Indígenas contra Belo Monte, a favor de outro desenvolvimento.
Seminário e protesto em Brasília reúnem movimentos sociais e indígenas da região da Volta Grande do Xingu que se opõem à construção da hidrelétrica de Belo Monte. Manifestantes colocam em questão, não apenas os impactos sócio-ambientais da usina, mas a racionalidade econômica e política do projeto de desenvolvimento que ela encarna.
Texto de Rodrigo Nunes, fotos de Eduardo Seidl.
Quem vê como os indígenas reagem ao cacique Raoni Metuktire percebe estar diante de uma figura que, para uma parcela da população brasileira, tem o porte de um Martin Luther King ou um Nelson Mandela. Quando o líder kayapó entrou no auditório onde se realizava o Seminário “Belo Monte e a questão indígena”, os índios mais jovens se levantaram de seus assentos para, com câmeras fotográficas, filmadoras ou celulares, tentar guardar um pequeno registro digital de sua presença física.
O seminário ocorreu no dia 7 de fevereiro e pôs ao redor da mesa acadêmicos, representantes de ONGs e lideranças indígenas e de movimentos sociais da região da Volta Grande do Xingu para debater o projeto de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. O evento, de iniciativa da Associação Brasileira de Antropologia e a Fundação Darcy Ribeiro, foi organizado em pouquíssimo tempo a fim de criar um espaço para dar resposta à recente concessão, pelo IBAMA, de uma “licença parcial” permitindo o início do desmatamento na área onde serão instalados os canteiros de obra. E logo no seu início, quando foi convidado a juntar-se à mesa, numa fala em kayapó cheia de ênfases e pausas dramáticas, Raoni evidenciou um dos porquês de sua autoridade entre os indígenas: a vivência acumulada em décadas de lutas dos povos indígenas da Amazônia.
Decepção e denúncias.
“Com Juscelino Kubitschek não foi assim. Com Sarney não foi assim”, disse ele, explicitando um ponto ao qual muitos voltariam: o sentimento de traição gerado pela maneira como os governos Lula e Dilma conduziram o processo de Belo Monte até aqui. Se não foi o único a manifestar essa decepção, Raoni também não foi o único a recorrer à genealogia do projeto – de sua concepção inicial pelo regime militar até sua forma atual, passando pela vitoriosa mobilização para pará-lo no final dos anos 80, quando a hidrelétrica se chamaria Kararaô – para indicar tanto as dimensões do problema presente, quanto a esperança de ainda poder detê-lo.
As denúncias em relação ao período desde 2004 – quando o projeto foi ressuscitado, já sob o nome de Belo Monte – são muitas; as queixas, doloridas. Alguns, como a Vice-procuradora Geral da República Deborah Duprat, chamaram atenção para as irregularidades legais do processo. Segundo ela, não existe um Estudo/Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) conforme o regulamento que define tais instrumentos – a Resolução 001 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) –, pois não houve avaliação do impacto do projeto sobre a população humana. Assim sendo, todo o processo de audiências públicas na região, iniciado sem esse material, é irregular e inválido. As irregularidades se acumulam com a concessão da “licença parcial”, figura inexistente na legislação ambiental brasileira.
Outros, como o cacique Ozimar Juruna, falaram de tentativas de aliciamento a comunidades para que passassem a apoiar a construção. “Esse governo tem feito coisas que nem o governo militar fazia: comprando pessoas por um prato de comida”, acusou Antônia Mello, do Movimento Xingu Vivo para Sempre – cujos representantes enfrentaram uma viagem de ônibus de dois dias para vir a Brasília. O cacique Josinei Arara, por outro lado, invocou uma reunião com Lula em que este teria garantido que Belo Monte não seria “empurrado goela abaixo” dos povos do Xingu. “Ele nos deu a palavra e, portanto, nos deve”, anuiu Antônia Mello. Como observou o deputado Domingos Dutra (PT-MA), arrancando muitos aplausos, “esse governo tem de tudo. Tem gente do bem e gente do mal. E se os gritos das ruas não forem mais altos, os gritos das sombras vão levá-lo para o caminho do mal.”
Projetos de desenvolvimento.
Mas lembrar as origens do projeto na política do “Brasil Grande” da ditadura militar também serve como ângulo para pensar o seu significado para o futuro. Como sugerido por muitos dos participantes das mesas, o desenvolvimentismo encarnado em Belo Monte não está distante daquele da “modernização conservadora” dos anos 60 e 70, seja em sua concepção de relação com o ambiente, seja no seu modelo concentrador de renda, seja na lógica em que opera.
Essa lógica foi objeto da apresentação de Andréa Zhouri, do GT de Povos Tradicionais da Associação Brasileira de Antropologia e da Universidade Federal de Minas Gerais, que a caracterizou nos seguintes termos: consideração de impactos humanos e ambientais como “obstáculos” a projetos de “desenvolvimento”; crença na gestão como técnica “neutra” de resolução de conflitos, que são desqualificados sempre que aparecem; e mobilização do discurso de “interesse nacional” contra o que é descrito como interesses “particulares”, ou até mesmos “mesquinhos” – palavra usada, segundo ela, por um funcionário do IBAMA em audiência com povos do Xingu. Isso demonstra uma relação com o ambiente onde este ainda é pensado como possibilidade infinita de uso, aproveitamento e transformação; e, ao mesmo tempo, como natureza intocada, separada do elemento humano. Essa é a concepção por trás do argumento de que mega-projetos hidrelétricos seriam energia “limpa”: isso pode ser verdade se os comparamos a uma matriz como a petrolífera; mas como contabilizar os custos sociais e culturais acarretados pela destruição das áreas ancestrais, das relações e dos meios de subsistência de diversas comunidades?
Mas o problema, salientaram os especialistas, vai além. Em primeiro lugar, Belo Monte não é tão limpa em termos de emissões de gases causadores do aquecimento global – o metano, liberado tanto pelas turbinas quanto pela matéria orgânica em decomposição das áreas alagadas de floresta, tem 25 vezes mais impacto sobre o aquecimento global por tonelada que o gás carbônico, conforme as atuais conversões do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC). Tampouco é tão eficiente, para um investimento dessa envergadura: no período de seca, de julho a outubro, sua produtividade tende a ficar em 10% da alardeada capacidade instalada de 11 mil megawatts – trazendo a média anual a cerca de apenas 40% da capacidade. Tudo isso, ao custo da inundação de 100.000 hectares de floresta, impactos permanentes na bacia hidrográfica do Xingu (não considerados no atual EIA-RIMA) e a remoção de mais de 40 mil pessoas. E a um preço que o próprio setor privado estima poder chegar a 30 bilhões, essencialmente pago com
O seminário ocorreu no dia 7 de fevereiro e pôs ao redor da mesa acadêmicos, representantes de ONGs e lideranças indígenas e de movimentos sociais da região da Volta Grande do Xingu para debater o projeto de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. O evento, de iniciativa da Associação Brasileira de Antropologia e a Fundação Darcy Ribeiro, foi organizado em pouquíssimo tempo a fim de criar um espaço para dar resposta à recente concessão, pelo IBAMA, de uma “licença parcial” permitindo o início do desmatamento na área onde serão instalados os canteiros de obra. E logo no seu início, quando foi convidado a juntar-se à mesa, numa fala em kayapó cheia de ênfases e pausas dramáticas, Raoni evidenciou um dos porquês de sua autoridade entre os indígenas: a vivência acumulada em décadas de lutas dos povos indígenas da Amazônia.
Decepção e denúncias.
“Com Juscelino Kubitschek não foi assim. Com Sarney não foi assim”, disse ele, explicitando um ponto ao qual muitos voltariam: o sentimento de traição gerado pela maneira como os governos Lula e Dilma conduziram o processo de Belo Monte até aqui. Se não foi o único a manifestar essa decepção, Raoni também não foi o único a recorrer à genealogia do projeto – de sua concepção inicial pelo regime militar até sua forma atual, passando pela vitoriosa mobilização para pará-lo no final dos anos 80, quando a hidrelétrica se chamaria Kararaô – para indicar tanto as dimensões do problema presente, quanto a esperança de ainda poder detê-lo.
As denúncias em relação ao período desde 2004 – quando o projeto foi ressuscitado, já sob o nome de Belo Monte – são muitas; as queixas, doloridas. Alguns, como a Vice-procuradora Geral da República Deborah Duprat, chamaram atenção para as irregularidades legais do processo. Segundo ela, não existe um Estudo/Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) conforme o regulamento que define tais instrumentos – a Resolução 001 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) –, pois não houve avaliação do impacto do projeto sobre a população humana. Assim sendo, todo o processo de audiências públicas na região, iniciado sem esse material, é irregular e inválido. As irregularidades se acumulam com a concessão da “licença parcial”, figura inexistente na legislação ambiental brasileira.
Outros, como o cacique Ozimar Juruna, falaram de tentativas de aliciamento a comunidades para que passassem a apoiar a construção. “Esse governo tem feito coisas que nem o governo militar fazia: comprando pessoas por um prato de comida”, acusou Antônia Mello, do Movimento Xingu Vivo para Sempre – cujos representantes enfrentaram uma viagem de ônibus de dois dias para vir a Brasília. O cacique Josinei Arara, por outro lado, invocou uma reunião com Lula em que este teria garantido que Belo Monte não seria “empurrado goela abaixo” dos povos do Xingu. “Ele nos deu a palavra e, portanto, nos deve”, anuiu Antônia Mello. Como observou o deputado Domingos Dutra (PT-MA), arrancando muitos aplausos, “esse governo tem de tudo. Tem gente do bem e gente do mal. E se os gritos das ruas não forem mais altos, os gritos das sombras vão levá-lo para o caminho do mal.”
Projetos de desenvolvimento.
Mas lembrar as origens do projeto na política do “Brasil Grande” da ditadura militar também serve como ângulo para pensar o seu significado para o futuro. Como sugerido por muitos dos participantes das mesas, o desenvolvimentismo encarnado em Belo Monte não está distante daquele da “modernização conservadora” dos anos 60 e 70, seja em sua concepção de relação com o ambiente, seja no seu modelo concentrador de renda, seja na lógica em que opera.
Essa lógica foi objeto da apresentação de Andréa Zhouri, do GT de Povos Tradicionais da Associação Brasileira de Antropologia e da Universidade Federal de Minas Gerais, que a caracterizou nos seguintes termos: consideração de impactos humanos e ambientais como “obstáculos” a projetos de “desenvolvimento”; crença na gestão como técnica “neutra” de resolução de conflitos, que são desqualificados sempre que aparecem; e mobilização do discurso de “interesse nacional” contra o que é descrito como interesses “particulares”, ou até mesmos “mesquinhos” – palavra usada, segundo ela, por um funcionário do IBAMA em audiência com povos do Xingu. Isso demonstra uma relação com o ambiente onde este ainda é pensado como possibilidade infinita de uso, aproveitamento e transformação; e, ao mesmo tempo, como natureza intocada, separada do elemento humano. Essa é a concepção por trás do argumento de que mega-projetos hidrelétricos seriam energia “limpa”: isso pode ser verdade se os comparamos a uma matriz como a petrolífera; mas como contabilizar os custos sociais e culturais acarretados pela destruição das áreas ancestrais, das relações e dos meios de subsistência de diversas comunidades?
Mas o problema, salientaram os especialistas, vai além. Em primeiro lugar, Belo Monte não é tão limpa em termos de emissões de gases causadores do aquecimento global – o metano, liberado tanto pelas turbinas quanto pela matéria orgânica em decomposição das áreas alagadas de floresta, tem 25 vezes mais impacto sobre o aquecimento global por tonelada que o gás carbônico, conforme as atuais conversões do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC). Tampouco é tão eficiente, para um investimento dessa envergadura: no período de seca, de julho a outubro, sua produtividade tende a ficar em 10% da alardeada capacidade instalada de 11 mil megawatts – trazendo a média anual a cerca de apenas 40% da capacidade. Tudo isso, ao custo da inundação de 100.000 hectares de floresta, impactos permanentes na bacia hidrográfica do Xingu (não considerados no atual EIA-RIMA) e a remoção de mais de 40 mil pessoas. E a um preço que o próprio setor privado estima poder chegar a 30 bilhões, essencialmente pago com
