados, como autor de pressões para influenciar seu voto no processo do “mensalão”. Foi desmentido inexoravelmente pelo próprio ex-ministro Nelson Jobim, anfitrião do encontro com Lula.
Na reportagem de capa desta edição, Mendes volta à ribalta, e por causa de circunstâncias destinadas a esclarecer de forma decisiva as razões do seu voto contrário ao envolvimento do ex-governador Eduardo Azeredo no “mensalão” das Alterosas. A suspeição de Mendes no processo que se inicia é muito mais que evidente. Talvez não seja o único ministro que a justifica. Veremos o que veremos. De saída, CartaCapital declara confiar na batuta do presidente do STF, Ayres Britto, figura de todo respeito.
Que o nó seja desatado, e não pela espada de Alexandre, o macedônio, é da conveniência da Nação em peso, inescapável juiz dos comportamentos do Supremo diante de uma questão tão crucial na perspectiva do futuro do País, emergente superdotado e até hoje cerceado pelos herdeiros da casa-grande, elite (elite?) prepotente e hipócrita, feroz e covarde. Não é por acaso que o Brasil contou com torturadores eméritos, capatazes e jagunços imbatíveis nos seus misteres. E até hoje é incapaz de negar, pela força da Justiça, a validade de uma lei da anistia imposta pela ditadura civil-militar.
CartaCapital sempre entendeu que o “mensalão”, com o significado de mesada do suborno, nunca foi provado, embora houvesse evidências de outros crimes, igualmente graves. Espera agora por um julgamento digno da Suprema Corte de um país democrático e civilizado, sem excluir de pronto possibilidade alguma.
De sorte a cumprirmos dignamente o compromisso com o jornalismo honesto, ancorado na verdade dos fatos, a partir desta edição passamos a publicar a contribuição de um grupo de professores de Direito da PUC de São Paulo, análise estritamente técnica das condições iniciais e dos desenvolvimentos do processo. Trata-se de um trabalho que alia profundidade à isenção, e que prosseguirá ao longo de toda a demanda. CartaCapital faz questão de diferenciar-se de quem se antecipa à sentença final na impafiosa certeza de ter já identificado executores e mandantes. Esperamos, apenas, que se faça justiça, a bem do Brasil.

terça-feira, 24 de julho de 2012

OLIMPIADAS 2.016

Já começaram os Jogos Olímpicos! Os do Rio de Janeiro.
Deveríamos ter uma revolução no esporte brasileiro para que tivéssemos bons representantes em 2016. E ela deveria ter começado em 2000. Ou em 2001, ou em 2002 etc... A base dessa revolução viria da massificação do esporte. E para isso seria bom imitarmos o estilo cubano. 
Por José Roberto Torero, na Carta Maior
Os Jogos Olímpicos de Londres vão começar neste sábado. Mas os jogos do Rio já começaram há mais de dez anos. E estamos indo mal, muito mal. 
Explico: É que a grande desculpa (ou, vá lá, motivo) para os Jogos no Rio é que eles alavancariam o esporte no país. Mas nada mudou. Pelo menos, nada realmente importante. 
Deveríamos ter uma revolução no esporte brasileiro para que tivéssemos bons representantes em 2016. E ela deveria ter começado em 2000. Ou em 2001, Ou em 2002 etc... Mas até agora, 2012, nada começou. Ou quase nada, já que pelo menos temos uma Secretaria de Alto Rendimento dentro do Ministério dos Esportes desde 2003. Mas ainda é pouco.
Precisamos é de uma revolução. E essa revolução poderia ser dividida em três partes, assim como uma pirâmide, que tem base, meio e cume.
A base viria da massificação do esporte. E para isso seria bom imitarmos o estilo cubano. 
Lá, todas as crianças têm chance de praticar esportes em suas escolas. Mais que isso, a educação física é uma disciplina que pode obrigar o aluno a repetir a série se ele não for aprovado. Não é apenas futebol para os meninos e queimada para as meninas.
A massificação cubana gerou um resultado impressionante. Nos Jogos Olímpicos entre 1908 a 1960, o país caribenho conseguiu apenas uma medalhinha. Vinte anos depois, nas Olimpíadas de Moscou ganhava 8 de ouro e 20 no total. E, no ano 2000, já em crise econômica, chegava a 11 de ouro e 29 no total. 
O mais impressionante é que estes números vêm de um país com apenas 11 milhões de habitantes. Dezoito vezes menos populoso que o nosso. E com uma renda per capita quase três vezes menor. 
O meio da pirâmide seria uma mistura entre os estilos alemão e chinês. 
Na Alemanha há uma íntima relação entre clubes esportivos e escolas. Ou seja, o garoto que se sai bem no esporte em sua escola passa aos clubes esportivos. No Brasil temos um pouco disso, mas não está institucionalizado. Clubes como Pinheiros e Flamengo já fazem um bom trabalho. Mas isso poderia ser potencializado, tornando-se realmente uma parceria público-privada. 
Porém, como o parque esportivo implantado nos clubes não seria suficiente para atender nossa população, precisaríamos implantar escolas públicas de esporte, como há na China. Lá temos números inacreditáveis: são 3.880 escolas esportivas de tempo livre, 254 escolas de elite e 159 escolas esportivas experimentais. Não é à toa que eles superaram os EUA nas últimas Olimpíadas.
Por fim, o cume seguiria a escola australiana. 
Lá existem centros de excelência exemplares, que mudaram a história deste país nas Olimpíadas. Eles são chamados de Institutos de Esporte. São oito conjuntos esportivos (em que há piscinas, pistas de atletismo e moradia para atletas) que aliam uma infraestrutura impressionante à tecnologia de ponta. O principal destes institutos, que fica em Camberra, foi criado em 1981 e é conhecido como “Fábrica de campeões”.
Nos Jogos de 1980, antes da criação destes centros de alto rendimento, a Austrália conseguiu duas medalhas de ouro e nove no total, ficando em 15º. lugar. Vinte anos depois o país conseguiria 16 medalhas de ouro e 58 no total, tornando-se a quarta potência olímpica do planeta. 
Nunca é demais lembrar que se trata de um país com apenas 23 milhões de habitantes, cerca de 12% da nossa população.
Ou seja, há bons exemplos espalhados pelo mundo e eles poderiam ser adaptados para o Brasil. Mas aqui parece que pensamos mais em estádios que em atletas, parece que pensamos mais nos salões de festa do que na própria festa.

quinta-feira, 19 de julho de 2012


Um novo patrono para o Engenhão.
Por Elio Gaspari, no O Globo.
A cada dia que passa e o estádio olímpico do Engenhão continua com o nome de João Havelange, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, confirma as palavras dos advogados da Fifa no processo que tratou do capilé de US$ 14 milhões recebidos pelo doutor e por Ricardo Teixeira: “Pagamentos de subornos pertencem ao salário recorrente da maioria da população na América Latina e na África.”
Havelange e Teixeira receberam, mas a galera que vai aos estádios e elege prefeitos leva a fama. A exposição da malfeitoria, treze anos depois das primeiras denúncias, mostra que os subornos, quando rolam no andar de cima, são protegidos por um sistema de salvaguardas especiais. No caso da dupla, a blindagem funcionou na própria Suíça, pois as principais acusações surgiram em 2006.
Havelange foi protegido ao limite do possível. Ele dirigiu a Confederação Brasileira de Desportos de 1956 a 1974, e a Fifa de 1974 a 1998, quando foi aclamado seu presidente honorário, título que ainda mantém. Afora isso, foi membro do Comitê Olímpico Internacional e fez Ricardo Teixeira, que era seu genro, presidente da Confederação Brasileira de Futebol. Os dois saíram de fininho no ano passado, quando a magistratura suíça já estava atrás de suas contas.
Aos 96 anos, Havelange ensinou: “Difícil na vida não é chegar, é saber sair. Tem que sair bem.” Ele construiu seu verbete na história do esporte brasileiro e destruiu-o na saída.
Charmeur irresistível e grosseirão inesquecível, “nosso querido Havelange” (nas palavras de Lula), encantou governantes e ajudou atletas colocando-se ora como patriarca onipotente, ora como cortesão maltratado.
Quando Pelé contrariou-o, disse: “Dei todas as atenções e fiz gentilezas a esse moço.” No ano passado, a doutora Dilma tomou-lhe o passaporte diplomático e ele lamentou-se: “Eu merecia isso? É isso que dói, este é o meu país.”
Havelange e Teixeira encarnaram a transformação do futebol num empreendimento bilionário. Em 1958, quando o ex-sogrão trouxe a primeira Copa do Mundo para o Brasil, o goleiro Gilmar ganhou uma bibicleta e um terno. Hoje os craques pilotam Ferraris.
Há patrocinadores para atletas, clubes, seleções e Copas, e, se isso ajudou a profissionalizar o esporte, serviu também para montar propinodutos e lavanderias de dinheiro. A rede de interesses criada pelo progresso deu à cartolagem oportunidades para a delinquência e fez da Fifa uma central de negócios, ramificada em donatarias nacionais.
A presença da empreiteira Delta na construção de estádios para a Copa de 2014 é um solene indicador dos perigos que rondam a festa. Até bem pouco tempo Joseph Blatter, presidente da Fifa (secretário-geral ao tempo de Havelange), comportava-se nas negociações com o Brasil como se fosse um chefe de Estado, manipulando a síndrome de “vira-latas” dos burocratas com quem tratava.
O ocaso de Havelange deveria levar o prefeito Eduardo Paes a aceitar uma disputa com a Fifa. Ganhará quem chegar primeiro: os cartolas suíços extinguindo a presidência honorária da instituição ou o doutor, trocando o nome do Engenhão.
Se o prefeito entregar a escolha do nome do estádio à galera que o frequenta, mostrará que “pagamentos de subornos” não “pertencem ao salário recorrente da maioria da população” do Rio.
O prefeito Eduardo Paes e a Fifa estão com um peso nos ombros: ele se chama João Havelange.

terça-feira, 17 de julho de 2012

SOBRE A INSIGNIFICÊNCIA DO VALOR DOS TRATADOS


Por Carlos Chagas.
Quando  mesmo tímida e inutilmente os generais da Wehrmacht protestavam contra a quebra dos tratados internacionais que levavam a Alemanha nazista a invadir a Áustria, a Tchecoslováquia, a Polônia, a Bélgica,  a Holanda, a Noruega, a Dinamarca e,  por fim,   a União  Soviética, a resposta de Adolf Hitler era sempre a mesma, sobre  “o valor insignificante dos tratados, que foram feitos para ser rompidos”
Guardadas as proporções, as eleições municipais de outubro e a perspectiva das eleições gerais de 2014 vem revelando o mesmo conceito, em se tratando dos partidos da base parlamentar do governo e até os da oposição. A começar pelo PT, mas passando pelo PMDB, o Partido Socialista, o PR, o PP, o PTB, o PDT e outros, sem esquecer o PSDB e o DEM, prevalece o espírito do Terceiro Reich: vencer é o objetivo final. Ético é o vencedor, quaisquer que tenham sido seus métodos.
Assistimos e mais assistiremos a um festival de traições e quebra de compromissos entre os partidos, ou melhor, entre  seus líderes, candidatos maiores ou  menores ao papel de Fuherer em suas disputas. De São Paulo a Belo Horizonte, Recife, Fortaleza e outras capitais, vale a perspectiva de vitória, mesmo às custas de  compromissos anteriores.
Seria bom prestar atenção nas preliminares da sucessão presidencial. Michel Temer, em entrevista no fim de semana, reafirma a aliança entre PMDB e PT, contentando-se em permanecer na vice-presidência da chapa encabeçada por Dilma, mas... Mas seu partido poderá lançar candidato próprio se as condições mudarem. O PT marcha com a reeleição da presidente da República, mas... Mas se o Lula quiser, ele será indicado.  Eduardo Campos sai do palácio da Alvorada entoando juras a Dilma e apesar de haver rompido acordo com o PT em diversas prefeitura estaduais,  mas...  Mas o governador de Pernambuco está aí mesmo para disputar o palácio  do Planalto caso a situação apareça. O PR,  o PTB e o PDT estão com o governo federal, mas em São Paulo inclinam-se por José  Serra.  Na capital mineira, desfez-se a aliança de anos atrás.
No PSDB, teve-se a impressão de ser Aécio Neves o candidato natural à presidência depois que Serra optou pela prefeitura paulistana, mas o candidato duas vezes derrotado no plano federal deixa a janela aberta para uma terceira disputa ou, pior ainda, mostra-se simpático a um acordo com o Partido Socialista, em torno da candidatura de Eduardo Campos, rejeitando o ex-governador de Minas. O DEM evolui voltado para os quatro pontos cardeais a um só tempo e o recém-fundado PSD tem como símbolo as birutas de aeroporto.
E assim por diante, numa demonstração da insignificância do valor dos tratados.
Nada de novo debaixo do sol...
INTERREGNO DESNECESSÁRIO.
Legislativo e Judiciário estão perdendo excelente oportunidade de demonstrar o indemonstrável, ou seja, que a coisa pública deve prevalecer sobre os interesses individuais.
A CPI do Cachoeira não tinha nada que interromper seus trabalhos nesta última semana de julho, para seus integrantes gozarem um ócio  imerecido quando precisariam estar adiantando investigações e depoimentos. Ficaram para agosto as oitivas de Luís Pagot, Fernando Cavendish e, agora com maiores razões, o retorno do governador Marconi Perilo e suas novas relações  com o contraventor, reveladas por uma revista semanal. Quando retornarem, os integrantes da CPI estarão no mínimo  enferrujados e desmotivados.
No Supremo Tribunal Federal, coisa parecida. Se tivessem cancelado as férias, por sinal gozadas o mês inteiro, os Meretíssimos teriam dado prova inconteste de que o processo do mensalão será julgado antes das eleições municipais. Agora, permanece a dúvida, correndo por conta dos artifícios  malabarismos dos advogados dos 38 réus.
Ficará o Executivo fora desse leniente recesso de país rico? Seria bom verificar se existem ministros e altos funcionários de férias. A presidente Dilma  mantém sua agenda intocada, mas em volta dela?

O que pode vir de diferente nesta campanha eleitoral?
Se, de um lado, os eleitores estão cada vez melhor preparados para reivindicar direitos, ao invés de procurar por favores e quebra-galhos, de outro, espera-se que esse ciclo se reverta também em uma melhor qualidade das próprias candidaturas. Novos personagens deveriam surgir como fruto desse processo. 
Por Antonio Lassance, na Carta Maior.
Na maioria das democracias representativas, as eleições são uma espécie de viagem na qual o eleitor escolhe o comandante do voo e a companhia em que pretende embarcar, mas, curiosamente, só tem uma ideia vaga de para onde o estão levando.
Se depender do sistema político brasileiro atual, nos três meses de campanha que se tem pela frente, o eleitor será bombardeado com nomes, números e jingles dos candidatos a prefeito e vereador. As campanhas continuam extremamente fulanizadas. Salvo pela clivagem fundamental entre governo e oposição, em nível federal, estadual e municipal, tudo é muito nebuloso para o eleitor. E mesmo essa diferença essencial nem sempre aparece estampada nas cores da campanha municipal.
Qualificar e desqualificar o debate político depende do sistema eleitoral, dos partidos, dos candidatos e dos eleitores. Cada qual tem parcelas distintas de responsabilidade e fará toda a diferença na representação que sairá das urnas. Quando falamos em sistema eleitoral, nos referimos às regras que organizam o pleito e à maneira como os candidatos são incentivados a usá-las, para o bem ou para o mal.
Por exemplo, a regra que permite o patrocínio empresarial a campanhas estimula a maioria dos partidos e candidatos a seguir esquemas pré-fabricados de conquista de votos. Uma das regras perversas é a de que candidatos que queiram ser competitivos devem se associar a grandes grupos empresariais, que pagarão os custos cada vez mais elevados de campanha. Como não existe mesmo almoço grátis, é óbvio que o sistema eleitoral brasileiro promove o pecado original do conluio do poder público com grupos privados, sejam eles empreiteiras, bancos, prestadoras de serviços ou bicheiros. Embora esta seja a primeira eleição na qual a Lei da Ficha Limpa terá vigência plena, ela pode até ajudar, mas não atacará o cerne do problema.
Os partidos são também incentivados a fazer alianças com o objetivo duplo de ganhar mais tempo de TV e formar coligações maiores, que reúnam mais candidatos a vereador. Os candidatos a vereador ainda são os melhores cabos eleitorais dos candidatos a prefeito. O sistema vai privilegiar quem mais irrigar as campanhas desses vereadores com recursos, em troca de apoio.
Depois de 1988, quando promulgou sua atual Constituição e concluiu institucionalmente sua transição da ditadura para a democracia, o Estado brasileiro se organizou de uma maneira que conferiu amplas atribuições aos municípios e grande poder aos prefeitos. Somos um raro país federalista que considera os municípios como entes federados. Eles podem não só gerir, mas legislar sobre políticas públicas em áreas essenciais.
Nas últimas duas décadas, houve ainda uma reorientação descentralizadora da gestão das políticas sociais. As prefeituras passaram a assumir responsabilidades diretas sobre grandes programas federais e estaduais, principalmente nas áreas de educação, saúde e assistência social, sendo remuneradas para isso. Esse rol depois passou a incluir também políticas de meio ambiente, especialmente a partir do retorno dos investimentos em saneamento. Com a aprovação recente da política nacional de gestão de resíduos sólidos, o problema dos lixões passa a ser uma importante frente de batalha para os futuros prefeitos. Da mesma forma, o problema da mobilidade urbana, que afeta as médias e grandes cidades.
A futura geração de prefeitos a ser eleita em outubro tem diante de si desafios institucionais cada vez mais amplos. As prefeituras já deveriam ter se tornado organizações muito maiores, muito mais complexas e bem diferentes do que eram no passado. Elas são demandadas a serem agências especializadas na implementação direta de políticas sociais e na prestação qualificada de serviços públicos ao cidadão.
Todavia, no Brasil, ainda são maioria as prefeituras que baseiam seu funcionamento na barreira do balcão; as que justificam a lentidão de suas respostas pelo trâmite de suas repartições e pela profusão de regulamentos; as que resumem suas novidades àquilo que depende de emendas parlamentares ou da rede de contatos do prefeito.
O sistema eleitoral, a fulanização das campanhas e a pasteurização das coligações podem ajudar a eleger prefeitos e vereadores que vão brigar para não pagar o piso salarial dos professores, que irão desviar recursos da saúde e que darão prioridade a atender àqueles que financiaram suas campanhas eleitorais. É bem possível.
Mas é preciso lembrar que os avanços socioeconômicos experimentados pelos brasileiros nos últimos anos também contribuíram para aumentar o grau de exigência em relação aos políticos. A cidadania brasileira tem ficado mais rigorosa, com cidadãos mais exigentes quanto às obrigações de seus representantes. Dotados agora de mais instrumentos de cobrança e discussão pública (as redes sociais baratearam a mobilização e o protesto), expõem mais abertamente sua contrariedade e incidem mais fortemente sobre a reputação dos políticos.
Ainda é cedo para dizer até que ponto as eleições municipais deste ano podem se beneficiar do ciclo virtuoso da melhoria das condições de vida de milhões de brasileiros. Se, de um lado, os eleitores estão cada vez melhor preparados para reivindicar direitos, ao invés de procurar por favores e quebra-galhos, de outro, espera-se que esse ciclo se reverta também em uma melhor qualidade das próprias candidaturas. Novos personagens deveriam surgir como fruto desse processo. Só precisamos saber se a campanha permitirá que a maioria dos eleitores os encontre, os reconheça e os eleja.