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domingo, 16 de outubro de 2011

TOSTÃO
Lógica da incerteza.
Os craques, com poucas exceções, só brilham quando atuam em equipes com ótimo conjunto.
O Botafogo venceu e foi superior ao Corinthians, que jogou muito bem e ganhou do Atlético-GO, que deu um baile no Botafogo. É a dança das vitórias e das derrotas.
Mudam pouco as posições na tabela. É a lógica da incerteza, o caos organizado.
Na coluna anterior, escrevi que, além do equilíbrio, uma das causas de tanta irregularidade é a ausência de um futebol coletivo consistente, constante, e que a maioria das partidas é decidida em lances isolados, erros de árbitros, expulsões e pelo acaso -situações comuns, frequentes, que acontecem a favor e contra todas as equipes.
O Botafogo mereceu a vitória sobre o Corinthians, mas o imponderável também entrou em campo. No primeiro gol, após um belo contra-ataque, a bola bateu no defensor e caiu na cabeça de Loco Abreu, livre. No segundo, a bola desviou no zagueiro antes de entrar.
Quanto mais o acaso aparece, mais os operatórios o desprezam. O ser humano, prepotente e racional, vê o acaso como uma afronta ao conhecimento.
Como não sou torcedor nem comentarista de melhores momentos e gosto do futebol coletivo, bem jogado, organizado, com troca de passes, não posso achar que o Brasileirão é ótimo. Há equilíbrio, emoção, boas partidas, bons jogadores, mas não há um ótimo time.
A seleção carece também de um bom futebol coletivo. Os gols saem de lances isolados, às vezes belíssimos, como os dois contra o México. Isso não dá nenhuma segurança, ainda mais que falta mais qualidade no meio-campo e no ataque.
Só se forma uma grande equipe com craques e ótimo conjunto. Os grandes talentos, com poucas exceções, brilham apenas em times organizados. Enganam-se os que acham que eles não precisam ter funções definidas em campo. É o contrário. Sentem-se mais seguros. Na Copa de 1970, até Pelé tinha obrigações táticas. E as cumpria. Para ser um craque, é necessário, além de talento individual, ter talento coletivo. É a capacidade de ver o que está em volta, saber o que é bom para o time e fazer coisas para ajudar o companheiro. O craque pensa nele e nos outros. Faz isso porque sabe que precisa da equipe para ter sucesso e não porque seja desambicioso, um franciscano. A ambição é característica dos grandes talentos.
Renato, do Botafogo, tem muito talento coletivo. Dos que vi jogar, Gerson foi o que mais tinha essa qualidade. Jogava como se estivesse vendo a partida da arquibancada. Enxergava até o que ainda não tinha ocorrido.

domingo, 4 de setembro de 2011

VISÃO VICIADA

TOSTÃO
Contra fortes seleções, Ronaldinho terá muito mais dificuldades para brilhar que no Fla.
Duas correções. Escrevi, na coluna anterior, que há pouquíssima diferença técnica entre os oito primeiros colocados do Brasileirão. Há mais de oito. A outra é que são dez jogadores, e não oito, na atual seleção, que atuam no Brasil.
O Corinthians não venceu o Grêmio porque mudou o esquema tático e atuou melhor. Venceu por detalhes. O acaso é isso. Decide no equilíbrio. São fatos corriqueiros, frequentes, como o pênalti mal marcado a favor do Corinthians. Acaso não é sorte nem mistério. Acontece, sem avisar, a favor e contra todos os times.
Contra Gana, Ronaldinho vai jogar na frente, no lugar de Robinho, como faz no Flamengo. Mesmo se não se machucasse, Robinho seria reserva.
Antes de definir o time, o esquema tático e o estilo, Mano deveria tentar escalar os melhores. Foi o que Zagallo fez na Copa de 1970. Nem sempre isso é possível.
O Brasil foi campeão do mundo em 1958, 1962, 1970 e 2002 com três jogadores no meio-campo e três no ataque. Obviamente, com estilos diferentes, de acordo com a época.
Em 1994, Parreira usou o estilo inglês, com duas linhas de quatro e dois atacantes. No Mundial de 2002, o volante Edmílson, em alguns jogos, recuou e se tornou um terceiro zagueiro.
Por falar em três zagueiros, o Barcelona, na goleada sobre o Villarreal por 5 a 0, deu uma aula para os técnicos brasileiros sobre como jogar com três zagueiros.
O time ficou ainda mais ofensivo. Em vez de uma linha de quatro defensores, tinha três, além de um volante e mais seis jogadores bem distribuídos, pressionando no campo do adversário. A equipe trocou um defensor por um jogador mais adiantado. Os técnicos brasileiros fazem o contrário. Trocam um meia ou um atacante por mais um defensor. Ficam sete atrás (três zagueiros, dois alas e dois volantes) e somente três na frente.
Repito, pela milésima vez, que falta ao Brasil um craque no meio-campo, que marque e avance.
O Barcelona tem três (Xavi, Iniesta e Fàbregas), além do jovem brasileiro Thiago Alcántara, uma promessa. Todos os quatro estão na seleção da Espanha.
O Brasil só vai ter esse craque quando os técnicos, desde os das categorias de base, abandonarem a empáfia e se libertarem do lugar-comum, de que o meio-campo é dividido entre os volantes, para marcar, e um único meia de ligação, responsável pela criação de todas as jogadas. Ele é facilmente anulado.
Essa visão viciada, estreita, mediocriza o futebol.

domingo, 14 de novembro de 2010

QUERER NÃO QUERENDO

TOSTÃO
É muito difícil distinguir entre aquele que não quer ganhar e o que quer, não querendo.CONTINUO O ASSUNTO abordado por Juca Kfouri, na quinta-feira. Em entrevista à ESPN Brasil, Bernardinho negou que o Brasil entregou o jogo para a Bulgária, com o objetivo de, em seguida, enfrentar um adversário mais fácil.
Mas Bernardinho reconheceu que a seleção não se preparou para vencer. Falou ainda que a maioria dos jogadores pediu para o técnico não escalar força máxima. Ele aceitou e assumiu a responsabilidade. O Brasil, com um time desfigurado e sem levantador, teve apática atuação.
Na prática, qual é a diferença entre jogar para perder e não se preparar nem se empenhar durante a partida para vencer, mesmo dizendo que jogou para ganhar? É querer não querendo.
Vejo apenas como um jogo conveniente de palavras. O ser humano é mestre nisso. Como escreveu Juca Kfouri, o Brasil já entrou derrotado.
A falha admitida por Bernardinho não diminui sua brilhante carreira e as dos jogadores brasileiros. Grandes profissionais, de todas as áreas, já tiveram, em algum momento, condutas antiéticas em suas carreiras.
Além disso, de fora, é muito mais fácil analisar e criticar. Difícil é tomar condutas, pressionado por todos os lados, principalmente pela ambição e pelo desejo de ser campeão.
No ano passado, dirigentes do Grêmio mandaram o técnico interino escalar jogadores reservas contra o Flamengo para não beneficiar o Inter, o grande rival tricolor.
Os dirigentes entregaram o jogo. Os jogadores escalados, dignos, fizeram de tudo para ganhar e quase conseguiram.
Nesta fase do Brasileirão, surgem milhares de teorias da conspiração, algumas com fundo de verdade. Repito, na prática, qual é a diferença entre jogar para perder e um time poupar muitos titulares, não se concentrar nem se empenhar para vencer o jogo, mesmo dizendo que jogou para ganhar? Vai perder dos dois jeitos.
Todos vão dizer que é normal, compreensível, que um jogador, mesmo querendo ganhar, inconscientemente, relaxe durante a partida, por não ter nenhum objetivo, como conquistar o título.
É verdade, desde que o jogador e o time, antes da partida, preparem-se para vencer. Raramente dá para ter certeza dessa distinção, entre o que não quer ganhar e o que quer, não querendo. Obviamente, quem entra com a intenção de perder manipula o resultado. Isso é gravíssimo.
Repito novamente a melhor, mais clara e objetiva definição sobre tudo isso, que é de José Saramago, de que a ética tem de estar acima da razão.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

GRAMADOS RUINS

TOSTÃO
Os campos ruins contribuem para contusões, passes errados, gols perdidos e falhas de goleiros.
CONCORDO COM a minoria que criticou a não convocação de Neymar para a seleção brasileira. A merecida punição já tinha sido dada pela mídia, pelos torcedores e por Dorival Jr. Neymar precisa se acostumar com a seleção, e o time brasileiro, com ele.
Neymar necessita agora de orientação, de conversa de homem para homem e de ajuda de profissionais e/ou pessoas com uma visão mais ampla do ser humano.
Neymar só é um jogador original porque é um jovem diferente. Isso não justifica que passe dos limites, mas sem moralismo.
Pior são os que se fingem de santos.
Além do mais, com raras exceções, grandes estrelas, que Neymar ainda não é, em todas as atividades, não são, não foram nem podemos esperar que sejam exemplos de cidadãos. Elas são especiais por seus talentos.
O Fluminense voltou à liderança do Brasileirão com Deco, dois zagueiros e sem Emerson. Para muitos, estes seriam os grandes problemas do time. Muricy orientou Rodriguinho para jogar mais virado para o gol, para receber o passe na frente, e não de costas. Esses detalhes são mais importantes do que os esquemas táticos.
No vestiário, após o jogo em que foi demitido, contra o Fluminense, Luxemburgo cometeu um ato falho ao dizer que precisava se reciclar. Ele não tem essa humildade. Imediatamente, corrigiu-se e disse que ia fazer uma reavaliação do que ocorreu com o Atlético-MG.
Luxemburgo não desaprendeu a ser treinador, mas esqueceu, há alguns anos, que técnico bom é o que pensa e sonha 24 horas com o jogo, com os adversários, e o que não quer ser mais sábio do que a sabedoria nem mais esperto do que a esperteza.
Felipão tem razão em criticar o péssimo gramado do Engenhão e citar os responsáveis. Com o Maracanã fechado e tantos jogos até 2014, vai ficar pior se nada for feito.
As emissoras de TV só pensam na audiência, a CBF só pensa na Copa de 2014, os empresários só pensam em mostrar suas marcas, e os clubes, como o Botafogo, responsável pelo Engenhão, são reféns de tudo isso.
Não é só o gramado do Engenhão que está ruim. Há vários outros. Isso, a má qualidade técnica e o jogo excessivamente corrido e brigado contribuem para tantos passes errados, gols perdidos, falhas dos goleiros e contusões. Tudo com muita emoção.
De vez em quando, surge um transgressor e acontecem lances lindos e espetaculares, como os dois últimos gols do Santos contra o Cruzeiro, marcados por Alex Sandro e Neymar.

domingo, 15 de agosto de 2010

A VOLTA DA GENI

TOSTÃO
A nova seleção, o Inter e o Santos podem estimular mudanças em todo o futebol brasileiro.
HÁ MAIS DE dez anos que escrevo, defendo e sonho com os times e a seleção brasileira jogando do jeito que vi contra os Estados Unidos. O Inter brilhou no México com o mesmo estilo.
É um jeito mais leve, mais bonito, com mais troca de passes, mais posse de bola, mais dribles, com os volantes jogando no meio-campo e uma marcação mais à frente, além da organização tática.
Há mais de dez anos que critico a violência, a supervalorização, o excessivo pragmatismo e o descompromisso dos técnicos com a beleza e a qualidade do jogo, a obsessão por ter dez jogadores atrás da linha da bola e a pressa de jogar a bola na área.
Muitos justificam que a maioria dos gols sai de cruzamentos pelo alto. Óbvio, já que quase só fazem isso.
Estou eufórico com a atuação da seleção contra os norte-americanos, mas não perdi a referência da realidade. A vida dá muitas voltas.
A nova seleção vai também jogar mal e/ou perder várias vezes e pode até não conseguir o aproveitamento da seleção de Dunga antes do Mundial. Mesmo assim, deveria insistir nessa nova maneira de jogar.
O Brasil tem a obrigação de sonhar com um jogo mais eficiente e encantador.
Tudo isso é uma coisa. Outra é apedrejar Dunga, como se ele fosse o único culpado por todas as coisas ruins do futebol brasileiro. Dunga virou a nova Geni.
Quase todos os treinadores brasileiros e de todo o mundo fariam igual a Dunga, com menos grosseria. É o que fazem em seus clubes.
Quase todos elogiavam os resultados e a maneira de jogar da seleção até ser eliminada.
A sorte do Brasil é ter sempre um Ganso, um Neymar e um Robinho. Não é por coincidência que os três começaram no Santos. Parabéns a Dorival Jr. e a Mano Menezes por adotarem condutas e esquemas táticos de acordo com o talento e as características dos três.
Neymar, por sua velocidade, mobilidade, habilidade e criatividade, parece Robinho mais jovem, com uma qualidade a mais, importantíssima, que poderá lhe proporcionar mais sucesso, que é finalizar melhor e fazer mais gols.
Ganso joga como se estivesse lá em cima, com um megacomputador instalado em seu corpo, vendo os mínimos detalhes e espaços e calculando todos os movimentos e a velocidade dos companheiros, dos adversários e da bola. Ele imagina, calcula e faz, pois tem ótima técnica.
Como sabe tudo isso? Sabendo. O craque não tem explicação. Ele é.

domingo, 1 de agosto de 2010

REAPRENDER A SONHAR

TOSTÃO.
Os garotos Ganso e Neymar são as esperanças do futebol brasileiro nos próximos anos.
CERTA VEZ, li que os códigos de comportamento de uma sociedade costumam durar umas três gerações. As coisas, mesmo as que não gostamos, ficam impregnadas em nosso inconsciente, em nossa alma.
No século passado, quando as ideias de Freud, um cientista da alma, espalhavam-se pelo mundo, os americanos, que querem ser sempre os melhores e os primeiros em tudo, convidaram o médico austríaco para uma série de palestras nos grandes centros científicos dos EUA.
Durante a viagem, Freud disse a Carl Jung, então seu amigo e discípulo: "Vou levar a peste aos americanos".
Os americanos escutaram o que não queriam, o que não conheciam e/ou o que fingiam desconhecer e não se entusiasmaram. Preferiram, como ocorre até hoje, a hipocrisia, além de ignorar os mistérios da alma humana.
Por isso, os europeus, mais humanistas e realistas -muitos dirão pessimistas-, gostam mais que os americanos da obra de Woody Allen.
Nesta semana, vi e adorei o filme "Tudo pode dar certo". Apesar das incertezas e da transitoriedade, as coisas podem ainda dar certo.
Faço essa divagação (introdução) para falar de futebol e percebo que esse espaço, cada dia menor, está terminando. Será que os jornais impressos vão acabar um dia?
É a transitoriedade das coisas.
Já escrevi que não foi Dunga ou qualquer outro treinador, nem Ricardo Teixeira, o responsável pelas mudanças, dentro de campo, no futebol brasileiro.
Existe, há décadas, uma lenta e progressiva transformação, que ainda não acabou. Pode ainda ficar pior, ainda mais se Ganso e Neymar não se tornarem grandes craques da seleção brasileira.
Os responsáveis pela mudança são o negócio-futebol, o sentimento latino-americano de inferioridade, de achar que tudo na Europa é melhor, o exagerado encantamento dos técnicos e de parte da imprensa com a ciência do futebol, em detrimento da fantasia, a projeção no futebol do comportamento da sociedade e outros motivos.
Sei que é difícil mudar. Corre-se o risco de ficar pior. Mas é preciso tentar, com ousadia, conhecimento e seriedade.
Para isso, é necessário também que ocorra algo novo, impactante. Talvez falte a peste. Será que as mudanças, dentro e fora de campo, terão de ocorrer juntas? É uma vergonha para o país o presidente da CBF, seja quem for, ser o mesmo durante 25 anos.
O futebol brasileiro precisa reaprender a sonhar.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

COMEÇOU A BAJULAÇÃO

TOSTÃO.
Depois do tosco e grosseiro Dunga, todos estão encantados com a simpatia de Mano Menezes.
DEPOIS DE tentar colocar Muricy Ramalho como defensor da moralidade, pois teria recusado o convite da CBF, o que não aconteceu, a imprensa está encantada com a inteligência racional de Mano Menezes. Depois do tosco e grosseiro Dunga, tudo ficou maravilhoso. Temos de esperar a bola rolar para saber se haverá mudanças de conceitos na maneira de jogar da seleção.
Logo após o primeiro gol do Corinthians no domingo contra o Guarani, idêntico ao segundo da Holanda diante do Brasil na Copa do Mundo, o comentarista disse que a partir de agora a seleção brasileira terá jogadas ensaiadas. Começou a bajulação.
Eficiência nas bolas aéreas, no ataque e na defesa, era uma das virtudes da seleção. Quando um jogador desvia a bola com um toque de cabeça, só o acaso vai determinar se ela vai cair para um defensor ou para um atacante.
Mano Menezes, desde 2006, quando dirigiu o Grêmio, já adotava o esquema da moda na Europa, com quatro defensores, dois volantes, um meia de ligação, um centroavante e um jogador de cada lado, que ataca e defende. Assim deve atuar a seleção brasileira. Como ocorre na Europa, os dois volantes jogam no meio de campo. Não existe o volante-zagueiro. Isso é bom.
Mano disse estar preocupado com o fato de que poucos titulares das seleções de base se tornem titulares de seus clubes. Isso ocorre porque o Brasil é agora um produtor em série, em grande número, para a exportação. Com isso, estão desaparecendo os grandes jogadores, principalmente do meio para a frente, e mais ainda do meio-campo. Não existe um craque nesse setor.
Trocar passes, comandar a partida e jogar bonito não significa, necessariamente, atacar demais e fragilizar a defesa. Além da troca de passes, o forte da Espanha era a marcação. O time pressionava quem estava com a bola e não deixava o adversário chegar ao gol. Se a Espanha tivesse um grande atacante, teria vencido a Copa com facilidade.
Ao ver os jogos do fim de semana pelo Brasileirão, constatei, mais uma vez, que os jogadores não gostam da bola. Gostam de competir. São as imagens de seus treinadores.
Dominam a bola e jogam na área adversária ou tentam um passe longo para um companheiro marcado. O outro time recupera a bola e faz o mesmo. A bola vai e volta rapidamente. É o estilo pingue-pongue, vibrante, feio e ineficiente.
Muito mais importante do que renovar jogadores é renovar conceitos e a maneira de jogar da seleção e dos times brasileiros.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

VOLTA À ROTINA

TOSTÃO.
As voltas de Zico e Luiz Felipe Scolari são as principais novidades do futebol brasileiro.
APÓS RETORNAR da Copa, cochilei em quase todas as partidas que vi do Campeonato Brasileiro. Dizem que a readaptação ao fuso horário é de uma hora por dia. Seriam cinco dias então. Meu fuso deve ser mais lento.
Entre uma piscada de olhos e outra, percebi algumas novidades.
No Atlético-MG, tinha dois atacantes que não conhecia bem (Ricardo Bueno e Neto Berola). Estava no gol Fábio Costa. Veremos grandes defesas, grandes frangos e grandes confusões.
Foi bom ver Felipão. Ele, além de ter bons conhecimentos técnicos e táticos e de ser um treinador bastante afetivo, tem uma rara qualidade, que é o saber intuitivo e inconsciente.
Felipão costuma, de repente, sem racionalizar, mudar bem durante os jogos. Isso vai além da improvisação. Mas o torcedor do Palmeiras não pode se iludir e achar que Felipão, ou qualquer técnico, possui o poder de decidir as partidas.
Mas a melhor novidade foi ver Zico como diretor do Flamengo. Não falo isso porque ele foi um supercraque e é o maior ídolo da história do clube. Digo isso porque é uma pessoa e um profissional especiais.
Zico poderia estar, naturalmente, na seleção, como diretor ou treinador. Ele tem preparo para isso.
Quem será o novo técnico do time brasileiro? Vai depender dos amigos e parceiros da CBF e também da TV Globo.
Como disse Flávio Gomes, a longa entrevista de Ricardo Teixeira ao programa "Bem, amigos", do Sportv, após a eliminação do Brasil, foi para devolver o poder à emissora.
A Espanha foi campeã do mundo com um técnico que não falava, não gesticulava nem discutia durante as partidas. Além disso, não usava roupas de grife e, nas entrevistas coletivas, não era grosseiro nem se fingia de sábio. Esse tipo de treinador é ridicularizado no Brasil.
O técnico da seleção brasileira deveria ser escolhido por seus conhecimentos técnicos e táticos, por saber comandar um grupo, por seu comportamento, pela filosofia de ver o futebol e por sua preocupação com a qualidade do espetáculo.
Como quase todos só pensam no resultado e têm a mesma filosofia, que é não arriscar e apostar no erro do adversário, não teremos nenhuma novidade.
Digo quase todos porque pode haver alguém por aí que não conheço ou que precisa apenas de um incentivo para colocar sua coragem e sua "loucura" para fora. E que, além de criativo, conheça profundamente o óbvio.

domingo, 18 de julho de 2010

COMPROMISSO PÚBLICO

TOSTÃO.
O novo técnico da seleção deveria assumir o compromisso de tentar dar bons espetáculos.
APÓS ASSISTIR, nos estádios, aos primeiros jogos na Copa do Mundo da África do Sul, percebi que, em relação ao que costumo ver pela TV, no Brasil, as partidas estavam muito frias, lentas, táticas e com excesso de toques curtos e para os lados. Deveria ser o contrário, pela importância da competição e pela presença da torcida.
Fiquei na dúvida se era porque, na TV, os narradores brasileiros gritam demais, narram como se fosse pelo rádio e transformam qualquer pelada em um jogo emocionante, ou se as seleções na Copa do Mundo procuravam jogar com mais segurança.
Os jogos do Brasileirão, de todas as séries, são mais vibrantes que os do Mundial. Há mais disputas pela bola e também mais jogadas de área. Infelizmente, quanto maior a qualidade técnica das equipes e dos jogadores, maior a tendência de as partidas serem frias e lentas. Por terem poucas chances, os craques, cada vez mais, decidem cada vez menos os jogos.
Além disso, os grandes jogadores se tornaram tão ricos, famosos e estrelas, jogando bem ou mal, que a Copa do Mundo passa a ter menos importância. Cristiano Ronaldo, Messi e Kaká continuam com o mesmo prestígio.
Impacientava-me, ao ver no estádio, um jogador, com grandes chances de driblar em direção ao gol ou de dar um passe decisivo, preferir, por segurança ou falta de talento, tocar a bola para o lado. O grande craque é o que joga como se visse a partida da arquibancada.
O jogo excessivamente técnico e tático, mas com pouca alma, é uma grande chatice. "A bola é um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe. O que procuramos no futebol é o drama, a tragédia, o horror e a compaixão. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana." (Nelson Rodrigues)
A filosofia na Copa do Mundo foi a do treinador Carlos Alberto Parreira, de que o importante é não levar o primeiro gol. Se é assim, por que não marcar o gol primeiro?
Uma das maneiras de mudar isso seria um time tentar dominar o outro, pressioná-lo, tentando tomar a bola mais à frente.
A estratégia atual é o contrário.
Criou-se no futebol o conceito de que a melhor maneira de vencer é recuar e tentar ganhar em pouquíssimos contra-ataques que raramente acontecem. O jogo fica feio. Essa é uma boa tática para time pequeno.
O novo técnico da seleção brasileira deveria assumir um compromisso público, com firma reconhecida em cartório, de que a equipe vai tentar vencer e dar bons espetáculos.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

VALEU A PENA

TOSTÃO
O Brasil tem condições de realizar uma Copa do Mundo melhor do que a da África do Sul.
O BRASIL não pode mais perder tempo.
Não é necessário realizar uma Copa do Mundo do nível dos países ricos, mas o Brasil, mesmo sem construir estádios tão bonitos, enormes e caríssimos, pode fazer uma Copa do Mundo melhor do que a da África do Sul.
A cada Mundial, convenço-me de que se dá exagerada importância técnica a um campeonato de, no máximo, sete jogos. A Copa é espetacular pela grandeza da festa.
Messi, Cristiano Ronaldo e Kaká, os três escolhidos como os melhores do mundo pela Fifa, nos últimos três anos, ficaram muito aquém do que era esperado.
Messi não deixou de ser o melhor do mundo. Se jogasse na seleção da Espanha, certamente teria atuações brilhantes. A Espanha é o Barcelona sem Messi e sem Daniel Alves. O Barcelona, os grandes clubes da Inglaterra e a Inter, na Itália, são superiores às seleções de seus países.
A minha seleção da Copa do Mundo na África do Sul seria: Stekelenburg (Holanda); Maicon (Brasil), Lúcio (Brasil), Puyol (Espanha) e Fábio Coentrão (Portugal); Schweinsteiger (Alemanha), Xavi (Espanha), Iniesta (Espanha) e Sneijder (Holanda); Forlán (Uruguai) e David Villa (Espanha).
Não houve nenhuma evolução tática. Espero que os técnicos brasileiros e de todo o mundo mudem seus conceitos.
Em vez de recuar para contra-atacar e tentar ganhar as partidas em pouquíssimos lances, é necessário também, pelo menos em parte do jogo, tentar dominar a partida e pressionar o adversário. Fazer as coisas acontecerem e não esperar que as coisas aconteçam.
Antes de viajar para a África do Sul, quase desisti. Achava que não suportaria uma viagem excessivamente longa, de quase 50 dias. Depois de 60 anos, os medos aumentam. Viajei mais pelo compromisso profissional.
Valeu a pena.
Além do prazer de estar presente em uma Copa do Mundo, tive a companhia de jovens competentes, bem-humorados e generosos, sob a coordenação de Paulo Cobos, um baita jornalista. Trataram- -me com carinho, além de não me deixarem perdido nesse mundo tecnológico.
Tive ainda a companhia prazerosa e solidária dos colunistas do jornal. São meus mestres. Juca Kfouri é também meu ídolo.
Valeu a pena.
"A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos." (Fernando Pessoa)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

VIVA O FUTEBOL BONITO

TOSTÃO.
A Espanha mereceu ganhar a Copa africana, mesmo jogando menos do que se esperava.
FOI UMA FESTA bonita. Antes de a bola rolar, houve um belo show com a cantora Shakira e um grande espetáculo de luzes, cenografia, músicas e imagens, mostrando os grandes momentos da Copa. Mais emocionante ainda foi a rápida presença de Nelson Mandela.
A Copa do Mundo teve muitos pequenos problemas, mas nenhum grande problema. A organização foi melhor do que eu esperava. No item serviços, o Brasil tem condições de fazer uma Copa bem melhor. Os africanos, em todos os setores, público ou privado, são confusos para resolver pequenas e rotineiras situações.
Apesar do pouco poder ofensivo, a Espanha foi melhor, criou mais chances de gol e mereceu o título. Apesar das mudanças para pior que o técnico Vicente del Bosque fez na equipe em relação à que jogou a Eurocopa -colocar mais um volante, Xavi mais adiantado e tirar um atacante ou um meia ofensivo-, a Espanha manteve um estilo de muita troca de passes, dribles, tabelas e ganhou o título.
Como ocorreu na vitória sobre o Paraguai, o técnico colocou, no segundo tempo, o meia Fàbregas no lugar de um dos volantes. O time passou a jogar melhor e a criar mais chances de gol.
Por causa de sua maneira de jogar, os "idiotas da objetividade" diziam, anos atrás, que esse era um estilo ultrapassado, um delírio de comentaristas saudosistas e românticos.
Jogando dessa forma, a Espanha ganhou a Eurocopa de 2008, o título mundial e chegou a ficar 52 jogos sem perder.
Mesmo jogando fora de sua posição, mais adiantado, Xavi foi novamente o craque do time e, na minha opinião, o craque da Copa. É o melhor armador do mundo.
Repito: o Brasil precisa, urgentemente, formar armadores com essas características, que joguem de uma intermediária à outra, que tenham habilidade e criatividade para comandar o time.
Tempos atrás, Felipe Melo disse que não conhecia os jogadores do passado e a maneira de jogar do futebol brasileiro de outras épocas.
Um repórter disse a Robinho que ele tinha sido muito elogiado por Nilton Santos. Robinho agradeceu, mas falou que não sabia de quem se tratava.
Já o goleiro Casillas disse, antes do jogo, que a Espanha tentava jogar como o futebol brasileiro de outra época. Espero que o futebol mundial siga o exemplo espanhol. É possível jogar bonito e vencer.

A GRANDE FINAL

TOSTÃO.
Hoje é a grande final da Copa do Mundo. Vou torcer para a Espanha, que joga mais bonito.
ANTES DA COPA, todos os que elogiavam a Holanda e a Espanha não acreditavam que as duas seleções pudessem ser campeãs.
Após a vitória sobre o Uruguai, os holandeses tiveram mais um dia de folga e se encontraram com suas companheiras, filhos e amigos. Como se vê, não há uma única maneira de formar um grupo unido e guerreiro. Pode ser do jeito holandês ou do jeito de Dunga e Jorginho, com suas igrejinhas de jogadores bem comportados.
A Espanha, assim como o Barcelona, por marcar por pressão, por valorizar a posse de bola e pela troca de passes, tem um estilo diferente do de todas as outras equipes. É preciso separar a troca de passes rápidos, precisos, para a frente, da Espanha e do Barcelona, com o objetivo de chegar ao gol, dos passes curtos, para o lado, lentos, das outras seleções. Jogando assim, a Espanha ganhou a última Eurocopa e ficou 52 jogos sem perder. A Espanha nunca teve um time tão bom como o atual.
O técnico Vicente del Bosque, que substituiu Luis Aragonés após a Eurocopa, mudou o time ao colocar mais um volante, adiantar Xavi e escalar apenas um atacante. O time ficou menos ofensivo e com mais segurança na defesa. Prefiro a maneira anterior.
Procura-se urgentemente no Brasil, com grandes chances de não se achar, um grande talento no meio-campo, um Xavi, que jogue de uma intermediária a outra. Kaká não é esse jogador. Ele é um ponta de lança. Ganso é um armador do meio para a frente. Hernanes tem momentos individuais brilhantes, mas não é um organizador, que toca a bola e faz o time jogar.
A falta desse jogador não é por acaso. Houve uma divisão no meio-campo no futebol brasileiro entre os volantes, que se destacam pela marcação do meio para trás, e os meias de ligação, que se destacam pela armação do meio para a frente.
Vou torcer para a seleção espanhola. Se a Espanha ganhar o título, será ótimo para o futebol. Será a vitória do time que joga bem, diferente e que dá espetáculo.
Se isso acontecer, espero que influencie os técnicos brasileiros, que não estão nem aí para a qualidade do jogo. Só pensam em vencer. Eles não gostam de futebol. Gostam de ganhar. O futebol brasileiro precisa, dentro e fora de campo, de pessoas que gostam de futebol, e não apenas de vencer e de fazer bons negócios.

sábado, 10 de julho de 2010

REPENSAR O FUTEBOL

TOSTÃO
É preciso renovar e repensar a maneira de jogar do futebol brasileiro. Será difícil.
A MAIORIA dos jogadores brasileiros que foram titulares na Copa do Mundo deve ser ainda os melhores de suas posições nos próximos anos. Mas não há nenhuma certeza de que serão os melhores no próximo Mundial.
É preciso renovar e repensar a maneira de jogar do futebol brasileiro. Será difícil. Os técnicos acham que futebol moderno é esse que está aí.
O Brasil não produz também tantos jogadores excepcionais. A produção agora é em série, como uma fábrica de parafusos, para exportação. O que se produz mais são jogadores altos e fortes. Quando um grandalhão tem talento, vale uma fortuna.
A melhor maneira de renovar é manter a base atual, para que os jovens tenham mais segurança. O novo treinador e a nova comissão técnica não podem apenas conhecer o futebol. Precisam ter também compromisso com a qualidade do jogo.
Jovens como Paulo Henrique Ganso, Neymar, Marcelo, Hernanes, Lucas e outros devem estar nas próximas convocações.
Alguns deles já poderiam ter jogado este Mundial se Dunga tivesse mais sensibilidade, não fosse tão rígido e não pensasse apenas nas vitórias imediatas e nas estatísticas. O que adiantou? Nada.
Júlio César, Maicon, Kaká, Daniel Alves, Robinho, Ramires e Luis Fabiano devem continuar brilhando em seus clubes e fazendo parte da seleção.
Gilberto Silva está fora. Ele, além de bom jogador, excelente na Copa do Mundo de 2002, foi um dos atletas mais dignos e equilibrados que passaram pelo futebol.
Já Felipe Melo, se quiser voltar à seleção brasileira, terá de mostrar que tem preparo emocional para isso.
Lúcio continua em forma. Em 2014, terá 36 anos. Seria sua quarta Copa. Será difícil ele jogar. Juan, que tem tido muitos problemas de contusão, terá 35. É quase impossível.
Antes do Mundial, questionei em minha coluna, sem ter resposta, se Kaká, por ter tido várias contusões recentemente, por ter jogado em alto nível durante muitos anos, por ter reclamado de dores na Copa e por ter jogado mal no Real Madrid, ainda teria condições de recuperar o esplendor técnico que teve no Milan, já que, na média, os grandes craques brilham intensamente, cada vez mais, por um período mais curto.
Continuo em dúvida. Mais ainda.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

PASSE BUROCRÁTIVO

TOSTÃO
Os dribles e os passes para a frente foram trocados pelo passe curto e para o lado.
O NÍVEL técnico da Copa está apenas razoável. Melhorou nos últimos jogos.
É mais uma Copa do Mundo, mais ainda que as anteriores, do passe burocrático, seguro, tecnicamente correto, para o lado, curto, com a parte interna do pé (de chapa), com a finalidade de manter a posse de bola.
O time perde a bola, recua para o seu campo e espera o outro para contra-atacar. Quem tem a bola não quer entregá-la. Toca para um lado, para o outro, até alguém errar o passe. Como o time que recupera a bola está muito recuado e só com um jogador na frente, são raros os contra-ataques.
A única seleção que marca por pressão é a Espanha. Quando a Alemanha recuperava a bola na sua intermediária, não conseguia tocá-la ou chegar à frente, porque a Espanha, em vez de recuar, como fazem as outras seleções, pressionava o jogador da Alemanha que estava com a bola. A Espanha, como o Barcelona, foge do padrão globalizado.
Estão cada vez mais raros os passes longos, rápidos, para a frente, entre os zagueiros, nos pequenos espaços, e também os passes de curva, de trivela, de rosca, em que a bola contorna o corpo do adversário para chegar ao companheiro.
O passe longo, de uma lateral à outra, também está diminuindo. Sneijder é ótimo nesses lançamentos. Felipe Melo também fez isso bem, até fazer o que melhor sabe -pisar no adversário caído no chão.
O drible de corpo, a finta, o drible em que o jogador vai para um lado e, depois, vai para o outro, o elástico e todos os tipos de dribles são cada vez menos frequentes. O que ainda mais se vê é o atleta, na lateral do campo, jogar a bola na frente para pegá-la. É mais um lance de velocidade, de força física, do que um verdadeiro drible.
No futuro, o drible vai ser tão raro que poderá ser considerado uma falta, uma atitude antiética.
O atual momento me lembra o da Copa de 1990, quando a vitória valia dois pontos.
Um time esperava o outro, e nada acontecia. O empate era bom. Os jogos eram chatos e com poucos gols. Foi a menor média de gols de todas as Copas do Mundo (2,21).
A atual é quase igual, a segunda menor média (2,24). Após a Copa do Mundo de 1990, a Fifa mudou a regra, e a vitória passou a valer três pontos. Isso levantou o futebol. Agora, houve uma acomodação. É preciso fazer alguma coisa.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

ÓTIMA FINAL

TOSTÃO
A Espanha dominou o jogo e mereceu a vitória. Vai decidir o título com a Holanda.
ESPANHA E Holanda, que nunca foram campeãs, vão disputar o título.
Se o jogo fosse definido pelo time que comandasse a partida, que jogasse mais bonito e que tivesse mais talento individual, seria uma goleada da Espanha sobre a Alemanha. Como os atacantes espanhóis não resolviam, o zagueiro Puyol, símbolo da raça, foi para a área e, de cabeça, fez o heroico gol.
Na Eurocopa-08, com Fernando Torres em forma, ao lado de Villa, e com Xavi como segundo volante, ao lado de Marcos Senna, a Espanha foi muito mais forte no ataque, sem fragilizar a marcação.
Ontem, a Espanha, mesmo sem grande poder ofensivo, voltou a trocar passes e a comandar a partida, como fez nos últimos quatro anos.
A Alemanha, recuada e tentando jogar no contra-ataque, voltou a jogar como fez nos últimos quatro anos, sem brilho. A Alemanha estava melhor na Copa. A Espanha é melhor.
NOVA ERA
Como se esperava, Ricardo Teixeira, antes que Dunga e Jorginho sonhassem em continuar, demitiu os dois e a comissão técnica. Agora, a palavra é renovação. Antes, era disciplina. Para a CBF, chega de técnico tosco, radical, de cara amarrada e que corte os privilégios da TV Globo. Técnico, agora, tem de ser sorridente e tratar bem patrocinadores e parceiros da CBF.
Por que é tão difícil, no Brasil, no futebol e em várias atividades públicas, ter profissionais independentes, que não privilegiem ninguém e que, ao mesmo tempo, tenham uma relação agradável com as pessoas? Por que tem que ser um extremo ou outro, radical ou bonzinho?
MEDIOCRIZAR
Ontem, minha coluna e a de Juca Kfouri tinham o mesmo título: "Laranja madura". Não combinamos nem foi erro do jornal. Foi uma coincidência.
Estou autorizado pelo companheiro e professor Pasquale Cipro Neto a escrever a palavra "mediocrizar", que não está em meu dicionário. Eu mediocrizo, tu mediocrizas... O mundo está cada vez mais medíocre e igual.
Todos fazem, falam, pensam e sonham da mesma maneira. Há exceções. A maior prova de que o mundo está igual foi ver, aqui na Cidade do Cabo, alguns jovens japoneses furando fila. Perdi as ilusões. O mundo está perdido.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

LARANJA MADURA

TOSTÃO
A Holanda derrotou o Uruguai e espera hoje o vencedor de Alemanha e Espanha.
NÃO ADIANTOU a minha torcida.
O Uruguai, desfalcado de dois de seus principais jogadores (Suárez e Lugano), lutou bravamente, quase empatou no final, mas Sneijder e Robben estavam com a camisa laranja.
A Holanda está organizada, eficiente, madura e vai disputar a final pela terceira vez, na busca por seu primeiro título mundial.
Hoje jogam Alemanha e Espanha. Apesar do técnico Vicente del Bosque, que fez algumas mudanças para pior na seleção da Espanha em relação à que jogou na Eurocopa-2008, o time espanhol está entre os quatro semifinalistas.
O técnico colocou Xavi fora de posição (de volante para meia) e adotou o esquema da moda, com dois volantes, três meias e um centroavante. O time jogava com dois volantes, dois meias, que não tinham posições fixas, e dois atacantes.
A troca de passes e a alta média de posse de bola, características da seleção espanhola e também do Barcelona, não têm sido marcantes até agora.
Mesmo assim, o time tem feito gols bonitos, como o de Villa na vitória sobre o Paraguai.
O time não faz gol feio. Isso não é bom. Algumas vezes, o gol tem de ser no grito, no sopro, na jogada heroica.
Na Alemanha, Schweinsteiger, que jogava pelos lados, passou a atuar de volante. Podolski, que era um segundo atacante, joga agora pela esquerda, marcando e atacando.
Antes, o time atuava com duas linhas de quatro e dois atacantes. Agora, joga com dois volantes, três meias e um centroavante.
Não foi a mudança tática que fez o time evoluir, e sim a mudança na posição de alguns jogadores. Essa é a principal função do técnico: colocar os jogadores nas posições corretas. Simples, básico e eficiente. O restante é conversa fiada.
Outros destaques da Alemanha são o meia Özil, descendente de turcos com a habilidade dos ótimos meias brasileiros, além de Müller, outro que mudou de posição. Era um segundo atacante e passou a atuar pela direita, atacando e defendendo.
A Alemanha, que era pouco elogiada antes da Copa, é a seleção que tem jogado melhor.
A Espanha, que era a principal favorita, junto com o Brasil, está aquém do que se esperava.
A Alemanha está melhor. A Espanha é melhor, pela qualidade de seus jogadores e pelo que jogou nos últimos anos. Mas nada é definitivo.

terça-feira, 6 de julho de 2010

TURMA DO LERO-LERO

TOSTÃO
Os técnicos criam muitas variações táticas e fazem belos discursos. E tudo continua na mesma.
VEREMOS HOJE, na bela Cidade do Cabo, Uruguai e Holanda, com um grande número de torcedores holandeses. A Holanda é favorita. Só eu e o companheiro Martín Fernandez acreditamos no Uruguai.
Não houve nenhuma novidade tática na Copa. Seria uma grande surpresa se houvesse. É muito mais fácil e seguro repetir do que ousar.
Uma deficiência tática do Brasil, evidente desde o primeiro jogo sob o comando de Dunga, era não ter um armador para ajudar o lateral esquerdo, como tinha pela direita (Elano ou Daniel Alves). Foi pela esquerda que começaram os dois gols da Holanda. Não ocorreram mais gols por esse setor nos outros jogos porque os rivais não aproveitaram.
Maradona se iludiu com as quatro primeiras vitórias contra fracos adversários e manteve, contra a Alemanha, a mesma formação tática, com o volante Mascherano sozinho no meio-campo, já que os dois meias, Di María, pela esquerda, e Maxi Rodríguez, pela direita, jogaram muito abertos. Como não havia armador, Messi recuava para tentar fazer isso e ficava muito longe do outro gol. Messi não foi um grande armador nem um grande atacante. Não foi Messi.
Todas as seleções atuaram com uma linha de quatro defensores. Todos os laterais avançaram pouco, com exceção de Maicon, disparado o melhor de todos. Todas as seleções da Europa atuaram com um jogador de cada lado, defendendo e atacando, de uma intermediária à outra. Os técnicos adoram esse tipo de jogador, mesmo que ele não faça nada além de marcar, correr e cruzar. É o jogador tático, cada dia mais presente. No futuro, serão os craques do futebol.
Algumas seleções, como Holanda, Alemanha e Espanha, atuam com dois volantes, uma linha de três meias e um centroavante. Outras seleções, como o Uruguai, jogam com uma linha de quatro no meio-campo (dois volantes e um meia de cada lado) e mais dois atacantes. Nesse esquema, como os atacantes voltam para armar as jogadas, e os dois meias atacam e defendem pelos lados. Na prática, todos os sistemas se tornam idênticos.
Em todos esses esquemas, os jogadores ocupam as mesmas posições, têm as mesmas funções, e as equipes atacam e defendem com o mesmo número de jogadores.
Os técnicos mudam aqui, ali, dão voltas, fazem belos discursos táticos, e tudo continua na mesma. É a turma do lero-lero.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

NADA VAI MUDAR

TOSTÃO
Os clubes brasileiros têm mais orgulho de suas estruturas profissionais que de seus times
A PERGUNTA que todos os jornalistas de todo o mundo fazem aqui na África do Sul é se a eliminação do Brasil vai ocasionar mudanças na maneira de jogar da seleção e dos clubes brasileiros.
Não tenho nenhuma esperança. Todos os técnicos brasileiros, sem exceção, pensam como Dunga e como a maioria dos técnicos de fora. É o pensamento único, globalizado, de que o futebol é um jogo matemático, científico, e o que importa é somente o resultado. Os treinadores não têm nenhuma preocupação com a qualidade do espetáculo. Falam que isso é assunto para comentaristas saudosistas e românticos.
Treinador não precisa nem ser tão operatório e achar que descobriu o futebol nem tão anárquico e desinformado, como Maradona. Um time que só tem um jogador de meio-campo (Mascherano) e dois laterais-zagueiros muito ruins teria de ser eliminado da Copa. Messi atuou muito recuado, tentando ser o armador da equipe. Ali não era seu lugar. Messi é um atacante veloz, para jogar por todos os lados do ataque.
Paradoxalmente, a seleção de 1970, que encantou o mundo, marcou o início, no Brasil, do futebol científico e organizado. Como em 1970 houve um excepcional planejamento, dentro e fora de campo, e uma excelente estrutura profissional de apoio aos atletas, para a época, todos os clubes brasileiros passaram, progressivamente, a fazer o mesmo.
Com isso, houve uma supervalorização do jogo coletivo, do técnico e da estrutura profissional em detrimento do talento e da qualidade do espetáculo, como se uma coisa anulasse a outra. As duas coisas são essenciais.
Hoje, os dirigentes dos grandes clubes brasileiros adoram dizer que seus especialistas na área esportiva e que suas estruturas profissionais são os melhores do mundo.
É indiscutível a qualidade da estrutura dos clubes e dos profissionais brasileiros, mas nem sempre isso é verdade. A imprensa oficial e a turma do oba-oba falam, e a maioria repete.
Os craques que atuam hoje no Brasil estão mais fora de campo do que nos gramados. Não faz sentido nem tem equivalência um clube brasileiro ter uma excepcional estrutura profissional, pagar uma fortuna ao treinador e ter um futebol de pouca qualidade. É como ter um grande estádio, teatro, sem ter bons espetáculos.