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segunda-feira, 5 de março de 2012

ADORAM SER ENGANADOS

Gilberto Dimenstein, da Folha de São Paulo.
Haddad, Chalita e a ignorância.
Um exemplo da devastadora falta de educação do brasileiro está num detalhe da pesquisa Data-folha sobre a eleição municipal: Fernando Haddad e Gabriel Chalita, apesar de terem muito destaque na mídia na área da educação, são desconhecidos. Impossível maior prova de ignorância.
Haddad é desconhecido de 59% dos eleitores; Chalita, de 48%. Note-se que estamos falando da cidade de São Paulo, a mais rica do Brasil. No caso de Haddad, ele está no noticiário (e em péssimas manchetes, como a crise da Enem) por muito tempo.
Vemos como o brasileiro não acompanha o que ocorre no país, distante do mundo oficial. Muito menos acompanha processos, atenta-se a fatos episódicos.
E, com consequência, não acompanha o que se passa pela educação que, na minha visão, deveria ser a prioridade das prioridades para um país mais justo e democrático.
Isso faz com que a opinião pública pressione menos por educação de qualidade.
Um bom exemplo disso acaba de ocorrer: o governo Alckmin contratou professores que foram reprovados num teste de mérito. Algum escândalo? Algum sinal de indignação popular?
Tentem colocar um jogador ruim na seleção brasileira para ver o que ocorre com o técnico.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

É OBVIO

Por Gilberto Dimenstein, da folha de São Paulo.
"Menos a Luiza" é uma idiotice?
Provavelmente Luiza é a primeira brasileira que virou celebridade nacional não por ter aparecido. Mas justamente por não ter aparecido. Foi alvo apenas de uma menção num comercial de um empreendimento imobiliário na Paraíba. Assim virou hit na internet. É uma idiotice? Não: essa brincadeira é um assunto sério.
Tão sério que mereceria um estudo aprofundado sobre como funcionam os meios de comunicação na era da internet. Um comercial de empreendimento imobiliário na Paraíba vira assunto nacional e faz da ausente Luiza uma celebridade. E, agora, ao voltar ao Brasil, desfila entre os famosos. São regras novas de difusão de informação, que os comunicadores não conhecem e não cansam de se surpreender.
Luiza também é reflexo de que como está se aprofundando o que muitos já chamam da era das celebridade. Gente que não faz nada ou quase nada --personagens do BBB, por exemplo-- e viram assuntos em todos os lugares. Não é só que viram assunto: suas opiniões são levadas em consideração e ocupam cada vez mais espaço. Talvez seja em parte reflexo da falta de interesse em assuntos coletivos?
O fato é que 'Menos Luiza' é qualquer coisa. Menos uma idiotice.
* A coisa está tão grave que até aqui nesta coluna Luiza apareceu.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

COVARDES E SELVAGENS


Por Gilberto Dimenstein, da Folha de São Paulo.
Mais uma vítima num bairro nobre de São Paulo de atropelamento provocado, segundo testemunhas, pela combinação de alta velocidade e álcool agora, uma professora da PUC (Maria Angelica Victoria), respeitada no mundo acadêmico. Será que os selvagens vão vencer?
Estou convencido de que, pela primeira vez, está se formando uma consciência sobre o massacre e uma disposição de sair do campo das intenções.
Jovens de classe média fazem mobilizações pelas ruas, motivados pela morte de amigos. A prefeitura de São Paulo iniciou na semana passada uma ofensiva para multar quem desrespeita a faixa de pedestre. A imprensa passou a dar atenção ao assunto.
Meu razoável otimismo está baseado no fato de que, a partir de agora, entre as várias formas de avaliar um prefeito, estará a contabilidade de mortes do trânsito, no geral, e atropelamentos, em particular.
Está em jogo a civilidade de toda uma cidade. Não é apenas selvageria, mas covardia um objeto de uma tonelada, feito de aço, atacar seres humanos desprotegidos.

domingo, 17 de julho de 2011

NORDESTINOS E AS EMPREGADAS DOMÉSTICAS

Por Gilberto Dimenstein, da Folha de São Paulo.
Uma das boas notícias brasileiras é a escassez crescente de empregadas domésticas, muitas vezes tratadas com desrespeito e com poucos direitos. Isso porque atualmente as mulheres têm mais educação e preferem melhores empregos. Fala-se até que, assim como nos países mais desenvolvidos, a empregada doméstica começa a virar no Brasil uma espécie em extinção.
Na cidade em que moro aqui nos Estados Unidos (Cambridge) tenho de pagar R$ 100,00 por duas horas e agendar com antecedência.
Há uma tendência, também muito positiva, por trás da escassez da doméstica no Brasil, mas pouco falada. Por causa do avanço econômico combinado com projetos sociais, menos gente está saindo do Nordeste, reduzindo o fluxo migratório.
Mais gente sai do que entra em São Paulo, por exemplo.
A mudança do fluxo migratório combinada com a redução da taxa de natalidade, crescimento da renda e do nível educacional, vai mostrando extraordinários efeitos.
Melhorar as cidades será cada vez menos difícil.

domingo, 10 de julho de 2011

MENINAS DA NOITE

Meninas que são escravas sexuais.
Por GILBERTO DIMENSTEIN, da Folha de São Paulo.
No começo da década de 90, eu percorri o Brasil, especialmente a Amazônia, documentando a exploração sexual de meninas, transformadas, na prática, em escravas. Esse levantamento resultou numa série de reportagens para a Folha e no livro "Meninas da Noite". Houve uma imensa repercussão tanto fora como dentro do país.
O processo contra empresas de turismo americanas acusadas de turismo sexual na Amazônia, explorando meninas, apenas mostra que, apesar dos avanços, pouco mudou, especialmente em algumas regiões no Norte e no Nordeste.
E pouco mudou porque há um conluio entre empresas de turismo, hotéis, polícia e até as famílias, que, em alguns casos, alugam suas filhas. Ou até vendem, como eu pude documentar e, depois, filmaram.
Grupos de defesa do direito da mulher americanos que estão acompanhando esse caso dizem que o Brasil está atraindo tanta ou mais atenção para o turismo sexual de meninas do que a Tailândia.
Antes, porém, que se imagine que é um problema trazido por turistas estrangeiros, é bom não esquecer que o principal cliente desse comércio trágico é o próprio brasileiro.

quinta-feira, 31 de março de 2011

SERRA NUNCA MAIS

Por Gilberto Dimenstein.
Serra seria uma ofensa a São Paulo.
O governador Geraldo Alckmin lançou o nome de José Serra para a Prefeitura de São Paulo. Serra está jurando que não topa. Faz bem: sua candidatura seria uma ofensa à cidade de São Paulo.
Considero Serra um administrador preparado e, teoricamente, teria todas as condições de ser um bom prefeito sua rápida passagem pela prefeitura ajudou-o a conhecer melhor a cidade.
O problema é que, assim como da vez passada, seu projeto não é local, mas nacional. O que, aliás, não tem nenhum problema, ele tem o direito de sonhar com a presidência. Foi por isso que eu lhe dei aquele texto para assinar, comprometendo-se a não deixar a prefeitura. Deixou, mas aquele papel ficou pelo menos como uma mosca cívica.
Ocorre que São Paulo não pode ser considerada uma, digamos, cidade-tampão, um simples trampolim político.
Temos, na cidade, muitos problemas. Precisamos em São Paulo de um prefeito que queira ser apenas --desculpe-me pelo óbvio-- prefeito de São Paulo.
Ver São Paulo apenas como um trampolim é uma ofensa. Nenhuma empresa séria contrataria como seu principal executivo alguém que a encarasse apenas como um trampolim. A cidade tem muito mais responsabilidades do que uma empresa.

terça-feira, 8 de março de 2011

O RENASCIMENTO DE JOÃO CARLOS MARTINS

Por Gilberto Dimenstein, da Folha de São Paulo.
Não é sempre que se encontra alguém que tenha ido tão alto e tão baixo como João Carlos Martins. De mundialmente renomado pianista, ele se enredou no lamaçal da politica e, para completar, perdeu o movimento das duas mãos. Não foram poucas as vezes que o suicídio lhe pareceu uma alternativa sensata.
Ele se refez como maestro-educador. Montou com dinheiro privado sua orquestra, chamando jovens da periferia. Levou a música erudita para os bairros mais pobres, numa mistura entre a rua e as salas de concerto. Aprendeu que, mesmo sem as mãos, podia se sentir ainda melhor.
Com sua orquestra, ele conseguiu arrancar elogios da crítica quando, no ano passado, tocou em Nova York. Mas isso muita gente consegue. Difícil mesmo fazer o erudito dançar na avenida -isso só um educador consegue.
Paulo Whitaker/Reuters
Pianista e maestro João Carlos Martins, homenageado pela Vai-Vai
Pianista e maestro João Carlos Martins, homenageado pela Vai-Vai.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

QUEM VAI PAGAR ESSA CONTA ?

Por Gilberto Dimestein,

Em nenhum momento, durante o debate domingo, questionaram-se as propostas de José Serra para aumentar o salário mínimo para R$ 600, elevar imediatamente o valor das aposentadorias em 10%, duplicar a Bolsa Família que, aliás, teria um 13º. Gostaria de saber de onde vai sair esse dinheiro?
Espertamente, Dilma Rousseff ficou quieta. Afinal, se atacasse as promessas de Serra poderia cair na armadilha de parecer contra os pobres. De resto, o PT não é exatamente conhecido por fazer cortes em gastos públicos. E não faria isso exatamente num período eleitoral.
Quem está preocupado com as contas públicas --uma minoria, infelizmente-- sabe que uma dos grandes problemas é justamente a previdência, cujo deficit suga dezenas de bilhões dos cofres públicos. Um deficit que vai aumentar ainda mais se houver reajuste do mínimo e aumento do valor das aposentadorias. Nem a CUT teve coragem de propor esse valor.
Até pouco tempo, o PSDB se dizia preocupado com a explosão de gastos e suas consequências para o crescimento econômico.
Pelo jeito o eleitor não quer saber quem vai pagar a conta. A verdade é que, a julgar pelos discursos, inclusive sobre a privatização, PT e PSDB são um mesmo partido.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

ABORTO E PRIVATIZAÇÃO

Gilberto Dimenstein.
Não acredito (e quem acreditar é tolo) nessa pregação de José Serra contra o aborto. É só um jeito de atacar Dilma Rousseff, preferindo colocar a fé acima da saúde pública, num jogo baixo. Ele sabe que seria um mal menor o poder público ajudar as mulheres que necessitam de um aborto.
Ver um intelectual, ex-ministro da Saúde, agindo desse jeito apenas mostra o poder da fé contra a racionalidade. De certa forma, é o que ocorre no debate da privatização, também atiçado pelas eleições, dessa vez pelo PT, por causa das eleições, para atacar o PSDB. É mais uma questão de fé.
Parece que pouco importa o fato de que qualquer pessoa hoje, mesmo as mais humildes, tenham acesso a um telefone. Até pouco tempo, telefone entrava na declaração de imposto de renda. Ou que empresas falidas ou quase falidas se tornaram eficientes, não sugam dinheiro público e pagam impostos. Ou as que já eram tidas como eficientes (Vale) ficaram mais eficientes e pagam muito mais impostos. Pouca adianta mostrar os avanços em termos tecnológicos de empresas como CSN e Embraer.
Estudos de economistas mostram que, de forma geral, essa foi a regra das empresas privatizadas, muitas delas antes cabides de empregos.
Assim com no debate do aborto em que Serra aparece como um pregador cristão, o debate sobre a privatização é tão irracional que o PT resolveu colocar o tema das privatizações para minar o PSDB, sendo que, nos últimos 8 anos, Lula não desfez as privatizações. E mais, privatizou (corretamente) milhares de quilômetros de estadas federais. Ainda bem que Lula não faz o que fala.
É preciso ter muita fé e contrariar todas as evidências para achar que o Estado é bom empresário. Pode ser bom empregador