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segunda-feira, 25 de julho de 2011

DILMA DESENHA SEU MANDATO

Por Kenndy Alencar 
A mais recente conversa da presidente Dilma Rousseff com jornalistas da mídia impressa trouxe boas e más notícias para o país. A principal delas foi a opção clara pela manutenção do crescimento da economia num patamar relevante para o padrão histórico recente do Brasil, mas à custa de conviver com uma inflação também alta, o que traz riscos. Segue uma leitura dos principais pontos:
Economia.
A presidente desistiu de trazer a inflação para um nível menor do que 4,5% ao ano, plano que elaborou reservadamente na campanha presidencial do ano passado. Nos últimos anos, o Brasil tem tido dificuldade para chegar a 4,5%, número que é o centro da meta de inflação, de acordo com o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Essa meta tem um intervalo de tolerância de dois pontos percentuais para mais e de dois pontos para menos. O governo Dilma optou por viver bem no alto da margem superior.
"Não queremos inflação sob controle com crescimento zero", disse a presidente. "Estamos fazendo o chamado pouso suave, com uma taxa de crescimento e de emprego adequadas", afirmou.
Ora, um controle mais rígido da inflação não derrubaria a economia para zero, mas poderia interromper um ciclo de crescimento que tem sido eficiente para gerar empregos e melhorar a vida dos brasileiros, sobretudo dos mais pobres.
A presidente está bancando uma política desenvolvimentista com mais clareza do que fez seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, no seu segundo mandato. Essa é uma boa notícia.
O lado ruim é flertar em excesso com o dragão da inflação e ficar no pior dos mundos: juros altos, inflação alta, estímulo à reindexação e queda do crescimento (caso o mercado financeiro e os empresários não comprem o projeto econômico de Dilma).
Pelas palavras da presidente, inflação menor mesmo só de 2015 pra frente.
Outro tema importante da economia: é sábia a cautela em relação ao câmbio. O real valorizado preocupa o governo. E incomoda até empresários amigos do PT, que se queixam de desindustrialização em marcha. Na opinião desses homens de negócios, falta ao Brasil uma estratégia clara para enfrentar a invasão dos baratos produtos chineses.
O cuidado presidencial é inteligente porque os Estados Unidos e a Europa parecem que estão brincando com o perigo, cada um deles do seu jeito. Os EUA precisam crescer e, para isso, aumentar o teto de endividamento público. Mas a oposição republicana a Barack Obama atua de modo insano. A Europa hesitou demais ao fazer o que tinha de fazer: salvar a Grécia à custa de aumento da despesa fiscal de toda a comunidade.
Ao falar do real valorizado, soou sensato Dilma dizer: "Você acha que a gente pode fazer alguma coisa se a gente não sabe se o pessoal está brincando na beira do abismo ou se já criou uma rede de proteção?".
O governo prepara medidas paliativas para amenizar os efeitos negativos do câmbio sobre a produção, mas aguarda uma definição sobre o destino econômico das duas maiores potências globais. No cenário pessimista, parece melhor contar com um real mais forte, que possa perder valor de um jeito menos prejudicial à nossa economia. Resumindo: vai empurrando com a barriga o problema cambial por falta de meios e condições políticas para resolvê-lo sem guinada na economia.
Política
"Sairão todos os integrantes do Dnit e da Valec", afirmou Dilma.
A frase dura está mais para uma retirada estratégica do que para uma subida de tom e de atitude. A presidente já considera que foi bastante pedagógica com seus aliados, sobretudo o PR. Julga melhor parar por aqui. Ela tem limites para acionar a guilhotina.
O governo quer acabar com a crise entre o Planalto e o PR não tão depressa que pareça ter exagerado nem tão devagar que sugira o desejo de rompimento real.
O PR tem seis senadores e 39 deputados. Sem o partido, a governabilidade seria fortemente afetada. Uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) no Senado deixaria de ser uma miragem.
Dilma acertou ao agir com firmeza no caso de corrupção no Ministério dos Transportes. Ficou bem na foto perante a opinião pública, especialmente nos estratos médios mais refratários ao PT. Mas não foram apenas os políticos do PR que ficaram contrariados com sua demonstração explícita de intolerância à corrupção. Aliados do PT e do PMDB também julgaram que a presidente desgastou a já desgastada classe política para se fortalecer na sociedade civil após o dano de imagem que sofreu no caso Palocci.
A atitude de Dilma poderá ter um custo político alto mais à frente, num momento de dificuldade que não envolva a periferia do poder, mas o seu centro.
Imprensa
Dilma deveria falar com mais regularidade com jornalistas. E deveria aceitar conversas sem restrições para gravações. Seria mais republicano. O país e ela ganhariam.
Oposição.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a cavar com sucesso um trabalho numa instituição internacional para José Serra. FHC acha que Serra, candidato presidencial do PSDB derrotado no ano passado, deveria ter saído de cena por algum tempo. Crê que teria sido conveniente uma quarentena, para o bem do próprio amigo. Mas Serra preferiu tentar buscar logo um lugar no palco para a sucessão presidencial de 2014.

sábado, 18 de dezembro de 2010

LULA E O POVO

Por Kennedy Alencar, da Folha.com
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou o ritmo de viagens pelo Brasil no último mês de governo. As despedidas ao estilo Silvio Caldas têm sido criticadas.
Para alguns, Lula estaria quebrando a liturgia do cargo, comportando-se como um caudilho que não consegue suportar a perda das mordomias presidenciais.
Na opinião de outros, ele seria emotivo demais para um cargo que exigiria maior compostura. Fala-se até em desrespeito institucional.
São críticas injustas. Mais uma vez, o presidente é subestimado. Atribuem a ele intenções menores, como se o contato com a população fosse uma manipulação e não um sentimento real.
Ora, Lula é um presidente com uma trajetória pessoal e política diferente dos que governaram antes. É o primeiro metalúrgico eleito para comandar o país. Não esconde que é emotivo, chorão. Fala que governa com o coração. Nunca quis se comportar como um intelectual ou um lorde na Presidência.
Nos dias 13 e 14 de dezembro, em viagem ao Ceará, Paraíba e Pernambuco, Lula fez discursos e gestos civilizadores do ponto de vista político.
Em Missão Velha (CE), falou para uma multidão que aguardava sua chegada numa estação de trem. Ele havia andado no vagão de passageiros VIPs da ferrovia Transnordestina. Encontrou homens e mulheres sorrindo e chorando ao ver um presidente com o qual se identificavam.
No característico estilo informal, deixou o discurso escrito de lado e improvisou. Disse que os nordestinos tinham o direito de ambicionar ser mais do que serventes de pedreiro em São Paulo. Subiu o tom de voz para afirmar que podiam sonhar em ser médicos, arquitetos, advogados. Retratava a sua própria história. Desceu do palanque e foi abraçar, beijar e tirar foto com quem quisesse.
Na visita a São José de Piranhas (PB), andou dentro de um túnel que está no começo da construção. Quando ficar pronta, em 2012, a obra servirá de leito à transposição das águas do rio São Francisco. Terá 15 quilômetros.
Informado de que um grupo aparecera fora do roteiro, ele, mesmo atrasado, foi falar com cerca de 100 pessoas a maioria funcionários da obra e seus familiares. Um adolescente veio com o pai e a mãe de João Pessoa (horas de carro em estrada ruim) para conhecer o presidente. Os dois se abraçaram e choraram.
Lula discursou sobre a emoção de um "filho de dona Lindu" executar algo que o imperador Pedro 2º sonhara realizar. Mais uma vez, repetiu que as mudanças inegáveis no Nordeste, região que tem crescido acima da média nacional, criaram oportunidades para melhorar de vida de todos ali. Incentivou nordestinos a ter orgulho de sua origem. Reconheceu que faltava muito por fazer, mas que todos deveriam ajudar Dilma Rousseff a fazer mais e melhor. Disse que, fora da Presidência, gostaria de voltar ali e participar da inauguração do canal.
Nesse mesmo dia, em Salgueiro (PE), numa tarde com 38ºC, entregou títulos de propriedade a famílias que serão reassentadas numa área rural beneficiada pela transposição. O discurso das outras solenidades se repetiu em linhas gerais, mas despertou atenção uma conversa entre uma moça e o presidente ao final, quando ele tradicionalmente desce do palanque para atender aos pedidos de fotos, beijos e abraços.
Sem os incisivos superiores, ela pediu a Lula que lhe arrumasse os dentes. Quando um repórter se aproximou, ela fechou a boca.
Passou a falar com Lula aos murmúrios. Olhos marejados, o presidente chamou o prefeito da cidade. Perguntou se ele havia recebido verba do programa "Brasil Sorridente". O prefeito disse que sim.
O presidente pediu, então, que o prefeito cuidasse pessoalmente do caso da moça, que ele iria acompanhar mesmo depois de sair do Palácio do Planalto. Virou-se para ela e deixou claro que não seria preciso pagar nada. Repetiu que era um direito dela e que ela fazia muito bem em querer colocar dentes novos, para ficar mais bonita.
Despediram-se com um beijo e um abraço daqueles de urso que Lula costuma dar. Ela se afastou e sorriu. O repórter quis saber seu nome. Envergonhada, ela tapou a boca e disse que não queria conversa.
Antes de entrar no carro para outro ato, Lula falou com Júlio Bersot, assessor que pega todos os bilhetes e pedidos nos eventos. Pediu que acompanhasse o caso da moça e que cobrasse o prefeito.
Nesses dois dias, Lula discursou e chorou muito. Não consta que tenha dito algo impróprio para um presidente com a sua biografia.
* Regra do jogo.
As críticas sobre o comportamento de Lula em relação às instituições devem ser vistas pelos dois lados. É fato que ele passou a mão na cabeça de muitos companheiros acusados de crimes, o que é um erro para quem deve ser o primeiro a dar o exemplo. Mas tem a seu favor, pelo menos, duas atitudes que valeram mais do que palavras.
Nomeou quatro vezes para procurador-geral da República o candidato mais votado na lista do Ministério Público. Esse cargo tem o poder de pedir abertura de investigação contra o presidente no STF (Supremo Tribunal Federal).
Também fugiu da tentação de mudar a Constituição para concorrer a um terceiro mandato.
É salutar que Lula seja criticado, mas ele tem o direito de espernear e de apresentar seus argumentos. Tem o direito de ir aonde o povo está. Tem o direito de defender o seu governo. Não faz nada contra a regra do jogo. Está fazendo política.
Se o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os tucanos tivessem feito o mesmo em relação ao bom trabalho do PSDB entre 1995 e 2002, não estariam no mato sem cachorro em que estão.
Lula deixa Brasília com popularidade recorde. A fotografia na história será bem mais positiva do que negativa. Cumpriu a promessa básica de melhorar a vida dos mais pobres. Ampliou a relevância do Brasil no mundo. Elevou a auto-estima dos brasileiros. Errou na política, sobretudo ao contrariar a pregação ética do PT, como mostrou o mensalão. Houve excesso de pragmatismo nas alianças políticas, mas ele precisou delas para governar um país complexo, ainda atrasado em muitos aspectos.
No balanço geral, fez um bom governo. Se comparado às expectativas que o cercavam na eleição de 2002, realizou uma ótima administração.

domingo, 31 de outubro de 2010

Colheram o que plantaram.

Por Kennedy Alencar.Alencar
Apesar de alguns erros derivados de certa soberba e de percalços sobre os quais não teve controle, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva executou com sucesso uma estratégia que traçou no começo do segundo mandato: eleger Dilma Rousseff como sucessora.
Foram eixos da estratégia não cair na tentação do terceiro mandato e apostar num plebiscito sobre os seus oito anos de governo contra os oito anos de Fernando Henrique Cardoso.
Enquanto a oposição e parte da imprensa acreditavam que Lula queria o terceiro mandato e fazia jogo de cena para esperar o melhor momento de mudar a Constituição, Dilma Rousseff ficou livre para aparecer nas vitrines positivas do governo. Se ela tivesse sido apontada candidata lá atrás, auxiliares como Erenice Guerra teriam entrado bem antes na alça de mira.
No entanto, dando o devido crédito ao chefe, Dilma ficou livre para ter o controle de todas as bandeiras positivas do governo, como conduzir as mudança da lei para explorar o pré-sal, gerenciar o programa de habitação "Minha Casa, Minha Vida" e virar a "mãe" do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
No teste de fogo da crise internacional de 2008/2009, Lula foi aprovado. Esse teste foi bem mais duro do que o rigoroso ajuste fiscal e monetário de 2003. A oposição cobrava de Lula capacidade de gerenciar a crise. E ele foi bem. Fez um rápido e certeiro diagnóstico da crise financeira internacional e de como o Brasil deveria enfrentá-la. O maior acerto: medidas para reforçar o mercado interno como forma de atravessar o deserto e compensar a queda da economia global.
Nessa estratégia vitoriosa, é justo registrar a importância da aliança PT-PMDB. Na crise do Senado, em 2009, a oposição tentou criar um racha na relação entre peemedebistas e petistas. A ideia era transformar o Senado, Casa na qual Lula sempre teve dificuldade, num bunker oposicionista. Mas Lula não jogou ao mar o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Em troca, obteve uma aliança formal com todo o PMDB, o que garantiu uma máquina política ainda mais expressiva no país e um tempo de propaganda no horário eleitoral gratuito para vender Dilma na hora decisiva.
O bom momento econômico favoreceu a tese de polarização PT-PSDB, apesar do susto com o desempenho de Marina Silva (PV-AC), que forçou a realização do segundo turno. Um taxa de crescimento de cerca de 7% neste ano favoreceu a defesa do continuísmo, dando gás a uma candidata tirada do bolso do colete. No contexto econômico, destacaram-se ainda as políticas de reajuste do mínimo, de ampliação do crédito, de massificação de programas sociais e de incentivo a grandes grupos nacionais considerados estratégicos e amigos.
Os principais erros da campanha não comprometeram o resultado final, mas trouxeram muita tensão ao governo na virada do primeiro para o segundo turno. A campanha de marketing de Dilma demorou a perceber a sangria de votos com o debate sobre a legalização do aborto. Gente da cúpula dava como favas contadas uma vitória no primeiro turno quando já era evidente que uma segunda etapa seria inevitável. O próprio Lula se iludiu com sua alta taxa de popularidade. Entre os percalços sobre os quais não teve controle, o principal foi a doença de Dilma em 2009.
Obtida a vitória, há também uma importante lição: a realização do segundo turno e o percentual de votos dados a Dilma não autorizam uma atitude arrogante em relação aos adversários e à imprensa, mas isso será assunto de outra coluna.
Ninguém ganha sozinho.
Num cenário de extrema adversidade política, é surpreendente a performance de José Serra. Ele disputou a eleição contra a candidata do presidente mais popular da história recente num contexto de crescimento econômico e de transformações sociais inéditas no país. Nesse sentido, é uma derrota que não envergonha o PSDB, mas o candidato cometeu o principal erro de quem deseja conquistar a Presidência: achar que poderia se eleger sozinho.
Na primeira metade de 2009, o presidente Fernando Henrique Cardoso selou um acordo entre Serra e o então governador de Minas Gerais, Aécio Neves. Garantidos alguns compromissos, o mineiro seria vice de Serra, que governava São Paulo naquela época.
Fiador dos compromissos, FHC testemunhou Serra rompê-los. O primeiro deles: Serra não quis participar de reuniões prévias pelo país, nas quais o PSDB ouviria seus dois pré-candidatos e depois decidiria quem disputaria o Palácio do Planalto.
Líder disparado nas pesquisas, Serra julgava a ideia uma forma de miná-lo politicamente. Mas Aécio queria uma saída para dizer ao eleitorado de Minas porque aceitaria ser vice do governador paulista. Outro compromisso era dizer com todas as letras que, se eleito, Serra patrocinaria novas mudanças constitucionais para que Aécio fosse o próximo da fila. Pelo acordo, Serra articularia a aprovação de projetos no Congresso para acabar com a reeleição e reinstituir o mandato de cinco anos. Aécio sempre demonstrou pouca crença na capacidade de, sentado no Planalto, Serra abrir mão da possibilidade de se reeleger. Mas FHC dizia a Serra que era importante que ele se comprometesse com essas alterações a fim de tranquilizar Aécio e Minas. O final dessa história é sabido.
Entre setembro e fevereiro, a folga sobre Dilma nas pesquisas deu a Serra a ilusão de que poderia ignorar os apelos para assumir a candidatura e fazer concessões a Aécio. Ele não aceitou as cobranças do PSDB e do DEM para admitir que era candidato e montou uma estrutura de campanha centralizada e distante dos aliados.
Esticou a corda até junho para tentar obter a companhia de Aécio em sua chapa, mas estava tão fraco que não teve como enfrentar a resistência dos democratas à escolha do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) para vice. Ao explicar as razões de aceitar o pouco conhecido deputado federal Indio da Costa (DEM-RJ) como companheiro de chapa, Serra admitiu que a questão estava encaminhada em outro sentido, mas não havia dado certo.
A biografia respeitável, a tenacidade com a qual se jogou na disputa e a assimilação de um discurso conservador que destoa de suas próprias ideias não foram suficientes para levar o tucano à vitória. Serra quis ganhar sozinho. A exemplo de Lula, colheu o que plantou.