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domingo, 10 de julho de 2011

QUEM AUTORIZOU ?

Luiz Fernando Veríssimo, no O Globo.
Nos países em que as eleições são sempre plebiscitárias vota-se em tudo, até em normas para se recolher o cocô do cachorro nas calçadas. Li, certa vez, que num desses países - acho que era a Noruega - não era incomum um eleitor ficar até meia hora na cabine eleitoral, marcando numa célula tamanho ofício suas opções, não só entre candidatos para representá-lo mas entre grandes e pequenas questões da vida comunitária, como usinas nucleares, sim ou não? Ou: cocô na calçada, quem é o responsável?
Pensei nesse eleitor e no seu poder de escolha lendo as notícias sobre as lambanças no nosso Ministério dos Transportes. Não podemos querer imitar os escandinavos e trocar nossas maquininhas de votar ligeiro por plebiscitos demorados, certo. Mas quando foi que nos perguntaram se concordávamos que o
Ministério do Transportes fosse doado ao PR? Quem autorizou o feudo com seu voto?
Quem, entre os eleitores, sabia da cláusula de exclusividade do acordo com o PR, quem aprovou a troca de um ministério, e um ministério cheio de dinheiro, por votos no Congresso? E logo com o PR, um partido que - pelo que se sabe - não representa nada a não ser sua própria gana?
Claro, ao apertar os botões da maquininha de votar o eleitor está dando aos candidatos da sua escolha o direito de fazer o que for necessário para governar, inclusive barganhas - ou alianças, que fica mais bonito. Está votando implicitamente em tudo que imagina que os candidatos pensem e pretendem. Quem votou em Dilma ou no PT na maquininha fez, de certa forma, todas as opções que encontraria numa cédula plebiscitária, inclusive sobre como dispor do cocô de cachorro, para insistir na metáfora nojenta. O acordo com o PR foi feito pelo Lula, decepcionando quem esperava que esse tipo de aliança o PT nunca fizesse.
Mas a Dilma presidente também foi feita pelo Lula, que certamente sabia das suas implicâncias e da sua determinação. Dilma, desfazendo o acordo, estará redimindo Lula e o PT dos seus pecados por associação.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

COXAS CONFIANTES

Por Luiz Fernando Verissimo.
Certa vez interrompi a leitura entusiasmada de um romance no trecho em que a heroína estava prestes a se entregar ao narrador porque não conseguia entender como as coxas dela podiam ser confiantes. Coxas confiantes?!
Mas estava ali, o narrador entre as coxas confiantes da moça. Mais tarde deduzi que o tradutor do inglês confundira thrusting com trusting e que as coxas eram para ser ativas, metidas — "ávidas", em linguagem figurada — em vez de cheias de boa-fé, mas aí já passara o entusiasmo.
Nos romances antigos, além de coxas animadas, as pessoas tinham estremecimentos. Hoje, com o ritmo trepidante da vida moderna, ou as pessoas só estremecem quando passa um caminhão ou não se nota mais um estremecimento no sentido literário.
Ou talvez "estremecimento" seja como "muxoxo", uma daquelas coisas que só acontecem em livros. Eu até hoje nunca vi um muxoxo na chamada vida real. Mas como não sei exatamente como é um muxoxo talvez tenha visto e não tenha reconhecido.
Também nunca vi uma sombra passar pelo semblante de alguém como acontecia, repetidamente, nos livros. É linguagem figurada, eu sei, como as coxas ávidas, ou "olhar perdido", mas a tal sombra aparecia tanto na literatura que me convenci de que, como o estremecimento, devia ser algo que existiu e simplesmente caiu de moda.
Passei boa parte da minha adolescência com a expectativa de encontrar um colo arfante fora dos livros, mas não tive sorte. Encontrei seios latejantes, mas era o coração delas que latejava, se bem que menos do que o meu. Os livros eróticos eram cheios de inchaços e deflagrações nos lugares mais estranhos do corpo. Mas o relato sexual sempre foi um desafio para a literatura.
Nos livros antigos as pessoas também empalideciam muito, a qualquer pretexto. Hoje ainda ficam pálidas, por anemia ou medo, mas nunca por constrangimento como antigamente.
E as pessoas ruborizavam! Ninguém mais ruboriza. No Brasil, há uns bons 50 anos não se tem notícia de que alguém tenha ruborizado.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

EXAGEROS DEMAIS

Gosto muito da frase do Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, quando lhe contaram que andavam dizendo que ele era homossexual: O pessoal exagera um pouco…
O pessoal aí entendido como não apenas os contemporâneos e conterrâneos do grande Stanislaw como a humanidade em geral tem mesmo uma tendência a exagerar. O exagero simplifica e aguça, tem mais graça, chama mais atenção enfim, é compreensível.
E deve ser tratado com a mesma tolerância com que o Stanislaw tratou os boatos do pessoal a respeito da sua sexualidade.
Tomemos como exemplos os exageros que dominam este fim de campanha, todos sobre o papel da imprensa nas eleições. De um lado o dos que dizem que a parcialidade da grande imprensa brasileira chegou a uma espécie de paroxismo com a perspectiva de uma vitória da Dilma com maioria no Congresso, e que há uma conspiração em curso dos grupos que controlam a mídia no país para evitar que isto aconteça. Do outro o dos que veem na vitória da Dilma com maioria uma ameaça à liberdade de pensamento e expressão no Brasil, ainda mais depois do que andou dizendo o Lula comparado ao Mussolini como líder de uma ameaça populista à nossa democracia sobre uma grande imprensa oposicionista.
Dois exageros perfeitamente compreensíveis, como se vê. O pessoal só exagerou um pouco demais. É difícil imaginar as quatro ou cinco famílias supostamente donas do espaço publicitário no país reunidas para evitar a continuação de um governo que ampliou este espaço como nenhum outro. Já é difícil imaginar as tais famílias juntas por qualquer motivo. E alguém acredita que a Dilma, uma vez eleita, convocaria os barões da imprensa para, embaixo de um retrato do Duce de Garanhuns, ordenar-lhes publicar só o que o governo quer, sob pena de represálias? De um lado ou de outro, busca-se uma mobilização contra fantasmas inventados.
Ou um pouco exagerados.
Mas sejamos como o grande Stanislaw e perdoemos os que exageram. É época de eleições, grandes questões, para não falar em grandes somas, estão em jogo, a moderação e o senso comum perdem para as paixões e, afinal, o pessoal é assim mesmo. Aconteça o que acontecer, eu estou saindo de férias.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

CORRIDA DE DEZ DIAS

Por Luiz Fernando Verissimo.
De hoje à data da eleição teremos dez dias de manchetes nos jornais e duas edições da Veja. Não sei até quando podem ser publicadas as pesquisas sobre intenção de voto, mas até a última publicação - aquela que, segundo os céticos, é a mais confiável, pois é a que garante a credibilidade e o futuro dos pesquisadores - veremos uma corrida emocionante: o noticiário perseguindo os índices da Dilma para tentar derrubá-los antes da chegada, no dia 3. O prêmio, se conseguirem, será um segundo turno. Se não conseguirem a única dúvida que restará será: se diz a presidente ou a presidenta?
Até agora as notícias de corrupção na Casa Civil não afetaram os índices da Dilma. Estou escrevendo na terça, talvez as últimas pesquisas mostrem um efeito retardado. Mas ainda faltam dez dias de manchetes e duas edições da Veja, quem sabe o que virá por aí? O governo Lula tem um bom retrospecto na sua competição com o noticiário. A popularidade do Lula não só resistiu a tudo, inclusive às mancadas e aos impropérios do próprio Lula, como cresceu com os oito anos de denúncias e noticiário negativo. Desde UDN x Getúlio nenhum presidente brasileiro foi tão atacado e denunciado quanto Lula. Desde sempre, nenhum presidente brasileiro acabou seu mandato tão bem cotado.
Acrescente-se ao paradoxo o fato de que o eleitorado brasileiro é tradicionalmente, às vezes simplisticamente, moralista. Elegeu Jânio para varrer a sujeira do governo Juscelino, elegeu Collor para acabar com os marajás, aplaudiu a queda do Collor por corrupção presumida e houve até quem pedisse o impedimento do Itamar por proximidade temerária com calcinha transparente. Mas o moralismo tornou-se politicamente irrelevante com Lula e, por tabela, para os índices da Dilma. É improvável que volte a ser decisivo em dez dias. Mas nunca se sabe. O que talvez precise ser revisado, depois dos oito anos do Lula e depois destas eleições, quando a poeira baixar, seja o conceito da imprensa como formadora de opiniões.
Mas a corrida dos dez dias começa hoje e seu resultado ninguém pode prever com certeza. Virá alguma bomba de fragmentação de última hora ou tudo que poderia explodir já explodiu? O que prevalecerá no final, os índices inalterados da Dilma ou o noticiário? Faça a sua aposta.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

FOSTER DULLES

Luiz Fernando Veríssimo é jornalista e escritor e escreve no "OGlobo"
Não pude ir à sabatina dos candidatos à Presidência feita por colunistas e leitores do GLOBO na semana passada, mas mandei perguntas por e-mail. Respondendo à minha pergunta sobre se, caso ele fosse eleito, a política externa brasileira voltaria a ser a que era antes do governo Lula, mais alinhada com os Estados Unidos, Serra disse que teria uma política própria, presumivelmente diferente da política do Fernando Henrique também. Mas antes fez um preâmbulo, lembrando o livro O senhor embaixador, em que, segundo Serra, meu pai se revela um admirador de John Foster Dulles, secretário de Estado americano que foi o grande estrategista da Guerra Fria com a União Soviética, famoso pela sua doutrina do brinkmanship, ou a arte de levar as confrontações até a beira de uma guerra quente, sem dar o passo fatal. No caso da família Verissimo houve uma alternância, disse Serra, pois o filho, eu, passou para o lado contrário em matéria de questão externa. Não entendi: o lado contrário do que, da Guerra Fria? Posso garantir que não sou pelo alinhamento da nossa política externa com a União Soviética contra o Foster Dulles, mesmo se conseguíssemos encontrar os dois ainda vivos, e mesmo que meu desejo valesse alguma coisa.
Como eu, o Serra deve ter lido O senhor embaixador há algum tempo. Não surpreende que não se lembre bem do que leu.
Foster Dulles foi, sim, uma figura admirável, do ponto de vista puramente literário.
Incorporava um certo tipo de aristocracia americana que durante algum tempo fez do Departamento de Estado o seu feudo fechado e do anticomunismo sua principal faina intelectual. Depois este patriciado estanque foi substituído por tecnocratas tipo McNamara, que deram o passo fatal além da beira e empurram o país para o abismo do Vietnã. Nenhum tinha aquela empáfia de nascença que caracterizava Dulles e seus pares e mal camuflava sua arrogância.
Meu pai não admirava a política de Dulles, Serra. Um personagem do livro expressa sua opinião sobre Dulles como a fascinante figura literária que foi.
O senhor embaixador foi baseado, em boa parte, na experiência do meu pai como diretor de assuntos culturais da União PanAmericana, ligada à Organização dos Estados Americanos, em Washington, de 1953 a 1956. A personalidade que, este sim, ele mais admirou no período foi Alberto Lleras Camargo, ex-presidente da Colômbia pelo Partido Liberal, que dirigiu a OEA até 54 e saiu do cargo fazendo um famoso discurso em que desancava a intromissão americana em assuntos internos da América Latina e propunha um novo relacionamento, não submisso, dos latinos com os Estados Unidos.
Lleras Camargo foi o primeiro estadista latino-americano da sua estatura e com suas credenciais a dizer coisa parecida. Recomendo ao Serra que, quando tiver tempo, leia Solo de clarinete, vol. 1, livro de memórias do meu pai, para saber com que figuras ele realmente simpatizou, na época, e com quem concordava.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

UM GOSTO PELA IRONIA

Luis Fernando Verissimo - O Estado de S.Paulo
A História é uma velha senhora com um gosto às vezes cruel pela ironia.
Por exemplo.
O populismo de direita cresce na Europa Central, ou nos antigos satélites da União Soviética, em parte porque lá não houve nada parecido com a revolução cultural que sacudiu o conservadorismo político e social dos anos 50 na Europa Ocidental. E não houve nada parecido com 1968 na Europa Central porque os tanques soviéticos não deixaram. O resultado da intervenção soviética, principalmente na Hungria e na Checoslováquia, foi que o modelo dominante de revolta para os jovens ficou sendo o nacionalismo à antiga, pré-Segunda Guerra Mundial, e não o modelo libertário do pós-guerra na França e em outros países. Portanto nas origens do fascismo que volta na Europa Central com todos os seus maus costumes -antissemitismo, perseguição a ciganos e outras minorias, etc.- está o mesmo exército que resistiu heroicamente à máquina de guerra nazista e ajudou a derrotá-la. Os milhões de russos mortos na luta contra o fascismo não estão achando muita graça.
Outra da História: a reforma agrária no Japão, que desmantelou uma estrutura feudal de séculos e serviu de exemplo para outras reformas parecidas, não foi obra de nenhuma esquerda mas do general americano que mais se assemelhava a um senhor feudal, Douglas MacArthur, imperador de fato do Japão durante a ocupação depois da Segunda Guerra.
Outra: se o capitalismo praticado na Alemanha atual e seus arredores econômicos -leia-se a União Europeia- é mais democrático do que o americano, com maior participação de empregados no controle de empresas, isto também se deve à derrota do fascismo e a questões geopolíticas decorrentes da Segundona. Ainda vivemos todos num post-scriptum de 1945. Assim como MacArthur quis acabar com o poder de uma aristocracia que instigava os sonhos imperiais do Japão, os americanos encorajaram os alemães a desenvolver um mercado socialmente responsável, distributivista, se é que existe a palavra, completamente diferente do seu próprio complexo industrial-militar, para descentralizar a economia e impedir a volta do poder a grandes industrialistas como os que tinham apoiado Hitler.
Aquela frase sobre escrever direito por linhas tortas ou escrever torto por linhas bem-intencionadas, diz respeito a Deus mas também se aplica à História. No fim, são dois gaiatos.