segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Esses caras, de tão acostumados ao golpe, acreditam serem as pessoas ingenuas a ponto de pensarem que as armações que fazem ocorrem por coincidência.
Dizem que o primeiro mandamento do estelionatário para praticar um golpe é acreditar piamente na existencia de boa intenção nele, é um passo adiante no convencimento das vitimas, os trouxas.
Perde às vezes é ganhar.
O Lula não perde a eleição de 1989. Ele ganhou.
Se tivesse sido eleito ali não teria entrado para a História como o homem que enterrou a velha política brasileira na mesma cova em que sepultou a prepotência tucana e a miséria de milhões de brasileiros.
Lula teria dado com os burros n’água, como deu o Collor por outras razões. Talvez nem tivéssemos Democracia eleitoral hoje
O Domingo Espetacular fez reportagem sobre informação contida no livro do Boni – clique aqui para ler sobre o Boni publicitário: Boni ajudou a preparar o Collor para o debate decisivo na vitória do Collor sobre o Lula.
Deu-lhe suor, umas pastas de “denúncias vazias”, entortou-lhe a gravata – só faltou a caspa do Jânio.
Nesse episódio, para defender o patrão, Ali Kamel deu-se ao ridículo papel de dizer que o Boni agiu por conta própria.
A culpa é do Boni e, não, da Globo.
E o Kamel acha que o espectador e o Boni são parvos.
Na reportagem do Afonso Monaco na Record, Ricardo Kotscho, que era assessor de imprensa do Lula na época e, hoje, trabalha com Heródoto Barbeiro na Record News, faz revelação importantíssima.
Na reunião em São Paulo entre as equipes dos candidatos e a TV Bandeirantes, que realizou o debate dois dias antes  da eleição no segundo turno, lá estava o Kotscho.
Quando entram pela sala adentro,  lado a lado, Claudio Humberto, assessor de imprensa do Collor, e Alberico Souza Cruz, diretor de jornalismo da Globo (um pouco menos poderoso do que hoje é o Kamel).
Kotscho demonstra sua perplexidade – com vocês dois juntos, não há quem aguente – e eles explicam: foi uma coincidência tomar o mesmo avião.
Logo depois se soube da natureza da coincidência.
Cruz chegou à Globo no dia seguinte ao debate, no início da tarde.
Roberto Marinho já tinha dado instrução ao editor de política do jornal nacional,  Ronald Carvalho: tudo de bom do Collor e tudo de mau do Lula.
O editor Otavio Tostes estava na “ilha” 7 para iniciar a re-edição do resumo do debate do jornal Hoje, um trabalho isento e profissional de Wianey Pinheiro.
Ronald disse a Tostes: tape o nariz e meta a mao na m…
Pouco depois, chega Cruz de Sao Paulo, onde se realizou o debate fatal.
(Ouvi dizer na Globo, então, que Cruz foi para o Rio no jatinho que servia ao Collor.)
Cruz entra  na ilha 7 e pergunta ao Tostes como está a edição do debate.
Tostes descreve as instruções que recebeu do Ronald (do Dr Roberto, na verdade).
Cruz ordena: além disso e disso, tem que ter mais isso e aquilo.
Tostes se vê diante do dilema de fazer todas aquelas instruções caberem numa reportagem do jornal nacional, que respeitava, normalmente, limites de tempo.
A edição na ilha 7 acaba e Cruz manda levar a fita para a ilha 10, que dispunha de mais recursos de edição.
A essa altura, o prazo para entregar matérias a serem exibidas já se tinha esgotado: a matéria estava ” fora do dead line”, como se dizia na Globo.
Ou seja, corria o risco de não entrar.
Cruz reviu a edição na ilha 10 e mandou subir para exibição – fora do dead line.
(Voluntariamente, Tostes, num raro ato de coragem, se dispôs a contar esse episódio sublime  da Historia da TV brasileira ao Sindicato dos Jornalistas do Rio e, de lá, Oswaldo Maneschy deu acesso ao ansioso blogueiro.)
Este ansioso blogueiro assistiu ao jn de casa.
Finda a patranha, ligou para o Ronald:
O que é que você fez ?
Exagerei para ficar mais chocante, foi a resposta dele (não literal).
Não foi só isso.
Aquela edição do jornal nacional do Cruz, Ronald e Dr Roberto conteve mais.
Uma “pesquisa” por telefone em que o Collor aparecia como o grande vencedor do debate.
Naquela altura, pobre não tinha telefone.
Usava o da quitanda.
E, depois da incompleta “pesquisa”, Alexandre Maluf Garcia entrava para dizer, com aquela voz de Ordem do Dia, que democracia era aquilo mesmo: acreditar na “pesquisa” e exercer o direito de votar (no Collor).
(O entusiasmo de Garcia foi um pouco menos intenso do que demonstrava na TV Manchete para defender a eleição do Maluf contra o Tancredo.)
Portanto, a entrada do Cruz  com o assessor de imprensa do Collor não foi apenas uma coincidência, como disseram ao Kotscho.
Como dizia o Dr Tancredo, em política não há coincidência.
Paulo Henrique Amorim

LUPI NÃO É MAIS MINISTRO

Por Carlos Chagas
Se não recebeu ontem à noite, no palácio da Alvorada, Carlos Lupi receberá  hoje, no palácio do Planalto, o golpe de graça que o afastará do ministério do Trabalho, ouvindo da presidente Dilma a falta de condições políticas para sua permanência. Não deu mais para continuar, com o PDT posto em frangalhos e o governo submetido a um desgaste desnecessário por conta do prolongamento da crise. O fato é Lupi  deixou de ser  ministro, assumindo um interino em seu lugar.
Voltam-se as atenções, agora, para a tão falada e por enquanto tão pouco conhecida reforma do ministério, prevista para janeiro.
No fim de semana, por conta de alguns caciques do PT,  circulou uma lista que seria cômica se não fosse trágica, com sugestões para um troca-troca de cadeiras entre os partidos.   Dilma deve ter-se espantado com tanta desfaçatez,  tirada sabe-se lá de onde. Por essa peça hilariante o  PDT ganharia a Agricultura, o PT passaria para a Educação e o Trabalho, perdendo Ciência  Tecnologia, o PMDB entregaria  o Turismo pelas   Cidades,   o PP e o PR continuariam com outras pastas. E mais um amontoado de bobagens,  no fundo significando  apenas o canibalismo dos partidos sobre a carcaça da  administração federal. Precisamente o câncer a extirpar da Esplanada dos Ministérios. A menos, é claro, que a presidente pretenda governar sem os ministros partidários,  deixando-os fingir que administram suas escrivaninhas, autorizados apenas a nomear oficiais de gabinete e secretárias.  Como essa hipótese parece absurda, aguarda-se com ansiedade a hora em que os melhores serão convocados para a equipe de governo. Serão?
FIM DA AVENTURA
Não deixa dúvidas a  recém-divulgada pesquisa a respeito da divisão do Pará em três porções: não será desta vez que surgirão os estados do Tapajós e de Carajás.  Pelas projeções, 60% dos eleitores  se pronunciarão  contra a proposta.  Nada de mais duas Assembléias Legislativas, dois Tribunais de Contas,  dois Tribunais de Justiça e duas novas capitais. Como o Pará não dispõe de recursos para essa lambança, a conta acabaria chegando a Brasília.
ANO DE UM SÓ SEMESTRE
Deve cuidar-se o governo, porque o ano parlamentar de 2012 terá um só semestre, o primeiro. De julho em diante já se cogita, no Congresso, do estabelecimento do duvidoso esforço concentrado, eufemismo para significar recesso remunerado. A grande maioria dos deputados e senadores estará cuidando das eleições municipais, etapa fundamental para sua reeleição ou vôos mais altos em 2014.  As lideranças oficiais cuidam de preparar uma agenda carregada de  votações necessárias ao governo,  no primeiro semestre.  Outra vez,  tem-se a impressão de que a reforma política ficará para nunca mais, assim como a reforma tributária.
RELAÇÕES EXPLOSIVAS
Não andam nada bem as relações entre o PT e o PMDB, seja por causa da reforma do ministério, seja por conta de projeções feitas para mais tarde. Naufragou a hipótese de um rodízio entre eles para as futuras presidências da Câmara e do Senado.  Parecia acertado que o PMDB ocuparia a primeira e o PT, a outra, ao contrário do que acontece hoje. O problema é que os senadores peemedebistas, amplamente majoritários, nem pensam em entregar o cargo.  Assim,  os companheiros deputados, em razão de possuírem a maior bancada, retrucam na mesma moeda. Tudo dependerá de alianças futuras, é  claro, mas se os dois partidos mantiverem suas atuais presidências, menos mal para eles.
Dieese: mínimo deveria ser R$ 2.349,26
O brasileiro precisaria de um salário mínimo no valor de R$ 2.349,26 em novembro para conseguir arcar com suas despesas básicas, de acordo com dados divulgados pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) nesta segunda (5). A entidade verificou que são necessárias 4,31 vezes o valor do salário mínimo atual para suprir as demandas do trabalhador. O cálculo foi feito com base no mínimo de R$ 545, em vigor. Em outubro, o valor necessário para suprir as necessidades mínimas do trabalhador era de R$ 2.329,94, sendo 4,27 vezes maior que o salário mínimo. O salário mínimo necessário é o que segue o preceito constitucional de atender às necessidades vitais do cidadão e de sua família, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, sendo reajustado periodicamente para preservar o poder de compra
Cúpula da Câmara não quer acabar com o voto secreto
O fim do voto secreto tem chances muito remotas, a julgar pela reação do presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS) Na reunião do colégio de lideres, parlamentares o pressionaram pelo fim do voto secreto. Maia reagiu com uma pergunta que pareceu ameaça: “Vocês sabem que cassação de mandatos é com voto secreto?” Os deputados deram de ombros, e Maia insistiu: “Vale também para eleição de presidente...”
Continua como está
Enquanto Maia desdenhava do voto secreto, Henrique Alves (RN), líder do PMDB e sucessor, fazia cara de paisagem, saboreando rabanada.
Big Brother
Apesar da função inútil, a polícia do Senado vai ganhar circuito interno de TV de última geração. A brincadeira vai nos custar R$ 5,3 milhões.
** Isto é Kassab: na boca do verão, das 22 estações meteorológicas de SP, apenas 9 funcionam; 2011 está no fim e Kassab só utilizou 1/3 dos recursos de emergência para enfrentar as chuvas (informações Folha)
** Saldo neoliberal: desigualdade entre ricos e pobres atinge o maior nível desde 1980 entre os 30 países da OCDE.
** distancia média de rendimento entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres é de 9 vezes.
** atinge 10 vezes na Itália e 14 nos EUA.
** dados de 2008, antes da crise.

AS LÁGRIMAS SINCERAS DA MINISTRA ITALIANA

A cena resume a Europa hoje.
A Ministra do Trabalho da Itália, Elsa Fornero, uma professora universitária do Piemonte, de 63 anos, especialista em seguridade social, não conseguiu conter as lágrimas (veja: http://www.rainews24.rai.it/it/video.php?id=25496 ). Elsa tentava justificar a parte do arrocho de 30 bilhões de euros, anunciado pelo primeiro ministro Mário Monti, que penalizará fortemente  o sistema previdenciário italiano. A idade mínima de aposentadoria foi elevada para 62 anos no caso das mulheres e 66 anos para os homens. Em 2018, a idade única será de 66 anos. Até lá, a antecipação de pedidos de aposentadoria exigirá um mínimo de 41 anos de contribuição para mulheres; 42, no caso dos homens. Pensões acima de 936 euros foram congeladas; aquelas abaixo desse valor serão corrigidas mas apenas parcialmente. Trata-se de um arrocho impiedoso. Que congela e corrói o amparo social na curva final da vida, justamente quando mais se necessita dele; uma ruptura com valores e laços compartilhados que formavam as bases do Estado do Bem-Estar Social pelo qual muitos dos que agora estão sendo descartados lutaram --talvez Elsa junto com eles. Na cena asséptica e pastosa da solenidade montada  para vestir de austeridade virtuosa aquilo que é uma expropriação de renda em benefício dos rentistas, ela destoou. As lágrimas sinceras da professora feita ministra impediram-na de concluir o raciocínio justificatório para a palavra 'sacrifício'. Elsa precisou interromper a explicação do pacote, substituída então por Monti, o tecnocrata elegante, mas ao contrário dela um bloco granítico e calculista a serviço dos mercados, explicitamente reconhecido como um interventor deles no Estado italiano. A emoção de Elsa roubou a cena daquilo que era para ser um elogio à racionalidade fria dos ajustes ortodoxos em curso na UE. O conjunto evidencia a tensão gerada pelo desmonte do Estado do Bem-Estar Social em nome de uma União Européia cuja sobrevivência ou derrocada será decidida esta semana, na reunião de cúpula de Bruxelas, 6ª feira.  (Carta Maior; 2ª feira; 05/12/ 2011)

domingo, 4 de dezembro de 2011

DOTÔ SÓCRATES . . .

O Calcanhar de Sócrates.
Hoje morreu um homem, e para gregos e troianos, palmeirenses e corintianos, o Doutor Socrates, o Magrão.
Hoje morreu o médico e jogador de futebol.
A morte o levou e arrasta o seu corpo dando voltas e voltas ao redor de nossa fortaleza de presunção e auto suficiência.
Somos imortais.
Assim como o corpo de Heitor, príncipe entre os troianos e seu filho mais amado e admirado, foi levado arrastado pelas mão invulneráveis e frias de Aquiles, o maior dentre os gregos, ao redor e diante das muralhas de Troia.
Hoje morre um brasileiro e seu nome grego.
Quem conheceu suas jogadas de calcanhar que podiam dar passes de 20 metros, sabe que o Dotô Socrates tinha um outro calcanhar, um calcanhar de aquiles, a bebida.
Ele em sua presunção de inocência, negava.
É irônico que um atleta de elite do futebol brasileiro e um médico tenha apresentado problemas de saúde! A vida estudantil e de atletas de futebol que driblam tantas condições adversas entre o samba e a bebida, podem explicar.
Mas, se o mal não é o que entra mas o que sai da boca do homem, façamos com nossas bocas uma homenagem.
Hoje haja paz entre gregos e troianos.
Amém.

PENSANDO BEM . . .

DOIS PONTO: eu era uma subversivazinha medíocre”.  A mentira começa aqui.
Um relato verdadeiro jamais começaria dessa forma, ninguém fala de si mesmo dessa forma, esse é o discurso de alguém falando de outro. Poderia começar com “eu era ingênua, romântica, boba, burra, ignorante”… Mas nunca nestes termos.
Ou é o relato de alguém que ficou confinado, foi torturado e submetido a lavagem cerebral bem sucedida.

BRASIL, MOSTRA TUA CARA!

Dilma, apesar da tortura, mostra-se serena.
Essa serenidade só é possível para aqueles que possuem ideais e acreditam neles.
Já os “escondidos”, demonstram aquilo que são.
Talvez daí, a vergonha de mostrar a cara. Souberam fazer, mas tem medo de assumir.
Bem coisa de calhorda.
BRASIL, MOSTRA TUA CARA!
Sobre a “guerrilheira”, leitora de Ustra, penso que foi “aliciada”, mas não pela causa, mas por causa… Deve ter sido presa para fazer “companhia” a outras presas.
Para tirar serviço.
Alguém conhece o termo “infiltrada”?
Por último, quanto será que essa guerrilheira de araque ganhou para escrever isso?
MIRIAM MACEDO, QUAL É TEU NEGÓCIO, O NOME DO TEU SÓCIO, CONFIA EM MIM… e antes que me esqueça, essa boneca de ventríloquo foi colocada nos lugares certos, nas horas certas, em ambas as situações.
Nesse post existem 3 situações, mas apenas um ser humano.
DILMA VANA ROUSSEF.

VERDADE OU MENTIRA !!?

A ditadura envergonhada.


Por Eduardo Guimrães, do Blog da Cidadania.
Causou comoção a foto de uma Dilma Rousseff ainda jovem sendo inquirida por militares publicada pela revista Época que chegou as bancas neste fim de semana. O olhar altivo daquela menina de 22 anos, após três semanas de sevícias na prisão, e os militares escondendo os rostos simbolizam perfeitamente aquele período de trevas.
A imagem traduz a história. Hoje, passadas quatro décadas, Dilma continua olhando altivamente para os militares. Dilma venceu.
E o que é mais: sua vitória já se pronunciava naquela foto. Sua altivez representa a de toda uma geração de heróis que, pondo a própria vida de lado, não hesitou em se atirar em uma luta épica para libertar a nação do jugo de um bando de dementes que após meio século continuam mantendo mentiras que, mais do que defesa contra o braço longo da lei, constituem um anteparo à vergonha que a verdade lhes traz, o que os leva a tentarem sufocá-la ad aeternum.
Foi-me interessante deparar com essa foto na manhã de sábado porque pouco antes recebera mensagem de leitora contendo link para texto que constitui mais uma das incontáveis farsas que esbirros dos déspotas da ditadura militar fazem diuturnamente na tentativa de reescrever a história.
Faz tempo que o texto que recebi circula na internet. Contém suposta “confissão” de uma suposta jornalista sobre sua suposta atuação como “guerrilheira” durante a ditadura. A mulher (?) criou um blog no meio do ano passado, no auge de uma campanha eleitoral que estava sendo vencida por alguém que atuou como “guerrilheira” naquele período.
Na verdade, entendi o texto mais como uma ficção escrita para simbolizar o que na verdade teria se passado com uma mulher que estava prestes a se tornar presidente da República.
A suposta autora do texto que reproduzo a seguir se diz Miriam Macedo e o texto que supostamente escreveu – e que foi publicado pela maioria dos sites e blogs de extrema-direita – intitula-se “A verdade: eu menti”.
—–
A verdade: eu menti.
Eu, de minha parte, vou dar uma contribuição à Comissão da Verdade, e contar tudo: eu era uma subversivazinha medíocre e, tão logo fui aliciada, já caí (jargão entre militantes para quem foi preso), com as mãos cheias de material comprometedor.
Despreparada e festiva, eu não tivera nem o cuidado de esconder os exemplares  d’A Classe Operária, o jornal da organização clandestina a que eu pertencia (a AP-ML, ala vermelha maoísta do PC do B, a mesma que fazia a Guerrilha do Araguaia, no Pará).
Os jornais estavam enfiados no meio dos meus livros numa estante, daquelas improvisadas, de tijolos e tábuas, que existiam em todas as repúblicas de estudantes, em Brasília naquele ano de 1973.
Já relatei o que eu fazia como militante*. Quase nada. A minha verdadeira ação revolucionária foi outra, esta sim, competente, profícua, sistemática: MENTI DESCARADAMENTE DURANTE QUASE 40 ANOS!* (O primeiro texto fala em 30 anos. Eu fui fazer as contas, são quase 40 anos, desde que comecei a mentir sobre os ‘maus tratos’. Façam as contas, fui presa em 20 de junho de 73. Em 2013, terão se passado 40 anos.)
Repeti e escrevi a mentira de que eu tinha tomado choques elétricos (por pudor, limitei-me a dizer que foram poucos, é verdade), que me deram socos e empurrões, interrogaram-me com luzes fortes, que me ameaçaram de estupro quando voltava à noite dos interrogatórios no DOI-CODI para o PIC e que eu passava noites ouvindo “gritos assombrosos” de outros presos sendo torturados (aconteceu uma única vez, por pouquíssimos segundos: ouvi gritos e alguém me disse que era minha irmã sendo torturada. Os gritos cessaram – achei, depois, que fosse gravação – e minha irmã, que também tinha sido presa, não teve um único fio de cabelo tocado).
Eu também menti dizendo que meus algozes, diversas vezes, se divertiam jogando-me escada abaixo, e, quando eu achava que ia rolar pelos degraus, alguém me amparava (inventei um ‘trauma de escadas”, imagina). A verdade: certa vez, ao descer as escadas até a garagem no subsolo do Ministério do Exército, na Esplanada dos Ministérios, onde éramos interrogados, alguém me desequilibrou e outro me segurou, antes que eu caísse.
Quanto aos ’socos e empurrões’ de que eu dizia ter sido alvo durante os dias de prisão, não houve violência que chegasse a machucar; nada mais que um gesto irritado de qualquer dos inquisidores; afinal, eu os levava à loucura, com meu enrolation. Eu sou rápida no raciocínio, sei manipular as palavras, domino a arte de florear o discurso. Um deles repetia sempre: “Você é muito inteligente. Já contou o pré-primário. Agora, senta e escreve o resto”.
Quem, durante todos estes anos, tenha me ouvido relatar aqueles 10 dias em que estive presa, tinha o dever de carimbar a minha testa com a marca de “vítima da repressão”. A impressão, pelo relato, é de que aquilo deve ter sido um calvário tão doloroso que valeria uma nota preta hoje, os beneficiados com as indenizações da Comissão da Anistia sabem do que eu estou falando. Havia, sim, ameaças, gritos, interrogatórios intermináveis e, principalmente, muito medo (meu, claro).
Torturada?! Eu?! Ma va! As palmadas que dei em meus filhos podem ser consideradas ‘tortura inumana’ se comparadas ao que (não) sofri nas mãos dos agentes do DOI-CODI.
Que teve gente que padeceu, é claro que teve.  Mas alguém acha que todos nós que saíamos da cadeia contando que tínhamos sido ‘barbaramente torturados’ falávamos a verdade?
Não, não é verdade. A maioria destas ‘barbaridades e torturas’ era pura mentira! Por Deus, nós sabemos disto! Ninguém apresentava a marca de um beliscão no corpo. Éramos ‘barbaramente torturados’ e ninguém tinha uma única mancha roxa para mostrar! Sei, técnica de torturadores. Não, técnica de ‘torturado’, ou seja, mentira. Mário Lago, comunista até a morte, ensinava: “quando sair da cadeia, diga que foi torturado. Sempre.”
Na verdade, a pior coisa que podia nos acontecer naqueles “anos de chumbo” era não ser preso(sic). Como assim todo mundo ia preso e nós não? Ser preso dava currículo, demonstrava que éramos da pesada, revolucionários perigosos, ameaça ao regime, comunistas de verdade! Sair dizendo que tínhamos apanhado, então! Mártires, heróis, cabras bons.
Vaidade e mau-caratismo puros, só isto. Nós saíamos com a aura de hérois e a ditadura com a marca da violência e arbítrio. Era mentira? Era, mas, para um revolucionário comunista, a verdade é um conceito burguês, Lênin já tinha nos ensinado o que fazer.
E o que era melhor: dizer que tínhamos sido torturados escondia as patifarias e ‘amarelões’ que nos acometiam quando ficávamos cara a cara com os “ômi”. Com esta raia miúda que nós éramos, não precisava bater. Era só ameaçar, a gente abria o bico rapidinho.
Quando um dia, durante um interrogatório, perguntaram-me  se eu queria conhecer a ‘marieta’, pensei que fosse uma torturadora braba. Mas era choque elétrico (parece que ‘marieta’ era uma corruptela de ‘maritaca’, nome que se dava à maquininha usada para dar choque elétrico). Eu não a quis conhecer. Abri o bico, de novo.
Relembrar estes fatos está sendo frutífero. Criei coragem e comecei a ler um livro que tenho desde 2009 (é mais um que eu ainda não tinha lido): “A Verdade Sufocada – A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça”, escrito pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Editora Ser, publicado em 2007. Serão quase 600 páginas de ‘verdade sufocada”? Vou conferir.
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Pode parecer incrível que alguém renegue a tortura e os assassinatos generalizados que ocorreram então, nos anos mais duros de uma ditadura que tardou duas décadas inteiras para acabar, mas o fato é que absurdos como esses são ditos reiteradamente na grande imprensa e até na televisão, no rádio etc.
As centenas de mortos e desaparecidos, os sobreviventes dos centros de tortura que carregam até hoje no próprio corpo as marcas das sevícias, as matérias jornalísticas, os livros e até as provas fotográficas da selvageria burra dos militares como a foto do jornalista Wladimir Herzog em cena de “suicídio” no DOI-CODI que uma criança de dez anos poderia concluir facilmente ser uma farsa, o texto supra reproduzido desmente.

Aí se entende não só a motivação obstinada para se instalar uma Comissão da Verdade também no Brasil, a exemplo do que já foi feito em países como Chile ou Argentina, que experimentaram processos ditatoriais análogos ao que este país viveu, mas, também, entende-se a crença de muitos no sentido de que, apesar das queixas quanto às condições que a Comissão terá para apurar fatos, é uma vitória que ela ao menos tenha sido constituída.
A Comissão da Verdade pretende sepultar para sempre barbaridades como esse texto mitômano que tive o desprazer de reproduzir, barbaridades feitas sob medida para livrarem do opróbrio eterno os esbirros da ditadura que, com sua impunidade e mentiras, continuam conspurcando e torturando a nação até hoje.
Essas tentativas incessantes de esconder a verdade que continuam mobilizando os que praticaram os crimes que a Comissão da Verdade pretende apurar permitem refletir que a ditadura que emanou do Golpe de 1964 não deve ser inscrita na história apenas como selvagem, mas como uma ditadura envergonhada dos crimes que cometeu.

ATLETIBA. . .

RUMO A SÉRIE "B"

QUEM VIVER, VERÁ. . .