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segunda-feira, 30 de julho de 2012

ESGOTO


A pior lista de todos os tempos.
Por MAURICIO STYCER, da Folha de São Paulo.
Michel Teló é maior que Chico Buarque. Dedé, zagueiro do Vasco, é maior que Garrincha. Tiririca é maior que Drummond. Gugu Liberato é maior que Monteiro Lobato.
Eis alguns resultados, citados de forma aleatória, de uma enquete promovida pelo SBT. A lista contém cem nomes e está sendo apresentada num programa chamado "O Maior Brasileiro de Todos os Tempos".
Trata-se de uma dessas ideias que, à primeira vista, parecem ótimas, mas cuja realização e resultado mostram o tamanho do buraco em que a televisão brasileira está enfiada.
O SBT se inspirou e, algo notável, deu crédito a uma ideia da BBC, o programa "Great Britons", exibido em 2002. Eis a primeira lição: o selo de qualidade da emissora britânica não é garantia de nada.
Durante meses, uma enquete ficou disponível no site do SBT. O eleitor podia indicar o nome de sua preferência, desde que não fosse de alguém do elenco da própria emissora ou personagem de ficção.
Por estas duas restrições, já dá para sentir o tamanho do problema. Silvio Santos não apenas temia ser eleito "O Maior Brasileiro" como receava os milhares de votos que o Bozo poderia receber.
A emissora informa que recebeu cerca de 1,3 milhão de votos. Quase mil nomes foram indicados para chegar numa lista dos cem mais.
Segunda lição: enquete de internet não tem valor científico e não deve ser levada muito a sério. Alheio a isto, o SBT não teve vergonha de exibir, com toda pompa, o resultado da sua pesquisa.
Nos primeiros três programas da série, o jornalista Carlos Nascimento apresentou o bizarro Top 100, que exibe nomes como os de Roberto Justus (96º lugar), Lua Blanco (71º), Reynaldo Gianecchini (65º), Xuxa (40º), Rodrigo Faro (39º) e Luciano Huck (35º).
Sujeita à influência dos mais variados grupos de interesse, a lista apresenta 15 líderes ou ícones religiosos. Dois deles, Chico Xavier e Irmã Dulce, estão entre os 12 finalistas do ranking.
Entre outros, também aparecem Edir Macedo (13º), Silas Malafaia (26º), Valdemiro Santiago (36º), R.R. Soares (54º) e Marcelo Rossi (60º), figuras conhecidas por seus negócios e programas de televisão.
Convencido da seriedade de sua missão, Carlos Nascimento apresentou os cem nomes distribuindo adjetivos edificantes e aulas de história, além de uma ou outra explicação metodológica: "O povo votou em quem admira", advertiu.
Terceira lição: jornalistas emprestam credibilidade a programas de entretenimento sob o preço de, em troca, eventualmente se expor ao ridículo. Que o digam, entre outros, Fátima Bernardes, Pedro Bial e Britto Jr.
Depois de três episódios, "O Maior Brasileiro de Todos os Tempos" entra agora numa fase, definida por sorteio, que os esportistas chamam de "mata-mata": Chico Xavier x Irmã Dulce; Lula x Ayrton Senna; Tiradentes x Santos Dumont; JK x Pelé; princesa Isabel x FHC; Niemeyer x Getúlio Vargas. As disputas serão resolvidas pelo voto do público, em estilo "você decide".
Quarta e última lição sobre "O Maior Brasileiro de Todos os Tempos": quando uma ideia soa boa demais, convém avaliá-la com atenção redobrada.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

TROPA DE ELEITE 2


Para “Tropa de Elite 2”, problema da segurança se limita a corrupção.

Ao lançar “Tropa de Elite 2”, o cineasta José Padilha manifestou a expectativa que seu filme estimule um debate sobre segurança no país.“O Fernando Henrique não fez nada na questão da segurança pública. O Lula tinha um ótimo plano, mas nunca o implementou. E os candidatos não falam do problema da segurança pública. Se o filme fizer os candidatos tocarem nessa questão, eu me sinto feliz”.
Parece pretensioso – e é. Mas Padilha tem bons motivos para acreditar que o filme vai entrar na agenda eleitoral. Lançado com mais de 600 cópias a três semanas do segundo turno presidencial, com maciço apoio da Globo Filmes, o que implica em divulgação laudatória em todos os veículos do grupo, “Tropa de Elite 2” tem tudo para se tornar “um assunto” desta eleição.
Numa disputa marcada por pouco debate programático, muita troca de acusações e, agora, um viés religioso, seria altamente positivo que o tema da segurança pública fosse discutido com algum rigor pelos dois candidatos presidenciais.
O problema, a meu ver, é que “Tropa de Elite 2” oferece poucos subsídios para esta discussão. Como já foi largamente informado, o filme mostra a “evolução” do capitão Nascimento (Wagner Moura), de feroz comandante do Bope a assessor do secretário de Segurança do Rio. Nesta transição, Nascimento, agora coronel, entende que o problema do tráfico de drogas não se resolve com a invasão de favelas.
É um avanço e tanto. Nascimento descobre que os traficantes estão sendo substituídos por milícias, formadas por policiais, com apoio de políticos, interessados nos lucros monetários e eleitorais da “pacificação” das favelas. O coronel chama isso de “sistema” e o filme vai mostrar como ele se insurge contra este estado de coisas.
Na visão retratada por Padilha ao longo de quase duas horas tudo se resume a corrupção. O “sistema” está podre, defende “Tropa de Elite 2”. Se é verdade, o que discutir então? O que Padilha espera de Dilma e Serra ao apresentar uma olhar tão simplificado do problema?
“Tropa de Elite 2” é feito para provocar catarse, indignação, com a “podridão” do “sistema”. Magnificamente produzido e dirigido, com excelentes atuações de Wagner Moura e Irandhir Santos, certamente vai levar multidões aos cinemas, mas não creio que ajudará muito em qualquer discussão mais séria sobre o assunto.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

MAURICIO STYCER
Na disputa entre CBF e Fluminense, só Muricy perde.
Homem de palavra, Muricy Ramalho deixou nas mãos do Fluminense o seu destino. Agiu com dignidade e, se a situação não mudar nas próximas horas ou dias, será lembrado para sempre por este gesto histórico – o profissional que abriu mão de dirigir a seleção brasileira porque não quis romper unilateralmente o seu compromisso com o clube.
Há algo de didático no seu comportamento. Ensina que o presidente da CBF, por mais poderoso que seja, não pode anunciar à Rede Globo os planos do novo técnico da seleção antes que o principal interessado acerte a sua situação com seu empregador. Esta é uma lição que Muricy deixa não apenas para os seus filhos, mas para todos que sonham com um ambiente melhor no mundo do futebol.
Pessimista, porém, acho que há algo também de quixotesco na sua atitude. No caso, Muricy está honrando a sua palavra com o Fluminense, mas poderia ser com qualquer clube da Série A, B, C ou D do futebol brasileiro. Você conhece algum clube que honra a sua palavra com técnicos ou jogadores?
Encerrado este episódio como se desenhava na tarde desta sexta-feira, Muricy só terá a chance de dirigir a seleção brasileira na eventual gestão de algum oposicionista de Ricardo Teixeira. E as chances de seguir no Fluminense até o fim do seu contrato são tão grandes quanto as minhas de ganhar na Mega-Sena.
Foto: Ricardo Cassiano/Folhapress