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segunda-feira, 28 de março de 2011

Um poema de Carlos Drummond de Andrade:

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

ELEGIA A UM TUCANO MORTO

Sobre a ruína política do Zé (cafetão) Serra que se avizinha, catapultada pelas baixarias e mesquinharias desta campanha de 2010, cito aqui o último poema escrito por Carlos Drummond de Andrade, em 31 de janeiro de 1987, que tem o nome de “Elegia a um tucano morto”.
Vejam trecho do poema, que mostra que a visão de mundo deste poeta maior transcende sua época. Parece que foi escrito para estes tempos, em que a esperança venceu o medo e a verdade vencerá a mentira:
“O sacrifício da asa corta o voo no verdor da floresta. Citadino serás e mutilado, caricatura de tucano para a curiosidade de crianças e indiferença de adultos. Sofrerás a agressão de aves vulgares e morto quedarás no chão de formigas e de trapos. Eu te celebro em vão como à festa colorida mas truncada, projeto da natureza interrompido ao azar de peripécias e viagens do Amazonas ao asfalto da feira de animais. Eu te registro, simplesmente, no caderno de frustrações deste mundo pois para isto vieste: para a inutilidade de nascer.”
É preciso drummondiar a vida, sempre.