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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

2011- O QUE NOS ESPERA, OU DESESPERA

A esquerda brasileira deve se preparar para uma luta titânica nos próximos meses e anos vindouros. A calmaria atual, só perturbada pelas conjecturas em torno do novo governo, é só a bonança que antecede a tempestade.
Flávio Aguiar, Carta Maior
Quando José Serra decidiu não enfrentar Lula diretamente na eleição de 2010, ele traçou o destino de sua campanha. Esta só poderia se dar pela desqualificação da candidata da situação, Dilma Roussef. De si mesmo, Serra não podia mostrar muita coisa, pois não queria exibir o anti-Lula que, na verdade, era. Das duas, ambas só poderia, portanto, ou se afirmar esvaziando Dilma, ou preenchendo o perfil desta de coisas negativas.
Esvaziar Dilma, embora tentado, mostrou-se difícil. As insinuações de que ela seria um “poste”, de que seria apenas uma “sombra” do presidente Lula, etc., esbarraram no crescimento pessoal da candidata que foi ganhando, ainda que de forma lenta, gradual, e não muito segura, cada vez mais personalidade e luz própria na disputa.
Restou, portanto, como mais tentador e promissor, o caminho do ataque cada vez mais indiscriminado contra tudo e contra todos que pudessem ajudar Dilma, inclusive, ela própria. Desse caminho pedregoso escolhido por Serra e seu marketing, saíram “achados” como os de acusar Evo Morales de subserviência, senão cumplicidade, com o narcotráfico, e as pesadas pedradas (essas sim não eram bolinhas de papel) do aborto, da corrupção em seu gabinete, etc.
Serra teve ajuda nisso: a mídia sempre-alerta se encarregou de começar a caça a algo no passado de Dilma que lhe sujasse as mãos, de sangue, ou de dinheiro subtraído a bancos, ou de outras fontes, durante a ditadura militar. Isso também não deu em nada. Nem mesmo os papéis revelados pelo Wikileaks, onde antigo embaixador dos EUA levanta suspeitas sobre a participação de Dilma no “planejamento de assaltos a banco” e ao famoso “cofre do Ademar” chegam a levantar qualquer acusação digna de ser levada a sério.
Por outro lado, a “candidata terceira-via”, Marina da Silva, e a CNBB, adotaram a política de maior inspiração em Pôncio Pilatos do que no Cristo, lavando vergonhosamente as mãos diante da enxurrada de acusações e assacações que começaram a se avolumar, uma, na esperança de captar votos que de Dilma emigrassem por questões religiosas, outra no propósito de manter cativo seu rebanho em sua histórica disputa com o Estado secular, coisa que no Brasil remonta ao século XIX.
Foi este conjunto de fatores, com raiz na escolha do candidato Serra quanto ao estilo de sua campanha, que escancarou a porta para a participação cada vez mais intensa da extrema direita na campanha eleitoral, com um espaço que antes era mais restrito. Essa participação se deu em três frentes: a dos viúvos da ditadura, a da Opus Dei concentrada entre bispos da CNBB/São Paulo, e a daqueles que se sentem ameaçados em seus privilégios por verem pobres ou ex-pobres comprando/passeando em shopping-centers ou viajando de avião.
Isso deu à campanha de 2010 o tom odioso, vulgar baixo que ela teve, da direita para a esquerda, não o contrário. Além das filipetas derramadas a partir dos púlpitos religiosos que estavam em conluio com esse verdadeiro pacto demoníaco de extrema-direita, esta descobriu de imediato a internet como veículo de difamação. Enquanto isso, boa parte da nossa esquerda titubeava no partidor, como costuma fazer quanto às comunicações. O que salvou um pouco do espaço foi a comunidade dos que chamo blogueiramente de “os irregulares de Baker Street”, lembrando os jovens de rua que ajudavam o famoso detetive de Conan Doyle em suas investigações.
A questão é que essa direita, desperta de sua letargia, veio para ficar, e vai entrar no espaço político sempre que estiver disposta a desqualificá’-lo, como tentou fazer em 2010. Bom, deve-se reconhecer que, como os adeptos do Tea Party em relação ao Partido Republicano tradicional, eles podem tanto ajudar como atrapalhar seus aliados, por não terem, no fundo, compromisso com eles nem com o seu espaço político. Mas certamente estarão, sempre que puderem, envenenando o espaço político geral com a sanha de seus preconceitos. Com relação a Dilma, estarão naquela palavra de ordem antigamente lançada contra Juscelino: não deve se candidatar; se candidata, etc. até o se empossada, não deve governar.
Assim sendo, a esquerda deve se preparar para uma luta titânica nos próximos meses e anos vindouros. A calmaria atual, só perturbada pelas conjeturas em torno do novo governo, é só a bonança que antecede a tempestade. O arco contra Dilma reuniu uma frente que vai dos liberais do The Economist e do Financial Times, passando pelo Papa e pelos reacionários de Wall Street, até os porões ainda vivos da ditadura.
Souberam mobilizar as frentes comunicativas ao seu dispor, coisa em que a esquerda claudica tradicionalmente. Estão vivos: esse é o perigo que nos aguarda. Mas sabemos que a vida é um combate, etc. Vamos a ele, assim como viemos até aqui.
Às leitoras e aos leitores que nos acompanharam até aqui em 2010, desejamos um Feliz Natal e um Ano Novo recheado do bom combate. Até o ano

domingo, 7 de novembro de 2010

PAULISTÂNIAS III

SÃO PAULO (quantos graus lá fora e quantos graus no asfalto?) – A melhor coisa deste domingo, disparado. E para acompanhar o clique de Bruno Terena, frase do Reginaldo Leme: “A gente deve tudo a esse carro”. De fato.
Acho que o mais emocionante neste fim de semana foi ver o Émerson pilotando esta máquina maravilhosa, tanto nas ruas de SP quanto em Interlagos e lá poderia ter dado mais voltas,seria o máximo. Ele, Émerson, é o máximo e o Brasil deve muito a ele, por tudo que ele representa e por como sempre representou muito bem o Brasil. Tá merecendo um museu contando a história do nosso automobilismo.
Parábens Émerson!

PAULISTÂNIAS


Por Flavio Gomes.
SÃO PAULO (23 graus, 42 no asfalto) - Às vezes dizem que sou meio metido a ombudsman dos outros, que não devo ficar criticando outros veículos de imprensa, que isso é antiético e coisa e tal.
Bom, paciência. É que tem coisas que não dá para ignorar. Nem como consumidor de informação que sou, afinal pago pela assinatura de jornais, de TV, banda larga etc, nem como jornalista, nem como cidadão que fica indignado com algumas barbaridades.
Falo especificamente de matéria publicada hoje na página D11 do caderno de Esporte da “Folha de S.Paulo”. Título: “Garotas de programa estão no grid”. No subtítulo: “Movidas por dinheiro ou chance de fama, elas estão no autódromo, em hotéis e camarotes”. Ilustrando o texto, a foto de uma “grid-girl” que deve ser facilmente identificável. A menina, seus amigos, namorado e parentes certamente sabem quem ela é, apesar de aparecer de perfil.
A reportagem chama todas as meninas que trabalham na F-1 de putas. Não há nada na matéria que sustente a tese. O autor chama todas de putas baseado numa única frase de uma modelo de nome fictício, “Isabela”, que calcula que “60%” das meninas que trabalham em eventos são “piriguetes”.
É inacreditável. Inacreditável que uma asneira dessas seja publicada num jornal, em qualquer um. Inacreditável que ninguém tenha o discernimento para pegar um texto desses, jogar no lixo e passar uma descompostura no autor antes de permitir que seja publicado. Um texto, além de tudo, machista, deselegante, desrespeitoso. “Na semana do GP Brasil (sic), em Interlagos, elas agradam a todos os olhos, desde os mais até os menos famintos”. Putaquepariu. Quem quiser ler a íntegra desse negócio,está aqui.
Se eu fosse uma garota do grid, qualquer uma delas, processaria o jornal. Puta é sua mãe!, eu diria. Se fosse a menina da foto, idem. Se fosse a Braskem, empresa que patrocina as grid-girls, também. Se fosse da organização da corrida, igualmente.
É o único jeito de acabar com essas irresponsabilidades que tomaram conta da imprensa.

sábado, 6 de novembro de 2010

PAULISTÂNIAS

Por Flávio Gomes.
SÃO PAULO (18 graus, 20 no asfalto) – Bem, estando no autódromo, é evidente que não vejo, nem escuto, a transmissão de F-1 da Globo. Mas muitos blogueiros e tuiteiros peceberam e espalharam a notícia de que Galvão Bueno parou com aquela bobagem, que não é iniciativa sua, diga-se desde já, nem de ninguém que coloca a cara para bater na TV, de chamar a Red Bull de RBR, a Toro Rosso de STR e Virgin de VRT.
Eles seguem ordens. Essa sopa de letrinhas é uma questão comercial da emissora, que acha que não pode fazer propaganda de ninguém de graça, mesmo se o nome oficial da equipe for uma marca de um produto qualquer. Que se dane. A Globo simplesmente distorce a realidade ao sabor de seus interesses e princípios. Isso acontece há anos no vôlei e no basquete, por exemplo. Os times batizados por seus patrocinadores/financiadores são chamados pelos nomes de suas cidades. O Rexona vira Rio de Janeiro. A Pirelli vira Santo André. O BCN vira Osasco. É até meio ridículo.
E tem mais. No futebol, os pobres dos cinegrafistas são obrigados a fechar a câmera na cara dos jogadores e técnicos em closes obscenos, para não mostrarem as marcas estampadas nos painéis publicitários que ficam de fundo em entrevistas coletivas. Há até casos, muitos, em que apagam imagens com recursos de computador para que um logotipo não apareça. Lembro de uma exclusiva do Zidane à Globo — pô, o Zidane! — que teve o emblema da adidas na sua camiseta borrado eletronicamente.
Na F-1, a Red Bull nunca foi Red Bull na Globo. O argumento que sempre ouvi: Red Bull não é uma marca ligada a automóveis, como Honda, Toyota, Renault. OK, mas e a Benetton? Fazia carro ou camiseta? Argumento furado, pois. A questão era outra. E a patuscada se estendeu à pobre da Toro Rosso. E, depois, à Virgin. VRT? Putz, de onde tiraram esse T?
Aí, de uma hora para outra, acaba o veto. Ou será que Galvão se distraiu? Será que os repórteres também podem, finalmente, chamar as equipes pelos nomes que elas têm? O que teria levado a Globo a suspender sua farra de siglas para, finalmente, dar nome aos bois? Ou aos touros, no caso…
É claro que a Globo não tem obrigação nenhuma de expor em público suas opções comerciais. Mas, nesse caso, seus milhões de telespectadores merecem uma explicação. Aqueles que desde 2005 escutam na TV que o RBR de um é rápido e que o STR de outro é lerdo, precisam entender por que de um dia para o outro tais equipes desapareceram do mapa global. Uai, o Webber não era da RBR? Agora foi para a Red Bull? Que equipe é essa Toro Rosso? Virgin? Virgem Maria!
Eu tenho cá minhas desconfianças. A Red Bull do Brasil, por exemplo, ameaçou deixar a Stock Car depois da desclassificação de seus dois pilotos numa corrida em Campo Grande. Se sair, será um baque numa categoria que tem a Globo como parceira. A Sky, operadora de TV por assinatura que tem a Globo como uma de suas sócias, está anunciando nos carros de Webber e Vettel em Interlagos. A Red Bull é forte. E é claro que ninguém na empresa dos energéticos gosta de ser chamado de RBR. Ou de STR.
Enfim, o que motivou esse, digamos, “agrado” no GP do Brasil? Vai ser só neste fim de semana?
É, no mínimo, uma curiosidade legítima. Como eu disse, a Globo não precisa dar satisfações a ninguém sobre seus negócios. Mas quando eles interferem naquilo que seus telespectadores veem e ouvem, acho que seria de bom tom, sim.

sábado, 11 de setembro de 2010

ONZE DO NOVE

Eu estava de malas prontas para Monza nove anos atrás quando os dois aviões acertaram o World Trade Center, e mais um foi jogado no Pentágono. Aquele fim de semana na Itália foi dos mais esquisitos. A Ferrari correu sem patrocínios e com os bicos de seus carros pintados de preto. Mais alguns dias e a F-1 baixou em Indianápolis, no primeiro grande evento público depois do 11/9.
Naquela semana, minha coluna de automobilismo nos jornais e no Grande Prêmio, escrita no dia 12, falava de baratas. Não de baratinhas com rodas e pilotos, aquelas que correm e nos encantam. De outras.
PLANETA DAS BARATAS.
Sou um interessado observador de baratas. Elas são nojentas, asquerosas e purulentas, delas chego a ter medo, mas admiro sua agilidade e destemor diante de adversários tão hostis e bem maiores. Dizem que no dia em que o planeta se dizimar de vez numa nuvem radiativa, só vão sobrar as baratas.
Talvez seja melhor. Não há notícias, no mundo das baratas, de semelhantes se trucidarem por nada. Talvez porque elas não tenham nada na cabeça, não sei sequer se têm cabeça. Baratas não se matam. São uma espécie bem-sucedida, como os pernilongos, as lacraias e as mocréias, que vivem em paz sem maiores sobressaltos.
Os animais, quando se matam, o fazem por causas bastante razoáveis. Ou para comer, ou para se defender. Eles não odeiam os outros animais. São indiferentes aos sentimentos das moscas, das pulgas ou dos gnus. Têm seus instintos, suas próprias leis, e vão levando a vida através dos séculos.
O homem, não. É um fracasso como espécie animal. É capaz das maiores façanhas tecnológicas, de ir

sexta-feira, 23 de julho de 2010

FLAVIO GOMES.
Pode ser até que a situação seja revertida, nunca se sabe direito o que acontece atrás das cortinas.
Mas a notícia, neste exato instante, é: Muricy Ramalho foi convidado para ser o técnico da seleção brasileira, disse que tinha de falar com o Fluminense antes, porque tem contrato e precisa dar exemplo para os filhos, e o Fluminense não liberou o treinador.
Cagaram na cabeça da CBF. É um dia histórico para o futebol brasileiro.
Durante a Copa, no meu bloguezinho ludopédico, escrevi que seria quase um sonho se as pessoas de bem do futebol brasileiro dissessem “não” à CBF. E não é que aconteceu?
Muricy, se quisesse, iria. Pediria ao Fluminense para liberá-lo, e o clube faria isso. Ninguém iria crucificá-lo por aceitar um cargo tão importante. Mas em vez de mandar um “não” gigantesco na fuça de Ricardo Teixeira, o técnico deixou a decisão para o clube. O efeito é o mesmo.
Se Muricy não pediu ao Flu, é porque não faz questão nenhuma de se associar a essa entidade que vive de negociar contratos de patrocínio e negligencia o esporte pelo qual deveria zelar.
Teixeira, que se considera uma espécie de imperador do Brasil, chamou Muricy para conversar sem avisar o Fluminense. Um desrespeito a um clube filiado. Se tivesse agido com um mínimo de civilidade e educação, entraria em contato com o Flu, deve ter o telefone, e solicitaria a licença para fazer um convite ao seu treinador.
Claro que não fez isso. Ontem à noite, deu um estalo e decidiu que seria ele, Muricy, com quem provavelmente nunca tinha conversado antes, porque é um presidente que não vai a estádios, não vive o dia a dia do futebol que se pratica aqui. Muricy atendeu ao chamado, porque ao contrário do que muita gente pensa, é educado e civilizado. Ouviu o que tinha de ouvir e fez o que tinha de fazer: foi falar com aqueles que pagam seus salários.
Seria muito legal se o próximo da lista fizesse o mesmo. A esta altura, não importa a motivação. Talvez o próximo diga “não” por saber que é uma segunda opção; talvez porque não queira ter sua reputação arranhada por se associar a uma entidade incompetente e autoritária. É claro que uma hora ou outra alguém vai aceitar o cargo, e também não se deve criticar quem o fizer, porque afinal é uma seleção brasileira, tem Copa aqui em 2014, é um posto importante, creio que muitos técnicos sonham com isso, e o sonho é mais do que legítimo.
Não importa. Mesmo se o seguinte da fila aceitar incondicionalmente, o ato memorável de Muricy e do Fluminense já está consolidado e jamais será apagado. O mico que Ricardo Teixeira está pagando neste instante não tem preço.
Podia aproveitar e sair de fininho.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

ESPAÑA

FLÁVIO GOMEZ
Eu já tinha 25 anos quando consegui juntar um dinheirinho para realizar o sonho de minha breve vida até então, ir para a Europa. Juntamos nossas mochilas e embarcamos num voo da Lan Chile, o mais barato da praça, destino Madri. Seiscentos e sessenta dólares. Não preguei o olho durante a viagem toda, porque queria de qualquer jeito ver a Europa lá de cima assim que o avião entrasse no espaço aéreo do continente ao qual, vá lá, eu, neto de portugueses, bisneto de italianos e alemães, devia minha existência. Vi.
Tudo me pareceu muito marrom claro, ocre, bege, sei lá, o céu azul demais, o sol forte demais quando desembarcamos em Barajas, e aí foi uma sucessão de trens e ônibus até Marselha, outra história, que não vem ao caso, eu achava que na Europa era tudo perto, mas não era bem assim.
E foram horas vendo a paisagem daquele lugar, o Europass liberando todos os vagões e cabines, horas com a testa grudada na janela, os prédios baixos, as varandas com toldos, a cuêca-cuêla, o sanduíche na baguete, os novos sons, sabores e cheiros.
Desde então estive muitas e muitas vezes na Espanha, por causa da Fórmula 1. Jerez, Madri, Barcelona. Durante alguns anos, viajei o mundo todo só de Iberia, e para onde tinha de ir pingava em Barajas para, dali, seguir meu rumo. Barajas, Barajas, Barajas.
Não sei nada de futebol espanhol, nada que qualquer um não saiba. É provável que nunca tenha visto um ...

sábado, 10 de julho de 2010

3 É BOM

FLÁVIO GOMES.
Jogão, não?
Normalmente uma decisão de terceiro e quarto seria encarada com alguma melancolia, afinal é um encontro de perdedores, pela perversa lógica do esporte. Que é perversa, mas é a única que há.
Só que já tem alguns anos me surpreendo com esses jogos de terceiro-e-quarto. A primeira vez foi em 1978. O Brasil estava invicto, ficou fora da final porque o Peru entregou um jogo para a Argentina (não havia mata-mata, ou pelo menos não houve naquela Copa), e pegou a Itália no terceiro-e-quarto. Acho que era a Itália, este blog “Google-free” me impede de buscar informações mais precisas. Mas sim, era a Itália, disso eu lembro.
E o Brasil ganhou, 2 a 0 ou 2 a 1, e lembro bem de um gol do Nelinho, que era lateral-direito do Cruzeiro e um dia chutou uma bola para fora do Mineirão para o “Fantástico”. Um chute incrível, uma curva inacreditável, quase uma Tamburello para o outro lado, e os jogadores brasileiros comemoraram como se fosse o título, Nelinho de braços abertos, sorriso escancarado, terceiro é bom, uai.
Legal, aquilo.
Depois, me lembro também de 2006, quando a Alemanha, jogando em casa, perdeu uma semifinal e foi disputar terceiro-e-quarto com Portugal, e a torcida alemã, que poderia estar puta da vida porque seu time estava fora da decisão, ficou foi orgulhosa da vida com a vitória e o terceiro lugar, foi às ruas, festejou, agradeceu, orgulhou-se.
Creio que será assim quando os germânicos voltarem para casa ostentando a plaquinha P3 (estou meio automobilístico hoje) e medalhas de bronze no peito. Como será assim com os bravos uruguaios. Ouvi no rádio que são esperadas 500 mil pessoas no aeroporto de Carrasco, que tem um terminal novinho que é uma graça. Acho bem difícil, seria uma façanha para um país de 3,5 milhões de almas, mas que sejam 10 mil, ou 50 mil, não importa, eles merecem a melhor das recepções lutaram até o fim, meteram uma bola no travessão no último minuto, foi bonito ver o Uruguai voltando a ser protagonista, entre os grandes.
Terceiro é bom. Não é como ser campeão, mas é melhor do que ser vice, por exemplo. Em algumas pistas, melhor ainda, porque larga do lado limpo. Estou meio automobilístico hoje. E ficar em quarto também está OK, ainda mais para quem havia tanto tempo estava longe de qualquer disputa, não passava de coadjuvante, de escada para o sucesso dos outros.
Alemães e uruguaios podem voltar contentes, não ganhar uma Copa não é o fim do mundo. O jogadores honraram suas camisas, seus companheiros e seus treinadores, e ninguém ficou no pódio combinando balada no celular, como o Ronaldinho Gaúcho fez em Pequim em 2008. Isso ninguém me contou, eu vi. Quer dizer, vi o cara falando ao celular desinteressadamente enquanto argentinos e nigerianos, acho, recebiam ouros e pratas. Não sei se estava combinando balada, isso já é maldade minha. Mas achei meio desrespeitoso.

VAZEM TUDO!

FLÁVIO GOMES
A falta de transparência da Fifa na escolha do logotipo da Copa de 2014 deixou designers brasileiros bem irritados. O iG já contava essa história antes mesmo de a Copa da África do Sul começar — aliás, o iG revelou o logo no final de maio, em furo mundial.
Em linhas gerais, a Fifa chamou dez agências especializadas no país através da ADG, a Associação dos Designers Gráficos do Brasil. Cada uma teria de mandar cinco propostas. E aí a Fifa escolheu uma e não explicou mais nada, e acabou. O que gerou certa desconfiança dos participantes: a escolhida seria de uma agência que já tinha trabalhado ou trabalhava com patrocinadores da Fifa e da CBF.
Batata. Era a África, que tem contas como as da Vivo, Seara, Itaú, Ambev…
Eu achei feio esse logotipo, mas em geral eles são, e por isso não fiquei surpreso. A semelhança com Chico Xavier conectado com o Além, que virou brincadeira de internet, estigmatiza o emblema. E parece mesmo. Além do mais, tem a história do “todo mundo mete a mão” etc.
Nesta era de comunicações verdadeiramente rápidas, qualquer logotipo seria zoado na internet e geraria críticas e elogios. Ocorre que este, até agora, não foi elogiado por ninguém. E, por isso, tenho enorme curiosidade para ver as outras propostas.
Só que a Fifa, quando recebe as propostas, avisa que elas passam a pertencer à ela, Fifa, e não podem ser divulgados. Hum, sei… Bem, este blog acaba amanhã. Se alguém das agências preteridas nos lê e quer vazar alguma coisa discretamente, como sugere minha amiga e tuiteira Dri Salles Gomes, é só mandar para flaviog@warmup.com.br. Coloco aqui na hora.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A COPA DA GLOBO

FLAVIO GOMES
Assisti à toda a cerimônia de lançamento do logotipo oficial da Copa de 2014. Que, aliás, não é novidade para os leitores do iG e, por tabela, deste blog. Antes mesmo de a Copa de 2010 começar o iG furou todo mundo e mostrou como seria o emblema, lembram? Se não lembram, lembrem. Está aqui.
Quem desenhou a bagaça foi a agência África, de Nizan Guanaes. Algumas agências que participaram do concurso ficaram meio putas da vida. Entre outras coisas, porque a comissão julgadora tinha Ivete Sangalo, Gisele Bündchen e Paulo Coelho. Além de Hans Donner.
Hans Donner é o logotipista (existe isso?) da TV Globo. E é apenas a primeira ponta do iceberg global que será essa Copa de 2014.
Anotem: teremos todo tipo de desmando, sacanagem, roubalheira, desvio de grana, absurdo e putaria na montagem dessa Copa. Mas, na Globo, ela será, nos próximos quatro anos, a coisa mais rósea do planeta, nossa afirmação definitiva, teremos os melhores estádios do universo conhecido, será a prova de que o povo brasileiro, com muito orgulho e com muito amor, é capaz de tudo.
A Copa é da Globo. Viram os mestres-de-cerimônia da apresentação na África do Sul? Fernanda Lima e seu namorado cujo nome me escapa (a Mia, aqui da rádio, me diz: Rodrigo Hilbert; o que ele é?, pergunto, e a Mia: bonito, lindo, gato). Ambos são atores da Globo, e são casados.
Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert. Me diz ainda a Mia: são o Casal 20 da Globo. Certo.
Coisa mais brega, puta que pariu.
Aí vem o clipe com as imagens de sempre, carnaval, mulatas, pantanal, Amazônia, espigões de São Paulo, Pão de Açúcar, Corcovado, elevador Lacerda, praias, tutu de feijão, tudo ok, porque é isso que tem mesmo no Brasil, não se deve ter vergonha de nada. O Brasil é bonito e essas coisas são legais.
Mas o narrador era Renato Machado. Da Globo.
Ao final do clipe, a vinhetinha Brasil-sil-sil. Da Globo.
O diretor da cerimônia foi Luiz Gleiser. Da Globo.
Ora, vão todos lamber sabão.
Como eu disse outro dia, quando Ricardo Teixeira deu sua primeira entrevista pós-Copa à Globo nada mais estava fazendo do que devolver à emissora o controle da seleção, uma vez que a CBF é sua parceira comercial. Tiraram uma onda com o Dunga, fizeram ironias e piadinhas, como se Dunga tivesse sido apenas uma brincadeirinha de mau-gosto de Ricardo Teixeira, uma deliciosa molecagem, ah, Ricardinho, seu traquinas, como você é espoleta, faltou Galvão Bueno dizer.
Agora as coisas estão de novo em seu devido lugar. Dunga cairá no ostracismo dos pampas, de onde foi retirado para dirigir a seleção. Tino Marcos voltará a falar, sorridente, sobre convocações e treinamentos. Régis Resling voltará a fazer suas matérias em Teresópolis com patos e gansos como personagens principais. Fátima Bernardes voltará a ter um estúdio dentro do hotel, mas isso é só para 2014. Os convocados voltarão a conversar com o Louro José e participarão do Caldeirão do Huck.
Tirando isso, digamos que a escolha de nossa amostragem cultural nessa apresentação foi das coisas mais pobres. Barbatuques é demais para este velho escriba. E “Mas que Nada” é o maior clichê musical do país na Europa há anos, toca em qualquer rádio chinfrim e nas baladas quando o DJ convida todos a tomarem caipirrinha.
De bom, mesmo, só o divertidíssimo discurso de Lula, dizendo a Beckenbauer, que nem estava lá, que ele foi o melhor jogador que viu jogar, “depois do Pelé e de mim”.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Esse polvo é foda. Paul acertou todos os resultados da Copa até agora. Resultados da Alemanha, que fique bem claro. Livrou-se de virar paella ao escolher a Espanha. É um negócio espantoso. Comentaristas, aprendam com Paul, o Polvo!

E a Espanha, por sua vez, está fazendo a alegria dos comentaristas. Todos colocaram-na como favorita, ao lado da Inglaterra (eliminada nas oitavas), da Itália (na primeira fase), do Brasil (nas quartas), da Argentina (também). Ninguém falava da Alemanha. Da Holanda, só alguns.
Isso não tem importância. Comentaristas são pagos para isso mesmo, comentar, dar palpites, arriscar prognósticos.
Eu só fico na torcida por um ou outro. Torci para a Argentina, mas não me importei com a goleada para a Alemanha, porque achava legal esse time de garotos seguir adiante. Torci pelo Uruguai desde o início da Copa, mas ficamos ontem com uma laranja entalando a garganta.
Essas torcidas são circunstanciais. Gosto da Alemanha, o país. De seus carros, cervejas, cidades e estradas. Por isso torço para a Alemanha. Gosto do Brasil, também, mas não gosto da CBF e de tudo aquilo de que já falei 200 vezes, acho que o técnico era um tosco e nenhum jogador passou pela Portuguesa, então não torci para o Brasil. Simples assim.
A Holanda é legal. É um país legal, interessante, moderno. A Espanha tem seus encantos. Belo país, cidades lindíssimas como Barcelona, Sevilha, Madri. Mas tem algumas coisas na Espanha que me irritam um pouco, como o mau-humor do madrilenho, os resíduos do franquismo, a antipatia dos agentes da imigração em Barajas e os preços do El Corte Inglés.
A gente precisa arrumar algum motivo para torcer para alguém, então ficarei com a Holanda por causa dos preços do El Corte Inglés e, também, porque tenho uma camiseta da Holanda de 74 ou de 78, não sei bem, foi de jogador, do Krol (jogou, um Krol?), um amigo holandês com quem eu trocava cartas em outro século me mandou. Hoje à noite tiro foto e coloco aqui.
Da Espanha, não tenho camiseta nenhuma. Tenho uma garrafa de Tio Pepe, mas é da Andaluzia, e Andaluzia não é bem Espanha.
Tudo isso à parte, claro que foi um jogo de gigantes, esse contra a Alemanha. Jogo de times grandes nem sempre é bom, clássico é clássico e viceversa (caiu o hífen em vice-versa?), qualquer um poderia ir à final, a Alemanha jogou o melhor futebol da Copa, a Espanha tem um time muito bom, grandes talentos, reeditaram a final da Eurocopa etc.
Quer saber? A decisão de terceiro e quarto é o jogo que eu queria ver na final.

DERRUBEM O PRESIDENTE

Ricardo Teixeira é presidente da CBF há 21 anos. Não foi eleito por ninguém a quem devamos alguma consideração. Foi eleito pelos patetas dos presidentes das federações estaduais. São 20 e poucos, que podem ser comprados com jogos de camisas e bolas. É bem fácil ser eleito presidente da CBF quando se tem dinheiro para comprar jogos de camisas e bolas.
Ricardo Teixeira é um mau elemento. Não precisa me processar, presidente. Mau é antônimo de bom, e elemento é apenas um substantivo, como abacaxi ou jarra. Mau porque não é um bom presidente, porque na Copa de 1994 a Receita Federal o pegou no pulo trazendo muamba, não sou eu que acuso, não precisa me processar, presidente. Mau porque escolheu Lazaroni e Dunga, porque foi sacana com Falcão e Leão.
Mau porque preside uma confederação de um esporte, o futebol, e aqui quer realizar uma Copa do Mundo de futebol, e o país cuja confederação ele preside não tem um estádio decente onde se possa jogar futebol. Não precisa me processar, presidente, digo isso baseado no fato de que todos os estádios da Copa de 2014 estão por ser construídos ou reformados.
Em 21 anos como presidente da confederação de futebol, portanto, Ricardo Teixeira não conseguiu que seu esporte tivesse um palco sequer apropriado para a prática do esporte cuja confederação ele preside.
Não se trata, aqui, de tabular resultados. Foram seis Copas das quais o Brasil participou sob sua gestão, ganhou duas, chegou a uma final, em outras três se deu mal. Isso tudo é normal, no esporte ganha-se e perde-se, não importa. Mas foi sob sua gestão que o futebol do interior do Estado de São Paulo morreu, e isso me parece preocupante, foi na sua gestão que a Fonte Nova desabou, foi na sua gestão que o Campeonato Brasileiro virou Copa João Havelange porque os clubes estavam brigando com não sei quem, foi na sua gestão que as torcidas uniformizadas viraram gangues de criminosos, foi na sua gestão que as bandeiras foram proibidas nos estádios paulistas, foi na sua gestão que se viu o maior êxodo da história de jogadores para a Europa, para a Ásia, para o Oriente Médio, foi na sua gestão que desapareceu o futebol do Norte e do Centro-Oeste, foi na sua gestão que pegaram juízes vendendo resultados, foi na sua gestão que os empresários-urubus invadiram os clubes para tomar deles os garotos em começo de carreira.
Assim, sinto-me à vontade para dizer que Ricardo Teixeira é um mau elemento, ou um mau presidente, ou um mau dirigente, como queiram, e sinto-me mais à vontade ainda para não gostar dele e, portanto, de nada do que sai de sua cabeça, porque o futebol brasileiro, resumindo, é uma merda: não tem estádios, os melhores jogadores não ficam aqui, a violência das torcidas é uma mazela, os horários dos jogos são o fim da picada e mais um monte de coisas.
Para mim, está na cara que tudo é culpa do Ricardo Teixeira. É ele o presidente da confederação que cuida do futebol. Se o futebol está uma merda, dou-me o direito de achá-lo um m… um mau elemento que não cuida do futebol.
Ele cuida de contratos. Com a Nike, com a Globo, com o Itaú, com a Brahma, com a Seara, com a TAM, com a Gillette, com a puta que o pariu. Não me interesso por contratos. A CBF virou uma empresa que administra contratos e que tem um produto, a seleção brasileira. Não passa disso. Caga para o futebol. Agora há pouco, aliás, a CBF acabou de devolver o comando da gestão midiática de sua seleção à TV Globo, numa melosa entrevista no canal Sportv, conduzida por Galvão Bueno, Renato Maurício Prado, Paulo César Vasconcelos e Arnaldo César Coelho, que passaram uma hora lambendo Ricardo Teixeira, depositando toda a culpa da má Copa em Dunga (que, se bem me lembro, foi escolhido por Ricardo Teixeira), que só virou vilão na Globo porque não deu privilégios à Globo, a única coisa que prestou em sua gestão.
Por isso, enquanto Ricardo Teixeira for o presidente da CBF, nada vai acontecer. E ele será, enquanto quiser. A não ser que…A não ser que as pesoas de bem que militam no futebol reajam.
É preciso que as pessoas de bem que militam no futebol se manifestem. Assim: Felipão é chamado para a seleção; não aceita, e diz porquê. Leonardo, o do Milan, idem: convoca uma coletiva e diz que não quer, porque não pode servir a alguém como Ricardo Teixeira. Mano Menezes é convocado: responde que não pelo Twitter, para todo mundo saber que não tem a menor intenção de ser funcionário de uma empresa que administra contratos e não liga para futebol.
E jogadores poderiam recusar convocações, e torcedores poderiam se recusar a comprar camisetas amarelas, e as emissoras de TV poderiam se recusar a transmitir os jogos do time da CBF, e aí o Ricardo Teixeira iria à falência, ou entregaria o cargo.
E aí o governo federal poderia baixar uma norma através de seu Ministério de Esportes proibindo qualquer confederação esportiva de ter presidentes que permaneçam no cargo por mais de duas gestões, algo fácil de se fazer, para que o futebol, quem sabe, caia nas mãos de gente boa, honesta, respeitada.
Para que um dia, quem sabe, a CBF possa ser presidida pelo Zico, ou pelo Sócrates, ou pelo Raí, ou pelo Rogério Ceni, ou pelo Marcos, ou pelo Paulo Autuori, ou pelo Mano Menezes, ou pelo Tostão, ou pelo Xico Sá, por gente que vive ou viveu do e no futebol, e não por alguém como Ricardo Teixeira, que só está lá há 21 anos porque era genro de João Havelange, outro elemento que adora o poder eterno, para que a seleção brasileira volte a ser formada por jogadores do Flamengo, do Corinthians, do Palmeiras, do Galo, do Inter, do São Paulo, do Santos, do Fluminense, para que a seleção brasileira use camisetas da Penalty ou da Lupo, jogue no Maracanã, no Morumbi, no Beira-Rio, no Couto Pereira, no Mineirão, e não em Londres, para onde não posso ir com tanta frequência assim.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

PESADELO AMARELO

FLAVIO GOMES - BLOG DA COPA
Sem querer tripudiar sobre o cadáver de ninguém, haverá quem o faça, na verdade há fila, é só pegar a senha, Dunga é uma figura quase épica para o futebol brasileiro. Teve duas eras batizadas com seu nome. Símbolo do mau futebol da Copa de 90, é, agora como técnico, o símbolo da intransigência, da intolerância, da teimosia e… do mau futebol.
Que no fundo é o que importa, personalidade do treinador à parte, a ela voltaremos daqui a pouco. Mau futebol porque seu conceito do jogo de bola é um pouco diferente daquele que leva a um bom futebol. Ele montou um time eficiente, sem dúvida, com números impressionantes, títulos, mas… mau futebol.
Mau futebol porque ele insistiu em formar um batalhão de soldados em vez de um time de futebol. O futebol, no Brasil, não encantava ninguém fazia muito tempo até aparecerem os meninos do Santos no começo deste ano, e eis que a luz se fez, e eis que as trevas seguiram no batalhão comandado pelo sargento.
É uma questão de gosto. Eu gostaria de ver o futebol dos meninos do Santos na África do Sul, esse é o futebol que, afinal, está sendo jogado no meu país.
Mas Dunga tem outras ideias, e tem todo o direito de tê-las. E não levou ninguém. Levou seus cabos e soldados, que lhe foram leais por anos a fio. Ocorre que futebol não é uma guerra e não carece de rechear um time de cabos e soldados armados com espingardas e trabucos. É preferível usar jogadores de futebol, bons, se possível.
O discurso da coerência, da lealdade, do patriotismo, do orgulho de vestir a camisa amarela, tudo isso pode ser muito bonito para consumo externo, e funciona, basta ver os índices de aprovação do técnico até ontem, 69% — amanhã caem a zero. Porque discurso não ganha jogo. É preciso bola. O time do Brasil jogou bola na Copa, de verdade, contra o Chile, uma seleção fraca, e no primeiro tempo contra a Holanda. No segundo tempo, foi engolida por um time melhor. De jogadores bons.
Dunga é um cara sem grande imaginação. Honesto nos princípios, aparentemente, mas limitado na criatividade e no trato com as pessoas. E um time de futebol é, via de regra, um reflexo daquilo que seu técnico pensa e de como age. Quando vi, no segundo tempo, o Dunga esmurrando o banco de reservas, pensei cá com meus botões o que estaria passando pela cabeça dos jogadores, que olham para o técnico atrás de respostas e só percebem cacetadas e descontrole.
Aí o time perdeu a cabeça, o Felipe Melo foi expulso e, claro, será o Roberto Carlos desta Copa. O cara que não abaixou para arrumar as meias, mas rasgou a do adversário. É fácil eleger vilões, no futebol.
Não há, porém. Futebol é um jogo, um jogo de bola encantador, que resume em 90 minutos tudo que uma vida inteira nos oferece, com seus erros e acertos, alegrias e tristezas, esperanças e frustrações.
Um time de jogadores não muito bons, com algumas exceções, dirigido por um técnico sem imaginação e em permanente estado de tensão e belicismo até poderia ir bem longe, porque o futebol brasileiro é forte e o time tinha lá suas qualidades defensivas e sua eficiência no ataque. E numa Copa, às vezes, isso é o suficiente, são apenas sete partidas.
Mas ainda bem que não foi. Seria a vitória da mediocridade. Do sem-graça, do que não nos cativa, do que não nos encanta.
É o fim da segunda era Dunga. Um sujeito que, sinceramente, não me é alvo de admiração. Não admiro quem levanta uma taça de campeão e xinga o mundo à sua volta. Não admiro quem adota como norma de comportamento a afronta, a agressão verbal, a militarização de um esporte. E tampouco admiro as pessoas que nos últimos anos se apossaram do futebol brasileiro através de sua entidade oficial, um balcão de negócios milionários que nada têm a ver comigo, com o futebolzinho que vejo todas as semanas nas arquibancadas duras do meu Canindé sem vuvuzelas, mas com bolinhos de bacalhau e tremoços.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

DUNGUINHA PAZ & AMOR

FLAVIO GOMES
Dunga é um personagem chato, é verdade, mas hoje é a figura mais falada do país. Assim, o que ele diz faz eco. Mesmo que não tenha muita importância ou conteúdo.
Então, para quem não sabe, o técnico brasileiro deu entrevista hoje em Durban. Pediu desculpas “ao torcedor brasileiro” pelo episódio da última entrevista. Disse que o torcedor brasileiro não tem nada a ver com seus problemas pessoais. Entenda-se por “problemas pessoais” a total ojeriza que, sabe-se lá por quê, tem da imprensa. Ele trabalhou de comentarista da Bandeirantes em uma Copa, não trabalhou? Já esteve entre nós.
Bem, que fique com seus problemas pessoais.
Dunga também adotou, certamente de forma involuntária, frase que é atribuída ao presidente Lula e virou slogan informal de seu governo. “Só quero que me deixem trabalhar”, pediu o treineiro. Que se saiba, ninguém o está impedindo.
Continuo achando Dunga um bocó. Que faz bom trabalho como técnico, até surpreendente, porque nunca foi técnico de nada e tem uma concepção do jogo que não é propriamente a mais bela e divertida — que é como deve ser o futebol, belo e divertido, essa coisa de “futebol de resultados” é pobreza de espírito; dá para ter resultados com beleza e diversão. Seu time se classificou fácil para a Copa, ganhou dois títulos, toma poucos gols, faz o que tem de fazer.
Mas é uma figura que nunca despertou grandes emoções, duvido que alguém tenha tido em Dunga seu ídolo como jogador, e a única forma que encontrou para se impor, chamar a atenção, foi a antipatia, essa postura de gaúcho macho dos pampas que faz churrasco no chão, apaga a brasa com cuspe, monta cavalo sem sela e toma chimarrão fervendo sem queimar o céu da boca.
Não é privilégio dos gaúchos esse tipo de comportamento que procura afirmar virilidade. Em São Paulo, por exemplo, expressa-se a macheza comportando-se como “mano” nos postos de gasolina nas noites de sábado; no Rio, adotando a riquíssima postura “funkeira”; no Nordeste, ostenta-se a peixeira que lava a honra, e por aí vai. Dunga se comporta como machão gaúcho apenas porque é gaúcho. Se fosse cearense, comportar-se-ia como machão cearense. Se fosse paulista, enfiaria uma meia-calça na cabeça com buraquinhos para os olhos e sairia dizendo “perdeu preibói, tá ligado?”.
Bocós e machões não escolhem onde nascer. Simplesmente nascem.
Hoje, no entanto, Dunga se esforçou para — e de novo é impossível não mencionar o presidente Lula — mostrar uma face paz & amor. Não deu nenhum coice e pediu desculpas ao torcedor brasileiro. Ainda falou da família, por conta de uma pergunta sobre a saúde de seu pai.
Uma boa edição dessa entrevista, com os trechos em que fala da mãe e do pai, de como lhe ensinaram as coisas da vida, como lhe incutiram valores morais e religiosos etc e tal, transforma Dunga em herói. Brasileiro adora esse discurso fácil. Que, no fundo, é vazio e cheio de lugares comuns. Mas pega.
Só que duvido que a Globo, responsável pela formação do caráter nacional e pelas lágrimas que devemos ou não derramar vá ser muito generosa com Dunguinha Paz & Amor no “Jornal Nacional”. Aposto em algo mais neutro. A esta altura, ter Dunga como redentor de nossas mazelas não é algo que interesse demais à emissora